Memória fragmentada: por que o trauma embaralha datas e dá branco na hora de contar

Memória fragmentada: por que o trauma embaralha datas e dá branco na hora de contar
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Dr. Anderson Contaifer

Médico especialista em Clínica Médica (CRM-SC 24.484, RQE 18.790), graduado pela EMESCAM (Escola Superior de Ciências da Santa Casa de Misericórdia de Vitória, ES), com título de especialista pela SBCM (Sociedade Brasileira de Clínica Médica). Pós-graduando em Psiquiatria Adulto pelo Ensino Einstein. Atua na recuperação médica e emocional de vítimas de abuso narcisista, em teleconsulta para todo o Brasil, e produz conteúdo educativo baseado em evidências científicas sobre narcisismo patológico, gaslighting, trauma bonding e TEPT-C. Criador do Programa Quebrando as Algemas, curso voltado à recuperação do abuso narcisista, e do blog de mesmo nome, com mais de 200 mil seguidores nas redes sociais. Possui Certificado de Excelência Doctoralia 2025.

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Atendimento médico

As repercussões do abuso narcisista no corpo (insônia, taquicardia, fadiga, alterações de sono e peso) têm avaliação e acompanhamento médico.

Dr. Anderson Contaifer · Médico Especialista em Clínica Médica · CRM-SC 24.484 · RQE 18.790 · Teleconsulta (qualquer lugar do Brasil e do mundo)

As repercussões do abuso narcisista no corpo (insônia, taquicardia, fadiga, alterações de peso e sono) têm avaliação e acompanhamento médico. O Dr. Anderson Contaifer, médico, especialista em Clínica Médica (CRM-SC 24.484, RQE 18.790), atende por teleconsulta para todo o Brasil. Cada consulta é uma avaliação clínica individual.

Ainda não quer marcar consulta? Você também pode conhecer o curso Quebrando as Algemas, material educativo para quem está se recuperando de um relacionamento abusivo.

Memória fragmentada é a lembrança traumática que sai do arquivo em pedaços: faltam trechos, as datas se embaralham, a ordem dos fatos não fecha e, justamente na hora de contar, o detalhe importante some. Quem viveu abuso prolongado conhece a cena: sabe que doeu, sabe o que sentiu, mas se enrola na cronologia e dá branco no confronto. Isso não é falha de caráter nem sinal de invenção. A literatura de trauma descreve há décadas que memórias de eventos traumáticos tendem a ser registradas e recuperadas de forma fragmentária, com pedaços sensoriais vívidos convivendo com lacunas na narrativa [7][8]. O mecanismo passa pelo hipocampo, a estrutura que organiza cada episódio em ordem, com data e contexto, e pelo cortisol, o hormônio do estresse que atrapalha o resgate da lembrança exatamente nos momentos de maior pressão [2][4][5].

No vídeo, o Dr. Anderson apresenta três indícios de que o abuso narcisista prejudicou a memória, o mesmo fenômeno que este artigo aprofunda com a literatura científica.

Esquecer detalhes não é inventar a história

A cena se repete em consultório: a pessoa tenta contar o que viveu e tropeça. Não lembra se foi em março ou em maio, não sabe dizer se a frase veio antes ou depois da discussão, mistura dois episódios parecidos. E, quando finalmente cria coragem para confrontar quem a machucou ou para relatar a alguém de confiança, dá branco no detalhe que provaria o ponto. O argumento perfeito aparece horas depois, no banho, quando a pressão já passou.

Quem está do lado de fora costuma ler isso da pior forma possível. Em relacionamentos abusivos, a leitura vira arma: se você troca datas, está inventando; se não lembra tudo, não foi tão grave assim. Esse é um dos terrenos preferidos do gaslighting, a tática de fazer a vítima duvidar da própria percepção. A lacuna real de memória, que tem explicação neurobiológica, é usada como se fosse confissão de mentira.

