O narcisista sente falta da vítima? O que diz a clínica sobre o vínculo narcisista

Foto de Dr. Anderson Contaifer

Dr. Anderson Contaifer

Médico especialista em Clínica Médica (CRM-SC 24.484 | RQE de clínica médica 18.790), com formação pela EMESCAM (Escola de ciências Médicas da Santa Casa de Misericórida de Vitória - ES) e titulação em clínica médica pela SBCM (Sociedade Brasileira de Clínica Médica). Atua na recuperação médica e emocional de vítimas de abuso narcisista, produzindo conteúdos educativos nas redes sociais. Criador do Programa Quebrando as Algemas, curso para recuperação do abuso narcisista. Possui mais de 200 mil seguidores em redes sociais, criador do Blog Quebrando as Algemas que oferece conteúdo baseado em evidências científicas sobre narcisismo patológico, gaslighting, trauma bonding e TEPT-C. Possui Certificado de Excelência Doctoralia 2025.

Deixe seu comentário abaixo! Sua experiência pode ajudar outras pessoas que estão passando pela mesma situação.

“O narcisista sente falta da vítima?” é a pergunta errada — e responder a ela do jeito intuitivo costuma manter a vítima presa ao ciclo. A clínica e a literatura sobre narcisismo patológico (Baskin-Sommers et al., 2014; Pincus & Lukowitsky, 2010; Day et al., 2025) mostram que o narcisista pode contatar a ex-parceira por necessidade funcional do outro como regulador de auto-estima — não por saudade no sentido relacional. Este texto explica o que está acontecendo do lado clínico do narcisista, e por que a aparente saudade é, em geral, busca de suprimento.

Pergunta clínica Resposta médica baseada em evidência
O narcisista sente saudade? Sente falta da função que você cumpria — não da pessoa em sentido empático afetivo (Baskin-Sommers et al., 2014).
Ele tem empatia? Empatia cognitiva preservada (sabe o que você sente); empatia afetiva comprometida (não se move por isso).
Por que ele volta? Para regular auto-estima frágil e restaurar suprimento narcísico (Pincus & Lukowitsky, 2010; Weinberg & Ronningstam, 2022).
Quando isso acontece mais? Em momentos de solidão e perda de outras fontes de validação (Kealy et al., 2022).

1. A pergunta errada — saudade não é o conceito clínico aqui

Em consulta, ouço a pergunta de pessoas que estão tentando interpretar uma mensagem inesperada do ex-parceiro: “Doutor, será que ele realmente sente minha falta?”. A resposta médica honesta exige separar dois conceitos diferentes que a linguagem popular mistura:

  • Saudade afetiva — vínculo emocional pelo outro como pessoa única, com tristeza por sua ausência e desejo de bem-estar dela mesmo na separação.
  • Falta funcional — necessidade do papel que o outro cumpria (validação, atenção, cuidado, presença admiradora), independentemente da identidade dessa pessoa.

Em narcisismo patológico, a literatura indica que o que predomina é falta funcional, não saudade afetiva. Isso não é uma opinião — é o resultado consistente de décadas de pesquisa sobre déficits empáticos e regulação do self no NPD.

2. Suprimento narcísico: o conceito que organiza a clínica

O termo suprimento narcísico (narcissistic supply) descreve a admiração, atenção e validação externas que pessoas com narcisismo patológico precisam para regular uma auto-estima estruturalmente frágil. Pincus e Lukowitsky (2010), em revisão clássica, definem essa busca como mecanismo central do funcionamento narcísico patológico.

O artigo fundacional de Cain, Pincus e Ansell (2008) consolidou a distinção entre narcisismo grandioso (busca explícita de admiração) e vulnerável (busca camuflada por hipersensibilidade e queixa). Em ambos, a função relacional do parceiro é a mesma: fornecer regulação para um self que não se sustenta sozinho.

Weinberg e Ronningstam (2022) sintetizam o estado-da-arte do tratamento de NPD e reforçam que a fragilidade da auto-estima é o eixo organizador. A “falta” sentida pelo narcisista quando perde uma vítima é da função regulatória — não da pessoa.

