Dr. Anderson Contaifer (CRM-SC 24.484, RQE de Clínica Médica 18.790), médico especialista em Clínica Médica e criador do blog Quebrando as Algemas, atende por teleconsulta pessoas com sequelas de abuso narcisista e TEPT-C em todo o Brasil.
Quer conversar sobre o que você está vivendo com o Dr. Anderson Contaifer (médico, CRM-SC 24.484, especialista em Clínica Médica, RQE 18.790)? Agendar teleconsulta · 1 hora · adultos · atendimento exclusivamente online. A equipe informa horários e condições. Como funciona a consulta.
Resposta rápida
Sim. Um estudo de 2025, feito na Harvard University, entrevistou 9 profissionais de saúde mental com experiência no tratamento do transtorno de personalidade narcisista (TPN). Eles descreveram um diagnóstico muito estigmatizado: a palavra “narcisista” virou xingamento, pacientes escondem o diagnóstico e muita gente acredita que não há mudança possível. Para os entrevistados, isso atrapalha o diagnóstico e o tratamento. Reconhecer esse estigma não apaga o abuso que alguém sofreu: as duas coisas podem ser verdade ao mesmo tempo.
Agradecimento especial
Obrigado, Emily Mellen
O estudo explicado neste artigo foi enviado ao Dr. Anderson pela pesquisadora Emily J. Mellen, do Departamento de Psicologia da Harvard University, em Cambridge (Estados Unidos), coautora e autora responsável pela correspondência do trabalho. A primeira autora é Ellen F. Finch, do mesmo departamento. As duas, na época doutorandas em psicologia clínica, conduziram juntas as entrevistas e a análise, num tema delicado e ainda pouco estudado. Quando o Dr. Anderson pediu o texto completo para estudá-lo, Emily gentilmente o enviou. Fica aqui o nosso agradecimento especial a ela, à Ellen e aos profissionais entrevistados, pela gentileza e pela generosidade de compartilhar ciência de qualidade com quem cuida de sobreviventes de relações abusivas no Brasil. Este texto é a nossa forma de levar o trabalho da equipe a mais pessoas. Thank you, Emily, for your kindness and generosity.
Depois de anos tentando entender por que cada conversa terminava com ela pedindo desculpas, uma mulher assiste a um vídeo sobre abuso narcisista e, pela primeira vez, o caos ganha um nome. Ela repete a palavra para si mesma como quem segura um corrimão. Meses depois, lê que “narcisista” virou xingamento da moda e sente a pontada conhecida: será que estou exagerando? Será que estou fazendo com ele o que ele fazia comigo?
Do outro lado dessa palavra existe uma realidade pouco conhecida: pessoas que receberam, em tratamento, o diagnóstico de transtorno de personalidade narcisista e não contam para ninguém, porque sabem o peso que o termo carrega. Um estudo publicado em 2025 por pesquisadoras da Harvard University ouviu os profissionais que tratam essas pessoas. Este artigo explica o que ele encontrou e por que isso não diminui em nada o que você viveu.
Narcisista, traço narcisista e transtorno: três coisas diferentes
A mesma palavra é usada para coisas muito diferentes, e boa parte da confusão nasce daí:
- Traços narcisistas são características que todo ser humano tem em algum grau: querer ser admirado, gostar de reconhecimento, se sentir especial num dia bom. Eles variam numa escala, de pouco a muito.
- Transtorno de personalidade narcisista (TPN) é um diagnóstico clínico. Exige um padrão persistente e rígido, com prejuízo real em várias áreas da vida, e só pode ser feito por profissional habilitado, com avaliação individual da própria pessoa. Explicamos os critérios em transtorno de personalidade narcisista: guia médico.
- O uso popular transformou “narcisista” em explicação para quase tudo. As autoras lembram que o termo é usado para explicar de líderes mundiais a gerações inteiras, e que a hashtag #NarcTok, com vídeos sobre sobreviver ao abuso narcisista, já somava 1,9 bilhão de visualizações em março de 2022.
Há outro ponto que costuma ficar de fora: o TPN não tem uma cara só. Ele pode aparecer de forma grandiosa (arrogância, manipulação, busca de aplauso) ou vulnerável (vergonha intensa, sensação de inferioridade). O estereótipo do arrogante que pisa em todos descreve só uma parte das pessoas com o diagnóstico. Falamos da forma menos visível em narcisismo encoberto.