A ciência conta outra história. O estresse intenso muda a forma como o cérebro grava e, principalmente, como ele recupera a informação [2][5]. Entender esse mecanismo tira a culpa do lugar errado e devolve a régua certa: a falha não é sua, é do circuito sob sobrecarga.

O hipocampo é o arquivista do cérebro

Toda memória de episódio, aquela que responde o quê, quando e onde, depende do hipocampo. É ele que amarra as peças de uma cena, coloca carimbo de tempo e de lugar e transforma a experiência em uma história que dá para contar depois. Uma revisão clássica de Bremner e Narayan descreve o papel central dessa estrutura na memória declarativa ao longo de toda a vida, da infância à velhice, e mostra que ela é particularmente sensível aos hormônios do estresse [1].

Essa sensibilidade não é acidente. O hipocampo é uma das regiões do cérebro com maior densidade de receptores para glicocorticoides, a família do cortisol. Em doses moderadas e pontuais, o cortisol até ajuda a fixar o que importa. Em excesso, atrapalha, e o hipocampo sofre primeiro, como resume a revisão de McEwen sobre estresse e plasticidade hipocampal [10]. O quadro abaixo organiza os papéis de cada peça desse circuito.

Peça do circuito O que faz na memória O que o estresse muda
Hipocampo Organiza o episódio em ordem, com data, lugar e contexto Excesso de cortisol prejudica a codificação do contexto e o resgate da lembrança [1][2]
Amígdala Marca a carga emocional e de ameaça da cena Fica hiperativa: o tom emocional grava forte, mesmo quando o contexto grava mal [8]
Eixo HPA e cortisol Regulam a resposta ao estresse e modulam a gravação Ativação crônica mantém o sistema inundado de cortisol, com prejuízo cumulativo [1][10]

O resultado prático é um arquivo desequilibrado: a emoção da cena fica gravada com força, às vezes com força demais, enquanto a moldura de tempo e contexto sai borrada. É por isso que a mesma pessoa que não sabe dizer a data exata consegue descrever com precisão o tom de voz, o cheiro do ambiente ou o frio na barriga. Sobre a mecânica hormonal desse processo, vale a leitura do artigo dedicado ao cortisol e ao eixo HPA no abuso prolongado.

Grava, mas não resgata: o efeito do cortisol na hora H

Durante muito tempo, a pesquisa sobre estresse e memória olhou quase só para a gravação: o que acontece com a informação nova adquirida sob tensão. A virada veio quando os estudos separaram as fases e mostraram que o cortisol tem efeitos opostos dependendo do momento. A revisão de Roozendaal resume o padrão: glicocorticoides tendem a fortalecer a consolidação da memória, o processo que estabiliza o que acabou de acontecer, e ao mesmo tempo prejudicam o resgate, o ato de puxar do arquivo uma lembrança já guardada [5].

O experimento que abriu essa linha é elegante. No estudo de de Quervain, Roozendaal e McGaugh, publicado na Nature, ratos treinados em uma tarefa espacial falhavam no teste quando recebiam um choque estressor 30 minutos antes, exatamente o intervalo em que a corticosterona, o equivalente do cortisol nos roedores, atinge o pico na circulação. Dois minutos ou quatro horas antes, nada acontecia. E quando os pesquisadores bloqueavam a síntese do hormônio com metirapona, o prejuízo desaparecia, mostrando que a falha de resgate dependia diretamente do hormônio do estresse [4].

Em humanos, o mesmo padrão aparece. O grupo de Kirschbaum demonstrou que elevações de cortisol, fossem induzidas por estresse psicossocial ou por administração direta do hormônio, se associavam a pior desempenho de memória declarativa em adultos saudáveis [6]. E a revisão de Wingenfeld e Wolf, dedicada ao trio estresse, memória e hipocampo, consolida a leitura clínica: o cortisol ajuda a consolidar, mas prejudica a recuperação [2].

