“O narcisista sente falta da vítima?” é a pergunta errada — e responder a ela do jeito intuitivo costuma manter a vítima presa ao ciclo. A clínica e a literatura sobre narcisismo patológico (Baskin-Sommers et al., 2014; Pincus & Lukowitsky, 2010; Day et al., 2025) mostram que o narcisista pode contatar a ex-parceira por necessidade funcional do outro como regulador de auto-estima — não por saudade no sentido relacional. Este texto explica o que está acontecendo do lado clínico do narcisista, e por que a aparente saudade é, em geral, busca de suprimento.
| Pergunta clínica | Resposta médica baseada em evidência |
|---|---|
| O narcisista sente saudade? | Sente falta da função que você cumpria — não da pessoa em sentido empático afetivo (Baskin-Sommers et al., 2014). |
| Ele tem empatia? | Empatia cognitiva preservada (sabe o que você sente); empatia afetiva comprometida (não se move por isso). |
| Por que ele volta? | Para regular auto-estima frágil e restaurar suprimento narcísico (Pincus & Lukowitsky, 2010; Weinberg & Ronningstam, 2022). |
| Quando isso acontece mais? | Em momentos de solidão e perda de outras fontes de validação (Kealy et al., 2022). |
1. A pergunta errada — saudade não é o conceito clínico aqui
Em consulta, ouço a pergunta de pessoas que estão tentando interpretar uma mensagem inesperada do ex-parceiro: “Doutor, será que ele realmente sente minha falta?”. A resposta médica honesta exige separar dois conceitos diferentes que a linguagem popular mistura:
- Saudade afetiva — vínculo emocional pelo outro como pessoa única, com tristeza por sua ausência e desejo de bem-estar dela mesmo na separação.
- Falta funcional — necessidade do papel que o outro cumpria (validação, atenção, cuidado, presença admiradora), independentemente da identidade dessa pessoa.
Em narcisismo patológico, a literatura indica que o que predomina é falta funcional, não saudade afetiva. Isso não é uma opinião — é o resultado consistente de décadas de pesquisa sobre déficits empáticos e regulação do self no NPD.
2. Suprimento narcísico: o conceito que organiza a clínica
O termo suprimento narcísico (narcissistic supply) descreve a admiração, atenção e validação externas que pessoas com narcisismo patológico precisam para regular uma auto-estima estruturalmente frágil. Pincus e Lukowitsky (2010), em revisão clássica, definem essa busca como mecanismo central do funcionamento narcísico patológico.
O artigo fundacional de Cain, Pincus e Ansell (2008) consolidou a distinção entre narcisismo grandioso (busca explícita de admiração) e vulnerável (busca camuflada por hipersensibilidade e queixa). Em ambos, a função relacional do parceiro é a mesma: fornecer regulação para um self que não se sustenta sozinho.
Weinberg e Ronningstam (2022) sintetizam o estado-da-arte do tratamento de NPD e reforçam que a fragilidade da auto-estima é o eixo organizador. A “falta” sentida pelo narcisista quando perde uma vítima é da função regulatória — não da pessoa.
“The core of pathological narcissism is a fragile and unstable underlying self-esteem.”
— Gori & Topino (2025), citado em Day et al. (2025)
3. Empatia no narcisismo: cognitiva preservada, afetiva comprometida
A literatura empírica é clara: o déficit empático no NPD é seletivo, não global. Baskin-Sommers, Krusemark e Ronningstam (2014), em revisão sobre empatia em NPD, mostraram que:
- Empatia cognitiva (theory of mind — saber o que o outro pensa e sente) está geralmente preservada. O narcisista sabe exatamente o que você está sentindo. É essa capacidade que sustenta a manipulação eficaz.
- Empatia afetiva (sentir-se afetado pela emoção do outro) está significativamente comprometida. Saber que você está sofrendo não move o narcisista a parar o comportamento que causa o sofrimento.
Hepper, Hart e Sedikides (2014) demonstraram experimentalmente que narcisistas conseguem demonstrar empatia quando explicitamente instruídos. Isso confirma que o déficit não é de capacidade — é de motivação. Quando há ganho funcional, a empatia performada aparece. Esse é o cenário típico do hoovering: o narcisista escreve a mensagem perfeita porque sabe ler você — e usa esse conhecimento estrategicamente.
di Giacomo, Andreini e Lorusso (2023) chamaram esse fenômeno de “lado escuro” da empatia em NPD: a empatia cognitiva instrumentalizada para manipulação. A vítima pode confundir essa performance com saudade, afeto ou mudança genuína. É justamente porque parece tão real que é tão eficaz.
4. Apego inseguro como base do retorno (não amor)
O comportamento de aproximação do narcisista após um período de afastamento se assemelha superficialmente a apego — mas a literatura mostra que é apego inseguro patológico, não vínculo seguro.
