Dr. Anderson Contaifer (CRM-SC 24.484, RQE de Clínica Médica 18.790), médico especialista em Clínica Médica e criador do blog Quebrando as Algemas, atende por teleconsulta pessoas com sequelas de abuso narcisista e TEPT-C em todo o Brasil.
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Resposta rápida
A vítima costuma defender quem a machucou por dois mecanismos de proteção que se formam durante o abuso: a identificação com o agressor, em que ela passa a ver a situação pelos olhos dele e a colocar as vontades dele no lugar das próprias, e a dúvida sobre o abuso, em que ela minimiza o que viveu e se culpa. Um estudo de 2026 com 273 mulheres que sofreram abuso na infância mostrou que esses dois processos se associaram a mais sintomas de trauma complexo meses depois. Não é fraqueza nem falta de caráter: é uma adaptação a uma situação em que não havia como se defender.
“Ele não fez por mal.” “Eu também provoquei.” “Ninguém conhece ele como eu.” Quem trabalha com sobreviventes de violência ouve essas frases o tempo todo, muitas vezes de pessoas que acabaram de descrever humilhações, ameaças ou anos de controle. Para a família e os amigos, a defesa parece incompreensível. Para quem defende, ela costuma vir junto com uma pergunta que não sai da cabeça: será que foi mesmo abuso, ou eu estou exagerando?
Este artigo explica o que a ciência chama de identificação com o agressor e de dúvida sobre o abuso, o que um estudo publicado em março de 2026 acrescentou sobre a ligação desses processos com o TEPT complexo, qual é a relação com a chamada síndrome de Estocolmo e o que ajuda a sair desse lugar.
Por que a vítima defende quem a machucou?
O termo identificação com o agressor foi descrito pelo psicanalista Sándor Ferenczi na década de 1930, observando crianças que sofriam abuso. Diante de um adulto mais forte, de quem dependiam, elas não tinham como fugir nem como lutar. A saída possível era outra: prestar atenção máxima ao agressor, antecipar o que ele queria, sentir o que ele sentia e se moldar a isso, a ponto de deixar de lado as próprias percepções.
Na vida adulta, o mesmo mecanismo aparece em relações de controle. A pessoa passa a:
- monitorar o humor do parceiro antes de qualquer coisa que faça;
- explicar e justificar o comportamento dele para os outros (“ele teve uma infância difícil”, “está estressado no trabalho”);
- assumir a culpa pelas explosões dele;
- repetir, sobre si mesma, as críticas que ouvia dele;
- sentir que trair a versão dele dos fatos seria uma deslealdade.
Em curto prazo, isso protege: quem antecipa a raiva do outro consegue, às vezes, evitar o pior. O preço vem depois. Com o tempo, a pessoa perde o acesso ao que ela mesma sente e quer, e a voz do agressor ocupa o lugar da própria. É por isso que muitas vítimas dizem, depois de sair, que não se reconhecem mais, tema que aprofundamos em mudança de personalidade após o abuso.
No Instagram, o Dr. Anderson explica por que o corpo se apega a quem machuca, e por que ainda se defende o agressor:
Será que foi abuso? A dúvida que paralisa
A segunda peça é a dúvida. Ela aparece de várias formas: achar que o que aconteceu “não foi tão grave”, comparar com casos piores, lembrar dos bons momentos como prova de que não era abuso, ou acreditar que a própria reação foi exagerada. Em relações com manipulação constante, essa dúvida costuma ser alimentada de fora, pelo gaslighting e pelas pessoas que protegem o agressor, e de dentro, pela autoculpabilização.
Duvidar não significa que a pessoa esteja inventando nem que o abuso tenha sido leve. Significa que ela ainda não conseguiu dar nome ao que viveu, muitas vezes porque nomear dói e obriga a decisões difíceis.