Agora traduza isso para uma discussão com uma pessoa abusiva. O confronto é um estressor agudo: coração acelerado, cortisol subindo. É a pior janela fisiológica possível para resgatar informação. A memória está lá, gravada, mas o arquivista está travado. Por isso o branco vem na hora e a resposta certa aparece depois, quando o hormônio baixou. A tabela abaixo separa as duas fases.

Fase da memória O que o pico de cortisol faz Como aparece na vida real
Consolidação (gravar o que acabou de acontecer) Tende a fortalecer, principalmente o núcleo emocional da cena [5] A humilhação fica gravada com nitidez desconfortável, às vezes por anos
Resgate (puxar do arquivo uma lembrança antiga) Prejudica de forma dependente da dose e do momento [4][6] Branco na discussão, no depoimento, na consulta; o detalhe volta horas depois

O que o abuso prolongado faz com o arquivo

Episódio agudo é uma coisa. Anos de alarme ligado são outra. A revisão de Bremner e Narayan reuniu evidências de que o estresse traumático se associa a redução de volume do hipocampo e a déficits de memória declarativa, do abuso na infância ao trauma na vida adulta [1]. Uma meta-análise posterior, de Kitayama e colegas, confirmou o achado central no transtorno de estresse pós-traumático: em média, adultos com o diagnóstico apresentam hipocampo menor que controles [9].

Aqui cabe honestidade científica. Esses estudos mostram associação, não sentença. Parte da diferença de volume pode ser anterior ao trauma, funcionando como vulnerabilidade, e parte parece consequência do estresse contínuo; a literatura discute os dois caminhos, e a resposta provavelmente combina ambos [1][9]. O que importa para quem viveu abuso é o outro lado do mesmo dado: a revisão de Bremner sobre estresse e atrofia cerebral indica que parte dessas alterações reverte com tratamento, porque o hipocampo é uma das regiões de maior plasticidade do cérebro adulto [3][10].

Enquanto isso, a fragmentação se instala no dia a dia. No estudo exploratório de van der Kolk e Fisler, pessoas com memórias traumáticas relatavam um padrão consistente: a lembrança chegava primeiro como fragmentos sensoriais e emocionais, imagens soltas, sons, sensações corporais, e só com o tempo, quando chegava, se organizava em narrativa [7]. A revisão de Brewin sobre os distúrbios de memória no pós-trauma descreve o mesmo paradoxo por outro ângulo: convivem na mesma pessoa a memória intrusiva involuntária, vívida demais, e a memória voluntária empobrecida, cheia de lacunas quando ela tenta contar a história em ordem [8].

Esse paradoxo confunde todo mundo, inclusive a própria pessoa. Como pode doer tanto e ao mesmo tempo faltar pedaço? A resposta curta: são sistemas diferentes. O que invade sozinho, o flashback, a imagem que volta sem pedir licença, roda por um circuito; o que você tenta puxar de propósito, com começo, meio e fim, roda por outro, o que depende do hipocampo, justamente o mais castigado pelo cortisol crônico [8]. Quem convive com reexperimentações intensas encontra aprofundamento no artigo sobre flashbacks após abuso.

Fragmentada não quer dizer falsa, e também não é prova

Deste ponto em diante, vale calibrar a régua com cuidado, porque os dois exageros machucam. O primeiro exagero é o da pessoa abusiva e de quem a defende: se a vítima troca datas, está mentindo. Isso não se sustenta. Lacuna, fragmentação e confusão de cronologia são exatamente o que a literatura descreve em memórias de estresse extremo [7][8]. Tratar o buraco na memória como confissão de mentira é confundir o efeito do trauma com desonestidade.

O segundo exagero é o espelho do primeiro: transformar a lacuna em prova do abuso. Também não é assim. Memória fragmentada é compatível com trauma, é o padrão esperado sob estresse extremo, mas compatibilidade não é comprovação, e memória nenhuma, fragmentada ou não, funciona como gravação literal dos fatos [8]. Quem sofreu abuso não precisa desse atalho frágil: o relato ganha força é com registro contemporâneo, documentação e rede de apoio, não com a promessa de que o cérebro carimba verdades.

