Definição rápida
Atendimento médico
As repercussões do abuso narcisista no corpo (insônia, taquicardia, fadiga, alterações de sono e peso) têm avaliação e acompanhamento médico.
Dr. Anderson Contaifer · Médico Especialista em Clínica Médica · CRM-SC 24.484 · RQE 18.790 · Teleconsulta (qualquer lugar do Brasil e do mundo)
As repercussões do abuso narcisista no corpo (insônia, taquicardia, fadiga, alterações de peso e sono) têm avaliação e acompanhamento médico. O Dr. Anderson Contaifer, médico, especialista em Clínica Médica (CRM-SC 24.484, RQE 18.790), atende por teleconsulta para todo o Brasil. Cada consulta é uma avaliação clínica individual.
Ainda não quer marcar consulta? Você também pode conhecer o curso Quebrando as Algemas, material educativo para quem está se recuperando de um relacionamento abusivo.
Projeção narcisista é o mecanismo de defesa em que a pessoa atribui a você, de forma repetida e acusatória, exatamente os defeitos, intenções e comportamentos que ela mesma tem e não consegue admitir. Na prática, o parceiro que trai acusa você de traição, quem mente vive dizendo que você é falsa, quem explode diz que você é descontrolada. O padrão importa mais do que o episódio isolado: quando quase toda acusação funciona como um espelho invertido do comportamento de quem acusa, e você vive na defensiva tentando provar inocência, há um forte sinal de abuso psicológico em curso.
O que é projeção: do divã de Freud ao laboratório
A projeção é um dos mecanismos de defesa mais antigos descritos pela psicologia. A ideia central é simples: quando um traço ou desejo próprio é intolerável demais para a consciência, a mente o expulsa e o enxerga fora, em outra pessoa. Por muito tempo esse conceito viveu apenas na teoria psicanalítica, e parte da pesquisa experimental das décadas de 1960 e 1970 chegou a questionar se a projeção defensiva existia de fato fora do consultório [5].
Esse cenário mudou. Uma linha de estudos publicada no Journal of Personality and Social Psychology demonstrou o mecanismo em laboratório: quando alguém se esforça para suprimir o pensamento sobre um defeito que teme ter, esse conteúdo se torna cronicamente acessível na mente, e a pessoa passa a enxergar justamente esse defeito nos outros com muito mais frequência [1]. Em outras palavras, o esforço para não se ver produz um radar involuntário que aponta o próprio defeito para fora. Revisões posteriores confirmaram que, entre os mecanismos de defesa clássicos, a projeção é um dos que têm melhor sustentação empírica moderna [2].
Há ainda um segundo achado importante: projetar funciona, no curto prazo, como analgésico psicológico. Experimentos mostraram que atribuir a outra pessoa um traço temido reduz a tensão interna de quem projeta e diminui o acesso consciente àquele conteúdo ameaçador [4]. Isso ajuda a explicar por que o padrão se repete tanto: cada acusação injusta alivia quem acusa. A psicologia do desenvolvimento também situa a projeção entre as defesas imaturas, típicas de estruturas de personalidade que não toleram falhas na própria imagem [3]. É exatamente esse o terreno do narcisismo patológico.
Como a projeção aparece na relação com uma pessoa narcisista
No transtorno de personalidade narcisista e nos traços narcisistas acentuados, a autoimagem grandiosa precisa ser protegida a qualquer custo. Admitir mentira, traição, inveja ou fracasso rachariam essa imagem. A saída mais barata é a projeção: o erro nunca é dele, é sempre seu. Estudos qualitativos com parceiros e familiares de pessoas com narcisismo patológico descrevem esse cotidiano com precisão: diante de qualquer ferida na autoimagem, a resposta típica é raiva e transferência imediata de culpa para quem está mais perto [8]. Familiares relatam viver sob acusações, controle e uma culpa que nunca é do outro [9].
Na prática clínica, as vítimas costumam trazer exemplos muito parecidos entre si. O parceiro que apaga conversas e some por horas é o mesmo que vasculha seu celular acusando você de traição. A pessoa que distorce cada história é a que repete que você inventa coisas. Quem gasta escondido acusa você de descontrole financeiro. Quem humilha diz que você é agressiva. A legenda do carrossel que acompanha este artigo resume bem o fenômeno: muitas vezes, as acusações funcionam como confissões veladas.
