Família que protege o narcisista e culpa você: por que acontece e como reagir

Mulher sentada sozinha na ponta da mesa de jantar, cabeça baixa, enquanto a família conversa ao fundo ignorando-a: a família que protege o narcisista e culpa você
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Dr. Anderson Contaifer

Médico especialista em Clínica Médica (CRM-SC 24.484 | RQE de clínica médica 18.790), com formação pela EMESCAM (Escola de ciências Médicas da Santa Casa de Misericórida de Vitória - ES) e titulação em clínica médica pela SBCM (Sociedade Brasileira de Clínica Médica). Atua na recuperação médica e emocional de vítimas de abuso narcisista, produzindo conteúdos educativos nas redes sociais. Criador do Programa Quebrando as Algemas, curso para recuperação do abuso narcisista. Possui mais de 200 mil seguidores em redes sociais, criador do Blog Quebrando as Algemas que oferece conteúdo baseado em evidências científicas sobre narcisismo patológico, gaslighting, trauma bonding e TEPT-C. Possui Certificado de Excelência Doctoralia 2025.

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Atendimento médico

As repercussões do abuso narcisista no corpo (insônia, taquicardia, fadiga, alterações de sono e peso) têm avaliação e acompanhamento médico.

Dr. Anderson Contaifer · Médico Especialista em Clínica Médica · CRM-SC 24.484 · RQE 18.790 · Teleconsulta (qualquer lugar do Brasil e do mundo)

As repercussões do abuso narcisista no corpo (insônia, taquicardia, fadiga, alterações de peso e sono) têm avaliação e acompanhamento médico. O Dr. Anderson Contaifer, médico, especialista em Clínica Médica (CRM-SC 24.484, RQE 18.790), atende por teleconsulta para todo o Brasil. Cada consulta é uma avaliação clínica individual.

Ainda não quer marcar consulta? Você também pode conhecer o curso Quebrando as Algemas, material educativo para quem está se recuperando de um relacionamento abusivo.

Família que protege o narcisista é o sistema de parentes que fecha fileira com o agressor e transfere a culpa para quem denuncia o abuso. Em vez de acolher a vítima, o grupo minimiza os fatos, defende a imagem do abusador e trata quem fala como “a exagerada”, “a que divide a família” ou “a rebelde”. Esse arranjo tem nomes na literatura clínica: o bode expiatório carrega a culpa de todos, o filho de ouro é blindado, e os facilitadores mantêm a paz aparente às custas da verdade. Quando as pessoas que deveriam proteger escolhem o lado do agressor, o dano é maior que o do abuso isolado, porque soma trauma de traição, gaslighting coletivo e isolamento. A responsabilidade pelo abuso nunca é de quem o denuncia, e reconhecer esse padrão é o primeiro passo para sair dele.

Assista também no canal do Dr. Anderson Contaifer: quando a família protege o narcisista e culpa você.

O que significa “a família que protege o narcisista”

Você reuniu coragem, contou o que vinha sofrendo e esperava acolhimento. Em vez disso, ouviu que estava exagerando, que “ele não é assim”, que você precisava ter mais paciência ou que estava “querendo dividir a família”. A cena se repete em milhares de histórias e tem uma lógica cruel por trás: em muitos núcleos familiares, a pessoa abusiva não age sozinha. Ao redor dela existe um sistema que a protege, reescreve os fatos e devolve a culpa para quem teve a coragem de falar. Entender esse sistema não é acusar cada parente de má intenção, é enxergar o mecanismo que faz a verdade parecer, para todo mundo, um problema seu.

Esse arranjo aparece em duas situações. Na primeira, o abusador é um membro da própria família, o pai, a mãe, um irmão, e os demais se organizam ao redor dele desde sempre, distribuindo papéis fixos. Na segunda, o abusador é um parceiro ou parceira, e a família de origem, os sogros ou até amigos em comum passam a defendê-lo, seja porque acreditam na imagem pública dele, seja porque preferem não mexer no vespeiro. Nos dois casos o resultado para a vítima é o mesmo: ela fica cercada de vozes que repetem a narrativa do agressor até que duvidar da própria memória vira o caminho de menor resistência.