Entre os dois exageros mora a posição honesta: a falha de memória não desmente a história, e a história não depende da memória perfeita. É por isso que faz sentido registrar por escrito o que for lembrado, quando for lembrado, sem cobrar ordem perfeita de si mesma. O registro tira o peso do resgate sob pressão e deixa o tempo trabalhar a favor: longe do pico de estresse, os pedaços tendem a se juntar melhor [2][5].

Memória fragmentada não é névoa mental, amnésia dissociativa nem gaslighting

Fenômenos vizinhos costumam ser misturados numa coisa só, e cada um tem mecanismo e caminho próprios. A tabela compara os principais.

Fenômeno O que é Mecanismo dominante Como aparece
Memória fragmentada Lembrança traumática em pedaços, sem ordem nem datas firmes Codificação de contexto prejudicada e resgate travado por cortisol [2][7] Faltam trechos da cena, cronologia embaralhada, branco no confronto
Branco agudo Falha momentânea de resgate durante pico de estresse Glicocorticoides bloqueando a recuperação na hora [4][6] A informação some na discussão e volta depois, intacta
Névoa mental Lentidão e falta de clareza cognitiva no presente Exaustão do sistema de estresse afetando atenção e concentração Dificuldade de focar, raciocinar e reter informação nova, o dia inteiro
Amnésia dissociativa Incapacidade de recordar blocos inteiros de informação autobiográfica Desconexão dissociativa diante de sobrecarga extrema Períodos ou eventos inteiros inacessíveis, além de esquecimento comum
Dúvida plantada por gaslighting Descrença na própria memória induzida por outra pessoa Manipulação repetida, não falha neurológica A pessoa lembra, mas aprendeu a desconfiar do que lembra

As fronteiras importam porque cada quadro pede uma conversa diferente. A névoa mental após abuso é sobre o processamento do presente, não sobre o arquivo do passado. A dissociação e a despersonalização envolvem desconexão mais ampla da experiência, e a amnésia dissociativa é seu extremo na memória. E o gaslighting nem é fenômeno de memória: é tática de quem manipula. O problema é que, em relação abusiva longa, os quatro costumam coexistir na mesma pessoa, um alimentando o outro.

O que não se sustenta

“Quem passou por algo grave de verdade lembra de tudo em alta definição.” É o mito mais cruel, porque vira régua de credibilidade. A pesquisa mostra o contrário: quanto mais extremo o estresse, mais provável que o registro do contexto saia incompleto, com o núcleo emocional forte e a moldura de tempo e ordem fraca [1][7][8]. Memória de trauma com aparência de filme contínuo é a exceção, não a regra.

“Trocar datas é sinal de mentira.” Cronologia é justamente a função que mais depende do hipocampo, a estrutura mais sensível ao cortisol. Sob estresse crônico, embaralhar datas é o esperado [1][2]. A consistência do núcleo do relato importa mais que a precisão do calendário.

“Se a memória falha, foi o trauma; a lacuna prova o abuso.” A inversão também não se sustenta, e este artigo faz questão de dizer isso por escrito. Lacunas acontecem por sono ruim, ansiedade, depressão, uso de álcool, envelhecimento e por vida comum. A fragmentação é compatível com estresse extremo, mas não funciona como exame comprobatório [8][9].

“Toda lembrança que aparece anos depois é registro literal do que houve.” Memórias podem retornar com o tempo e com a redução do estresse, e o estudo de van der Kolk e Fisler documenta relatos assim [7]. Mas a memória humana é reconstrutiva, e a própria literatura que valida a fragmentação também alerta que técnicas sugestivas de recuperação de memória podem produzir falsas lembranças [8]. Lembrança que volta merece acolhimento e avaliação cuidadosa, não certeza automática em nenhuma direção.

