É possível reconstruir a vida depois de um relacionamento violento sem precisar dizer que a violência “foi necessária”. Algumas pessoas percebem mudanças positivas em sua autonomia, nos vínculos e nas possibilidades de futuro. Outras estão concentradas em sobreviver, dormir melhor ou recuperar uma rotina segura. Nenhuma dessas trajetórias diminui o valor de quem sofreu abuso.
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Uma revisão sistemática da pesquisadora Rujeko O. Machinga-Asaolu, publicada na revista Trauma, Violence, & Abuse, reuniu 22 estudos sobre os fatores que favorecem ou dificultam o crescimento pós-traumático entre sobreviventes de violência por parceiro íntimo. O trabalho ajuda a compreender a recuperação como um processo que envolve a pessoa, suas relações e as condições concretas em que ela vive.
Agradeço à Dra. Rujeko O. Machinga-Asaolu pela gentileza de me enviar, por e-mail, uma cópia de seu trabalho para estudo. A leitura integral desse material fundamenta a análise apresentada aqui.
Este artigo apresenta os resultados da revisão, explica seus limites e discute suas implicações para quem viveu abuso e para quem oferece cuidado. Quando descrevo os estudos incluídos, os dados são aqueles sintetizados pela autora; as reflexões práticas são uma interpretação desses achados, e não um protocolo de tratamento testado pela revisão.
O que é crescimento pós-traumático?
Crescimento pós-traumático é o nome dado a mudanças psicológicas positivas percebidas no processo de enfrentamento de experiências profundamente desafiadoras. A ideia envolve a reconstrução de referências sobre si, os outros e o futuro após uma experiência que abalou essas referências.
A palavra “crescimento” exige cuidado. Ela não transforma a agressão em algo benéfico, não apaga perdas e não justifica o comportamento de quem praticou a violência. Uma pessoa pode reconstruir sua vida apesar do que aconteceu e continuar reconhecendo que aquilo nunca deveria ter acontecido.
Também é útil distinguir três aspectos: recuperar funções e bem-estar; conseguir adaptar-se diante das adversidades; e perceber transformações em prioridades, identidade ou possibilidades. Esses processos podem se aproximar, mas não são equivalentes. Voltar a trabalhar ou recuperar o sono já pode ser uma conquista importante, mesmo sem uma narrativa de transformação pessoal.
Os cinco domínios investigados
- Apreciação da vida: mudanças nas prioridades e na importância atribuída ao cotidiano.
- Relação com outras pessoas: vínculos mais significativos, maior capacidade de pedir ajuda ou critérios mais claros para confiar.
- Força pessoal: reconhecimento da própria capacidade de decidir, enfrentar dificuldades e estabelecer limites.
- Novas possibilidades: interesses, projetos, caminhos profissionais ou formas de viver que antes pareciam inacessíveis.
- Mudanças espirituais: transformações no sentido de vida ou nas experiências espirituais, quando esse domínio é relevante para a pessoa.
Esses domínios são dimensões de pesquisa, não uma lista de tarefas. Ninguém precisa apresentar mudanças em todos eles. É possível sentir mais autonomia e, ao mesmo tempo, ter dificuldade para confiar; encontrar novos projetos e ainda sofrer com lembranças dolorosas.
O que a pesquisadora fez — e o que esse método permite concluir
Machinga-Asaolu realizou buscas em junho de 2023 em sete bases: Academic Search Complete, MEDLINE, APA PsycInfo, CINAHL, Psychology and Behavioral Sciences Collection, PubMed Central e Web of Science. O trabalho seguiu orientações PRISMA, relata registro no PROSPERO e utilizou o Mixed Methods Appraisal Tool para avaliar a qualidade metodológica dos estudos.
A seleção buscou pesquisas revisadas por pares, publicadas em inglês, sobre sobreviventes adultos de violência por parceiro íntimo. Foram incluídos estudos quantitativos, qualitativos e de métodos mistos. A revisão sintetizou 22 estudos, com diferentes populações, instrumentos e contextos.