Neste guia, o Dr. Anderson Contaifer, médico, explica como esse sistema se organiza, por que ele culpa justamente quem foi ferido, o que a ciência já documentou sobre o trauma de traição e o gaslighting coletivo, e quais são os caminhos realistas de proteção. O objetivo não é convencer a sua família de nada, é devolver a você a clareza de que o problema nunca foi ter falado.

Os papéis dentro do sistema familiar que blinda o abusador

Sistemas que protegem um agressor tendem a distribuir funções, quase sempre sem que ninguém combine nada em voz alta. O estudo clássico de Gemmill sobre a dinâmica do bode expiatório em pequenos grupos mostra que descarregar em um único membro as tensões, as falhas e a “culpa” de todo o grupo é um recurso inconsciente de sobrevivência coletiva: o grupo alivia a própria angústia elegendo alguém para carregá-la [1]. Numa família que orbita um narcisista, esse alguém costuma ser justamente quem enxerga e nomeia o abuso.

Os papéis mais descritos são cinco. O bode expiatório é quem recebe a culpa por tudo o que dá errado, inclusive pelo comportamento do agressor. O filho de ouro é a extensão idealizada do abusador, blindado de cobranças e usado como prova de que “a família é ótima”. O facilitador, muitas vezes um cônjuge ou avó, mantém a paz aparente pedindo que a vítima ceda “para não criar caso”. O mediador tenta apaziguar e acaba, sem querer, exigindo silêncio de quem sofre. E a criança perdida se torna invisível, aprende a não incomodar e desaparece emocionalmente para não virar o próximo alvo. Esses papéis não são traços de caráter, são posições que o sistema oferece e reforça.

Perceber que existe um roteiro ajuda a despersonalizar a dor. Quando você entende que foi colocada no lugar de bode expiatório, para de se perguntar “o que há de errado comigo?” e começa a perguntar “que função eu cumpro nesse arranjo?”. A resposta costuma ser desconfortável: você virou o depósito da culpa que ninguém ali quer encarar.

Por que a família fecha fileira com o narcisista

A pergunta que mais dói é simples: por que eles não me defendem? A resposta raramente é falta de amor. É medo, conveniência e imagem. Famílias funcionam como sistemas que buscam equilíbrio, e denunciar o abusador ameaça esse equilíbrio inteiro. Reconhecer que o pai admirado é cruel, que o irmão querido humilha, ou que o genro simpático agride, obrigaria cada um a rever a própria história e a própria omissão. É mais barato, emocionalmente, tratar a vítima como o problema do que encarar a verdade.

Entra aí um recurso poderoso: o gaslighting, agora em versão coletiva. A socióloga Paige Sweet mostra que o gaslighting não é só um truque psicológico individual, ele se sustenta em desigualdades de poder e em estruturas sociais que dão credibilidade a uns e retiram de outros [2]. Numa família, quem tem status, dinheiro ou o papel de “chefe” ganha o benefício da dúvida, enquanto quem denuncia é enquadrado como instável, dramático ou ingrato. Repetida por várias bocas, a mesma frase (“você está imaginando coisas”) deixa de soar como opinião e passa a soar como consenso, e consenso é quase impossível de contestar sozinho.

Some-se a isso a hierarquia e o medo concreto de perder o grupo. Ficar do lado da vítima pode custar a herança, o convívio, o lugar nas festas, a aprovação do patriarca. Diante desse cálculo, muita gente escolhe o silêncio e chama isso de neutralidade. Só que, num contexto de abuso, neutralidade não existe: quem não protege quem foi ferido está, na prática, protegendo quem feriu.