Memória fragmentada e TEPT-C

No TEPT-C, o transtorno de estresse pós-traumático complexo, código 6B41 da CID-11, a alteração de memória é parte do próprio diagnóstico: a reexperimentação exige que o evento volte de forma intrusiva, em flashbacks ou pesadelos, enquanto a narrativa voluntária do período traumático costuma estar cheia de buracos [8]. É o paradoxo descrito acima levado ao extremo clínico: lembrar demais do jeito errado e de menos do jeito certo.

Quem reconhece esse padrão em si costuma se beneficiar de entender o quadro completo, com os sintomas do TEPT-C explicados um a um. O ponto central para este artigo é de justiça com a própria história: a pessoa que não consegue contar o abuso em ordem não está falhando com a própria recuperação. Ela está exibindo um dos sintomas nucleares do quadro que precisa de tratamento.

Dá para reorganizar o arquivo?

Dá, com método e com tempo, e a base científica dessa esperança é sólida. O hipocampo é uma das poucas regiões do cérebro adulto com plasticidade robusta documentada, incluindo a capacidade de recuperar volume e função quando o ambiente hormonal melhora [3][10]. No estudo de Vermetten e colegas, 9 a 12 meses de tratamento com paroxetina se associaram a melhora significativa da memória declarativa verbal e a aumento médio de 4,6% no volume do hipocampo em pacientes com transtorno de estresse pós-traumático [11]. É um estudo pequeno, sem grupo placebo, e vai citado aqui com esse tamanho honesto: como demonstração de que a direção é reversível, não como promessa de resultado individual.

No campo das psicoterapias, a revisão Cochrane de Bisson e colegas encontrou os melhores resultados para as terapias focadas no trauma: a terapia cognitivo-comportamental com foco no trauma e o EMDR, a dessensibilização e reprocessamento por movimentos oculares [12]. O EMDR não apaga lembrança nenhuma; ele ajuda a reprocessar a memória fragmentada, reduzindo a carga emocional e permitindo que os pedaços se integrem numa narrativa que a pessoa consegue contar sem reviver.

Fora do consultório, duas medidas baratas têm respaldo direto no mecanismo. A primeira é registrar por escrito, sem cobrar ordem perfeita: cada registro feito em momento calmo aproveita a janela em que o resgate funciona melhor e cria um arquivo externo que não depende de cortisol [2][5]. A segunda é reduzir a exposição ao estressor, porque o hipocampo se recupera quando o alarme desliga [3][10]. Em muitas histórias isso passa por distância real da pessoa abusiva, tema do guia de recuperação do abuso narcisista. A tabela resume o que conta a favor e contra.

Ajuda a reorganizar Atrapalha a reorganização
Registrar por escrito nos momentos calmos, aceitando os buracos Se interrogar de madrugada cobrando a cena completa
Sono regular, que consolida e limpa o sistema de estresse Privação de sono e alarme contínuo, que mantêm o cortisol alto
Terapia focada no trauma, com estabilização antes do mergulho [12] Revisitar o material traumático sob pressão e sem apoio
Distância do estressor e rede de apoio Álcool e sedativos por conta própria para conseguir esquecer

Quando procurar avaliação médica

Falha de memória merece avaliação profissional sempre que persiste por semanas, atrapalha trabalho e vínculos, ou vem acompanhada dos outros sinais do quadro pós-traumático: sono destruído, hipervigilância, memórias intrusivas, esquiva de tudo que lembra o ocorrido. Também merece avaliação a lacuna que cresce em vez de diminuir, o esquecimento que atinge períodos inteiros da vida e a confusão que aparece junto com uso crescente de álcool ou outras substâncias. E vale lembrar que memória também falha por causas que nada têm a ver com trauma, de tireoide a deficiência de vitamina, e é papel da consulta separar uma coisa da outra.