Saladino et al. (2024) demonstraram que narcisismo vulnerável associa-se a estilos de apego inseguros e desregulação emocional, com mediação por suporte social percebido. Em outras palavras: quando o narcisista está sem suporte, ele aciona padrões de apego ambivalente — busca contato, mas pelo motivo errado.
A meta-análise multinível de Zhang, Zhang e Wang (2024) consolidou a associação entre insegurança de apego e narcisismo patológico em 49 estudos. O padrão relacional é instabilidade dependente — não amor seguro nem indiferença total. É isso que confunde a vítima: o narcisista parece investir, mas o investimento é regulatório, não afetivo.
5. Quando o narcisista está sozinho: a solidão amplifica a busca
Estudo importante de Kealy, Woolgar, Hewitt e Cox (2022) mostrou que solidão amplifica significativamente o sofrimento psíquico associado ao narcisismo patológico. Quando sozinho, o narcisista experimenta sofrimento agudo — e busca contato com ex-vítimas para amortecê-lo.
Por isso o hoovering frequentemente acontece em momentos previsíveis:
- Após o término de um relacionamento subsequente.
- Em datas comemorativas (aniversários, fim de ano).
- Após eventos profissionais negativos (demissão, falência, fracasso público).
- Após perda de outras fontes de admiração (afastamento de amigos, queda em redes sociais).
- Em períodos de isolamento prolongado.
O retorno parece carinho, mas é regulação. Ronningstam (2017) descreve essa dinâmica como “interseção entre auto-estima e regulação emocional” — o narcisista não consegue regular afeto sozinho e recorre a relacionamentos passados como mecanismo externo.
6. O que o narcisista “sente” quando fala de você
Reconstruindo do ponto de vista clínico do narcisista (com base em estudos de Day et al., 2020-2025; Krizan & Herlache, 2017; Ronningstam, 2017):
Quando manda mensagem de “saudade”
Está experimentando vazio interno (estado vulnerável do espectro). Você representa fonte conhecida de validação. A mensagem é tentativa de reativar o suprimento, não declaração de afeto duradouro.
Quando lembra “datas especiais”
O calendário emocional do narcisista é marcado por momentos em que recebia validação. Aniversário de casamento, viagens significativas — esses marcos remetem a períodos de “pico de suprimento”, não a memórias afetivas no sentido relacional.
Quando pede “uma última conversa”
O fechamento que ele oferece é narcisista, não relacional: precisa contar a versão dos fatos em que ele aparece bem, ou retomar controle sobre como você o vê. Não é processo de luto compartilhado.
Quando aparece carinhoso após escalada de raiva
É o ciclo descrito por Krizan e Johar (2015): raiva narcísica → tentativa de restaurar dominância → reaproximação carinhosa. A oscilação está no espectro do próprio narcisismo, não no vínculo com você.
7. Por que parece tão real (sua perspectiva)
A questão não é se o narcisista sente algo — talvez sinta, em registro próprio. A questão é o que você sente recebendo a mensagem dele. Três fatores explicam por que a aparente saudade soa tão verdadeira:
Reforço intermitente
Recompensas imprevisíveis ativam o sistema dopaminérgico mais intensamente que recompensas previsíveis. A mensagem inesperada do ex ativa o mesmo circuito que sustenta dependência. Você não está louca — sua química está respondendo a um padrão validado em estudos de neurociência comportamental.
Investimento prévio
Você dedicou anos lendo o outro, ajustando-se, decifrando padrões. Essa atenção investida cria viés interpretativo: você atribui ao outro complexidade emocional que talvez não exista no registro patológico.
Empatia projetada
Você é capaz de empatia afetiva. Quando lê uma mensagem dele, você imagina o que você sentiria escrevendo aquilo — e atribui o mesmo conteúdo ao outro. Essa projeção é normal em pessoas com empatia preservada. É também a razão pela qual elas reentram no ciclo.
8. Como não cair na falsa saudade
- Lê a mensagem uma vez. Não responde. A primeira regra do no-contact aplicada ao hoovering disfarçado de saudade.
- Pergunta-se: o que ele está sem agora? Outra parceira? Trabalho? Família? Identifique a função que ele está tentando recolocar.
- Reescreve a história sem o filtro do amor. Liste por escrito 10 episódios concretos de manipulação, gaslighting ou abuso. Releia quando a “saudade” dele soar verdadeira.
- Identifique o gatilho em você. Por que essa mensagem chegou bem hoje? O que estava ruim na sua vida quando bateu? O hoovering frequentemente coincide com momentos em que você está vulnerável — não é coincidência, é cálculo (consciente ou não).
- Trate seus sintomas. Sintomas de TEPT-C aumentam reatividade ao hoovering. Quanto mais regulada você estiver, menos a mensagem dele afeta você. Veja aqui o protocolo médico de TEPT-C.
9. Quando procurar avaliação médica
Procure médico ou psicólogo se:
- Você não consegue parar de pensar em mensagens recebidas, mesmo após dias.