Papel no sistema Como age Efeito sobre a vítima
Bode expiatório Recebe a culpa de tudo, inclusive dos atos do agressor Vergonha crônica e sensação de ser o defeito da família
Filho de ouro É idealizado e blindado de qualquer cobrança Comparação constante e invalidação do próprio sofrimento
Facilitador Pede que você ceda “para não criar caso” Aprende que a paz depende do seu silêncio
Mediador Tenta apaziguar e cobra “compreensão” de quem sofre Sente que reclamar é egoísmo e engole a dor
Criança perdida Some emocionalmente para não virar alvo Isolamento e desconexão dos próprios sentimentos

DARVO em escala familiar: quando denunciar vira “atacar a família”

Existe um roteiro previsível para o momento em que a vítima fala. Ele se chama DARVO, sigla em inglês para negar, atacar e inverter os papéis de vítima e agressor. Os estudos de Sarah Harsey e Jennifer Freyd mostram que, ao ser confrontado, o abusador nega os fatos, ataca a credibilidade de quem acusa e se apresenta como o verdadeiro injustiçado, e que a exposição a esse roteiro aumenta a tendência do observador a culpar a vítima e duvidar dela [3]. Numa família, o DARVO não fica na boca de uma pessoa só: ele é adotado pelo grupo.

Na prática funciona assim. Você diz que foi humilhada. A família nega (“ele nunca faria isso”, “você entendeu errado”). Em seguida ataca (“sempre foi complicada”, “está fazendo drama de novo”, “quer chamar atenção”). E finalmente inverte: o agressor vira a vítima (“olha como você está deixando seu pai doente”, “você está destruindo essa família”). No fim da conversa, quem precisa se explicar, pedir desculpas e provar boa intenção é você. O tema deixou de ser o abuso e passou a ser o seu “jeito de falar”. Essa troca de foco é o coração da inversão.

Reconhecer o DARVO coletivo tira o chão da manipulação. Quando você percebe que negar, atacar e inverter são passos de um roteiro, para de tentar vencer o debate ponto a ponto, que é uma armadilha, e passa a observar o padrão. Não é que você não saiba se explicar, é que o objetivo do grupo nunca foi entender você, foi encerrar o assunto protegendo o agressor.

Trauma de traição: por que dói mais quando é a família

Ser maltratado por um estranho fere. Ser maltratado e depois abandonado por quem deveria proteger fere de um jeito diferente e mais profundo. A teoria do trauma de traição, formulada por Jennifer Freyd, descreve exatamente isso: quando o dano vem de alguém de quem a pessoa depende para sobreviver ou pertencer, a mente às vezes precisa “não ver” a traição para manter o vínculo, um mecanismo chamado cegueira à traição [4]. É por isso que muitas vítimas demoram anos para nomear o que viveram e ainda buscam a aprovação de quem as feriu.

A pesquisa sobre traição institucional ampliou esse conceito para instituições e grupos que deveriam acolher e, em vez disso, silenciam ou culpam a vítima. Smith e Freyd mostraram que, quando o ambiente que deveria ser um porto seguro trai a confiança de quem sofreu, os sintomas de trauma se agravam, os chamados “portos seguros perigosos” [5]. A família é o primeiro desses portos. Quando ela fecha fileira com o agressor, não só falha em proteger, ela adiciona uma segunda camada de dano sobre a primeira.

Esse segundo dano tem uma assinatura específica: vergonha e dissociação. O estudo de Platt e Freyd encontrou que traumas de alta traição, aqueles cometidos por pessoas próximas e de confiança, estão mais associados a vergonha e a estados dissociativos do que traumas de baixa traição [6]. Traduzindo: quando quem te machuca é quem deveria te amar, a mente tende a se desligar e a virar a culpa contra si mesma, porque acreditar que “o problema sou eu” preserva, ao menos na fantasia, a esperança de ser aceita de volta.

O bode expiatório e o custo na saúde de longo prazo

Carregar por anos o papel de culpado da família não é um detalhe biográfico, é um fator de risco de saúde. O estudo ACE, conduzido por Felitti e colaboradores com mais de dezessete mil adultos, mostrou uma relação em degraus entre experiências adversas na infância, incluindo abuso emocional e disfunção familiar, e problemas de saúde física e mental na vida adulta, da depressão a doenças crônicas [7]. Crescer sendo o alvo de um sistema que protege o agressor é, por definição, uma adversidade repetida.