Essa diversidade permitiu reunir tanto medidas de crescimento quanto relatos sobre a experiência de reconstrução. Porém, também impediu uma combinação estatística dos resultados: a revisão fez uma síntese narrativa, não uma metanálise. Portanto, ela não fornece uma porcentagem única de pessoas que “vão crescer”, um tamanho de efeito conjunto ou a comprovação de que determinada estratégia produzirá o mesmo resultado para todos.
Outro detalhe importante é a data: o artigo saiu primeiro online em outubro de 2024 e integra o volume de 2025 da revista, mas sua busca bibliográfica foi realizada em 2023. Ele é uma contribuição relevante, não um retrato de todos os estudos publicados até hoje.
A pesquisa é sobre violência por parceiro íntimo, não sobre um diagnóstico do agressor
A violência por parceiro íntimo abrange agressões físicas, violência sexual, abuso psicológico e perseguição por parceiros ou ex-parceiros. Esse campo dialoga com situações frequentemente discutidas neste blog, como humilhação, controle, desqualificação e perda de autonomia em relacionamentos abusivos.
Entretanto, a revisão não selecionou os estudos com base em diagnóstico de transtorno de personalidade narcisista dos agressores. Por isso, não seria correto apresentar seus resultados como prova específica de recuperação “de um narcisista”. O foco está na violência vivida e nas condições de recuperação. Reconhecer o dano e buscar proteção não exige diagnosticar a outra pessoa.
O principal resultado: a reconstrução depende de três conjuntos de fatores
A autora organizou os achados em fatores interpessoais, ligados às relações e ao apoio recebido; contextuais, ligados às circunstâncias da vida; e intrapessoais, ligados aos processos psicológicos e emocionais. Cada conjunto pode oferecer recursos ou obstáculos.
Essa organização corrige uma simplificação frequente: tratar a recuperação apenas como uma questão de atitude. Uma pessoa pode estar empenhada em se cuidar e continuar enfrentando ameaças, dificuldades financeiras ou instituições que não a acolhem. Esses obstáculos não são falta de força de vontade.
1. Relações que oferecem apoio e devolvem autonomia
O apoio social aparece em 13 artigos incluídos na revisão. Ele pode vir de familiares, amigos, pares, profissionais, comunidades e serviços. O resultado chama atenção para a importância de não atravessar a reconstrução sem recursos relacionais, mas não significa que qualquer contato social seja protetor.
Uma rede pode ajudar quando acredita no relato, respeita decisões e oferece auxílio concreto. Pode dificultar quando culpabiliza, minimiza a violência, pressiona por reconciliação ou exige uma recuperação rápida. Na aplicação prática, a qualidade e a segurança do vínculo importam mais do que simplesmente “ter muita gente por perto”.
Os estudos também descrevem vínculos com filhos como fonte de sentido e motivação para algumas mulheres. Essa observação não transforma a maternidade em condição para se recuperar. Cuidar de filhos pode coexistir com sobrecarga, preocupações de segurança e necessidade de manter algum contato com o ex-parceiro. Uma orientação responsável precisa considerar essas circunstâncias.
2. Segurança e condições materiais para reconstruir a vida
A continuidade da violência e a revitimização aparecem como barreiras. A autora destaca a prioridade de interromper a exposição à violência. Isso reforça que falar sobre crescimento não pode desviar a atenção da proteção e das necessidades imediatas.
Essa prioridade não autoriza culpar quem ainda não conseguiu sair, nem negar cuidado enquanto a situação continua. Uma separação pode envolver dependência econômica, filhos, ameaças e restrições práticas. Apoio e planejamento de segurança precisam respeitar o contexto, sem impor confrontos ou rupturas improvisadas.
Preocupações financeiras e dificuldades para atender necessidades básicas também pesam. Ter onde morar, acesso a recursos e apoio dos serviços pode abrir espaço para retomar escolhas. Não é razoável cobrar novos projetos de alguém que ainda está tentando garantir alimentação, moradia ou proteção.
O tempo desde a violência apresentou resultados inconsistentes. Ele pode se relacionar com oportunidades de elaboração, mas o simples passar dos meses não garante melhora. A revisão não estabelece um prazo universal de recuperação.
