O transtorno de personalidade narcisista é estigmatizado? O que mostrou um estudo de Harvard com 9 profissionais

O transtorno de personalidade narcisista é estigmatizado? O que mostrou um estudo de Harvard com 9 profissionais
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Dr. Anderson Contaifer

Médico · CRM-SC 24.484 · Especialista em Clínica Médica · RQE 18.790. Graduado pela EMESCAM em 2012, com título de especialista em Clínica Médica pela Sociedade Brasileira de Clínica Médica (SBCM), em 2019. Atende adultos exclusivamente por teleconsulta, com avaliação individual das repercussões físicas e emocionais de relacionamentos abusivos e do estresse prolongado. Criador do Programa Quebrando as Algemas e de conteúdo educativo sobre relacionamentos abusivos, limites e autocuidado.

Informação para entender relações abusivas e cuidar da sua saúde

Dr. Anderson Contaifer (CRM-SC 24.484, RQE de Clínica Médica 18.790), médico especialista em Clínica Médica e criador do blog Quebrando as Algemas, atende por teleconsulta pessoas com sequelas de abuso narcisista e TEPT-C em todo o Brasil.

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Resposta rápida

Sim. Um estudo de 2025, feito na Harvard University, entrevistou 9 profissionais de saúde mental com experiência no tratamento do transtorno de personalidade narcisista (TPN). Eles descreveram um diagnóstico muito estigmatizado: a palavra “narcisista” virou xingamento, pacientes escondem o diagnóstico e muita gente acredita que não há mudança possível. Para os entrevistados, isso atrapalha o diagnóstico e o tratamento. Reconhecer esse estigma não apaga o abuso que alguém sofreu: as duas coisas podem ser verdade ao mesmo tempo.

Agradecimento especial

Obrigado, Emily Mellen

O estudo explicado neste artigo foi enviado ao Dr. Anderson pela pesquisadora Emily J. Mellen, do Departamento de Psicologia da Harvard University, em Cambridge (Estados Unidos), coautora e autora responsável pela correspondência do trabalho. A primeira autora é Ellen F. Finch, do mesmo departamento. As duas, na época doutorandas em psicologia clínica, conduziram juntas as entrevistas e a análise, num tema delicado e ainda pouco estudado. Quando o Dr. Anderson pediu o texto completo para estudá-lo, Emily gentilmente o enviou. Fica aqui o nosso agradecimento especial a ela, à Ellen e aos profissionais entrevistados, pela gentileza e pela generosidade de compartilhar ciência de qualidade com quem cuida de sobreviventes de relações abusivas no Brasil. Este texto é a nossa forma de levar o trabalho da equipe a mais pessoas. Thank you, Emily, for your kindness and generosity.

Depois de anos tentando entender por que cada conversa terminava com ela pedindo desculpas, uma mulher assiste a um vídeo sobre abuso narcisista e, pela primeira vez, o caos ganha um nome. Ela repete a palavra para si mesma como quem segura um corrimão. Meses depois, lê que “narcisista” virou xingamento da moda e sente a pontada conhecida: será que estou exagerando? Será que estou fazendo com ele o que ele fazia comigo?

Do outro lado dessa palavra existe uma realidade pouco conhecida: pessoas que receberam, em tratamento, o diagnóstico de transtorno de personalidade narcisista e não contam para ninguém, porque sabem o peso que o termo carrega. Um estudo publicado em 2025 por pesquisadoras da Harvard University ouviu os profissionais que tratam essas pessoas. Este artigo explica o que ele encontrou e por que isso não diminui em nada o que você viveu.

Narcisista, traço narcisista e transtorno: três coisas diferentes

A mesma palavra é usada para coisas muito diferentes, e boa parte da confusão nasce daí:

  • Traços narcisistas são características que todo ser humano tem em algum grau: querer ser admirado, gostar de reconhecimento, se sentir especial num dia bom. Eles variam numa escala, de pouco a muito.
  • Transtorno de personalidade narcisista (TPN) é um diagnóstico clínico. Exige um padrão persistente e rígido, com prejuízo real em várias áreas da vida, e só pode ser feito por profissional habilitado, com avaliação individual da própria pessoa. Explicamos os critérios em transtorno de personalidade narcisista: guia médico.
  • O uso popular transformou “narcisista” em explicação para quase tudo. As autoras lembram que o termo é usado para explicar de líderes mundiais a gerações inteiras, e que a hashtag #NarcTok, com vídeos sobre sobreviver ao abuso narcisista, já somava 1,9 bilhão de visualizações em março de 2022.