“The core of pathological narcissism is a fragile and unstable underlying self-esteem.”
— Gori & Topino (2025), citado em Day et al. (2025)

3. Empatia no narcisismo: cognitiva preservada, afetiva comprometida

A literatura empírica é clara: o déficit empático no NPD é seletivo, não global. Baskin-Sommers, Krusemark e Ronningstam (2014), em revisão sobre empatia em NPD, mostraram que:

  • Empatia cognitiva (theory of mind — saber o que o outro pensa e sente) está geralmente preservada. O narcisista sabe exatamente o que você está sentindo. É essa capacidade que sustenta a manipulação eficaz.
  • Empatia afetiva (sentir-se afetado pela emoção do outro) está significativamente comprometida. Saber que você está sofrendo não move o narcisista a parar o comportamento que causa o sofrimento.

Hepper, Hart e Sedikides (2014) demonstraram experimentalmente que narcisistas conseguem demonstrar empatia quando explicitamente instruídos. Isso confirma que o déficit não é de capacidade — é de motivação. Quando há ganho funcional, a empatia performada aparece. Esse é o cenário típico do hoovering: o narcisista escreve a mensagem perfeita porque sabe ler você — e usa esse conhecimento estrategicamente.

di Giacomo, Andreini e Lorusso (2023) chamaram esse fenômeno de “lado escuro” da empatia em NPD: a empatia cognitiva instrumentalizada para manipulação. A vítima pode confundir essa performance com saudade, afeto ou mudança genuína. É justamente porque parece tão real que é tão eficaz.

4. Apego inseguro como base do retorno (não amor)

O comportamento de aproximação do narcisista após um período de afastamento se assemelha superficialmente a apego — mas a literatura mostra que é apego inseguro patológico, não vínculo seguro.

Saladino et al. (2024) demonstraram que narcisismo vulnerável associa-se a estilos de apego inseguros e desregulação emocional, com mediação por suporte social percebido. Em outras palavras: quando o narcisista está sem suporte, ele aciona padrões de apego ambivalente — busca contato, mas pelo motivo errado.

A meta-análise multinível de Zhang, Zhang e Wang (2024) consolidou a associação entre insegurança de apego e narcisismo patológico em 49 estudos. O padrão relacional é instabilidade dependente — não amor seguro nem indiferença total. É isso que confunde a vítima: o narcisista parece investir, mas o investimento é regulatório, não afetivo.

5. Quando o narcisista está sozinho: a solidão amplifica a busca

Estudo importante de Kealy, Woolgar, Hewitt e Cox (2022) mostrou que solidão amplifica significativamente o sofrimento psíquico associado ao narcisismo patológico. Quando sozinho, o narcisista experimenta sofrimento agudo — e busca contato com ex-vítimas para amortecê-lo.

Por isso o hoovering frequentemente acontece em momentos previsíveis:

  • Após o término de um relacionamento subsequente.
  • Em datas comemorativas (aniversários, fim de ano).
  • Após eventos profissionais negativos (demissão, falência, fracasso público).
  • Após perda de outras fontes de admiração (afastamento de amigos, queda em redes sociais).
  • Em períodos de isolamento prolongado.

O retorno parece carinho, mas é regulação. Ronningstam (2017) descreve essa dinâmica como “interseção entre auto-estima e regulação emocional” — o narcisista não consegue regular afeto sozinho e recorre a relacionamentos passados como mecanismo externo.

6. O que o narcisista “sente” quando fala de você

Reconstruindo do ponto de vista clínico do narcisista (com base em estudos de Day et al., 2020-2025; Krizan & Herlache, 2017; Ronningstam, 2017):

Quando manda mensagem de “saudade”

Está experimentando vazio interno (estado vulnerável do espectro). Você representa fonte conhecida de validação. A mensagem é tentativa de reativar o suprimento, não declaração de afeto duradouro.

Quando lembra “datas especiais”

O calendário emocional do narcisista é marcado por momentos em que recebia validação. Aniversário de casamento, viagens significativas — esses marcos remetem a períodos de “pico de suprimento”, não a memórias afetivas no sentido relacional.

Quando pede “uma última conversa”

O fechamento que ele oferece é narcisista, não relacional: precisa contar a versão dos fatos em que ele aparece bem, ou retomar controle sobre como você o vê. Não é processo de luto compartilhado.

Quando aparece carinhoso após escalada de raiva

É o ciclo descrito por Krizan e Johar (2015): raiva narcísica → tentativa de restaurar dominância → reaproximação carinhosa. A oscilação está no espectro do próprio narcisismo, não no vínculo com você.