3. Reconstrução da identidade e da capacidade de escolher
Entre os fatores pessoais, aparecem processos como reorganização das crenças, percepção de competência, reconstrução da identidade, manejo do sofrimento e reconhecimento de possibilidades. Esses termos descrevem um trabalho psicológico que pode ser gradual e apoiado por outras pessoas.
Imagine alguém que passou anos ouvindo que não era capaz de decidir. Pequenas experiências de escolha, acolhimento e realização podem ajudá-la a revisar essa crença. A mudança não depende apenas de repetir uma frase positiva: envolve encontrar experiências e relações que tornem uma compreensão diferente de si mais possível.
Esse é um exemplo explicativo, não um resultado individual previsto pelo estudo. A revisão não demonstra um mecanismo cerebral específico, não mede “reprogramação” e não oferece um teste que indique quem conseguirá se recuperar.
Pensar sobre o trauma pode ajudar? Depende de como isso acontece
A revisão discute a elaboração de significado e a chamada ruminação deliberada: uma reflexão intencional sobre o ocorrido, as crenças abaladas e as possibilidades futuras. Ela se distingue da repetição involuntária e angustiante de pensamentos que invade a vida sem que a pessoa consiga escolher quando parar.
Uma pergunta como “o que preciso para me sentir mais segura agora?” pode abrir caminhos diferentes de uma repetição autoculpabilizante como “por que eu permiti tudo isso?”. Essa distinção ajuda a compreender a hipótese de reconstrução de significados, mas não torna o sofrimento voluntário nem facilmente controlável.
Na prática, não se deve obrigar alguém a relatar detalhes, reviver acontecimentos ou encontrar um sentido positivo. A possibilidade de falar, o ritmo e o contexto precisam ser seguros. Ter pensamentos persistentes não significa estar falhando em elaborar a experiência.
O que os estudos concretos acrescentam
Alguns exemplos da síntese mostram por que é importante olhar além de uma lista de fatores:
- Mulheres indígenas no Canadá: o estudo de Giesbrecht e colegas, com 101 participantes, examinou uma intervenção cultural e artística. A revisão descreve aumento de crescimento pós-traumático e destaca conexão cultural, expressão artística e pertencimento. O resultado ajuda a pensar em cuidado culturalmente situado; não demonstra que qualquer atividade artística, isoladamente, terá o mesmo efeito.
- Mulheres com histórias de dependência e vitimização: Edwards e colegas estudaram 59 mulheres em uma residência voltada à sobriedade. A síntese relaciona a reconstrução a apoio comunitário e atendimento de necessidades básicas, enquanto dificuldades financeiras, depressão e violência recente aparecem como obstáculos. Essa população tem necessidades específicas e não representa todas as sobreviventes.
- Relatos de mulheres na Islândia: dois trabalhos de Bryngeirsdottir e Halldorsdottir exploraram experiências de 22 mulheres que relatavam crescimento. Eles ajudam a compreender facilitadores e barreiras vividos, mas selecionar participantes que já reconhecem crescimento impede estimar sua frequência entre todas as pessoas que sofreram violência.
- Mulheres negras nos Estados Unidos: Mushonga e colegas ouviram oito mulheres e descreveram formas de proteção e reconstrução, inclusive estratégias com significados ambivalentes. Uma amostra qualitativa pequena oferece profundidade sobre experiências; não permite transformar cada estratégia relatada em uma recomendação universal.
Esses exemplos também mostram que não é adequado somar todas as amostras como se fossem pessoas diferentes expostas ao mesmo tipo de violência. Há publicações sobre o mesmo grupo e estudos que incluem outras experiências traumáticas. O valor da revisão está na integração crítica, não em produzir um número artificialmente grande de participantes.
Espiritualidade e novas possibilidades: como interpretar o destaque
Entre os 14 estudos que identificaram domínios específicos de crescimento, espiritualidade e novas possibilidades foram descritas em nove estudos cada. Os demais oito trabalhos da revisão não especificaram esses domínios. Esses números indicam quantos estudos mencionaram cada dimensão; não indicam a porcentagem de sobreviventes que apresentou aquela mudança.
Espiritualidade pode envolver sentido, pertencimento, práticas culturais e vínculos comunitários. Para algumas pessoas, isso ajuda a construir uma vida menos centrada no relacionamento violento. Entretanto, fé não é requisito para a recuperação, e apoio espiritual deve respeitar a escolha de cada pessoa.