Há outro ponto que costuma ficar de fora: o TPN não tem uma cara só. Ele pode aparecer de forma grandiosa (arrogância, manipulação, busca de aplauso) ou vulnerável (vergonha intensa, sensação de inferioridade). O estereótipo do arrogante que pisa em todos descreve só uma parte das pessoas com o diagnóstico. Falamos da forma menos visível em narcisismo encoberto.

No vídeo abaixo, o Dr. Anderson explica a diferença entre ter traços narcisistas e ter o transtorno:

O que é estigma, e o que não é

Na pesquisa em saúde, estigma é a soma de cinco coisas: colocar um rótulo, associar esse rótulo a estereótipos, separar “nós” de “eles”, tirar valor social da pessoa e tratá-la de forma injusta. Isso acontece em três níveis: dentro da pessoa (vergonha, medo de ser descoberta), nas relações (rótulos, afastamento) e nas estruturas (falta de pesquisa, de formação profissional e de acesso a tratamento).

As autoras fazem uma ressalva que importa muito para quem lê este blog. Elas reconhecem que os sintomas do TPN trazem dificuldades reais nas relações e afirmam que nem toda visão negativa sobre narcisismo é estigma. Muitas vezes essas visões são corretas e refletem experiências vividas. O que o estudo quer descrever é a camada extra de preconceito que se soma a essas dificuldades e cria sofrimento desnecessário, para pacientes e para profissionais.

O que o estudo fez

Ellen F. Finch e Emily J. Mellen publicaram o trabalho em 2025 na revista Personality and Mental Health. É um estudo qualitativo: em vez de medir números em muitas pessoas, ele ouve com profundidade poucas pessoas com muita experiência no assunto. O protocolo foi registrado antes da coleta e aprovado por um comitê de ética universitário.

  • Quem participou: 9 profissionais de saúde mental dos Estados Unidos com experiência no tratamento do TPN: 5 com doutorado (PhD), 3 médicos e 1 assistente social clínico. Em média, tratavam pessoas com o transtorno havia 20 anos (de 7 a 44 anos). Todos tinham publicações sobre narcisismo, atuavam em serviços especializados em transtornos de personalidade, ou as duas coisas.
  • Perfil: 78% eram homens e 89% eram brancos.
  • Como: entrevistas por vídeo em junho e julho de 2024, com duração média de 38 minutos, guiadas por modelos clássicos de estudo do estigma.
  • Análise: as duas autoras codificaram cada entrevista separadamente e depois discutiram até chegar a consenso. Cada tema foi classificado como geral (todos ou quase todos citaram), típico (mais da metade) ou variante (pelo menos dois).

O que o estudo encontrou

Área O que os profissionais descreveram Quantos concordaram
Dentro da pessoa Pacientes escondem o diagnóstico, esperam ser rejeitados e absorvem a visão negativa sobre si Todos ou quase todos
Nas relações São rotulados e estereotipados; “narcisista” virou sinônimo de insulto Todos ou quase todos
Nas estruturas Visão negativa também entre profissionais de saúde; pouca pesquisa, pouca formação e pouco acesso a tratamento longo Todos ou quase todos
“Não muda” Crença de que o transtorno não tem tratamento nem melhora Todos ou quase todos
“É escolha” Crença de que a pessoa poderia simplesmente decidir parar Mais da metade
“É perigoso” Crença de que todo paciente com TPN será agressivo com quem o trata Mais da metade
“É sempre difícil” Expectativa de que o contato será desagradável, o que vira profecia que se cumpre Mais da metade

Esconder e se envergonhar. Segundo os entrevistados, os pacientes escondem o diagnóstico da família, do parceiro, dos amigos e até de outros médicos. Alguns profissionais chegam a orientar seus pacientes a não contar. O título do estudo vem da fala de um entrevistado sobre o medo deles: ser “rotulados, criticados, menosprezados”. A vergonha já faz parte do transtorno, e o estigma a aprofunda, trazendo desesperança.

Duas crenças que se contradizem. As autoras notam que o público tende a acreditar, ao mesmo tempo, que o transtorno é imutável e que a pessoa poderia escolher parar. As duas ideias não se sustentam juntas. As autoras lembram que ainda não existem ensaios clínicos controlados de tratamentos específicos para o TPN, mas que há tratamentos promissores em desenvolvimento, em geral de longo prazo. Discutimos esse cenário em existe tratamento para narcisismo patológico? e em um narcisista pode mudar?.