O que mostrou o estudo de 2026
Lahav e colaboradores, entre eles Marylene Cloitre, uma das principais pesquisadoras do TEPT complexo, publicaram em março de 2026 no European Journal of Psychotraumatology um estudo que acompanhou 273 mulheres adultas com história de abuso na infância, em Israel, em dois momentos. No primeiro, elas responderam a escalas de identificação com o agressor e de dúvida sobre o abuso. No segundo, os sintomas de trauma foram medidos pelo questionário ITQ, o mesmo usado no nosso teste de TEPT-C.
| O que foi medido | O que o estudo encontrou |
|---|---|
| Colocar as vontades e a perspectiva do agressor no lugar das próprias | Associou-se a mais sintomas de TEPT e a mais alterações de auto-organização (dificuldade com emoções, autoimagem negativa e dificuldade nas relações) no segundo momento |
| Dúvida sobre o abuso | Associou-se a mais alterações de auto-organização, que são o que diferencia o TEPT-C do TEPT clássico, mas não aos sintomas de TEPT em si |
| Quantas tinham provável TEPT-C no segundo momento | 22,7%, pelo questionário (não por entrevista clínica) |
Os resultados se mantiveram mesmo considerando os sintomas que as mulheres já tinham no início e o número de tipos de violência que tinham sofrido. Para quem defende o agressor e duvida do que viveu, a mensagem é dupla: esses processos não são frescura, e eles parecem fazer parte do caminho pelo qual o trauma se instala na forma de TEPT complexo.
Limites importantes. As associações foram pequenas (coeficientes em torno de 0,15 a 0,17) e não provam causa: os sintomas também podem aumentar a dúvida e a identificação. A amostra foi recrutada pela internet, só de mulheres e só em Israel, todas com abuso na infância, e não com violência na relação adulta. A escala de dúvida sobre o abuso é nova e ainda precisa ser confirmada por outros grupos. O estudo também não testou nenhum tratamento. (DOI: 10.1080/20008066.2026.2629213)
É síndrome de Estocolmo?
A expressão nasceu em 1973, depois de um assalto a banco em Estocolmo em que reféns passaram a defender os sequestradores. Ela ficou popular e hoje é usada para qualquer situação em que a vítima protege quem a feriu. Mas é importante saber que síndrome de Estocolmo não é um diagnóstico: não está na CID-11 nem no DSM-5-TR. Uma revisão sistemática de Namnyak e colaboradores, publicada em 2008 na Acta Psychiatrica Scandinavica, encontrou poucos estudos, critérios pouco definidos e nenhuma base para tratá-la como um quadro médico próprio. (DOI: 10.1111/j.1600-0447.2007.01112.x)
Isso não quer dizer que o fenômeno não exista. Quer dizer que, para entender o que acontece com você, conceitos mais bem estudados ajudam mais:
| Conceito | O que descreve | Status |
|---|---|---|
| Síndrome de Estocolmo | Vítima que desenvolve simpatia e lealdade pelo agressor | Termo popular, não é diagnóstico |
| Trauma bonding | Vínculo intenso criado pela alternância entre carinho e agressão | Conceito estudado em violência por parceiro, não é diagnóstico |
| Identificação com o agressor | Adotar a perspectiva e as vontades do agressor no lugar das próprias | Conceito clínico com escala de pesquisa |
| Dúvida sobre o abuso | Minimizar, duvidar e se culpar pelo que aconteceu | Conceito recente, com escala de pesquisa |
| TEPT complexo | Sintomas de trauma com alterações nas emoções, na autoimagem e nas relações | Diagnóstico da CID-11 (6B41) |
No vídeo abaixo, o Dr. Anderson fala sobre a síndrome de Estocolmo no abuso narcisista:
E, no Instagram, um resumo do que o termo significa e de onde ele veio:
Como isso aparece no dia a dia
Alguns sinais de que a identificação com o agressor e a dúvida sobre o abuso estão presentes:
- Você se pega pensando “o que ele acharia disso?” antes de decisões pequenas, mesmo depois da separação.