Há também o custo relacional. A pesquisa de Agllias sobre afastamento familiar mostra que romper ou ser rompido pela família traz luto, estigma e solidão duradouros, ainda que muitas vezes seja a decisão que preserva a saúde de quem parte [8]. Isso ajuda a explicar por que sair de um sistema que te culpa é tão difícil: não se trata só de deixar um agressor, é encarar a perda de um pertencimento inteiro e o julgamento de quem ficou. Reconhecer esse luto como legítimo, e não como fraqueza, faz parte da recuperação.

A vítima costuma chegar ao consultório com queixas físicas reais, insônia, dores, alterações de apetite, cansaço que não passa, sem conectar tudo isso à história de ser o bode expiatório. Nomear a origem não elimina os sintomas de imediato, mas devolve sentido à experiência e abre caminho para o cuidado certo, em vez de anos girando entre exames que não explicam o que o corpo já sabia.

Por que você duvida de si mesma diante de tantas vozes

Uma coisa é uma pessoa dizer que você exagera. Outra, muito mais desestabilizadora, é o grupo inteiro repetir a mesma frase. Ambientes que invalidam de forma sistemática o que a pessoa sente têm efeito mensurável. O estudo experimental de Shenk e Fruzzetti mostrou que respostas invalidantes, aquelas que negam ou minimizam a emoção do outro, aumentam a ativação fisiológica e a angústia, enquanto respostas validantes a reduzem [9]. Numa família que protege o abusador, a vítima recebe invalidação em dose contínua, e o corpo responde com o alarme sempre ligado.

Com o tempo, tentar ser ouvida e falhar repetidamente ensina uma lição perigosa: a de que nada que você faça muda o resultado. A revisão de Maier e Seligman sobre desamparo aprendido, revisitando meio século de neurociência, descreve como a experiência de não ter controle sobre eventos aversivos produz passividade, retraimento e uma expectativa generalizada de impotência [10]. É por isso que muitas vítimas param de se defender, não por concordarem, mas por já terem aprendido que defender-se não adianta e ainda piora. Esse silêncio é lido pela família como “prova” de que não havia nada de errado, fechando o círculo.

Entender esses dois mecanismos, invalidação crônica e desamparo aprendido, muda a leitura que você faz de si. Você não é fraca por ter duvidado da própria percepção, você foi submetida a um ambiente projetado para produzir exatamente essa dúvida. E, assim como o desamparo é aprendido, ele pode ser desaprendido, quando a pessoa reencontra contextos em que a sua palavra tem peso.

Família saudável Família que protege o narcisista
Escuta o relato antes de julgar Nega os fatos antes mesmo de ouvir
Responsabiliza quem cometeu o dano Responsabiliza quem denunciou o dano
Aceita rever a imagem de um membro Defende a imagem do agressor a qualquer custo
Valida a emoção mesmo quando é difícil Invalida (“drama”, “exagero”) para encerrar o tema
Permite que cada um tenha sua verdade Exige uma versão única, a do mais forte

O que isso faz com a mente e o corpo

Viver como alvo de um sistema que te culpa deixa marcas que a ciência já mapeia. A emoção central é a culpa somada à vergonha, e essa combinação tem peso clínico. A meta-análise de Kim, Thibodeau e Jorgensen, reunindo mais de cem estudos, encontrou associação robusta entre vergonha e sintomas depressivos, mais forte do que a da culpa isolada [11]. A vergonha é a emoção do “eu sou ruim”, diferente da culpa do “eu fiz algo ruim”, e é justamente o “eu sou ruim” que o papel de bode expiatório instala.

Essa vergonha não fica parada. Ela alimenta a ruminação, aquele pensamento em loop revisitando cada conversa, cada acusação, cada “e se eu tivesse ficado calada”. A revisão de Nolen-Hoeksema e colaboradores mostra que ruminar prolonga e aprofunda quadros depressivos e ansiosos, funcionando como combustível do sofrimento em vez de solução [13]. O trabalho de Tangney sobre emoções morais reforça a distinção: enquanto a culpa saudável orienta reparação, a vergonha tende a gerar esquiva, defensividade e mais autocrítica, um ciclo que se retroalimenta [12].