Vale um cuidado importante: nem toda acusação injusta é projeção narcisista, e nem toda pessoa que projeta tem um transtorno de personalidade. Todos nós projetamos de vez em quando, em algum grau. O que caracteriza o padrão abusivo é a combinação de frequência, rigidez e função: as acusações são repetidas, imunes a evidência em contrário e servem sempre para inverter a posição de quem errou. Se você quer entender o quadro completo em que essa peça se encaixa, o guia sobre abuso narcisista descreve as 4 fases da dinâmica e os demais sinais.
| Acusação repetida que você ouve | O que costuma estar acontecendo nos bastidores | Sinal de alerta associado |
|---|---|---|
| “Você está me traindo” | Infidelidade ou flerte escondido de quem acusa | Ciúme investigativo sem motivo, celular do outro blindado |
| “Você é mentirosa” | Histórias que mudam de versão, omissões constantes | Você começa a gravar conversas para provar o que foi dito |
| “Você só pensa em você” | Decisões unilaterais, necessidades suas sempre adiadas | Você não lembra a última vez que uma escolha foi sua |
| “Você é louca, descontrolada” | Explosões de raiva do próprio acusador, provocações em privado | Suas reações de dor viram prova contra você |
| “Você me manipula” | Chantagem emocional, punição por silêncio, ameaças veladas | Você pede desculpas sem saber exatamente pelo quê |
Projeção, gaslighting e DARVO: três engrenagens da mesma máquina
A projeção raramente trabalha sozinha. Ela costuma vir montada com outras duas táticas que os leitores deste blog já conhecem. A primeira é o gaslighting, a distorção sistemática da sua percepção da realidade. A segunda é o DARVO, sigla em inglês para negar, atacar e inverter vítima e agressor, descrita pela pesquisadora Jennifer Freyd e colaboradores. Quando a vítima confronta o agressor com um fato real, a resposta típica segue o roteiro: negação do ocorrido, ataque à credibilidade de quem confronta e inversão completa dos papéis, com o agressor se apresentando como a verdadeira vítima [6].
A projeção é o motor psicológico dessa inversão. É ela que fornece o conteúdo do contra-ataque: os defeitos que o agressor não admite em si viram a acusação lançada contra você. E o efeito não é pequeno. Nos estudos sobre DARVO, quanto mais intensa a exposição da vítima a esse padrão de resposta, maior a autoculpabilização dela depois do confronto [6]. Pior: quando outras pessoas assistem a uma resposta DARVO bem executada, tendem a julgar a vítima como menos crível e o agressor como menos responsável. Conhecer o padrão, por outro lado, reduz esse efeito de forma mensurável [7]. Informação, aqui, é literalmente proteção.
A tabela abaixo ajuda a separar as três engrenagens, porque cada uma pede uma resposta diferente.
| Tática | O que é | Frase típica | Efeito principal na vítima |
|---|---|---|---|
| Projeção | Atribuir ao outro os próprios defeitos e intenções inaceitáveis [1] | “Quem trai aqui é você” | Defensiva constante, necessidade de provar inocência |
| Gaslighting | Negar e distorcer fatos para minar a percepção da realidade | “Isso nunca aconteceu, você imagina coisas” | Dúvida sobre a própria memória e sanidade |
| DARVO | Negar, atacar e inverter os papéis de vítima e agressor após um confronto [6] | “Depois de tudo que você me faz, ainda me acusa?” | Autoculpabilização e descrédito diante de terceiros [6,7] |
Por que você vive na defensiva (e por que isso desgasta tanto)
Quem nunca viveu esse tipo de relação costuma subestimar o custo de ser acusada o tempo todo. O mecanismo é traiçoeiro porque cada acusação, por mais absurda que seja, ativa em você uma resposta natural de justificativa. Você explica, mostra mensagens, reconstitui horários, chama testemunhas. Só que o objetivo da acusação nunca foi apurar a verdade: era transferir um incômodo interno de quem acusa para você. Por isso nenhuma prova encerra a discussão. A meta se move, o tribunal nunca dá sentença, e na semana seguinte o julgamento recomeça do zero.