Uma aplicação ética desses achados também precisa reconhecer que mensagens religiosas podem ser usadas para pressionar pela permanência no abuso, pelo silêncio ou por um perdão obrigatório. A revisão não autoriza esse uso. A contribuição potencial de um recurso espiritual depende de ele favorecer dignidade e autonomia.
Novas possibilidades podem ser discretas: voltar a estudar, escolher uma atividade, recuperar amizades ou imaginar um futuro que não seja organizado em torno das exigências do parceiro. Elas não precisam assumir a forma de uma grande mudança de carreira ou de uma história pública de superação.
Isolamento, desconfiança e culpa: os achados que exigem mais cuidado
A revisão relata que algumas estratégias habitualmente consideradas pouco adaptativas, como isolamento e desconfiança, foram descritas como protetoras em determinados contextos. Uma distância temporária de pessoas inseguras pode ter um significado diferente de um isolamento prolongado de toda fonte de apoio.
A própria autora alerta que o aparente benefício pode refletir alívio de curto prazo e requer mais investigação. Portanto, não cabe recomendar que sobreviventes se isolem ou desconfiem de todos. A questão clínica é compreender a função daquela estratégia, seus custos e as alternativas disponíveis, sem retirar abruptamente uma proteção antes de construir outra.
Do mesmo modo, associações entre sofrimento, autoculpabilização e medidas de crescimento, presentes em parte da literatura discutida, não demonstram que culpa ou sintomas sejam ingredientes necessários para melhorar. Associação estatística não define causa, e uma pessoa pode relatar mudanças positivas enquanto ainda carrega sofrimento importante.
A tabela da revisão também inclui resultados relativos à gravidade da violência, escolaridade e tempo. Eles não autorizam concluir que mais violência favorece a saúde, que estudar atrapalha a recuperação ou que esperar resolve o problema. São achados contextuais, provenientes de pesquisas diferentes, sujeitos a confundimento e limitações de medida.
Crescimento e sofrimento podem coexistir
Uma das mensagens mais relevantes para quem sofreu abuso é que reconhecer alguma transformação não obriga a negar o dano. A pessoa pode ter critérios mais claros para seus relacionamentos e continuar com medo; sentir orgulho de escolhas recentes e ainda vivenciar tristeza ou sintomas relacionados ao trauma.
O crescimento percebido não equivale a ausência de transtorno de estresse pós-traumático, depressão ou outras dificuldades. Tampouco uma escala de crescimento substitui avaliação clínica. O sofrimento merece cuidado mesmo quando a pessoa consegue identificar aspectos positivos em sua trajetória.
O inverso também é verdadeiro: não conseguir reconhecer crescimento não significa fracasso. Segurança, redução do sofrimento, descanso e possibilidade de viver com autonomia são objetivos valiosos por si mesmos.
Quais são os limites da evidência?
- Desenhos diferentes: entrevistas, pesquisas observacionais e estudos longitudinais respondem a perguntas distintas. Não é possível tratá-los como ensaios equivalentes de uma mesma intervenção.
- Poucos acompanhamentos ao longo do tempo: a autora destaca a necessidade de mais estudos longitudinais. Sem acompanhar trajetórias, é difícil estabelecer a sequência das mudanças e separar causa de consequência.
- Crescimento frequentemente autorrelatado: perceber mudanças é uma experiência relevante, mas não é o mesmo que demonstrar melhora objetiva em todas as áreas da vida.
- Representatividade limitada: a literatura reunida concentra-se em mulheres, com predomínio de sobreviventes adultas cisgênero. Não permite transportar automaticamente as conclusões para homens, adolescentes ou pessoas de outras identidades de gênero.
- Lacunas culturais e geográficas: predominam países de renda média ou alta; não foram incluídos estudos da África Subsaariana ou da Oceania. O Brasil não aparece entre os contextos listados. Aplicações locais exigem atenção às redes e barreiras brasileiras.
- Seleção por idioma e publicação: a inclusão de artigos em inglês e revisados por pares deixa parte da produção fora do recorte.
