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Atendimento médico
As repercussões do abuso narcisista no corpo (insônia, taquicardia, fadiga, alterações de sono e peso) têm avaliação e acompanhamento médico.
Dr. Anderson Contaifer · Médico Especialista em Clínica Médica · CRM-SC 24.484 · RQE 18.790 · Teleconsulta (qualquer lugar do Brasil e do mundo)
As repercussões do abuso narcisista no corpo (insônia, taquicardia, fadiga, alterações de peso e sono) têm avaliação e acompanhamento médico. O Dr. Anderson Contaifer, médico, especialista em Clínica Médica (CRM-SC 24.484, RQE 18.790), atende por teleconsulta para todo o Brasil. Cada consulta é uma avaliação clínica individual.
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Falsa desculpa (ou pseudodesculpa) é o pedido de perdão que não repara nada: em vez de reconhecer o erro, ele desvia a responsabilidade para a sua reação (“sinto muito que você tenha se sentido assim”), vem acompanhado de um “mas” que devolve a culpa para você (“desculpa, mas você me provocou”) ou serve apenas para encerrar a reclamação e seguir como se nada tivesse acontecido. A ciência das desculpas mostra que um pedido genuíno precisa nomear o ato, assumir a responsabilidade e vir seguido de mudança de comportamento. A falsa desculpa não tem nenhum desses elementos, e é por isso que, mesmo depois de “perdoar”, o seu peito continua apertado e o mesmo abuso se repete na semana seguinte. A sua angústia não é frescura: é o registro correto de que não houve reparação nenhuma.
O que é a falsa desculpa do narcisista
A cena costuma se repetir com pequenas variações. Depois da explosão, do deboche na frente dos outros ou do fim de semana de silêncio punitivo, ele finalmente “pede desculpas”. Você escuta as palavras, aceita, tenta virar a página. E, em vez de alívio, sente um incômodo difícil de nomear: a sensação de que a culpa, no fim das contas, caiu no seu colo. Você repassa a conversa de madrugada tentando entender em que momento o pedido de perdão dele virou uma lista dos seus defeitos.
Esse incômodo tem explicação. O que você recebeu não foi um pedido de desculpas, foi uma falsa desculpa: uma peça de teatro verbal cujo objetivo não é reparar o dano, é silenciar a sua reclamação, desviar a responsabilidade e devolver a relação ao ponto em que ele estava no controle. A estrutura frasal entrega o truque. “Sinto muito que você tenha se sentido assim” não fala do que ele fez, fala da sua reação, como se o problema fosse a sua sensibilidade e não o comportamento dele. “Eu te peço desculpas, mas você também me provocou” usa o “mas” para anular o arrependimento e transferir a culpa na mesma frase.
Neste guia, o Dr. Anderson Contaifer, médico especialista em Clínica Médica (CRM-SC 24.484 | RQE 18.790), explica o que a ciência diz sobre desculpas genuínas e falsas: quais elementos um pedido de perdão precisa ter para reparar de verdade, por que pessoas com traços narcisistas raramente conseguem oferecê-los, o que acontece no seu corpo quando o conflito termina sem resolução real e por que o ciclo de perdão e repetição adoece com o tempo. O conteúdo tem caráter educativo e não substitui consulta médica individual.
Como é um pedido de desculpas genuíno, segundo a ciência
Desculpas foram estudadas a fundo pela psicologia social. Uma das pesquisas mais citadas da área decompôs o pedido de desculpas eficaz em seis elementos: expressão de arrependimento, explicação do que deu errado, reconhecimento da responsabilidade, declaração de arrependimento sincero, oferta de reparação e pedido de perdão. E o achado central é incômodo para qualquer manipulador: o componente mais importante de todos é o reconhecimento da responsabilidade, ou seja, admitir com clareza “eu fiz isso, e foi errado” [1].
Outros estudos experimentais chegaram a conclusões parecidas por caminhos diferentes. A desculpa que reduz a raiva da pessoa ofendida é aquela que nomeia a ofensa específica e demonstra que o ofensor entendeu o dano causado, não a fórmula vaga dita com pressa [4]. Um “desculpa por tudo” genérico, que não consegue dizer em voz alta o que exatamente está sendo desculpado, falha nesse critério básico. E há um detalhe que quase ninguém percebe: pedir desculpas de verdade exige tolerar um golpe na própria imagem. A pesquisa sobre as barreiras psicológicas do pedido de perdão mostra que admitir um erro ameaça a visão que a pessoa tem de si mesma, e que quem não suporta essa ameaça recorre a estratégias defensivas: justificar, minimizar, culpar a vítima ou se recusar a reconhecer o dano [2].