Com o tempo, essa dinâmica produz três efeitos bem documentados. Primeiro, a inversão do ônus da prova vira hábito mental: você passa a se auditar preventivamente, ensaiando defesas para acusações que ainda nem vieram. Segundo, a autoculpabilização cresce, no mesmo padrão medido nos estudos sobre DARVO: quanto mais exposta ao roteiro de negação e ataque, mais a vítima acredita que o problema é ela [6]. Terceiro, a autoestima desaba. E autoestima baixa não é um detalhe estético da vida emocional: uma meta-análise de estudos longitudinais mostrou que ela prediz o desenvolvimento posterior de depressão e ansiedade [12].
Há ainda o efeito social, que costuma doer tanto quanto o efeito íntimo. A projeção bem executada funciona diante da plateia: parentes e amigos que assistem só ao contra-ataque, sem ver o que veio antes, tendem a dar razão a quem acusa com mais convicção [7]. Muitas vítimas se percebem explicando a relação para pessoas que já chegaram com veredito pronto. Se você reconhece esse cenário somado a uma campanha de difamação, o padrão é ainda mais claro.
O que a projeção crônica faz com a sua saúde
Do ponto de vista médico, viver sob acusação e vigilância constantes é um estressor interpessoal de longa duração, e o corpo responde como responde a qualquer ameaça crônica: sistema de alarme ligado sem pausa. A literatura sobre violência psicológica por parceiro íntimo é consistente em associar essa exposição a depressão, transtornos de ansiedade e transtorno de estresse pós-traumático [10]. Uma revisão sistemática com metanálise dedicada especificamente ao subtipo psicológico da violência encontrou efeitos sobre TEPT e depressão comparáveis aos da violência física, com a particularidade de a violência psicológica mostrar associação forte justamente com o quadro pós-traumático [11].
Quando o trauma é prolongado e acontece dentro de um vínculo do qual é difícil sair, o desfecho pode ir além do TEPT clássico. A CID-11 reconhece o TEPT complexo, o TEPT-C, que soma às memórias intrusivas, à esquiva e à hipervigilância três alterações profundas: desregulação emocional persistente, autoimagem negativa com culpa e vergonha crônicas, e dificuldade grave nos relacionamentos [14]. Repare como a projeção alimenta diretamente o segundo item: anos ouvindo que você é o problema constroem exatamente a crença central de que você é defeituosa. O guia completo sobre TEPT-C detalha critérios e caminhos de tratamento.
E quando a projeção começa na infância, com pais que transferem aos filhos as próprias frustrações e falhas, o alcance é ainda maior. O estudo das experiências adversas na infância, com mais de 17 mil adultos, mostrou relação dose-dependente entre abuso e disfunção familiar precoces e as principais causas de adoecimento e morte na vida adulta [13]. A criança tratada como depósito dos defeitos dos pais cresce com um sistema de estresse calibrado para a ameaça, e essa calibragem cobra juros por décadas.
| Dano observado | Mecanismo provável | Como costuma aparecer no consultório |
|---|---|---|
| Ansiedade e hipervigilância | Ameaça social crônica, antecipação de acusações [10] | Tensão constante, sobressalto, mente que não desliga |
| Depressão | Erosão da autoestima e derrota social repetida [11,12] | Desânimo, anedonia, sensação de não valer nada |
| TEPT e TEPT-C | Trauma interpessoal prolongado com aprisionamento no vínculo [11,14] | Flashbacks de brigas, esquiva, culpa e vergonha crônicas |
| Autoculpabilização persistente | Exposição repetida a DARVO e inversão de papéis [6] | Pedidos de desculpa automáticos, dúvida sobre a própria versão |
| Sintomas físicos de estresse | Ativação prolongada do eixo do estresse desde a infância, quando precoce [13] | Insônia, dor, fadiga, queixas digestivas com exames normais |
Crítica legítima ou projeção narcisista? A comparação que desarma a dúvida
Essa é a pergunta que mais aparece quando o assunto é projeção, porque a vítima de abuso costuma ser justamente a pessoa disposta a se examinar. Ela lê sobre narcisismo e pensa: e se a narcisista for eu? Essa dúvida honesta, aliás, é um bom sinal: a autocrítica genuína é rara em quem projeta de forma patológica. Ainda assim, vale ter critérios objetivos para separar uma crítica verdadeira, que merece escuta, de uma projeção acusatória, que merece limite.
