Dr. Anderson Contaifer (CRM-SC 24.484, RQE de Clínica Médica 18.790), médico especialista em Clínica Médica e criador do blog Quebrando as Algemas, atende por teleconsulta pessoas com sequelas de abuso narcisista e TEPT-C em todo o Brasil.
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Resposta rápida
Em média, cerca de um em cada três. Uma meta-análise de 2024, liderada por uma equipe da Universidade Lusófona, em Portugal, reuniu 30 estudos com 16.412 participantes e encontrou taxas de desistência entre 9% e 67%, com média de 35%. Abandonar o programa foi mais comum entre autores mais jovens, com uso de álcool ou drogas, histórico criminal, transtorno de personalidade e mais adversidades na infância. Para quem sofreu a violência, o abandono é um sinal de alerta, e a segurança não deve depender dessa participação.
Agradecimento especial
Obrigado, Profa. Olga Cunha
A meta-análise explicada neste artigo foi enviada ao Dr. Anderson pela professora Olga Cunha, professora auxiliar da Faculdade de Psicologia, Educação e Desporto da Universidade Lusófona, no Porto (Portugal), e pesquisadora do HEI-Lab, primeira autora e autora responsável pelo trabalho. Quando o Dr. Anderson escreveu pedindo o texto completo para estudá-lo, ela gentilmente o enviou. Fica aqui o nosso agradecimento especial pela gentileza e pela generosidade de compartilhar ciência de qualidade com quem cuida de sobreviventes de violência no Brasil. Este texto é a nossa forma de levar o trabalho da equipe a mais pessoas. Muito obrigado, Professora Olga Cunha, pela gentileza. Thank you, Professor Cunha, for your kindness and generosity.
Na audiência, o juiz determinou que ele frequentasse um grupo para autores de violência. Nas primeiras semanas, ele fez questão de avisar, por recado da família, que estava indo a todos os encontros. Depois, os recados pararam. Um dia você fica sabendo, quase por acaso, que ele não aparece mais por lá. E a pergunta volta, mais forte: o que isso significa para mim?
Ontem publicamos aqui no blog o que uma grande meta-análise mostrou sobre a pergunta “programas para autores de violência funcionam?“. Este artigo trata de outra parte da história, que pesa muito na vida real: quantos autores de violência abandonam esses programas no meio do caminho, o que está associado a esse abandono e o que isso quer dizer para quem sofreu a violência.
O que é desistência num programa para autores de violência
Programas para autores de violência são intervenções, quase sempre em grupo, para pessoas que agrediram o parceiro ou a parceira. Em muitos países, a participação é determinada pela Justiça. No Brasil, esses espaços costumam ser chamados de grupos reflexivos, e a Lei Maria da Penha (Lei 11.340/2006) já previa centros de educação e de reabilitação para agressores. Em 2020, a Lei 13.984 incluiu entre as medidas protetivas de urgência do artigo 22 o comparecimento do agressor a programas de recuperação e reeducação (inciso VI) e o acompanhamento psicossocial, individual ou em grupo (inciso VII).
Na pesquisa, desistência (em inglês, dropout) é parar de participar antes de completar todas as sessões previstas. Parece um detalhe administrativo, mas não é. Os autores lembram que estudos anteriores encontraram uma ligação entre não terminar o programa e voltar a agredir: quem abandona tem mais chance de reincidir, em geral nos primeiros 3 a 6 meses depois de sair. E muita desistência dificulta saber se os programas funcionam.
No vídeo abaixo, o Dr. Anderson responde a uma dúvida comum de quem ouve promessas de mudança numa relação com traços narcisistas:
O que o estudo fez
Olga Cunha, Jéssica Pedrosa, Bárbara Silva Pereira, Sónia Caridade, Andreia de Castro Rodrigues e Teresa Braga, de instituições de Portugal (Universidade Lusófona, ISPA e Universidade do Minho) e da França (serviços penitenciários de integração e liberdade condicional, em Laon), publicaram a meta-análise em 2024 na revista Trauma, Violence, & Abuse. Meta-análise é um estudo que junta os resultados de várias pesquisas para chegar a uma estimativa geral.