É exatamente aí que o traço narcisista trava o processo. Para quem depende de uma autoimagem grandiosa e não tolera crítica, dizer “eu errei” sem anexos nem atenuantes é quase insuportável. Estudos sobre narrativas de conflito mostram que ofensores, em geral, já tendem a descrever o próprio comportamento como compreensível, provocado e menos grave do que a vítima descreve [5]. No abuso narcisista esse viés vira método: a versão dele não é apenas enviesada, é reescrita ativamente para que o erro nunca seja dele. Há ainda pesquisas mostrando que pessoas diferem no limiar do que consideram ofensa digna de desculpas: quem raramente se enxerga como ofensor simplesmente não vê motivo para se desculpar [3]. O narcisista vive nesse extremo: no tribunal interno dele, ele é sempre o réu inocente e você é sempre a acusação exagerada.
| Elemento | Desculpa genuína | Falsa desculpa |
|---|---|---|
| Foco da frase | O ato cometido (“eu gritei com você, foi errado”) | A sua reação (“sinto muito que você tenha se sentido assim”) |
| Responsabilidade | Assumida por inteiro, sem “mas” | Dividida, condicionada ou devolvida (“você me provocou”) |
| Nomeação do erro | Específica: diz o que fez e por que machucou | Vaga: “desculpa aí”, “desculpa por tudo”, “se eu errei” |
| Reparação | Oferece corrigir o dano e aceita consequências | Exige perdão imediato e cobra “página virada” |
| Comportamento depois | Muda de forma observável e sustentada | Repete o mesmo ato, às vezes na mesma semana |
| Efeito em quem recebe | Alívio, raiva diminui, confiança começa a se reconstruir | Peito apertado, confusão e sensação de culpa transferida |
As frases da falsa desculpa e o que elas escondem
A falsa desculpa tem um vocabulário próprio, e aprender a reconhecê-lo é uma forma concreta de proteger a sua percepção. A mais famosa é a desculpa condicional: “desculpa SE você se magoou”. O “se” transforma o seu sofrimento em hipótese, como se a mágoa fosse uma possibilidade discutível e não um fato que aconteceu na sua frente. Na mesma família está o “sinto muito que você tenha se sentido assim”, que pede desculpas pelo seu sentimento, não pelo ato que o causou. Em ambas, ele não admite nada: apenas lamenta, de longe, o efeito que “misteriosamente” apareceu em você.
Depois vem a desculpa com “mas”: “eu peço desculpas, mas você também me provocou”, “desculpa, mas você sabe como eu fico quando você faz isso”. A conjunção funciona como uma borracha: tudo o que veio antes dela é apagado, e o que fica é a acusação. A pesquisa sobre estratégias defensivas descreve exatamente esse movimento: justificativas e transferência de culpa no lugar do reconhecimento [2]. Há também a desculpa performática, feita em público ou por mensagem longa e dramática, mais preocupada com a plateia do que com você, e a desculpa relâmpago, dita com pressa e seguida de irritação se você não “superar” imediatamente: “já pedi desculpa, o que mais você quer?”.
Repare no padrão por trás de todas elas: em nenhuma o ato é nomeado, em nenhuma a responsabilidade é assumida por inteiro e em todas existe um mecanismo de devolução da culpa. Quando a cobrança aperta, esse mecanismo tem nome técnico: DARVO, sigla em inglês para negar, atacar e inverter vítima e ofensor. Estudos experimentais mostram que essa manobra é eficaz: quem assiste de fora tende a achar a vítima menos crível e o agressor mais aceitável quando ele responde nesse formato [6], e quem está dentro da relação, exposta a essa inversão repetidas vezes, tende a se culpar mais pelo que sofreu [7].
