Quantos autores de violência abandonam os programas de reeducação? O que mostra uma meta-análise de 30 estudos

Quantos autores de violência abandonam os programas de reeducação? O que mostra uma meta-análise de 30 estudos
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Dr. Anderson Contaifer

Médico · CRM-SC 24.484 · Especialista em Clínica Médica · RQE 18.790. Graduado pela EMESCAM em 2012, com título de especialista em Clínica Médica pela Sociedade Brasileira de Clínica Médica (SBCM), em 2019. Atende adultos exclusivamente por teleconsulta, com avaliação individual das repercussões físicas e emocionais de relacionamentos abusivos e do estresse prolongado. Criador do Programa Quebrando as Algemas e de conteúdo educativo sobre relacionamentos abusivos, limites e autocuidado.

Informação para entender relações abusivas e cuidar da sua saúde

Dr. Anderson Contaifer (CRM-SC 24.484, RQE de Clínica Médica 18.790), médico especialista em Clínica Médica e criador do blog Quebrando as Algemas, atende por teleconsulta pessoas com sequelas de abuso narcisista e TEPT-C em todo o Brasil.

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Resposta rápida

Em média, cerca de um em cada três. Uma meta-análise de 2024, liderada por uma equipe da Universidade Lusófona, em Portugal, reuniu 30 estudos com 16.412 participantes e encontrou taxas de desistência entre 9% e 67%, com média de 35%. Abandonar o programa foi mais comum entre autores mais jovens, com uso de álcool ou drogas, histórico criminal, transtorno de personalidade e mais adversidades na infância. Para quem sofreu a violência, o abandono é um sinal de alerta, e a segurança não deve depender dessa participação.

Agradecimento especial

Obrigado, Profa. Olga Cunha

A meta-análise explicada neste artigo foi enviada ao Dr. Anderson pela professora Olga Cunha, professora auxiliar da Faculdade de Psicologia, Educação e Desporto da Universidade Lusófona, no Porto (Portugal), e pesquisadora do HEI-Lab, primeira autora e autora responsável pelo trabalho. Quando o Dr. Anderson escreveu pedindo o texto completo para estudá-lo, ela gentilmente o enviou. Fica aqui o nosso agradecimento especial pela gentileza e pela generosidade de compartilhar ciência de qualidade com quem cuida de sobreviventes de violência no Brasil. Este texto é a nossa forma de levar o trabalho da equipe a mais pessoas. Muito obrigado, Professora Olga Cunha, pela gentileza. Thank you, Professor Cunha, for your kindness and generosity.

Na audiência, o juiz determinou que ele frequentasse um grupo para autores de violência. Nas primeiras semanas, ele fez questão de avisar, por recado da família, que estava indo a todos os encontros. Depois, os recados pararam. Um dia você fica sabendo, quase por acaso, que ele não aparece mais por lá. E a pergunta volta, mais forte: o que isso significa para mim?

Ontem publicamos aqui no blog o que uma grande meta-análise mostrou sobre a pergunta “programas para autores de violência funcionam?“. Este artigo trata de outra parte da história, que pesa muito na vida real: quantos autores de violência abandonam esses programas no meio do caminho, o que está associado a esse abandono e o que isso quer dizer para quem sofreu a violência.

O que é desistência num programa para autores de violência

Programas para autores de violência são intervenções, quase sempre em grupo, para pessoas que agrediram o parceiro ou a parceira. Em muitos países, a participação é determinada pela Justiça. No Brasil, esses espaços costumam ser chamados de grupos reflexivos, e a Lei Maria da Penha (Lei 11.340/2006) já previa centros de educação e de reabilitação para agressores. Em 2020, a Lei 13.984 incluiu entre as medidas protetivas de urgência do artigo 22 o comparecimento do agressor a programas de recuperação e reeducação (inciso VI) e o acompanhamento psicossocial, individual ou em grupo (inciso VII).

Na pesquisa, desistência (em inglês, dropout) é parar de participar antes de completar todas as sessões previstas. Parece um detalhe administrativo, mas não é. Os autores lembram que estudos anteriores encontraram uma ligação entre não terminar o programa e voltar a agredir: quem abandona tem mais chance de reincidir, em geral nos primeiros 3 a 6 meses depois de sair. E muita desistência dificulta saber se os programas funcionam.