- Quando alguém critica o comportamento dele, você sente vontade de defendê-lo.
- Ao contar o que aconteceu, você suaviza os fatos ou termina com “mas eu também errei”.
- Você guarda mensagens, áudios ou lembranças como se precisasse provar para si mesma que não exagerou.
- As críticas que ouvia dele viraram a forma como você fala consigo.
Nenhum desses sinais, isolado, confirma diagnóstico, e reconhecer o padrão não significa diagnosticar o outro. Eles indicam um caminho de conversa com um profissional.
O que ajuda
- Dar nome. Saber que esses mecanismos têm nome e explicação costuma diminuir a vergonha de “ainda gostar” ou “ainda defender”.
- Registrar fatos, não interpretações. Anotar o que aconteceu, quando e como você se sentiu ajuda a separar a sua percepção da versão que você aprendeu a repetir.
- Recuperar a própria voz aos poucos. Decisões pequenas tomadas a partir do que você quer, e não do que ele aprovaria, são parte do tratamento.
- Psicoterapia focada em trauma. EMDR, Brainspotting e terapia cognitivo-comportamental focada no trauma são as abordagens indicadas quando há sintomas de TEPT ou TEPT-C.
- Avaliação médica dos efeitos no corpo. Insônia, ansiedade, cansaço persistente, dores e alterações de apetite merecem avaliação clínica, porque também fazem parte do quadro.
- Segurança em primeiro lugar. Se ainda há risco, o Ligue 180 orienta e o 190 atende emergências. Veja também como pedir medida protetiva no seu estado.
Perguntas frequentes
Por que eu defendo quem me machucou?
Porque, durante a relação, colocar a perspectiva dele no lugar da sua foi uma forma de se proteger. Esse mecanismo, chamado identificação com o agressor, pode continuar ativo mesmo depois que o perigo passou.
Duvidar se foi abuso significa que não foi?
Não. A dúvida é comum em quem viveu manipulação e culpa constantes. No estudo de 2026, ela se associou a mais sintomas de trauma complexo, e não a experiências mais leves.
Síndrome de Estocolmo é doença?
Não é um diagnóstico reconhecido na CID-11 nem no DSM-5-TR. É um termo popular para um fenômeno real, que hoje é mais bem explicado por conceitos como trauma bonding e identificação com o agressor.
Isso tem tratamento?
Tem. Psicoterapia focada em trauma ajuda a recuperar a própria perspectiva, e o acompanhamento médico cuida dos sintomas no corpo e do sono. O ritmo é individual.
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Leia também
- Trauma bonding: por que a vítima de abuso ama o agressor
- Autoculpabilização: por que você assume a culpa pelo abuso
- Ceder ao narcisista não é fraqueza: a resposta de apaziguamento
- TEPT complexo: sintomas, CID-11 e tratamento
Referências científicas
- Lahav Y, Cloitre M, Shevlin M, Ben-Ezra M, Karatzias T. Doubt regarding abuse-related appraisals and identification with the aggressor as predictors of complex PTSD in female child abuse survivors. European Journal of Psychotraumatology. 2026;17(1):2629213. (DOI: 10.1080/20008066.2026.2629213)
- Namnyak M, Tufton N, Szekely R, Toal M, Worboys S, Sampson EL. “Stockholm syndrome”: psychiatric diagnosis or urban myth? Acta Psychiatrica Scandinavica. 2008;117(1):4-11. (DOI: 10.1111/j.1600-0447.2007.01112.x)
- Brewin CR. Complex post-traumatic stress disorder: a new diagnosis in ICD-11. BJPsych Advances. 2020;26(3):145-152. (DOI: 10.1192/bja.2019.48)
Conteúdo educativo, não substitui avaliação individual. Em situação de risco, ligue 190; para orientação sobre violência contra a mulher, Ligue 180; para apoio emocional, CVV 188.
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