| O que ele diz | O que está acontecendo nos bastidores |
|---|---|
| “Sinto muito que você tenha se sentido assim” | Desloca o problema do ato dele para a sua reação |
| “Desculpa SE eu te magoei” | Transforma o seu sofrimento em hipótese negociável |
| “Desculpa, mas você me provocou” | O “mas” apaga o arrependimento e transfere a culpa |
| “Já pedi desculpa, o que mais você quer?” | Cobra quitação imediata e te reposiciona como a exagerada |
| “Eu sou assim mesmo, você sabia” | Naturaliza o abuso e responsabiliza você por continuar ali |
| “Desculpa por TUDO então, sou um monstro” | Vira vítima da conversa e obriga você a consolar quem te feriu |
| “Nunca falei isso, você entendeu errado de novo” | Nega o fato e ataca a sua memória em vez de se desculpar |
Por que ele pede desculpas assim
A primeira razão é estrutural: o pedido de desculpas genuíno exige o que o traço narcisista menos tolera, a admissão de defeito. Reconhecer “eu errei, eu machuquei” fere a autoimagem grandiosa que sustenta o funcionamento narcisista. A literatura sobre as barreiras do pedido de perdão mostra que, quanto mais a pessoa percebe a admissão de erro como ameaça à própria identidade, mais ela recorre a desculpas defensivas ou à recusa completa [2]. Para o narcisista, a falsa desculpa é a solução perfeita desse dilema: ela compra o encerramento do conflito sem custar nenhum grama de autoimagem.
A segunda razão é tática. A falsa desculpa não existe para reparar o passado, existe para administrar o presente. Ela aparece quando você ameaça se afastar, quando a briga vazou para outras pessoas ou quando ele precisa de você funcional de novo. Nesse sentido, ela é prima do gaslighting: as duas técnicas trabalham a sua percepção da realidade, uma negando os fatos, a outra encenando uma reparação que não aconteceu [8]. Pesquisas qualitativas com vítimas de manipulação em relacionamentos descrevem esse padrão com precisão: episódios de reconciliação superficial que nunca revisitam o que de fato aconteceu, seguidos da repetição do mesmo comportamento [9].
A terceira razão é a mais dolorosa: funciona. Estudos sobre narrativas de conflito mostram que ofensores minimizam e recontextualizam o próprio comportamento de forma sistemática [5], e o DARVO leva isso ao extremo, transformando a conversa sobre o erro dele em um julgamento sobre você [6]. Quando a inversão se repete por meses, a vítima internaliza o roteiro: você começa a pedir desculpas pelas coisas que ele fez, a se policiar para “não provocar” e a duvidar do próprio direito de reclamar [7]. O pedido de perdão, que deveria ser o momento de reparação, vira mais uma engrenagem do controle.
Por que seu peito continua apertado depois do “perdão”
Muita gente se culpa por “não saber perdoar”: aceita as desculpas, decide seguir em frente e não entende por que a ansiedade continua, por que o corpo trava quando ele se aproxima, por que a cabeça repassa a conversa em loop. A explicação não está na sua capacidade de perdão, está na qualidade do que você recebeu. O seu sistema de alarme não responde às palavras “desculpa, amor”, responde à pergunta que importa para a sobrevivência: o perigo passou ou não passou?
E a resposta honesta do seu corpo é: não passou. Nada foi reconhecido, nada foi reparado, nenhum comportamento mudou. O conflito não foi resolvido, foi engavetado à força. A psicobiologia do estresse mostra que situações de ameaça social sem resolução, em que a pessoa segue sendo avaliada, julgada e sujeita a nova punição, estão entre as que mais elevam o cortisol e as que mais demoram a se desligar [13]. Viver ao lado de alguém que pode repetir o ataque a qualquer momento, porque nunca admitiu que atacou, é exatamente esse cenário em regime contínuo.
Com o tempo, a conta chega. A exposição repetida a ciclos de agressão e falsa reconciliação mantém o organismo em estado de vigilância crônica, e esse estado tem tradução clínica: insônia, tensão muscular, alterações de apetite, queda de imunidade, piora de dores e sintomas ansiosos e depressivos. Quando o padrão se estende por anos, o quadro pode evoluir para TEPT-C, o transtorno de estresse pós-traumático complexo, descrito na CID-11 (código 6B41), que soma às memórias intrusivas a autoimagem destruída e a dificuldade de confiar em qualquer pessoa [14]. E a pesquisa sobre experiências adversas mostra que a violência psicológica prolongada deixa rastro mensurável na saúde física décadas depois [15].