No vídeo abaixo, o Dr. Anderson responde a uma dúvida comum de quem ouve promessas de mudança numa relação com traços narcisistas:

O que o estudo fez

Olga Cunha, Jéssica Pedrosa, Bárbara Silva Pereira, Sónia Caridade, Andreia de Castro Rodrigues e Teresa Braga, de instituições de Portugal (Universidade Lusófona, ISPA e Universidade do Minho) e da França (serviços penitenciários de integração e liberdade condicional, em Laon), publicaram a meta-análise em 2024 na revista Trauma, Violence, & Abuse. Meta-análise é um estudo que junta os resultados de várias pesquisas para chegar a uma estimativa geral.

  • A busca: seis bases de dados científicas, com estudos publicados entre 2010 e 2022, em inglês, espanhol ou português. De 1.347 referências encontradas, 30 estudos, com 31 amostras independentes e 16.412 participantes, cumpriram os critérios.
  • Onde: 60% dos estudos foram feitos nos Estados Unidos, seguidos pela Espanha. Também entraram pesquisas da Noruega, Países Baixos, Austrália, Canadá, Portugal e Nova Zelândia. Nenhum estudo brasileiro.
  • Quem: a maioria das amostras era só de homens (24 das 31). Duas eram só de mulheres e cinco eram mistas. A idade média dos participantes era de cerca de 35 anos.
  • Os programas: 90% funcionavam na comunidade, fora de prisões e hospitais, e em pouco mais da metade das amostras os participantes tinham sido encaminhados pela Justiça. O formato mais comum foi o de grupo, e a abordagem mais usada foi a terapia cognitivo-comportamental, sozinha ou combinada com outras.
  • O que foi comparado: características de quem desistiu e de quem terminou, da idade e do trabalho ao histórico de violência e ao tipo de programa.

O resultado foi expresso em razão de chances (em inglês, odds ratio ou OR). Acima de 1, mais chance de desistir; abaixo de 1, menos. Um OR de 1,78 indica chance cerca de 1,8 vez maior. Os pesquisadores fizeram dois tipos de análise: uma que olha cada fator isoladamente e outra, mais exigente, que considera vários fatores ao mesmo tempo.

O que o estudo encontrou

Quantos desistem. As taxas de desistência variaram de 9% a 67% entre os estudos, com média de 35,44%. Ou seja, em média, cerca de um em cada três participantes não chegou ao fim. Os autores consideram a taxa alta.

O que se associou a mais desistência, olhando cada fator separadamente:

Fator Razão de chances (OR) Em palavras simples
Perfil de violência que vai além da família 2,45 Quem também é violento fora de casa ou tem perfil mais instável desistiu mais
Uso de álcool ou outras drogas 1,78 Mais desistência
Estar desempregado 1,78 Mais desistência
Não ser branco 1,54 Mais desistência (os autores apontam um possível descompasso entre o conteúdo dos programas e a realidade social e cultural dos participantes)
Histórico criminal maior 1,47 Mais desistência
Mais adversidades na infância 1,44 Mais desistência
Atividades de lazer problemáticas 1,28 Mais desistência
Transtorno de personalidade registrado 1,21 Mais desistência
Idade (quanto maior) 0,69 Os mais velhos desistiram menos; os mais jovens, mais
Programa com estratégias motivacionais 0,44 Chance de desistir menor que a metade

O “perfil de violência” vem de uma classificação de pesquisa que separa quem é violento só dentro da família, em geral com menor gravidade, de quem também é violento fora de casa ou tem mais instabilidade emocional. A menor taxa de desistência, 9%, veio justamente do primeiro grupo.

Na análise mais exigente, que considera vários fatores ao mesmo tempo, menos coisas continuaram significativas. Ficaram: ser mais jovem (OR 0,63 para a idade: quanto mais velho, menos desistência), ter transtorno de personalidade (OR 1,73) e ter vivido mais adversidades na infância (OR 2,16). Apareceu também um achado inesperado: autores com menor frequência de violência desistiram mais (OR 0,59 para maior frequência). Os autores sugerem que quem pratica violência mais frequente e grave costuma ter consequências legais mais claras e, por isso, mais motivo para cumprir o programa, enquanto quem não vê a própria violência como grave pode achar a intervenção desnecessária.

O que não se associou à desistência: ser casado, escolaridade, transtornos mentais em geral, raiva e agressividade, atitudes e a prontidão para mudar avaliada nos estudos. Esse último ponto merece atenção: o quanto a pessoa se mostra disposta a mudar não se mostrou, nesses dados, um bom indicador de quem vai até o fim.