- A busca: seis bases de dados científicas, com estudos publicados entre 2010 e 2022, em inglês, espanhol ou português. De 1.347 referências encontradas, 30 estudos, com 31 amostras independentes e 16.412 participantes, cumpriram os critérios.
- Onde: 60% dos estudos foram feitos nos Estados Unidos, seguidos pela Espanha. Também entraram pesquisas da Noruega, Países Baixos, Austrália, Canadá, Portugal e Nova Zelândia. Nenhum estudo brasileiro.
- Quem: a maioria das amostras era só de homens (24 das 31). Duas eram só de mulheres e cinco eram mistas. A idade média dos participantes era de cerca de 35 anos.
- Os programas: 90% funcionavam na comunidade, fora de prisões e hospitais, e em pouco mais da metade das amostras os participantes tinham sido encaminhados pela Justiça. O formato mais comum foi o de grupo, e a abordagem mais usada foi a terapia cognitivo-comportamental, sozinha ou combinada com outras.
- O que foi comparado: características de quem desistiu e de quem terminou, da idade e do trabalho ao histórico de violência e ao tipo de programa.
O resultado foi expresso em razão de chances (em inglês, odds ratio ou OR). Acima de 1, mais chance de desistir; abaixo de 1, menos. Um OR de 1,78 indica chance cerca de 1,8 vez maior. Os pesquisadores fizeram dois tipos de análise: uma que olha cada fator isoladamente e outra, mais exigente, que considera vários fatores ao mesmo tempo.
O que o estudo encontrou
Quantos desistem. As taxas de desistência variaram de 9% a 67% entre os estudos, com média de 35,44%. Ou seja, em média, cerca de um em cada três participantes não chegou ao fim. Os autores consideram a taxa alta.
O que se associou a mais desistência, olhando cada fator separadamente:
| Fator | Razão de chances (OR) | Em palavras simples |
|---|---|---|
| Perfil de violência que vai além da família | 2,45 | Quem também é violento fora de casa ou tem perfil mais instável desistiu mais |
| Uso de álcool ou outras drogas | 1,78 | Mais desistência |
| Estar desempregado | 1,78 | Mais desistência |
| Não ser branco | 1,54 | Mais desistência (os autores apontam um possível descompasso entre o conteúdo dos programas e a realidade social e cultural dos participantes) |
| Histórico criminal maior | 1,47 | Mais desistência |
| Mais adversidades na infância | 1,44 | Mais desistência |
| Atividades de lazer problemáticas | 1,28 | Mais desistência |
| Transtorno de personalidade registrado | 1,21 | Mais desistência |
| Idade (quanto maior) | 0,69 | Os mais velhos desistiram menos; os mais jovens, mais |
| Programa com estratégias motivacionais | 0,44 | Chance de desistir menor que a metade |
O “perfil de violência” vem de uma classificação de pesquisa que separa quem é violento só dentro da família, em geral com menor gravidade, de quem também é violento fora de casa ou tem mais instabilidade emocional. A menor taxa de desistência, 9%, veio justamente do primeiro grupo.
Na análise mais exigente, que considera vários fatores ao mesmo tempo, menos coisas continuaram significativas. Ficaram: ser mais jovem (OR 0,63 para a idade: quanto mais velho, menos desistência), ter transtorno de personalidade (OR 1,73) e ter vivido mais adversidades na infância (OR 2,16). Apareceu também um achado inesperado: autores com menor frequência de violência desistiram mais (OR 0,59 para maior frequência). Os autores sugerem que quem pratica violência mais frequente e grave costuma ter consequências legais mais claras e, por isso, mais motivo para cumprir o programa, enquanto quem não vê a própria violência como grave pode achar a intervenção desnecessária.
O que não se associou à desistência: ser casado, escolaridade, transtornos mentais em geral, raiva e agressividade, atitudes e a prontidão para mudar avaliada nos estudos. Esse último ponto merece atenção: o quanto a pessoa se mostra disposta a mudar não se mostrou, nesses dados, um bom indicador de quem vai até o fim.