No longo prazo, abuso emocional repetido dentro de relações de confiança é terreno fértil para o TEPT-C, o transtorno de estresse pós-traumático complexo. Herman descreveu esse quadro em sobreviventes de traumas prolongados e repetidos, marcado por desregulação emocional, autopercepção destruída e dificuldade nos vínculos [14], e a revisão de Maercker e colaboradores na Lancet consolidou o TEPT-C como diagnóstico da CID-11, com os três agrupamentos de sintomas que se somam ao TEPT clássico [15]. A meta-análise de Dokkedahl e colaboradores mostrou ainda que a violência psicológica, mesmo sem agressão física, se associa de forma consistente a depressão, ansiedade e sintomas pós-traumáticos [16]. Ou seja: não precisa ter havido um único golpe para o dano ser real e sério.

Sintoma que você sente Mecanismo por trás
“Devo ser eu o problema” Vergonha instalada pelo papel de bode expiatório
Revisar cada conversa por horas Ruminação que prolonga o sofrimento
Desligar, sentir-se anestesiada Dissociação típica de trauma de alta traição
Parar de se defender Desamparo aprendido após invalidação crônica
Corpo em alerta, insônia, dores Ativação fisiológica sustentada pela invalidação

Como se proteger de uma família que blinda o agressor

O erro mais comum, e o mais compreensível, é gastar toda a energia tentando convencer a família. Você monta provas, ensaia argumentos, espera o dia em que finalmente vão entender. Mas um sistema que protege o agressor não decide com base em provas, decide com base no equilíbrio que quer manter. Aceitar isso não é desistir de ser amada, é parar de sangrar numa porta que foi trancada por dentro. A partir daí, o foco muda de “como faço eles acreditarem em mim” para “como eu me protejo enquanto isso”.

Alguns passos ajudam. Primeiro, buscar validação fora do sistema: um terapeuta, um médico, um amigo que não pertença àquele círculo, alguém cuja escuta não dependa de proteger o agressor. Segundo, ajustar expectativas de contato: com facilitadores e defensores do abusador, respostas curtas, neutras e sem detalhes emocionais, a lógica da pedra cinza, reduzem o combustível do conflito. Terceiro, documentar para si, guardar mensagens e registrar fatos, não para “vencer”, mas para ancorar a própria memória contra o gaslighting coletivo. Quarto, permitir-se o luto da família que você gostaria de ter, reconhecendo que afastamento, quando necessário, é uma decisão de saúde e não um crime [8].

Do ponto de vista clínico, tratamentos com evidência para trauma complexo, como as psicoterapias focadas em trauma, o EMDR e abordagens de regulação emocional, ajudam a desmontar a vergonha, reduzir a ruminação e devolver à pessoa a percepção de controle que o desamparo aprendido havia apagado [10]. O corpo que passou anos em alerta pode reaprender a segurança, e a palavra que foi silenciada pode reencontrar peso. Não existe interruptor mágico, existe processo, e ele funciona melhor com acompanhamento profissional do que na solidão.

Quando procurar ajuda

Se você se reconheceu neste texto e vem sofrendo com culpa persistente, desânimo, insônia, crises de ansiedade ou pensamentos de que a vida não vale a pena, procure ajuda profissional. Uma avaliação com médico ou psicólogo permite entender o que está acontecendo e construir um plano de cuidado. Em momentos de sofrimento intenso ou ideias de morte, o Centro de Valorização da Vida atende de graça e em sigilo pelo telefone 188, 24 horas por dia. Em emergência, procure o serviço de urgência mais próximo. Pedir ajuda não é dividir a família nem trair ninguém, é escolher a própria vida.

Este tema também está no Instagram do Dr. Anderson Contaifer, em formato visual:

Perguntas frequentes sobre a família que protege o narcisista

Por que minha família defende o abusador em vez de me proteger?

Geralmente por três motivos somados: medo de perder o equilíbrio do grupo, conveniência de não encarar a própria omissão e apego à imagem pública do agressor. Reconhecer o abuso obrigaria cada um a rever a própria história, e é emocionalmente mais barato tratar você como o problema. Não costuma ser falta de amor, é um sistema protegendo o próprio funcionamento às suas custas.