No vídeo abaixo, o Dr. Anderson explica a diferença entre ter traços narcisistas e ter o transtorno:
O que é estigma, e o que não é
Na pesquisa em saúde, estigma é a soma de cinco coisas: colocar um rótulo, associar esse rótulo a estereótipos, separar “nós” de “eles”, tirar valor social da pessoa e tratá-la de forma injusta. Isso acontece em três níveis: dentro da pessoa (vergonha, medo de ser descoberta), nas relações (rótulos, afastamento) e nas estruturas (falta de pesquisa, de formação profissional e de acesso a tratamento).
As autoras fazem uma ressalva que importa muito para quem lê este blog. Elas reconhecem que os sintomas do TPN trazem dificuldades reais nas relações e afirmam que nem toda visão negativa sobre narcisismo é estigma. Muitas vezes essas visões são corretas e refletem experiências vividas. O que o estudo quer descrever é a camada extra de preconceito que se soma a essas dificuldades e cria sofrimento desnecessário, para pacientes e para profissionais.
O que o estudo fez
Ellen F. Finch e Emily J. Mellen publicaram o trabalho em 2025 na revista Personality and Mental Health. É um estudo qualitativo: em vez de medir números em muitas pessoas, ele ouve com profundidade poucas pessoas com muita experiência no assunto. O protocolo foi registrado antes da coleta e aprovado por um comitê de ética universitário.
- Quem participou: 9 profissionais de saúde mental dos Estados Unidos com experiência no tratamento do TPN: 5 com doutorado (PhD), 3 médicos e 1 assistente social clínico. Em média, tratavam pessoas com o transtorno havia 20 anos (de 7 a 44 anos). Todos tinham publicações sobre narcisismo, atuavam em serviços especializados em transtornos de personalidade, ou as duas coisas.
- Perfil: 78% eram homens e 89% eram brancos.
- Como: entrevistas por vídeo em junho e julho de 2024, com duração média de 38 minutos, guiadas por modelos clássicos de estudo do estigma.
- Análise: as duas autoras codificaram cada entrevista separadamente e depois discutiram até chegar a consenso. Cada tema foi classificado como geral (todos ou quase todos citaram), típico (mais da metade) ou variante (pelo menos dois).
O que o estudo encontrou
| Área | O que os profissionais descreveram | Quantos concordaram |
|---|---|---|
| Dentro da pessoa | Pacientes escondem o diagnóstico, esperam ser rejeitados e absorvem a visão negativa sobre si | Todos ou quase todos |
| Nas relações | São rotulados e estereotipados; “narcisista” virou sinônimo de insulto | Todos ou quase todos |
| Nas estruturas | Visão negativa também entre profissionais de saúde; pouca pesquisa, pouca formação e pouco acesso a tratamento longo | Todos ou quase todos |
| “Não muda” | Crença de que o transtorno não tem tratamento nem melhora | Todos ou quase todos |
| “É escolha” | Crença de que a pessoa poderia simplesmente decidir parar | Mais da metade |
| “É perigoso” | Crença de que todo paciente com TPN será agressivo com quem o trata | Mais da metade |
| “É sempre difícil” | Expectativa de que o contato será desagradável, o que vira profecia que se cumpre | Mais da metade |
Esconder e se envergonhar. Segundo os entrevistados, os pacientes escondem o diagnóstico da família, do parceiro, dos amigos e até de outros médicos. Alguns profissionais chegam a orientar seus pacientes a não contar. O título do estudo vem da fala de um entrevistado sobre o medo deles: ser “rotulados, criticados, menosprezados”. A vergonha já faz parte do transtorno, e o estigma a aprofunda, trazendo desesperança.
Duas crenças que se contradizem. As autoras notam que o público tende a acreditar, ao mesmo tempo, que o transtorno é imutável e que a pessoa poderia escolher parar. As duas ideias não se sustentam juntas. As autoras lembram que ainda não existem ensaios clínicos controlados de tratamentos específicos para o TPN, mas que há tratamentos promissores em desenvolvimento, em geral de longo prazo. Discutimos esse cenário em existe tratamento para narcisismo patológico? e em um narcisista pode mudar?.
Perigo real e perigo imaginado. Os entrevistados reconhecem que tratar o TPN tem riscos, e as autoras lembram que o narcisismo é um fator de risco bem estabelecido para agressividade. Mas há enorme variação entre os pacientes, e a ideia de que todos serão agressivos não se aplica a muitos deles.
Menos diagnóstico, menos tratamento. Para os entrevistados, o estigma faz o TPN ser subdiagnosticado: profissionais pouco treinados não o reconhecem, e outros evitam falar do diagnóstico por medo da reação do paciente. Pessoas que desconfiam ter o problema podem evitar procurar ajuda por medo de serem vistas como “pessoa ruim” ou “caso perdido”. E o estigma reduz a motivação dos próprios profissionais para tratar.