Perigo real e perigo imaginado. Os entrevistados reconhecem que tratar o TPN tem riscos, e as autoras lembram que o narcisismo é um fator de risco bem estabelecido para agressividade. Mas há enorme variação entre os pacientes, e a ideia de que todos serão agressivos não se aplica a muitos deles.

Menos diagnóstico, menos tratamento. Para os entrevistados, o estigma faz o TPN ser subdiagnosticado: profissionais pouco treinados não o reconhecem, e outros evitam falar do diagnóstico por medo da reação do paciente. Pessoas que desconfiam ter o problema podem evitar procurar ajuda por medo de serem vistas como “pessoa ruim” ou “caso perdido”. E o estigma reduz a motivação dos próprios profissionais para tratar.

As redes sociais apareceram nas entrevistas. Um dos profissionais citou diretamente a onda de vídeos sobre abuso narcisista: segundo ele, muitos pacientes chegam ao diagnóstico depois de já terem consumido esse conteúdo e se sentem péssimos consigo, o que atrapalha o tratamento. É uma crítica que este blog leva a sério, e é um dos motivos pelos quais escolhemos falar de comportamentos, e não de rótulos.

Caminhos para reduzir o estigma. Os entrevistados sugeriram mais pesquisa, mais formação de profissionais sobre o TPN, inclusive sobre a forma vulnerável, e mais visibilidade, já que quase não existem relatos públicos de pessoas com o diagnóstico. Muitos acharam que pensar o narcisismo como uma escala, e não como “tem ou não tem”, diminui o estereótipo.

E quem sofreu abuso? Duas verdades ao mesmo tempo

Para quem viveu anos de humilhação e controle, ler sobre o sofrimento de pessoas com TPN pode doer, como se, mais uma vez, a dor do outro valesse mais do que a sua. Não é essa a mensagem do estudo, nem a deste artigo.

A primeira verdade: o que você viveu foi real. Comportamentos como desprezo, gaslighting, controle e punição pelo silêncio fazem mal à saúde, e dar nome ao que aconteceu costuma ser um passo importante para sair da confusão. Usar a palavra “narcisista” para descrever o que você viveu não faz de você uma pessoa preconceituosa, e você não precisa pedir desculpas por ter buscado uma explicação.

A segunda verdade: o rótulo, quando vira xingamento ou diagnóstico à distância, tem um custo. Ele afasta do tratamento pessoas que poderiam se beneficiar dele. E ele também pode atrapalhar você: a discussão vira “ele é ou não é narcisista?”, e o foco sai do que importa, que é o que aconteceu, o efeito em você e o que você precisa para se proteger e se recuperar. Ter ou não ter um diagnóstico não define se houve abuso. Abuso se reconhece pelos comportamentos e pelo impacto que eles deixam.

É por isso que este blog fala em “pessoa com traços narcisistas” e em “comportamentos abusivos”. Não é para relativizar o que você viveu, e sim porque diagnóstico se faz em avaliação individual, com a própria pessoa, por profissional habilitado. Reconhecer um padrão não é diagnosticar.

No Instagram, o Dr. Anderson resume essa ideia:

O que esse estudo não diz

  • Não mede o tamanho do estigma. É um estudo qualitativo com 9 pessoas. Ele descreve temas, não calcula quantos pacientes sofrem estigma nem quanto isso pesa na saúde deles.
  • Não ouviu os pacientes. Os profissionais relataram o que observam em outras pessoas. As autoras dizem que o próximo passo é ouvir diretamente quem tem o diagnóstico.
  • Não é representativo. Os participantes foram escolhidos por conveniência, pela reputação na área, e eram na maioria homens brancos dos Estados Unidos. Muitos entrevistados disseram que suas visões são pessoais e não podem ser generalizadas. Não há dados do Brasil.
  • Não diz que toda crítica ao narcisismo é preconceito. As autoras afirmam o contrário: muitas visões negativas refletem dificuldades reais.
  • Não diz que quem sofreu abuso está errado em nomear o que viveu, nem que deve manter contato com quem a feriu.
  • Não testa tratamentos. Ele não mostra que o TPN melhora com esta ou aquela terapia, nem permite prever se uma pessoa específica vai mudar.