| Critério | Crítica legítima | Projeção narcisista |
|---|---|---|
| Foco | Um comportamento específico, com exemplo concreto | Seu caráter inteiro (“você é”, “você sempre”, “você nunca”) |
| Relação com os fatos | Aceita evidência em contrário e se ajusta | Imune a provas; a meta da discussão sempre se move |
| Espelho | Quem critica não pratica aquilo que aponta | A acusação descreve com precisão o comportamento de quem acusa [1] |
| Momento | Conversa escolhida, tom proporcional | Dispara quando o acusador é confrontado ou contrariado [6,8] |
| Objetivo | Melhorar a relação, resolver um problema | Transferir culpa, colocar você na defensiva |
| Efeito em você | Desconforto passageiro, reflexão possível | Confusão, culpa difusa, necessidade crônica de se justificar |
Como responder à projeção sem entrar no jogo
A regra de ouro é contraintuitiva: não vença o julgamento, recuse o tribunal. Defender-se longamente de uma acusação projetada é jogar no campo do acusador, porque a discussão nunca foi sobre fatos. Respostas curtas e neutras funcionam melhor do que dossiês de inocência: “não é isso que está acontecendo, e não vou discutir esse tema de novo” encerra mais conversas do que vinte capturas de tela. Quem já estudou a técnica da pedra cinzenta reconhece o princípio: remover o combustível emocional da reação.
Alguns cuidados práticos ajudam. Primeiro, nomeie o padrão para si mesma, não necessariamente para o outro: reconhecer “isso é projeção” na hora reduz o impacto da acusação e corta a espiral de autodúvida, efeito análogo ao que os estudos observaram quando pessoas aprendem a identificar DARVO [7]. Segundo, preserve registros importantes quando houver risco jurídico ou patrimonial, mas para proteção, não para convencer o acusador. Terceiro, reduza o que você entrega de intimidade a quem usa suas vulnerabilidades como munição. Quarto, fortaleça as testemunhas do seu cotidiano: manter vínculos fora da relação impede que a versão projetada de você seja a única disponível.
E uma observação de segurança que não pode faltar: confrontar diretamente uma pessoa com traços narcisistas graves pode escalar a agressividade, especialmente em separações e disputas. Se existe qualquer risco físico, priorize um plano de saída seguro, com apoio de pessoas de confiança e, quando necessário, medidas legais. O caminho detalhado está no guia de recuperação do abuso narcisista.
Quando a projeção vem dos seus pais
Filhos de pais narcisistas costumam ocupar desde cedo o papel de depósito das frustrações da casa: a criança “difícil”, “egoísta”, “o motivo” do estresse da família. Crescer ouvindo que você é o problema, antes de ter idade para duvidar disso, instala uma autoimagem negativa que a vida adulta não corrige sozinha. É um dos cenários em que a projeção produz mais dano, porque a vítima não tem repertório para se defender nem para onde ir [13].
Na vida adulta, esse histórico aparece como culpa automática, dificuldade de receber crítica sem colapsar, perfeccionismo exausto e uma atração dolorosa por parceiros que repetem o roteiro dos pais. Reconhecer a origem não é buscar culpados para sempre: é entender qual crença precisa ser desmontada no tratamento. A boa notícia, que a clínica confirma todos os dias, é que autoimagem construída sob projeção pode ser reconstruída com tratamento adequado e tempo.
Quando procurar avaliação médica
Procure avaliação profissional se, junto com o padrão de acusações invertidas, você percebe sinais de que o seu corpo e a sua mente já estão pagando a conta: tristeza persistente ou vazio na maior parte dos dias, ansiedade que não desliga, insônia frequente, memórias intrusivas de brigas e humilhações, sobressalto exagerado, culpa e vergonha constantes, isolamento das pessoas que você ama, queda de rendimento no trabalho, sintomas físicos repetidos com exames normais, ou uso crescente de álcool e calmantes para atravessar o dia.
Se houver pensamentos de morte ou de tirar a própria vida, isso é urgência: procure imediatamente o CVV pelo telefone 188 (24 horas, gratuito) ou o serviço de emergência mais próximo. Nenhuma dinâmica de relacionamento justifica atravessar isso sem ajuda.