As redes sociais apareceram nas entrevistas. Um dos profissionais citou diretamente a onda de vídeos sobre abuso narcisista: segundo ele, muitos pacientes chegam ao diagnóstico depois de já terem consumido esse conteúdo e se sentem péssimos consigo, o que atrapalha o tratamento. É uma crítica que este blog leva a sério, e é um dos motivos pelos quais escolhemos falar de comportamentos, e não de rótulos.
Caminhos para reduzir o estigma. Os entrevistados sugeriram mais pesquisa, mais formação de profissionais sobre o TPN, inclusive sobre a forma vulnerável, e mais visibilidade, já que quase não existem relatos públicos de pessoas com o diagnóstico. Muitos acharam que pensar o narcisismo como uma escala, e não como “tem ou não tem”, diminui o estereótipo.
E quem sofreu abuso? Duas verdades ao mesmo tempo
Para quem viveu anos de humilhação e controle, ler sobre o sofrimento de pessoas com TPN pode doer, como se, mais uma vez, a dor do outro valesse mais do que a sua. Não é essa a mensagem do estudo, nem a deste artigo.
A primeira verdade: o que você viveu foi real. Comportamentos como desprezo, gaslighting, controle e punição pelo silêncio fazem mal à saúde, e dar nome ao que aconteceu costuma ser um passo importante para sair da confusão. Usar a palavra “narcisista” para descrever o que você viveu não faz de você uma pessoa preconceituosa, e você não precisa pedir desculpas por ter buscado uma explicação.
A segunda verdade: o rótulo, quando vira xingamento ou diagnóstico à distância, tem um custo. Ele afasta do tratamento pessoas que poderiam se beneficiar dele. E ele também pode atrapalhar você: a discussão vira “ele é ou não é narcisista?”, e o foco sai do que importa, que é o que aconteceu, o efeito em você e o que você precisa para se proteger e se recuperar. Ter ou não ter um diagnóstico não define se houve abuso. Abuso se reconhece pelos comportamentos e pelo impacto que eles deixam.
É por isso que este blog fala em “pessoa com traços narcisistas” e em “comportamentos abusivos”. Não é para relativizar o que você viveu, e sim porque diagnóstico se faz em avaliação individual, com a própria pessoa, por profissional habilitado. Reconhecer um padrão não é diagnosticar.
No Instagram, o Dr. Anderson resume essa ideia:
O que esse estudo não diz
- Não mede o tamanho do estigma. É um estudo qualitativo com 9 pessoas. Ele descreve temas, não calcula quantos pacientes sofrem estigma nem quanto isso pesa na saúde deles.
- Não ouviu os pacientes. Os profissionais relataram o que observam em outras pessoas. As autoras dizem que o próximo passo é ouvir diretamente quem tem o diagnóstico.
- Não é representativo. Os participantes foram escolhidos por conveniência, pela reputação na área, e eram na maioria homens brancos dos Estados Unidos. Muitos entrevistados disseram que suas visões são pessoais e não podem ser generalizadas. Não há dados do Brasil.
- Não diz que toda crítica ao narcisismo é preconceito. As autoras afirmam o contrário: muitas visões negativas refletem dificuldades reais.
- Não diz que quem sofreu abuso está errado em nomear o que viveu, nem que deve manter contato com quem a feriu.
- Não testa tratamentos. Ele não mostra que o TPN melhora com esta ou aquela terapia, nem permite prever se uma pessoa específica vai mudar.
O que isso muda na prática
Para quem viveu uma relação abusiva
- Descreva os comportamentos. “Ele lia minhas mensagens”, “ela me humilhava na frente dos outros”, “eu precisava pedir permissão para sair”. Fatos concretos ajudam mais na terapia, na conversa com a família e, se for o caso, em medidas de proteção do que um rótulo que pode ser contestado.
- Sua recuperação não depende do laudo do outro. Você pode cuidar de si sem saber o diagnóstico de ninguém. Se a dúvida “será que eu é que sou a narcisista?” aparecer, leia fui acusada de ser a narcisista.
- Psicoterapia focada em trauma. Quando há sintomas de estresse pós-traumático ou de TEPT complexo, as abordagens indicadas são EMDR, Brainspotting e terapia cognitivo-comportamental focada no trauma.
- Avaliação médica dos efeitos no corpo. Insônia, cansaço, dores, alterações de pressão e ansiedade também fazem parte do quadro e merecem cuidado.