Se você está em situação de violência doméstica, o Ligue 180 funciona 24 horas, é gratuito e orienta sobre canais de denúncia e rede de proteção. Em caso de pensamentos de morte ou sofrimento insuportável agora, o CVV atende pelo 188, 24 horas, e pelo chat em cvv.org.br. Em risco imediato, procure o 190 ou a emergência mais próxima.

Perguntas frequentes

O que é memória traumática?

É a memória de um evento vivido sob estresse extremo. Ela tende a se comportar diferente da memória comum: o núcleo emocional e sensorial grava forte e pode voltar de forma intrusiva, enquanto o contexto, a ordem dos fatos e as datas gravam mal e ficam cheios de lacunas [7][8]. Por isso a mesma lembrança pode doer muito e, ainda assim, ser difícil de contar em sequência.

Quais são os sintomas da perda de memória por trauma?

Os mais descritos são lacunas em trechos do evento ou do período, cronologia embaralhada, dificuldade de contar a história em ordem, branco em situações de pressão e o contraste entre fragmentos vívidos demais e buracos na narrativa [7][8]. Quando a perda atinge blocos inteiros da vida, o quadro pode ser amnésia dissociativa e pede avaliação específica.

Qual trauma pode causar esquecimento?

Qualquer estresse extremo pode alterar a memória, de evento único, como acidente ou agressão, a exposição repetida, como abuso na infância, violência doméstica e relacionamento abusivo prolongado [1]. O padrão de esquecimento tende a acompanhar a duração: eventos únicos deixam lacunas na cena; abuso crônico embaralha períodos longos.

O que significa não lembrar de coisas do passado?

Na maioria das vezes, esquecimento é normal: memória distante perde detalhe com o tempo em qualquer pessoa. O sinal de alerta é o contraste: períodos específicos inacessíveis enquanto o resto está preservado, principalmente quando esses períodos coincidem com fases de sofrimento, ou quando o esquecimento vem junto de sintomas pós-traumáticos [8]. Nesses casos, vale investigação profissional, sem conclusão precipitada em nenhuma direção.

Por que dá branco justo na discussão?

Porque a discussão é um estressor agudo, e o pico de cortisol prejudica exatamente a função de resgate da memória [4][5][6]. A informação continua gravada, mas fica temporariamente inacessível. Passado o pico, o acesso volta, e por isso o argumento perfeito aparece depois do banho, não durante a briga.

Esquecer detalhes do abuso significa que ele não aconteceu?

Não. Fragmentação e lacuna são o padrão esperado de memória sob estresse extremo, não evidência de invenção [7][8]. O contrário também vale: a lacuna sozinha não comprova o abuso. O que fortalece um relato é registro contemporâneo, documentação e rede de apoio, não a exigência de memória perfeita.

Memória fragmentada é o mesmo que amnésia dissociativa?

Não. A memória fragmentada mantém acesso à lembrança, mas em pedaços e sem ordem firme. Na amnésia dissociativa, blocos inteiros de informação autobiográfica ficam inacessíveis, bem além do esquecimento comum. A fragmentação é frequente em quem viveu abuso; a amnésia dissociativa é mais rara e costuma indicar sobrecarga dissociativa maior [7][8].

Memórias que voltam depois de anos são confiáveis?

Merecem escuta e avaliação cuidadosa, sem certeza automática. Há relatos documentados de memórias que retornam quando o estresse diminui [7], e há também demonstração de que técnicas sugestivas podem produzir falsas lembranças [8]. A recomendação técnica é trabalhar o material com profissional treinado em trauma, que acolhe sem induzir.

Trocar datas enfraquece uma denúncia?

Imprecisão de data é esperada em relato de trauma e, por si só, não desmente o núcleo da história [8]. Do ponto de vista prático, ajuda registrar por escrito o que for lembrado assim que possível, guardar mensagens e documentos e contar com rede de apoio. Orientação sobre caminhos formais de denúncia é papel do Ligue 180 e de serviço jurídico especializado.

EMDR apaga as memórias traumáticas?