- Ausência de uma estimativa conjunta de eficácia: a síntese narrativa identifica caminhos possíveis, mas não estabelece um tratamento universal para produzir crescimento.
Reconhecer esses limites não esvazia o trabalho. Permite usar sua contribuição com precisão: uma organização abrangente de experiências, recursos e obstáculos, capaz de orientar perguntas melhores no cuidado e na pesquisa.
Como esses achados podem orientar o cuidado
A tradução prática mais consistente é ampliar a atenção para além dos sintomas sem deixar de tratá-los. Em vez de exigir transformação, o cuidado pode investigar segurança, necessidades materiais, vínculos confiáveis, sofrimento atual e possibilidades de escolha.
Isso pode envolver escuta sem julgamento, informação sobre violência, apoio à identificação de recursos, avaliação clínica quando necessária e articulação com serviços sociais e outras redes de proteção. A revisão também descreve abordagens informadas pelo trauma, sensíveis à violência e à cultura, além de práticas que reconheçam capacidades já existentes.
Essas propostas precisam ser individualizadas. A síntese não demonstra que uma modalidade de psicoterapia seja superior às demais, nem que espiritualidade, arte ou reflexão substituam tratamento quando ele é necessário. Recursos que ajudam uma pessoa podem ser inadequados para outra.
Para familiares e amigos, uma aplicação possível é trocar cobranças por perguntas concretas: “Que ajuda seria útil?”, “Você se sente segura para conversar?” e “Como posso respeitar suas decisões?”. Essas são sugestões de comunicação derivadas da discussão, não perguntas de uma escala validada.
Perguntas frequentes
Preciso agradecer pelo que vivi para crescer?
Não. Reconhecer mudanças na própria vida não exige gratidão pela violência, reconciliação ou perdão. É possível valorizar sua reconstrução e condenar inteiramente o abuso.
Existe um prazo para me recuperar?
A revisão não identifica um prazo universal. Segurança, continuidade da violência, recursos, vínculos e condições pessoais tornam as trajetórias diferentes. Comparar calendários de recuperação pode acrescentar uma cobrança injusta.
Se ainda tenho sintomas, meu progresso não é real?
Sintomas e mudanças positivas podem coexistir. A presença de sofrimento indica uma necessidade de cuidado, não apaga escolhas e conquistas. Crescimento percebido e melhora clínica devem ser considerados separadamente.
Esses resultados valem especificamente para abuso narcisista?
O trabalho estudou violência por parceiro íntimo, sem exigir diagnóstico de narcisismo no agressor. Há pontos de contato com o abuso psicológico discutido neste blog, mas essa diferença de população precisa ser preservada.
Tenho de me tornar uma pessoa “melhor” depois do trauma?
Não. Você não tem uma dívida de transformação com o que sofreu. Poder viver com segurança e dignidade já é uma finalidade legítima do cuidado.
Uma reconstrução que não apaga a história
A contribuição de Machinga-Asaolu é mostrar que o crescimento pós-traumático pode ser compreendido em suas relações com apoio, contexto e processos pessoais. A responsabilidade por tornar a reconstrução possível não pode ser colocada exclusivamente sobre quem foi ferido.
Uma vida com mais escolhas pode surgir em passos pequenos e irregulares. Ela não precisa justificar o passado nem provar força para ninguém. O cuidado começa por reconhecer a violência, respeitar o sofrimento e oferecer condições para que o futuro possa ser construído com mais liberdade.
Para continuar a leitura: autoestima e reconstrução da identidade após o abuso e fé, espiritualidade e recuperação após o abuso.
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Referência principal
Machinga-Asaolu, R. O. (2025). Post-Traumatic Growth Promoting and Inhibiting Factors Among Intimate Partner Violence Survivors: A Systematic Review. Trauma, Violence, & Abuse, 26(4), 789–803. Publicação online inicial: 26 de outubro de 2024. DOI: 10.1177/15248380241291075. Registro no PubMed.
Os exemplos de Giesbrecht et al. (2022), Edwards et al. (2022), Bryngeirsdottir e Halldorsdottir (2022) e Mushonga et al. (2021) foram apresentados conforme a síntese e as tabelas dessa revisão. Não são descritos aqui como uma análise independente dos textos integrais de cada estudo.
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