O que é bode expiatório dentro de uma família narcisista?

É o papel de quem recebe a culpa por tudo o que dá errado, inclusive pelos atos do agressor. O grupo descarrega nessa pessoa as tensões que não quer encarar, o que alivia a angústia coletiva à custa de quem foi escolhido como alvo. Costuma cair sobre quem enxerga e nomeia o abuso, justamente por ameaçar a narrativa oficial da família.

Por que dói mais ser traído pela família do que por um estranho?

Porque soma o abuso à traição de quem deveria proteger. A teoria do trauma de traição mostra que danos vindos de pessoas de quem dependemos geram vergonha e dissociação mais intensas, e a mente às vezes precisa “não ver” a traição para manter o vínculo. Quando quem machuca é quem deveria amar, a tendência é virar a culpa contra si mesma.

O que é DARVO e como a família usa esse roteiro?

DARVO é a sigla para negar, atacar e inverter os papéis de vítima e agressor. Ao ser confrontada, a família nega os fatos, ataca a sua credibilidade (“sempre foi complicada”) e inverte, transformando o agressor em vítima (“você está destruindo a família”). No fim, quem precisa se explicar é você, e o abuso sai de foco. É um padrão previsível, não um acaso.

Estou errada por querer me afastar da minha família?

Afastar-se de um sistema que protege o agressor e culpa você é uma decisão de saúde, não um erro moral. Pesquisas sobre afastamento familiar mostram que ele traz luto e estigma, mas muitas vezes preserva a integridade de quem parte. Você não é obrigada a manter proximidade com quem valida quem te feriu. Reconhecer esse luto como legítimo faz parte de se recuperar.

Por que eu duvido de mim mesma mesmo sabendo o que aconteceu?

Porque a invalidação repetida por várias pessoas produz dúvida por design. Quando o grupo inteiro repete que você exagera, a frase deixa de soar como opinião e passa a soar como consenso. Somado ao desamparo aprendido, isso ensina que defender-se não adianta. A dúvida não é sinal de fraqueza, é o efeito esperado de um ambiente construído para produzi-la.

Abuso só emocional, sem agressão física, faz mal de verdade?

Sim. A meta-análise sobre violência psicológica mostra associação consistente com depressão, ansiedade e sintomas pós-traumáticos, mesmo na ausência de agressão física. Abuso emocional prolongado dentro de relações de confiança é um dos terrenos mais férteis para o TEPT-C. O dano é real e mensurável, ainda que não deixe marcas visíveis.

Como responder quando a família me acusa de “dividir todo mundo”?

Evite entrar no debate ponto a ponto, que é a armadilha da inversão. Respostas curtas e neutras, sem detalhes emocionais, tiram o combustível do conflito. Guarde a energia para quem realmente escuta, dentro ou fora da família, e busque validação em um espaço seguro, como a terapia. Você não precisa vencer a discussão para ter razão sobre o que viveu.

É possível se recuperar depois de anos sendo o bode expiatório?

Sim. Tratamentos com evidência para trauma complexo, como psicoterapias focadas em trauma, EMDR e estratégias de regulação emocional, ajudam a desmontar a vergonha, reduzir a ruminação e recuperar a sensação de controle. Assim como o desamparo é aprendido, ele pode ser desaprendido em contextos onde a sua palavra volta a ter peso. A recuperação é um processo, e funciona melhor com acompanhamento profissional.

Qual a diferença entre uma família que discorda de mim e uma que protege o abusador?

Uma família saudável pode discordar, mas escuta antes de julgar, aceita rever a imagem de um membro e valida a sua emoção mesmo quando é difícil. A família que protege o abusador nega antes de ouvir, defende a imagem dele a qualquer custo e responsabiliza quem denunciou. A diferença não está em concordar com você, está em de que lado o sistema se coloca diante do dano.