| O que você sente depois da falsa desculpa | O que está acontecendo no corpo |
|---|---|
| Peito apertado mesmo “com tudo resolvido” | O alarme de ameaça segue ligado porque não houve resolução real [13] |
| Repassar a conversa de madrugada | A mente tenta fechar um conflito que foi engavetado, não resolvido |
| Culpa difusa, sensação de ter exagerado | Efeito cumulativo da inversão vítima-ofensor (DARVO) [7] |
| Andar em ovos, medo de “provocar” | Hipervigilância aprendida após ciclos de punição imprevisível [12] |
| Insônia, dores, queda de imunidade | Carga crônica de estresse com repercussão física mensurável [15] |
| Vazio e desconfiança generalizada | Padrão compatível com TEPT-C após abuso prolongado [14] |
O ciclo perdão-repetição: quando perdoar vira combustível
Existe uma crença cultural de que perdoar sempre cura. A ciência é mais honesta: depende de quem recebe o perdão. Um estudo longitudinal com casais acompanhou o que acontece depois que um parceiro perdoa uma transgressão e encontrou um resultado desconfortável: quando o parceiro perdoado era pouco agradável e pouco comprometido com a mudança, o perdão aumentou a probabilidade de novas transgressões. Em vez de gratidão, o perdão fácil sinalizou que o comportamento sai barato [10].
Outro estudo, sobre o chamado efeito capacho, mostrou o custo do outro lado da mesa: quando a pessoa perdoa repetidamente alguém que não oferece reparação nem segurança, o perdão corrói o respeito próprio e a clareza sobre quem ela é [11]. Ou seja, no relacionamento abusivo, o perdão sem reparação machuca duas vezes: fortalece o padrão do agressor e desgasta a identidade da vítima. Não porque perdoar seja errado, mas porque perdão pressupõe reconhecimento do erro, e é justamente isso que a falsa desculpa nunca entrega.
Há ainda um terceiro ingrediente, o mais traiçoeiro: o alívio. Depois de dias de tensão, o pedido de desculpas, mesmo vazio, traz uma trégua. O carinho volta por algumas horas ou dias, e esse contraste entre punição e afeto funciona como reforço intermitente, o mesmo mecanismo que sustenta o vínculo traumático descrito na literatura sobre relacionamentos abusivos [12]. Você não fica porque “gosta de sofrer”: fica porque o seu cérebro foi condicionado por ciclos de dor e alívio imprevisíveis, e a falsa desculpa é a chave que dispara o alívio. Entender isso tira a culpa do lugar errado.
| Fase do ciclo | O que acontece | O que a falsa desculpa faz |
|---|---|---|
| 1. Agressão | Explosão, humilhação, silêncio punitivo ou traição | Ainda não aparece: você está “de castigo” |
| 2. Cobrança | Você reclama, chora, ameaça sair ou se afasta | É acionada como ferramenta de contenção de danos |
| 3. Falsa reparação | “Desculpa se você se magoou, mas você sabe como eu sou” | Compra o perdão sem admitir nada [2][6] |
| 4. Lua de mel curta | Carinho, promessas, alívio intenso depois da tensão | Dispara o reforço intermitente que prende você [12] |
| 5. Repetição | O mesmo comportamento volta, às vezes na mesma semana | Sai impune de novo, e o ciclo recomeça mais forte [10] |
Como responder a uma falsa desculpa sem entrar no jogo
O primeiro passo é interno: pare de julgar a desculpa pela emoção do momento e passe a julgá-la por critérios. A ciência já entregou o gabarito: um pedido genuíno nomeia o ato, assume a responsabilidade sem “mas” e vem seguido de mudança observável [1][4]. Diante de qualquer pedido de perdão, você pode se fazer três perguntas silenciosas: ele disse em voz alta O QUE fez? Ele assumiu a responsabilidade inteira ou dividiu comigo? Alguma coisa mudou depois da última desculpa? Se as respostas forem não, não e não, você não recebeu uma desculpa: recebeu uma senha para reiniciar o ciclo.
O segundo passo é comportamental: não discuta a sinceridade, observe a sequência. Debater se ele “falou de coração” é entrar num terreno que não tem prova e que ele controla. Em vez disso, responda de forma curta e neutra: “recebi o que você disse, vou observar as atitudes”. Você não precisa aceitar nem rejeitar a desculpa na hora, e não precisa consolar quem te feriu quando a desculpa vier embrulhada em autopiedade (“então sou um monstro”). Se a resposta dele à sua neutralidade for raiva ou nova inversão de culpa, isso também é informação: reparação de verdade não cobra recibo imediato.