Na avaliação médica, o Dr. Anderson Contaifer (CRM-SC 24.484, RQE 18.790), médico com Registro de Qualificação de Especialista em Clínica Médica, faz o mapeamento clínico completo do impacto do abuso: rastreio estruturado de depressão, ansiedade e sintomas pós-traumáticos, investigação de repercussões físicas como sono, dor e queixas somáticas, e construção de um plano terapêutico individualizado, que pode incluir tratamento medicamentoso, encaminhamento para psicoterapia e acompanhamento longitudinal. Este conteúdo tem caráter educativo e não substitui consulta: diagnóstico e tratamento exigem avaliação individual.
Este tema no Instagram
Este tema também está no Instagram do Dr. Anderson Contaifer, em formato visual:
Perguntas frequentes sobre projeção narcisista
A projeção narcisista é consciente ou inconsciente?
Na maior parte das vezes, o mecanismo de base é inconsciente: a pessoa realmente não tolera enxergar o defeito em si e passa a percebê-lo fora [1,3]. Isso não anula a responsabilidade de quem agride, e há também uso deliberado da acusação como tática de controle, especialmente em quem já percebeu que colocar você na defensiva encerra qualquer cobrança. Do lado de quem sofre, o efeito prático é o mesmo, e a proteção também.
Como diferenciar uma crítica justa de uma projeção?
Use três filtros: especificidade, resposta à evidência e espelho. Crítica legítima aponta um comportamento concreto, aceita fatos em contrário e não descreve o comportamento de quem critica. Projeção ataca o seu caráter em bloco, ignora qualquer prova e, com frequência impressionante, descreve exatamente o que o acusador faz [1]. A tabela de comparação deste artigo detalha os seis critérios.
Toda pessoa que projeta é narcisista?
Não. Projeção é um mecanismo de defesa universal, que qualquer pessoa usa ocasionalmente sob estresse [2,3]. O padrão narcisista se caracteriza pela rigidez e pela função: acusações frequentes, imunes a evidência, disparadas sempre que a autoimagem grandiosa é ameaçada, e acompanhadas de outras táticas como gaslighting e DARVO [6,8]. É o conjunto, não o episódio, que define o problema.
O que eu respondo na hora de uma acusação absurda?
Pouco. Frases curtas, neutras e finais funcionam melhor do que defesas longas: “não é verdade, e não vou discutir isso de novo”. O objetivo não é convencer o acusador, que não está interessado em fatos, e sim proteger a sua energia e não alimentar a espiral. Guarde as explicações detalhadas para quem importa e para contextos em que fatos têm peso, como o jurídico.
Por que eu começo a acreditar nas acusações que recebo?
Porque repetição funciona. A exposição contínua a acusação e inversão de papéis aumenta a autoculpabilização, efeito medido em pesquisa sobre DARVO [6], e a queda de autoestima que se segue abre porta para depressão e ansiedade [12]. Somado ao gaslighting, o bombardeio faz você duvidar da própria versão. Não é fraqueza sua: é o resultado esperado de uma técnica aplicada de forma crônica.
Projeção acontece de pais para filhos?
Sim, e é um dos cenários mais nocivos. A criança acusada de ser o problema da casa internaliza essa identidade antes de poder questioná-la. Experiências adversas na infância, incluindo abuso psicológico, mostram relação dose-dependente com adoecimento físico e mental na vida adulta [13]. Filhos adultos de pais narcisistas costumam chegar ao consultório com culpa automática e autoimagem negativa de longa data.
Projeção e gaslighting são a mesma coisa?
Não. A projeção transfere para você um conteúdo que pertence ao acusador (“você me trai”). O gaslighting ataca a sua percepção da realidade (“isso nunca aconteceu, você é louca”). Na prática as duas táticas andam juntas e se reforçam: a projeção acusa, e o gaslighting desqualifica a sua defesa. O DARVO é o roteiro que as organiza quando você confronta o agressor [6].
Conviver com projeção constante pode adoecer o corpo?
Pode. Violência psicológica por parceiro íntimo está associada a depressão, ansiedade e TEPT, com efeitos comparáveis aos da violência física [10,11]. No corpo, o estresse crônico aparece como insônia, dor, fadiga e queixas digestivas com exames normais. Quando o trauma é prolongado e há aprisionamento no vínculo, o quadro pode evoluir para TEPT-C [14].
A pessoa que projeta tem cura?