O que os autores concluem. Quem desistiu tendia a ter um estilo de vida mais instável, menos adesão às regras sociais e à lei e mais instabilidade psicológica. Muitos desses fatores são os mesmos que a pesquisa associa a voltar a cometer crimes e violência. Daí a frase que resume o trabalho: quem mais precisaria de uma intervenção intensa é justamente quem menos aproveita dela. Os autores ressaltam que ainda faltam estudos para confirmar que os fatores de risco para desistir são os mesmos que os de reincidência.
No Instagram, o Dr. Anderson explica por que a promessa de “dessa vez vou mudar” prende tanto, e por que vale olhar o histórico de entregas, não o discurso:
O que esse estudo não diz
- Não prevê o comportamento de uma pessoa específica. Os números são médias de grupos. Nenhum deles diz se um homem ou uma mulher em particular vai abandonar o programa ou voltar a agredir.
- Associação não é causa. A meta-análise reúne estudos que observaram quem desistiu e quem terminou. Ela mostra quais características andam junto com a desistência, não que elas a provocam. Adversidade na infância, por exemplo, apareceu associada, mas não explica nem justifica a violência de ninguém.
- Não mede o risco de nova agressão. A ligação entre abandonar e reincidir vem de outros estudos citados pelos autores.
- Os estudos variaram muito entre si. A diferença entre os resultados foi alta na maior parte das análises, a qualidade média dos estudos foi intermediária (cerca de 3 numa escala de 0 a 5) e a maioria dos fatores só apareceu na análise mais simples.
- O achado sobre estratégias motivacionais pede cautela. Ele veio de apenas cinco estudos, e três deles tinham baixa qualidade metodológica.
- Poucas mulheres autoras e poucos países fora da América do Norte. Por isso os pesquisadores não conseguiram testar se país, local do programa ou sexo dos participantes mudam os resultados. Nenhum estudo brasileiro entrou, e os grupos reflexivos daqui podem funcionar de outro jeito.
O que isso muda na prática
Para quem sofreu a violência
- Não deposite a sua segurança na participação dele num grupo. Se, em média, um em cada três abandona o programa, a frequência a um grupo não pode ser o seu plano de proteção. E, como mostramos no artigo sobre a meta-análise da Babcock, mesmo entre quem termina o efeito dos programas sobre novas agressões é pequeno.
- Trate o abandono como sinal de alerta. Os estudos citados pelos autores indicam que quem não termina tem mais chance de voltar a agredir, muitas vezes nos meses seguintes. Se souber que ele parou de ir, revise o seu plano de segurança, avise as pessoas da sua rede de apoio e fique atenta a aproximações, recados e mudanças de comportamento.
- Informe quem acompanha o seu caso. Se a participação foi determinada pela Justiça e você souber do abandono, vale comunicar a Defensoria Pública, o seu advogado ou advogada, o Ministério Público ou o serviço da rede de atendimento que acompanha você.
- Segurança em primeiro lugar. Em perigo, ligue 190. Para orientação sobre violência contra a mulher, o Ligue 180 funciona 24 horas, de graça. A medida protetiva continua sendo uma ferramenta central, com ou sem programa: entenda como ela funciona em medida protetiva não é exagero.
- Terminar o programa também não é garantia. Um certificado de participação não substitui o que você observa ao longo do tempo: respeito consistente aos seus limites, inclusive à decisão de não reatar. Leia sobre a falsa desculpa e sobre as tentativas de reaproximação.
- Cuide da sua saúde, independentemente do que ele faça. Quando há sintomas de estresse pós-traumático ou de TEPT complexo, as abordagens indicadas são EMDR, Brainspotting e terapia cognitivo-comportamental focada no trauma. Insônia, dores, cansaço e ansiedade também merecem avaliação médica.
No vídeo curto abaixo, o Dr. Anderson comenta em que momento uma pessoa com traços narcisistas costuma procurar ajuda, o que ajuda a entender por que procurar um grupo, por si só, não é prova de mudança:
Para familiares e profissionais
- Não use o grupo como argumento para reaproximação. “Ele está indo às reuniões” não é motivo para pressionar a vítima a reatar ou a retirar uma medida. Frequentar é obrigação dele, e abandonar é comum.