Para quem tem medo de ter traços narcisistas
- Diagnóstico não é sentença. O estudo mostra que a ideia de “caso perdido” vem mais do estigma do que da ciência. Se você se reconhece em parte desses traços, buscar avaliação com psicólogo ou psiquiatra é um ato de responsabilidade, não uma condenação.
- Entender a origem ajuda. Veja a pessoa nasce narcisista? e como saber se sou narcisista: traços ou transtorno.
Para familiares e profissionais
- Proteger não exige desumanizar. Dá para apoiar firmemente quem sofreu abuso sem tratar um diagnóstico como insulto.
- Formação reduz estigma. Os entrevistados observaram menos preconceito entre profissionais treinados e com apoio para atender o TPN.
No Instagram, o Dr. Anderson explica quando um traço vira transtorno, e por que isso não serve para diagnosticar ninguém:
E, no vídeo abaixo, mostra como diferenciar traços narcisistas evidentes de alguém que está apenas passando por um momento de estresse:
Perguntas frequentes
O transtorno de personalidade narcisista é estigmatizado?
Segundo um estudo qualitativo de 2025 com 9 profissionais experientes, sim. Eles relataram que pacientes escondem o diagnóstico, são rotulados e estereotipados, e que até profissionais de saúde mantêm visões negativas, o que dificulta o diagnóstico e o tratamento.
Chamar alguém de narcisista é preconceito?
Depende do uso. Dar nome aos comportamentos abusivos que você viveu não é preconceito. Usar a palavra como xingamento, diagnosticar à distância ou supor que toda pessoa com o diagnóstico é perigosa e incapaz de mudar alimenta o estigma.
Quem pode diagnosticar transtorno de personalidade narcisista?
Um profissional habilitado, como psiquiatra ou psicólogo, em avaliação individual da própria pessoa. Vídeos, prints de conversa ou o relato de quem conviveu com ela não bastam para fechar esse diagnóstico.
O transtorno de personalidade narcisista tem tratamento?
Há tratamentos promissores em desenvolvimento, em geral psicoterapias de longo prazo, mas ainda sem ensaios clínicos controlados específicos para o TPN. Não é possível prever se uma pessoa vai mudar, e você não precisa esperar essa mudança para se proteger.
Se o diagnóstico é estigmatizado, devo relativizar o que vivi?
Não. O próprio estudo reconhece que muitas visões negativas refletem dificuldades reais. Abuso se reconhece pelos comportamentos e pelo impacto deles, com ou sem diagnóstico de quem os praticou.
ATENDIMENTO MÉDICO ON-LINE
Agende sua teleconsulta
Dr. Anderson Contaifer · Médico, especialista em Clínica Médica
CRM-SC 24.484 · RQE 18.790
Teleconsulta particular para adultos · 1 hora. Agende pelo WhatsApp com a equipe do Dr. Anderson. Consulte as condições de parcelamento antes de pagar.
Prefere escolher seu horário sozinho?
Abrir diretamente no Doctoralia ↗
Precisa parcelar? Consulte as condições com a equipe pelo WhatsApp.
Leia também
- Transtorno de personalidade narcisista (TPN): guia médico
- Um narcisista pode mudar? O que a evidência permite afirmar
- Existe tratamento para narcisismo patológico?
- A pessoa nasce narcisista? Como se desenvolvem os traços
- Narcisismo encoberto
- Fui acusada de ser a narcisista: e se for verdade?
Referências científicas
- Finch EF, Mellen EJ. “Labeled, Criticized, Looked Down On”: Characterizing the Stigma of Narcissistic Personality Disorder. Personality and Mental Health. 2025;19(2):e70015. (DOI: 10.1002/pmh.70015)
- Link BG, Phelan JC. Conceptualizing Stigma. Annual Review of Sociology. 2001;27:363-385. (DOI: 10.1146/annurev.soc.27.1.363)
- Weinberg I, Ronningstam E. Narcissistic Personality Disorder: Progress in Understanding and Treatment. Focus. 2022;20(4):368-377. (DOI: 10.1176/appi.focus.20220052)
- Kjærvik SL, Bushman BJ. The Link Between Narcissism and Aggression: A Meta-Analytic Review. Psychological Bulletin. 2021;147(5):477-503. (DOI: 10.1037/bul0000323)
Conteúdo educativo, não substitui avaliação individual. Em situação de risco, ligue 190; para orientação sobre violência contra a mulher, Ligue 180; para apoio emocional, CVV 188.
Você sofre ou sofreu abuso narcisista? O Dr. Anderson Contaifer pode ajudar.
Saiba mais sobre o tratamento medico