7. Por que parece tão real (sua perspectiva)

A questão não é se o narcisista sente algo — talvez sinta, em registro próprio. A questão é o que você sente recebendo a mensagem dele. Três fatores explicam por que a aparente saudade soa tão verdadeira:

Reforço intermitente

Recompensas imprevisíveis ativam o sistema dopaminérgico mais intensamente que recompensas previsíveis. A mensagem inesperada do ex ativa o mesmo circuito que sustenta dependência. Você não está louca — sua química está respondendo a um padrão validado em estudos de neurociência comportamental.

Investimento prévio

Você dedicou anos lendo o outro, ajustando-se, decifrando padrões. Essa atenção investida cria viés interpretativo: você atribui ao outro complexidade emocional que talvez não exista no registro patológico.

Empatia projetada

Você é capaz de empatia afetiva. Quando lê uma mensagem dele, você imagina o que você sentiria escrevendo aquilo — e atribui o mesmo conteúdo ao outro. Essa projeção é normal em pessoas com empatia preservada. É também a razão pela qual elas reentram no ciclo.

8. Como não cair na falsa saudade

  • Lê a mensagem uma vez. Não responde. A primeira regra do no-contact aplicada ao hoovering disfarçado de saudade.
  • Pergunta-se: o que ele está sem agora? Outra parceira? Trabalho? Família? Identifique a função que ele está tentando recolocar.
  • Reescreve a história sem o filtro do amor. Liste por escrito 10 episódios concretos de manipulação, gaslighting ou abuso. Releia quando a “saudade” dele soar verdadeira.
  • Identifique o gatilho em você. Por que essa mensagem chegou bem hoje? O que estava ruim na sua vida quando bateu? O hoovering frequentemente coincide com momentos em que você está vulnerável — não é coincidência, é cálculo (consciente ou não).
  • Trate seus sintomas. Sintomas de TEPT-C aumentam reatividade ao hoovering. Quanto mais regulada você estiver, menos a mensagem dele afeta você. Veja aqui o protocolo médico de TEPT-C.

9. Quando procurar avaliação médica

Procure médico ou psicólogo se:

  • Você não consegue parar de pensar em mensagens recebidas, mesmo após dias.
  • Você se sente fisicamente afetada (taquicardia, falta de ar, insônia) por contato esporádico do ex.
  • Você desenvolveu padrões compulsivos (checar o celular dele, redes sociais, perfil).
  • Você considera retomar o relacionamento mesmo sabendo do padrão.
  • Você está com sintomas de depressão, ansiedade ou trauma persistentes.

Em consulta médica é possível avaliar o quadro clínico (TEPT-C, depressão, ansiedade, transtornos do sono), iniciar tratamento estruturado e construir plano de retomada de vida. Entenda quando procurar médico e o protocolo de recuperação em 4 etapas.

10. Perguntas frequentes

Mas ele chorou pedindo perdão. Foi tudo encenação?

Não necessariamente “encenação” no sentido consciente. O narcisista pode sentir genuinamente — mas a emoção é sobre ele, não sobre você. O choro pode ser por perda da função regulatória que você representava, não pela percepção do dano causado a você.

Como sei que ele não mudou?

Mudança em narcisismo patológico é rara, lenta e supervisionada por equipe especializada. Ronningstam (2017) descreve os pré-requisitos: tratamento estruturado por anos, reconhecimento sustentado de padrões, mudança comportamental observável em múltiplos contextos. Discurso de mudança em mensagens não é critério clínico.

Posso tentar conversar uma única vez para entender?

Não. A “última conversa” é uma das formas mais comuns de hoovering. O fechamento que você procura é interno e terapêutico, não relacional.

E se ele realmente sentir falta?

Ainda assim, você não é responsável pela regulação emocional dele. Sua função não é amortecer o sofrimento de quem te machucou. Tratamento dele é com profissional especializado, não com a vítima.

Por que continuo querendo que ele sinta minha falta?

Porque a fantasia da “saudade dele” oferece sentido retrospectivo ao sofrimento (“se ele sente minha falta, então o relacionamento foi real”). Esse desejo é compreensível — e é também alvo de tratamento. Trabalhar essa fantasia é parte do processo terapêutico de luto pós-relacionamento abusivo.