- Você se sente fisicamente afetada (taquicardia, falta de ar, insônia) por contato esporádico do ex.
- Você desenvolveu padrões compulsivos (checar o celular dele, redes sociais, perfil).
- Você considera retomar o relacionamento mesmo sabendo do padrão.
- Você está com sintomas de depressão, ansiedade ou trauma persistentes.
Em consulta médica é possível avaliar o quadro clínico (TEPT-C, depressão, ansiedade, transtornos do sono), iniciar tratamento estruturado e construir plano de retomada de vida. Entenda quando procurar médico e o protocolo de recuperação em 4 etapas.
10. Perguntas frequentes
Mas ele chorou pedindo perdão. Foi tudo encenação?
Não necessariamente “encenação” no sentido consciente. O narcisista pode sentir genuinamente — mas a emoção é sobre ele, não sobre você. O choro pode ser por perda da função regulatória que você representava, não pela percepção do dano causado a você.
Como sei que ele não mudou?
Mudança em narcisismo patológico é rara, lenta e supervisionada por equipe especializada. Ronningstam (2017) descreve os pré-requisitos: tratamento estruturado por anos, reconhecimento sustentado de padrões, mudança comportamental observável em múltiplos contextos. Discurso de mudança em mensagens não é critério clínico.
Posso tentar conversar uma única vez para entender?
Não. A “última conversa” é uma das formas mais comuns de hoovering. O fechamento que você procura é interno e terapêutico, não relacional.
E se ele realmente sentir falta?
Ainda assim, você não é responsável pela regulação emocional dele. Sua função não é amortecer o sofrimento de quem te machucou. Tratamento dele é com profissional especializado, não com a vítima.
Por que continuo querendo que ele sinta minha falta?
Porque a fantasia da “saudade dele” oferece sentido retrospectivo ao sofrimento (“se ele sente minha falta, então o relacionamento foi real”). Esse desejo é compreensível — e é também alvo de tratamento. Trabalhar essa fantasia é parte do processo terapêutico de luto pós-relacionamento abusivo.
Referências científicas
- Baskin-Sommers, A., Krusemark, E., & Ronningstam, E. (2014). Empathy in narcissistic personality disorder. Personality Disorders, 5, 323–333. https://doi.org/10.1037/per0000061
- Hepper, E. G., Hart, C. M., & Sedikides, C. (2014). Moving Narcissus: Can narcissists be empathic? Personality and Social Psychology Bulletin, 40(9), 1079–1091. https://doi.org/10.1177/0146167214535812
- di Giacomo, E., Andreini, E., & Lorusso, O. (2023). The dark side of empathy in narcissistic personality disorder. Frontiers in Psychiatry, 14, 1074558. https://doi.org/10.3389/fpsyt.2023.1074558
- Cain, N. M., Pincus, A. L., & Ansell, E. B. (2008). Narcissism at the crossroads. Clinical Psychology Review, 28, 638–656. https://doi.org/10.1016/j.cpr.2007.09.006
- Pincus, A. L., & Lukowitsky, M. R. (2010). Pathological narcissism and narcissistic personality disorder. Annual Review of Clinical Psychology, 6, 421–446. https://doi.org/10.1146/annurev.clinpsy.121208.131215
- Weinberg, I., & Ronningstam, E. (2022). Narcissistic personality disorder: Progress in understanding and treatment. Focus, 20(4), 368–377. https://doi.org/10.1176/appi.focus.20220052
- Ronningstam, E. (2017). Intersect between self-esteem and emotion regulation in NPD. Borderline Personality Disorder and Emotion Dysregulation, 4, 3. https://doi.org/10.1186/s40479-017-0054-8
- Saladino, V., et al. (2024). Attachment styles, vulnerable narcissism, emotion dysregulation. Social Sciences, 13, 231. https://doi.org/10.3390/socsci13050231
- Zhang, Y., Zhang, J., & Wang, Y. (2024). Attachment insecurity and pathological narcissism: A three-level meta-analysis. Journal of Family Theory & Review, 16, 953–977. https://doi.org/10.1111/jftr.12593
- Kealy, D., Woolgar, S., Hewitt, J. M. A., & Cox, D. W. (2022). When narcissism gets lonely. Current Psychology, 42, 17110–17119. https://doi.org/10.1007/s12144-022-02976-5
- Krizan, Z., & Herlache, A. D. (2017). The Narcissism Spectrum Model. Personality and Social Psychology Review, 22(1), 3–31. https://doi.org/10.1177/1088868316685018
- Krizan, Z., & Johar, O. (2015). Narcissistic rage revisited. Journal of Personality and Social Psychology, 108(5), 784–801. https://doi.org/10.1037/pspp0000013
- Day, N. J. S., et al. (2025). Coercive control and intimate partner violence. Personality and Mental Health, 19, e70038. https://doi.org/10.1002/pmh.70038
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