O que os autores concluem. Quem desistiu tendia a ter um estilo de vida mais instável, menos adesão às regras sociais e à lei e mais instabilidade psicológica. Muitos desses fatores são os mesmos que a pesquisa associa a voltar a cometer crimes e violência. Daí a frase que resume o trabalho: quem mais precisaria de uma intervenção intensa é justamente quem menos aproveita dela. Os autores ressaltam que ainda faltam estudos para confirmar que os fatores de risco para desistir são os mesmos que os de reincidência.

No Instagram, o Dr. Anderson explica por que a promessa de “dessa vez vou mudar” prende tanto, e por que vale olhar o histórico de entregas, não o discurso:

O que esse estudo não diz

  • Não prevê o comportamento de uma pessoa específica. Os números são médias de grupos. Nenhum deles diz se um homem ou uma mulher em particular vai abandonar o programa ou voltar a agredir.
  • Associação não é causa. A meta-análise reúne estudos que observaram quem desistiu e quem terminou. Ela mostra quais características andam junto com a desistência, não que elas a provocam. Adversidade na infância, por exemplo, apareceu associada, mas não explica nem justifica a violência de ninguém.
  • Não mede o risco de nova agressão. A ligação entre abandonar e reincidir vem de outros estudos citados pelos autores.
  • Os estudos variaram muito entre si. A diferença entre os resultados foi alta na maior parte das análises, a qualidade média dos estudos foi intermediária (cerca de 3 numa escala de 0 a 5) e a maioria dos fatores só apareceu na análise mais simples.
  • O achado sobre estratégias motivacionais pede cautela. Ele veio de apenas cinco estudos, e três deles tinham baixa qualidade metodológica.
  • Poucas mulheres autoras e poucos países fora da América do Norte. Por isso os pesquisadores não conseguiram testar se país, local do programa ou sexo dos participantes mudam os resultados. Nenhum estudo brasileiro entrou, e os grupos reflexivos daqui podem funcionar de outro jeito.

O que isso muda na prática

Para quem sofreu a violência

  • Não deposite a sua segurança na participação dele num grupo. Se, em média, um em cada três abandona o programa, a frequência a um grupo não pode ser o seu plano de proteção. E, como mostramos no artigo sobre a meta-análise da Babcock, mesmo entre quem termina o efeito dos programas sobre novas agressões é pequeno.
  • Trate o abandono como sinal de alerta. Os estudos citados pelos autores indicam que quem não termina tem mais chance de voltar a agredir, muitas vezes nos meses seguintes. Se souber que ele parou de ir, revise o seu plano de segurança, avise as pessoas da sua rede de apoio e fique atenta a aproximações, recados e mudanças de comportamento.
  • Informe quem acompanha o seu caso. Se a participação foi determinada pela Justiça e você souber do abandono, vale comunicar a Defensoria Pública, o seu advogado ou advogada, o Ministério Público ou o serviço da rede de atendimento que acompanha você.
  • Segurança em primeiro lugar. Em perigo, ligue 190. Para orientação sobre violência contra a mulher, o Ligue 180 funciona 24 horas, de graça. A medida protetiva continua sendo uma ferramenta central, com ou sem programa: entenda como ela funciona em medida protetiva não é exagero.
  • Terminar o programa também não é garantia. Um certificado de participação não substitui o que você observa ao longo do tempo: respeito consistente aos seus limites, inclusive à decisão de não reatar. Leia sobre a falsa desculpa e sobre as tentativas de reaproximação.
  • Cuide da sua saúde, independentemente do que ele faça. Quando há sintomas de estresse pós-traumático ou de TEPT complexo, as abordagens indicadas são EMDR, Brainspotting e terapia cognitivo-comportamental focada no trauma. Insônia, dores, cansaço e ansiedade também merecem avaliação médica.

No vídeo curto abaixo, o Dr. Anderson comenta em que momento uma pessoa com traços narcisistas costuma procurar ajuda, o que ajuda a entender por que procurar um grupo, por si só, não é prova de mudança:

Para familiares e profissionais

  • Não use o grupo como argumento para reaproximação. “Ele está indo às reuniões” não é motivo para pressionar a vítima a reatar ou a retirar uma medida. Frequentar é obrigação dele, e abandonar é comum.
  • Respeite o tempo e as decisões dela. Sair de uma relação violenta costuma ser um processo com idas e vindas, como explicamos em por que é tão difícil sair de um relacionamento abusivo.
  • Para quem conduz programas: os autores recomendam adaptar o conteúdo e a intensidade ao risco, às necessidades e ao perfil de cada participante, levar em conta uso de substâncias e traços de personalidade e incluir estratégias motivacionais, que se associaram a menos desistência.