Referências científicas

  1. Baskin-Sommers, A., Krusemark, E., & Ronningstam, E. (2014). Empathy in narcissistic personality disorder. Personality Disorders, 5, 323–333. https://doi.org/10.1037/per0000061
  2. Hepper, E. G., Hart, C. M., & Sedikides, C. (2014). Moving Narcissus: Can narcissists be empathic? Personality and Social Psychology Bulletin, 40(9), 1079–1091. https://doi.org/10.1177/0146167214535812
  3. di Giacomo, E., Andreini, E., & Lorusso, O. (2023). The dark side of empathy in narcissistic personality disorder. Frontiers in Psychiatry, 14, 1074558. https://doi.org/10.3389/fpsyt.2023.1074558
  4. Cain, N. M., Pincus, A. L., & Ansell, E. B. (2008). Narcissism at the crossroads. Clinical Psychology Review, 28, 638–656. https://doi.org/10.1016/j.cpr.2007.09.006
  5. Pincus, A. L., & Lukowitsky, M. R. (2010). Pathological narcissism and narcissistic personality disorder. Annual Review of Clinical Psychology, 6, 421–446. https://doi.org/10.1146/annurev.clinpsy.121208.131215
  6. Weinberg, I., & Ronningstam, E. (2022). Narcissistic personality disorder: Progress in understanding and treatment. Focus, 20(4), 368–377. https://doi.org/10.1176/appi.focus.20220052
  7. Ronningstam, E. (2017). Intersect between self-esteem and emotion regulation in NPD. Borderline Personality Disorder and Emotion Dysregulation, 4, 3. https://doi.org/10.1186/s40479-017-0054-8
  8. Saladino, V., et al. (2024). Attachment styles, vulnerable narcissism, emotion dysregulation. Social Sciences, 13, 231. https://doi.org/10.3390/socsci13050231
  9. Zhang, Y., Zhang, J., & Wang, Y. (2024). Attachment insecurity and pathological narcissism: A three-level meta-analysis. Journal of Family Theory & Review, 16, 953–977. https://doi.org/10.1111/jftr.12593
  10. Kealy, D., Woolgar, S., Hewitt, J. M. A., & Cox, D. W. (2022). When narcissism gets lonely. Current Psychology, 42, 17110–17119. https://doi.org/10.1007/s12144-022-02976-5
  11. Krizan, Z., & Herlache, A. D. (2017). The Narcissism Spectrum Model. Personality and Social Psychology Review, 22(1), 3–31. https://doi.org/10.1177/1088868316685018
  12. Krizan, Z., & Johar, O. (2015). Narcissistic rage revisited. Journal of Personality and Social Psychology, 108(5), 784–801. https://doi.org/10.1037/pspp0000013
  13. Day, N. J. S., et al. (2025). Coercive control and intimate partner violence. Personality and Mental Health, 19, e70038. https://doi.org/10.1002/pmh.70038

Leia também

MATERIAL EDUCATIVO GRATUITO

Ebook: 7 Sinais de que Você Vive com um Narcisista

Guia organizado a partir da literatura médica sobre personalidades narcisistas e seus impactos em relacionamentos. PDF enviado no seu e-mail.

Receber o ebook grátis →

Precisa de apoio médico?

Se você se identifica com o que foi descrito neste artigo, a teleconsulta com o Dr. Anderson Contaifer oferece avaliação clínica e plano de cuidados para pessoas expostas a abuso narcisista. Médico, especialista em Clínica Médica (CRM-SC 24.484, RQE 18.790).

Dr. Anderson Contaifer - Médico Especialista em Clínica Médica

Dr. Anderson Contaifer

Médico Especialista em Clínica Médica
CRM-SC 24484 • RQE de Clínica Médica 18790

Criador do blog Quebrando as Algemas, dedicado a oferecer informação médica de qualidade sobre narcisismo e os impactos do abuso emocional com o olhar da especialidade clínica médica. Atendimento exclusivo por telemedicina.

Sobre o autor

Dr. Anderson Contaifer de Carvalho é médico especialista em Clínica Médica (CRM-SC 24.484 | RQE 18.790), formado pela EMESCAM em 2012, com título de especialista em clínica médica pela SBCM em 2019. Possui pós-graduação em Saúde da Família, Nutrologia e Medicina Intensiva, além de certificações ACLS e ATLS. É o criador do Quebrando as Algemas, programa dedicado à recuperação de vítimas de abuso narcisista, um dos poucos médicos com CRM ativo atuando neste nicho no Brasil. Certificado Excelência Doctoralia 2025.

Quer entender o abuso narcisista em profundidade?

O curso Quebrando as Algemas oferece um método médico estruturado para quem quer compreender os mecanismos do abuso narcisista e dar os primeiros passos no entendimento deste tema complexo e auxiliar na recuperação da autoestima.

12x de R$ 36,19 ou R$ 349,90 à vista

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Mais leituras

Receba em primeira mão meus conteúdos, direto no seu e-mail