Não apaga, e não é esse o objetivo. O EMDR é uma das terapias com melhor evidência para o quadro pós-traumático [12] e trabalha reprocessando a memória: a lembrança continua existindo, mas perde a carga insuportável e se integra à narrativa da vida, de modo que lembrar deixa de ser reviver.

Referências científicas

  1. Bremner JD, Narayan M. The effects of stress on memory and the hippocampus throughout the life cycle: implications for childhood development and aging. Development and Psychopathology. 1998;10(4):871-885. DOI: 10.1017/S0954579498001916
  2. Wingenfeld K, Wolf OT. Stress, memory, and the hippocampus. Frontiers of Neurology and Neuroscience. 2014;34:109-120. DOI: 10.1159/000356423
  3. Bremner JD. Stress and brain atrophy. CNS & Neurological Disorders – Drug Targets. 2006;5(5):503-512. DOI: 10.2174/187152706778559309
  4. de Quervain DJ, Roozendaal B, McGaugh JL. Stress and glucocorticoids impair retrieval of long-term spatial memory. Nature. 1998;394(6695):787-790. DOI: 10.1038/29542
  5. Roozendaal B. Stress and memory: opposing effects of glucocorticoids on memory consolidation and memory retrieval. Neurobiology of Learning and Memory. 2002;78(3):578-595. DOI: 10.1006/nlme.2002.4080
  6. Kirschbaum C, Wolf OT, May M, Wippich W, Hellhammer DH. Stress- and treatment-induced elevations of cortisol levels associated with impaired declarative memory in healthy adults. Life Sciences. 1996;58(17):1475-1483. DOI: 10.1016/0024-3205(96)00118-X
  7. van der Kolk BA, Fisler R. Dissociation and the fragmentary nature of traumatic memories: overview and exploratory study. Journal of Traumatic Stress. 1995;8(4):505-525. DOI: 10.1002/jts.2490080402
  8. Brewin CR. The nature and significance of memory disturbance in posttraumatic stress disorder. Annual Review of Clinical Psychology. 2011;7:203-227. DOI: 10.1146/annurev-clinpsy-032210-104544
  9. Kitayama N, Vaccarino V, Kutner M, Weiss P, Bremner JD. Magnetic resonance imaging (MRI) measurement of hippocampal volume in posttraumatic stress disorder: a meta-analysis. Journal of Affective Disorders. 2005;88(1):79-86. DOI: 10.1016/j.jad.2005.05.014
  10. McEwen BS. Stress and hippocampal plasticity. Annual Review of Neuroscience. 1999;22:105-122. DOI: 10.1146/annurev.neuro.22.1.105
  11. Vermetten E, Vythilingam M, Southwick SM, Charney DS, Bremner JD. Long-term treatment with paroxetine increases verbal declarative memory and hippocampal volume in posttraumatic stress disorder. Biological Psychiatry. 2003;54(7):693-702. DOI: 10.1016/s0006-3223(03)00634-6
  12. Bisson JI, Roberts NP, Andrew M, Cooper R, Lewis C. Psychological therapies for chronic post-traumatic stress disorder (PTSD) in adults. Cochrane Database of Systematic Reviews. 2013;(12):CD003388. DOI: 10.1002/14651858.CD003388.pub4

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Dr. Anderson Contaifer de Carvalho é médico especialista em Clínica Médica (CRM-SC 24.484 | RQE 18.790), formado pela EMESCAM em 2012, com título de especialista em clínica médica pela SBCM em 2019. Pós-graduando em Psiquiatria Adulto pelo Ensino Einstein. Possui pós-graduação em Saúde da Família, Nutrologia e Medicina Intensiva, além de certificações ACLS e ATLS. É o criador do Quebrando as Algemas, programa dedicado à recuperação de vítimas de abuso narcisista, com atuação dedicada às repercussões clínicas e emocionais de relacionamentos abusivos, em teleconsulta para todo o Brasil. Certificado Excelência Doctoralia 2025.

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