No Instagram, o Dr. Anderson explica quando envolver a Justiça e por que essa decisão deve proteger você:

Perguntas frequentes

Quantos autores de violência abandonam os grupos reflexivos?

Não há números brasileiros nessa meta-análise. Nos 30 estudos reunidos, de outros países, a desistência variou de 9% a 67%, com média de cerca de 35%: aproximadamente um em cada três participantes não completou o programa.

O que aumenta a chance de um autor de violência abandonar o programa?

Ser mais jovem, usar álcool ou drogas, estar desempregado, ter histórico criminal, ter transtorno de personalidade, ter vivido mais adversidades na infância e ter um perfil de violência que vai além da família. Programas com estratégias motivacionais tiveram menos desistência.

Se ele abandonou o programa, o risco aumenta?

Estudos citados pelos autores indicam que quem não termina tem mais chance de voltar a agredir, muitas vezes nos primeiros meses depois de sair. Trate o abandono como sinal de alerta: revise o plano de segurança, avise a sua rede e quem acompanha o seu caso. Em perigo, ligue 190.

Se ele terminou o programa, eu estou segura?

Não dá para concluir isso. Terminar o programa não é sinônimo de segurança: os programas têm efeito pequeno sobre novas agressões, e nenhum estudo prevê o comportamento de uma pessoa específica. Observe atitudes ao longo do tempo e mantenha as suas medidas de proteção.

Dizer que quer mudar faz diferença?

Nesta meta-análise, a prontidão para mudar avaliada nos estudos não se associou de forma significativa a terminar ou abandonar o programa. O que a pessoa diz sobre a própria vontade de mudar não substitui o que ela faz de forma consistente.

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Referências científicas

  1. Cunha O, Pedrosa J, Silva Pereira B, Caridade S, de Castro Rodrigues A, Braga T. Intervention program dropout among perpetrators of intimate partner violence: a meta-analysis of correlated variables. Trauma, Violence, & Abuse. 2024;25(4):2735-2751. (DOI: 10.1177/15248380231224036)
  2. Babcock JC, Gallagher MW, Richardson A, Godfrey DA, Reeves VE, D’Souza J. Which battering interventions work? An updated meta-analytic review of intimate partner violence treatment outcome research. Clinical Psychology Review. 2024;111:102437. (DOI: 10.1016/j.cpr.2024.102437)
  3. Jewell LM, Wormith JS. Variables associated with attrition from domestic violence treatment programs targeting male batterers. Criminal Justice and Behavior. 2010;37(10):1086-1113. (DOI: 10.1177/0093854810376815)
  4. Olver ME, Stockdale KC, Wormith JS. A meta-analysis of predictors of offender treatment attrition and its relationship to recidivism. Journal of Consulting and Clinical Psychology. 2011;79(1):6-21. (DOI: 10.1037/a0022200)
  5. Holtzworth-Munroe A, Stuart GL. Typologies of male batterers: three subtypes and the differences among them. Psychological Bulletin. 1994;116(3):476-497. (DOI: 10.1037/0033-2909.116.3.476)
  6. Brasil. Lei nº 11.340, de 7 de agosto de 2006 (Lei Maria da Penha), artigos 22, 35 e 45, com a redação dada pela Lei nº 13.984, de 3 de abril de 2020.

Conteúdo educativo, não substitui avaliação individual. Em situação de risco, ligue 190; para orientação sobre violência contra a mulher, Ligue 180; para apoio emocional, CVV 188.

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Sobre o autor

Dr. Anderson Contaifer de Carvalho
Médico · CRM-SC 24.484 · Especialista em Clínica Médica · RQE 18.790. Graduado pela EMESCAM em 2012, com título de especialista em Clínica Médica pela Sociedade Brasileira de Clínica Médica (SBCM), em 2019. Atende adultos exclusivamente por teleconsulta, com avaliação individual das repercussões físicas e emocionais de relacionamentos abusivos e do estresse prolongado. Criador do Programa Quebrando as Algemas e de conteúdo educativo sobre relacionamentos abusivos, limites e autocuidado.

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