O terceiro passo é estrutural: registre os fatos por escrito, num lugar seguro, fora do alcance dele. Data, o que aconteceu, o que foi dito na “reconciliação” e o que se repetiu depois. O registro combate o efeito mais tóxico da falsa desculpa, que é a reescrita da história [8]. Quando a memória escrita mostra a quinta “última vez” em três meses, fica muito mais difícil o discurso dele vencer a sua percepção. E, se houver qualquer forma de ameaça ou agressão física, o registro deixa de ser ferramenta emocional e vira proteção concreta: procure a Delegacia da Mulher ou ligue 180.
Quando procurar avaliação médica
Existe um ponto em que o problema deixa de ser “uma relação difícil” e passa a ser uma questão de saúde. Se você convive há meses ou anos com o ciclo de agressão e falsa reparação e percebe insônia persistente, ansiedade que não desliga, crises de choro, dores sem explicação, queda de rendimento, ideias de que “não aguenta mais” ou o hábito de pedir desculpas por tudo, o seu corpo já está pagando a conta do conflito sem resolução. Esses sintomas podem ser avaliados, nomeados e tratados: ninguém precisa atravessar isso na base da força de vontade.
A avaliação médica estruturada ajuda a separar o que é consequência do estresse crônico, o que é um transtorno ansioso ou depressivo instalado e o que pode indicar TEPT-C, além de rastrear as repercussões físicas que o abuso prolongado costuma deixar [14][15]. Com o quadro mapeado, o tratamento deixa de ser um tiro no escuro e passa a ter alvo: sono, regulação do alarme de ameaça, sintomas depressivos, dor. O objetivo não é “provar” nada contra ninguém, é devolver a você condições físicas e mentais de enxergar a relação com clareza e tomar as suas decisões.
Um aviso importante: se em algum momento você tiver pensamentos de morte ou vontade de se machucar, procure ajuda imediatamente. No Brasil, o Centro de Valorização da Vida (CVV) atende de graça e em sigilo pelo telefone 188, 24 horas por dia. Em situação de emergência, procure o serviço de urgência mais próximo. Pedir ajuda é um ato de coragem e de cuidado com a própria vida.
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Perguntas frequentes sobre a falsa desculpa do narcisista
Como um narcisista pede desculpas?
Em geral, sem nomear o que fez e sem assumir responsabilidade. As formas mais comuns são a desculpa condicional (“desculpa SE você se magoou”), a desculpa que culpa a sua reação (“sinto muito que você tenha se sentido assim”), a desculpa com “mas” (“desculpa, mas você me provocou”) e a desculpa relâmpago, que cobra perdão imediato. Todas encerram a reclamação sem reparar nada.
Como identificar um falso pedido de desculpas?
Aplique três critérios da ciência das desculpas: a pessoa nomeou o ato específico? Assumiu a responsabilidade inteira, sem “se”, sem “mas” e sem dividir a culpa com você? O comportamento mudou de forma visível depois? Um pedido genuíno passa nos três. A falsa desculpa falha em pelo menos um, quase sempre nos três.
“Sinto muito que você tenha se sentido assim” é desculpa de verdade?
Não. Essa frase lamenta a sua reação, não o ato que a causou. Quem fala assim não admite ter feito nada: transfere o problema para a sua sensibilidade. É uma das formas mais comuns de pseudodesculpa e costuma deixar a vítima com culpa e confusão em vez de alívio, exatamente porque não houve reconhecimento nenhum.
Por que ele pede desculpas e depois repete tudo?
Porque a desculpa não foi feita para mudar comportamento, foi feita para encerrar a sua reclamação. Sem reconhecimento do erro não existe motivo interno para mudança. A pesquisa mostra inclusive que, quando o perdão é concedido a quem não se compromete com reparação, a probabilidade de novas transgressões aumenta: o comportamento sai barato.
Narcisista sente arrependimento de verdade?
O arrependimento genuíno exige admitir um defeito próprio e tolerar a queda da autoimagem, que é justamente o que o funcionamento narcisista menos suporta. O que costuma existir é desconforto com as consequências: medo de perder o parceiro, a reputação ou a conveniência. Por isso a “desculpa” aparece quando você ameaça sair, e não quando você sofre.