Referências científicas

  1. [1] Gemmill G. The Dynamics of Scapegoating in Small Groups. Small Group Behavior. 1989. https://doi.org/10.1177/104649648902000402
  2. [2] Sweet PL. The Sociology of Gaslighting. American Sociological Review. 2019. https://doi.org/10.1177/0003122419874843
  3. [3] Harsey S, Freyd JJ. Deny, Attack, and Reverse Victim and Offender (DARVO): What Is the Influence on Perceived Perpetrator and Victim Credibility? Journal of Aggression, Maltreatment and Trauma. 2020. https://doi.org/10.1080/10926771.2020.1774695
  4. [4] Freyd JJ. Violations of Power, Adaptive Blindness and Betrayal Trauma Theory. Feminism and Psychology. 1997. https://doi.org/10.1177/0959353597071004
  5. [5] Smith CP, Freyd JJ. Dangerous Safe Havens: Institutional Betrayal Exacerbates Sexual Trauma. Journal of Traumatic Stress. 2013. https://doi.org/10.1002/jts.21778
  6. [6] Platt MG, Freyd JJ. Betray my trust, shame on me: Shame, dissociation, fear, and betrayal trauma. Psychological Trauma: Theory, Research, Practice, and Policy. 2015. https://doi.org/10.1037/tra0000022
  7. [7] Felitti VJ, Anda RF, Nordenberg D, et al. Relationship of Childhood Abuse and Household Dysfunction to Many of the Leading Causes of Death in Adults. American Journal of Preventive Medicine. 1998. https://doi.org/10.1016/S0749-3797(98)00017-8
  8. [8] Agllias K. The Gendered Experience of Family Estrangement in Later Life. Affilia: Journal of Women and Social Work. 2013. https://doi.org/10.1177/0886109913495727
  9. [9] Shenk CE, Fruzzetti AE. The Impact of Validating and Invalidating Responses on Emotional Reactivity. Journal of Social and Clinical Psychology. 2011. https://doi.org/10.1521/jscp.2011.30.2.163
  10. [10] Maier SF, Seligman MEP. Learned helplessness at fifty: Insights from neuroscience. Psychological Review. 2016. https://doi.org/10.1037/rev0000033
  11. [11] Kim S, Thibodeau R, Jorgensen RS. Shame, guilt, and depressive symptoms: A meta-analytic review. Psychological Bulletin. 2011. https://doi.org/10.1037/a0021466
  12. [12] Tangney JP, Stuewig J, Mashek DJ. Moral Emotions and Moral Behavior. Annual Review of Psychology. 2007. https://doi.org/10.1146/annurev.psych.56.091103.070145
  13. [13] Nolen-Hoeksema S, Wisco BE, Lyubomirsky S. Rethinking Rumination. Perspectives on Psychological Science. 2008. https://doi.org/10.1111/j.1745-6924.2008.00088.x
  14. [14] Herman JL. Complex PTSD: A syndrome in survivors of prolonged and repeated trauma. Journal of Traumatic Stress. 1992. https://doi.org/10.1002/jts.2490050305
  15. [15] Maercker A, Cloitre M, Bachem R, et al. Complex post-traumatic stress disorder. The Lancet. 2022. https://doi.org/10.1016/S0140-6736(22)00821-2
  16. [16] Dokkedahl SB, Kirubakaran R, Bech-Hansen D, et al. The psychological subtype of intimate partner violence and its effect on mental health: a systematic review with meta-analyses. Systematic Reviews. 2022. https://doi.org/10.1186/s13643-022-02025-z

Conteúdo educativo produzido pelo Dr. Anderson Contaifer, médico especialista em Clínica Médica (CRM-SC 24.484 | RQE 18.790).

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Sobre o autor

Dr. Anderson Contaifer de Carvalho é médico especialista em Clínica Médica (CRM-SC 24.484 | RQE 18.790), formado pela EMESCAM em 2012, com título de especialista em clínica médica pela SBCM em 2019. Possui pós-graduação em Saúde da Família, Nutrologia e Medicina Intensiva, além de certificações ACLS e ATLS. É o criador do Quebrando as Algemas, programa dedicado à recuperação de vítimas de abuso narcisista, médico com atuação nas repercussões clínicas e emocionais de relacionamentos abusivos. Certificado Excelência Doctoralia 2025.

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