- Respeite o tempo e as decisões dela. Sair de uma relação violenta costuma ser um processo com idas e vindas, como explicamos em por que é tão difícil sair de um relacionamento abusivo.
- Para quem conduz programas: os autores recomendam adaptar o conteúdo e a intensidade ao risco, às necessidades e ao perfil de cada participante, levar em conta uso de substâncias e traços de personalidade e incluir estratégias motivacionais, que se associaram a menos desistência.
No Instagram, o Dr. Anderson explica quando envolver a Justiça e por que essa decisão deve proteger você:
Perguntas frequentes
Quantos autores de violência abandonam os grupos reflexivos?
Não há números brasileiros nessa meta-análise. Nos 30 estudos reunidos, de outros países, a desistência variou de 9% a 67%, com média de cerca de 35%: aproximadamente um em cada três participantes não completou o programa.
O que aumenta a chance de um autor de violência abandonar o programa?
Ser mais jovem, usar álcool ou drogas, estar desempregado, ter histórico criminal, ter transtorno de personalidade, ter vivido mais adversidades na infância e ter um perfil de violência que vai além da família. Programas com estratégias motivacionais tiveram menos desistência.
Se ele abandonou o programa, o risco aumenta?
Estudos citados pelos autores indicam que quem não termina tem mais chance de voltar a agredir, muitas vezes nos primeiros meses depois de sair. Trate o abandono como sinal de alerta: revise o plano de segurança, avise a sua rede e quem acompanha o seu caso. Em perigo, ligue 190.
Se ele terminou o programa, eu estou segura?
Não dá para concluir isso. Terminar o programa não é sinônimo de segurança: os programas têm efeito pequeno sobre novas agressões, e nenhum estudo prevê o comportamento de uma pessoa específica. Observe atitudes ao longo do tempo e mantenha as suas medidas de proteção.
Dizer que quer mudar faz diferença?
Nesta meta-análise, a prontidão para mudar avaliada nos estudos não se associou de forma significativa a terminar ou abandonar o programa. O que a pessoa diz sobre a própria vontade de mudar não substitui o que ela faz de forma consistente.
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Referências científicas
- Cunha O, Pedrosa J, Silva Pereira B, Caridade S, de Castro Rodrigues A, Braga T. Intervention program dropout among perpetrators of intimate partner violence: a meta-analysis of correlated variables. Trauma, Violence, & Abuse. 2024;25(4):2735-2751. (DOI: 10.1177/15248380231224036)
- Babcock JC, Gallagher MW, Richardson A, Godfrey DA, Reeves VE, D’Souza J. Which battering interventions work? An updated meta-analytic review of intimate partner violence treatment outcome research. Clinical Psychology Review. 2024;111:102437. (DOI: 10.1016/j.cpr.2024.102437)
- Jewell LM, Wormith JS. Variables associated with attrition from domestic violence treatment programs targeting male batterers. Criminal Justice and Behavior. 2010;37(10):1086-1113. (DOI: 10.1177/0093854810376815)
- Olver ME, Stockdale KC, Wormith JS. A meta-analysis of predictors of offender treatment attrition and its relationship to recidivism. Journal of Consulting and Clinical Psychology. 2011;79(1):6-21. (DOI: 10.1037/a0022200)
- Holtzworth-Munroe A, Stuart GL. Typologies of male batterers: three subtypes and the differences among them. Psychological Bulletin. 1994;116(3):476-497. (DOI: 10.1037/0033-2909.116.3.476)
- Brasil. Lei nº 11.340, de 7 de agosto de 2006 (Lei Maria da Penha), artigos 22, 35 e 45, com a redação dada pela Lei nº 13.984, de 3 de abril de 2020.
Conteúdo educativo, não substitui avaliação individual. Em situação de risco, ligue 190; para orientação sobre violência contra a mulher, Ligue 180; para apoio emocional, CVV 188.
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