Por que eu me sinto pior depois que ele pede desculpas?
Porque a falsa desculpa costuma vir com inversão de culpa (DARVO): ele nega, ataca e se coloca como vítima. Você entra na conversa esperando reparação e sai dela se sentindo culpada, exagerada ou “difícil”. Esse mal-estar não é falta de capacidade de perdoar: é a percepção correta de que a conta foi parar no seu colo.
Devo aceitar a desculpa para manter a paz?
Aceitar por cansaço tem preço: o estudo do efeito capacho mostra que perdoar repetidamente quem não oferece reparação corrói o respeito próprio e a clareza sobre quem você é. Você pode responder com neutralidade (“recebi, vou observar as atitudes”) sem se obrigar a declarar perdão na hora. Paz de verdade não exige que você minta para si mesma.
O que é a desculpa condicional?
É o pedido de perdão preso a uma condição ou hipótese: “desculpa SE eu te magoei”, “desculpa, MAS você começou”. O “se” nega que o dano aconteceu, o “mas” anula o arrependimento e devolve a culpa. Em ambas, a estrutura da frase protege a autoimagem de quem “se desculpa” e deixa a vítima como coautora do que sofreu.
Perdoar significa continuar na relação?
Não. Perdão é um processo interno de soltar o peso, e pode acontecer inclusive longe da pessoa. Continuar exposta a quem repete o abuso é outra decisão, que depende de segurança e de mudança real de comportamento. Perdoar sem proteção, dentro do ciclo, costuma virar combustível para a próxima rodada. Você pode perdoar e, ainda assim, ir embora.
Quando devo procurar ajuda profissional?
Se o ciclo de agressão e falsa reparação está deixando marcas: insônia, ansiedade constante, crises de choro, dores sem causa aparente, culpa por tudo, isolamento ou pensamentos de desistência. A avaliação médica organiza o quadro, rastreia repercussões físicas e direciona o tratamento. Em caso de pensamentos de morte, ligue 188 (CVV) ou procure emergência.
Referências científicas
- [1] Lewicki RJ, Polin B, Lount RB. An Exploration of the Structure of Effective Apologies. Negotiation and Conflict Management Research. 2016. https://doi.org/10.1111/ncmr.12073
- [2] Schumann K. The Psychology of Offering an Apology: Understanding the Barriers to Apologizing and How to Overcome Them. Current Directions in Psychological Science. 2018. https://doi.org/10.1177/0963721417741709
- [3] Schumann K, Ross M. Why Women Apologize More Than Men: Gender Differences in Thresholds for Perceiving Offensive Behavior. Psychological Science. 2010. https://doi.org/10.1177/0956797610384150
- [4] Kirchhoff J, Wagner U, Strack M. Apologies: Words of magic? The role of verbal components, anger reduction, and offence severity. Peace and Conflict: Journal of Peace Psychology. 2012. https://doi.org/10.1037/a0028092
- [5] Zechmeister JS, Romero C. Victim and offender accounts of interpersonal conflict: Autobiographical narratives of forgiveness and unforgiveness. Journal of Personality and Social Psychology. 2002. https://doi.org/10.1037/0022-3514.82.4.675
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- [7] Harsey SJ, Zurbriggen EL, Freyd JJ. Perpetrator Responses to Victim Confrontation: DARVO and Victim Self-Blame. Journal of Aggression, Maltreatment & Trauma. 2017. https://doi.org/10.1080/10926771.2017.1320777
- [8] Sweet PL. The Sociology of Gaslighting. American Sociological Review. 2019. https://doi.org/10.1177/0003122419874843
- [9] Klein W, Li S, Wood S. A qualitative analysis of gaslighting in romantic relationships. Personal Relationships. 2023. https://doi.org/10.1111/pere.12510
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- [15] Felitti VJ, Anda RF, Nordenberg D, et al. Relationship of Childhood Abuse and Household Dysfunction to Many of the Leading Causes of Death in Adults. American Journal of Preventive Medicine. 1998. https://doi.org/10.1016/S0749-3797(98)00017-8
Conteúdo educativo produzido pelo Dr. Anderson Contaifer, médico especialista em Clínica Médica (CRM-SC 24.484 | RQE 18.790).
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