Mecanismos de defesa podem amadurecer com psicoterapia, mas isso exige o que o narcisismo patológico menos oferece: reconhecimento do problema e adesão longa a tratamento [3]. A resposta clinicamente honesta é que a mudança do outro não está sob o seu controle. O foco que depende de você é a sua proteção e a sua recuperação, e essa parte tem caminho bem estabelecido.
Quando devo procurar um médico?
Quando os sinais de desgaste persistem por semanas ou atrapalham sono, trabalho e vínculos: tristeza ou vazio persistentes, ansiedade constante, insônia, memórias intrusivas, culpa e vergonha crônicas, sintomas físicos repetidos sem causa nos exames. Em caso de pensamentos de morte, procure ajuda imediata pelo CVV 188 ou emergência. A avaliação médica estruturada mapeia o dano e organiza o tratamento.
Leia também
- Abuso narcisista: o que é, sinais, as 4 fases e como sair
- Recuperação do abuso narcisista: o caminho clínico
- TEPT-C: o transtorno de estresse pós-traumático complexo
- Gaslighting: o que é, sinais e como se proteger
- DARVO: a inversão de vítima e agressor
Referências científicas
- [1] Newman LS, Duff KJ, Baumeister RF. A new look at defensive projection: thought suppression, accessibility, and biased person perception. Journal of Personality and Social Psychology. 1997. https://doi.org/10.1037/0022-3514.72.5.980
- [2] Baumeister RF, Dale K, Sommer KL. Freudian defense mechanisms and empirical findings in modern social psychology. Journal of Personality. 1998. https://doi.org/10.1111/1467-6494.00043
- [3] Cramer P. Defense mechanisms in psychology today: further processes for adaptation. American Psychologist. 2000. https://doi.org/10.1037/0003-066X.55.6.637
- [4] Schimel J, Greenberg J, Martens A. Evidence that projection of a feared trait can serve a defensive function. Personality and Social Psychology Bulletin. 2003. https://doi.org/10.1177/0146167203252969
- [5] Holmes DS, Houston BK. The defensive function of projection. Journal of Personality and Social Psychology. 1971. https://doi.org/10.1037/h0031705
- [6] Harsey SJ, Zurbriggen EL, Freyd JJ. Perpetrator responses to victim confrontation: DARVO and victim self-blame. Journal of Aggression, Maltreatment and Trauma. 2017. https://doi.org/10.1080/10926771.2017.1320777
- [7] Harsey S, Freyd JJ. Deny, attack, and reverse victim and offender (DARVO): what is the influence on perceived perpetrator and victim credibility? Journal of Aggression, Maltreatment and Trauma. 2020. https://doi.org/10.1080/10926771.2020.1774695
- [8] Green A, Charles K. Voicing the victims of narcissistic partners: a qualitative analysis of responses to narcissistic injury and self-esteem regulation. Sage Open. 2019. https://doi.org/10.1177/2158244019846693
- [9] Day NJS, Townsend ML, Grenyer BFS. Living with pathological narcissism: a qualitative study. Borderline Personality Disorder and Emotion Dysregulation. 2020. https://doi.org/10.1186/s40479-020-00132-8
- [10] Lagdon S, Armour C, Stringer M. Adult experience of mental health outcomes as a result of intimate partner violence victimisation: a systematic review. European Journal of Psychotraumatology. 2014. https://doi.org/10.3402/ejpt.v5.24794
- [11] Dokkedahl SB, Kirubakaran R, Bech-Hansen D, Kristensen TR, Elklit A. The psychological subtype of intimate partner violence and its effect on mental health: a systematic review with meta-analyses. Systematic Reviews. 2022. https://doi.org/10.1186/s13643-022-02025-z
- [12] Sowislo JF, Orth U. Does low self-esteem predict depression and anxiety? A meta-analysis of longitudinal studies. Psychological Bulletin. 2013. https://doi.org/10.1037/a0028931
- [13] Felitti VJ, Anda RF, Nordenberg D, et al. Relationship of childhood abuse and household dysfunction to many of the leading causes of death in adults. American Journal of Preventive Medicine. 1998. https://doi.org/10.1016/S0749-3797(98)00017-8
- [14] Maercker A, Cloitre M, Bachem R, et al. Complex post-traumatic stress disorder. The Lancet. 2022. https://doi.org/10.1016/S0140-6736(22)00821-2