O que isso muda na prática

Para quem viveu uma relação abusiva

  • Descreva os comportamentos. “Ele lia minhas mensagens”, “ela me humilhava na frente dos outros”, “eu precisava pedir permissão para sair”. Fatos concretos ajudam mais na terapia, na conversa com a família e, se for o caso, em medidas de proteção do que um rótulo que pode ser contestado.
  • Sua recuperação não depende do laudo do outro. Você pode cuidar de si sem saber o diagnóstico de ninguém. Se a dúvida “será que eu é que sou a narcisista?” aparecer, leia fui acusada de ser a narcisista.
  • Psicoterapia focada em trauma. Quando há sintomas de estresse pós-traumático ou de TEPT complexo, as abordagens indicadas são EMDR, Brainspotting e terapia cognitivo-comportamental focada no trauma.
  • Avaliação médica dos efeitos no corpo. Insônia, cansaço, dores, alterações de pressão e ansiedade também fazem parte do quadro e merecem cuidado.

Para quem tem medo de ter traços narcisistas

Para familiares e profissionais

  • Proteger não exige desumanizar. Dá para apoiar firmemente quem sofreu abuso sem tratar um diagnóstico como insulto.
  • Formação reduz estigma. Os entrevistados observaram menos preconceito entre profissionais treinados e com apoio para atender o TPN.

No Instagram, o Dr. Anderson explica quando um traço vira transtorno, e por que isso não serve para diagnosticar ninguém:

E, no vídeo abaixo, mostra como diferenciar traços narcisistas evidentes de alguém que está apenas passando por um momento de estresse:

Perguntas frequentes

O transtorno de personalidade narcisista é estigmatizado?

Segundo um estudo qualitativo de 2025 com 9 profissionais experientes, sim. Eles relataram que pacientes escondem o diagnóstico, são rotulados e estereotipados, e que até profissionais de saúde mantêm visões negativas, o que dificulta o diagnóstico e o tratamento.

Chamar alguém de narcisista é preconceito?

Depende do uso. Dar nome aos comportamentos abusivos que você viveu não é preconceito. Usar a palavra como xingamento, diagnosticar à distância ou supor que toda pessoa com o diagnóstico é perigosa e incapaz de mudar alimenta o estigma.

Quem pode diagnosticar transtorno de personalidade narcisista?

Um profissional habilitado, como psiquiatra ou psicólogo, em avaliação individual da própria pessoa. Vídeos, prints de conversa ou o relato de quem conviveu com ela não bastam para fechar esse diagnóstico.

O transtorno de personalidade narcisista tem tratamento?

Há tratamentos promissores em desenvolvimento, em geral psicoterapias de longo prazo, mas ainda sem ensaios clínicos controlados específicos para o TPN. Não é possível prever se uma pessoa vai mudar, e você não precisa esperar essa mudança para se proteger.

Se o diagnóstico é estigmatizado, devo relativizar o que vivi?

Não. O próprio estudo reconhece que muitas visões negativas refletem dificuldades reais. Abuso se reconhece pelos comportamentos e pelo impacto deles, com ou sem diagnóstico de quem os praticou.

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Referências científicas

  1. Finch EF, Mellen EJ. “Labeled, Criticized, Looked Down On”: Characterizing the Stigma of Narcissistic Personality Disorder. Personality and Mental Health. 2025;19(2):e70015. (DOI: 10.1002/pmh.70015)
  2. Link BG, Phelan JC. Conceptualizing Stigma. Annual Review of Sociology. 2001;27:363-385. (DOI: 10.1146/annurev.soc.27.1.363)
  3. Weinberg I, Ronningstam E. Narcissistic Personality Disorder: Progress in Understanding and Treatment. Focus. 2022;20(4):368-377. (DOI: 10.1176/appi.focus.20220052)
  4. Kjærvik SL, Bushman BJ. The Link Between Narcissism and Aggression: A Meta-Analytic Review. Psychological Bulletin. 2021;147(5):477-503. (DOI: 10.1037/bul0000323)

Conteúdo educativo, não substitui avaliação individual. Em situação de risco, ligue 190; para orientação sobre violência contra a mulher, Ligue 180; para apoio emocional, CVV 188.

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Sobre o autor

Dr. Anderson Contaifer de Carvalho
Médico · CRM-SC 24.484 · Especialista em Clínica Médica · RQE 18.790. Graduado pela EMESCAM em 2012, com título de especialista em Clínica Médica pela Sociedade Brasileira de Clínica Médica (SBCM), em 2019. Atende adultos exclusivamente por teleconsulta, com avaliação individual das repercussões físicas e emocionais de relacionamentos abusivos e do estresse prolongado. Criador do Programa Quebrando as Algemas e de conteúdo educativo sobre relacionamentos abusivos, limites e autocuidado.

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