Por que é tão difícil sair de um relacionamento abusivo? O que uma revisão de 2026 explica sobre o aprisionamento psicológico

Por que é tão difícil sair de um relacionamento abusivo? O que uma revisão de 2026 explica sobre o aprisionamento psicológico
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Dr. Anderson Contaifer

Médico · CRM-SC 24.484 · Especialista em Clínica Médica · RQE 18.790. Graduado pela EMESCAM em 2012, com título de especialista em Clínica Médica pela Sociedade Brasileira de Clínica Médica (SBCM), em 2019. Atende adultos exclusivamente por teleconsulta, com avaliação individual das repercussões físicas e emocionais de relacionamentos abusivos e do estresse prolongado. Criador do Programa Quebrando as Algemas e de conteúdo educativo sobre relacionamentos abusivos, limites e autocuidado.

Informação para entender relações abusivas e cuidar da sua saúde

Dr. Anderson Contaifer (CRM-SC 24.484, RQE de Clínica Médica 18.790), médico especialista em Clínica Médica e criador do blog Quebrando as Algemas, atende por teleconsulta pessoas com sequelas de abuso narcisista e TEPT-C em todo o Brasil.

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Resposta rápida

Uma revisão científica de 2026, de pesquisadoras da Purdue University (Estados Unidos), explica que sair de um relacionamento abusivo é difícil porque o agressor usa táticas que aumentam a dependência e a dúvida sobre si mesma: humilhação, gaslighting, controle e medo. Quando sair parece impossível, a mente tenta aliviar o choque entre amar e sofrer: reinterpreta, minimiza, justifica e normaliza o abuso, muitas vezes sem perceber. Isso não é fraqueza nem doença: é uma resposta comum e previsível.

Agradecimento especial

Obrigado, Profa. Ximena Arriaga

A revisão explicada neste artigo foi enviada ao Dr. Anderson pela professora Ximena B. Arriaga, do Departamento de Ciências Psicológicas da Purdue University (Estados Unidos), primeira autora e autora responsável pelo trabalho. Quando o Dr. Anderson escreveu pedindo o texto completo para estudá-lo, ela enviou o artigo e respondeu agradecendo o trabalho de divulgação feito aqui. Fica o nosso agradecimento especial pela gentileza e pela generosidade de compartilhar ciência de qualidade com quem cuida de sobreviventes de violência no Brasil. Este texto é a nossa forma de levar o trabalho da equipe a mais pessoas. Thank you, Professor Arriaga, for your kindness and generosity.

“Ele só estava nervoso.” “Foi brincadeira, eu que levei a sério.” “Todo casal briga.” “Ele teve uma infância difícil.” Quem já viveu um relacionamento abusivo costuma reconhecer essas frases, ditas para os outros e, principalmente, para si mesma. E quem está de fora costuma fazer a pergunta que mais machuca: “por que você não sai?”.

Uma revisão publicada em 2026 propõe uma resposta que não culpa quem sofre: o abuso funciona como uma armadilha psicológica, que mina a confiança da pessoa em si e aumenta a dependência do parceiro. Para aguentar, a mente passa a redesenhar o que está acontecendo.

O que é aprisionamento psicológico no relacionamento abusivo

As autoras chamam de aprisionamento (em inglês, entrapment) o conjunto de forças sociais e psicológicas que mantém alguém numa relação que faz mal. Elas lembram que a maioria das pessoas acaba saindo de um parceiro abusivo, mas muitas só conseguem depois de suportar o abuso por bastante tempo.

O ponto de partida é um conflito interno, a dissonância: a pessoa busca no vínculo a segurança e a alegria que a cultura promete a quem está num casal e, ao mesmo tempo, é machucada por quem deveria protegê-la. As duas realidades não cabem juntas. Quando sair parece inviável, a resposta mais racional da mente é mudar a forma de enxergar o que acontece, para que doa menos.

As autoras são diretas: suportar o abuso não é escolha consciente, nem sinal de fraqueza, defeito pessoal ou doença mental. É uma resposta comum e previsível, porque desfazer qualquer vínculo já é difícil, e desfazer um vínculo abusivo é ainda mais.

No vídeo abaixo, o Dr. Anderson explica como essa dissonância aparece na relação com uma pessoa com traços narcisistas:

O que esta revisão reúne e propõe

Arriaga, Florkiewicz e Gu publicaram o trabalho em março de 2026 na revista Current Opinion in Psychology, numa edição sobre violência interpessoal. É importante entender o tipo de texto: não é um estudo com participantes próprios nem traz porcentagens novas. É uma revisão: as autoras reúnem pesquisas publicadas ao longo de décadas, muitas do próprio grupo, e propõem um modelo para explicar como e por que as pessoas “regulam” o abuso, isto é, como a mente tenta dar conta dele quando ir embora não parece possível.

O texto abre com três histórias, de duas mulheres e de um homem, uma delas numa relação entre mulheres, para mostrar que o fenômeno não depende de gênero nem de orientação sexual. O modelo junta as táticas do agressor, a gravidade do abuso, a dependência do parceiro e as formas de redefinir e reenquadrar o que acontece.

As táticas que prendem: o que o agressor faz e para que serve

Em vez de olhar só para uma lista de atos, as autoras olham para a função de cada comportamento: o efeito que ele produz em quem sofre. A tabela resume as quatro famílias de táticas descritas na revisão:

Tática Como aparece no dia a dia O efeito em quem sofre
Humilhar e diminuir Deboche e insultos frequentes; gritos e exposição na frente dos outros Enfraquece a decisão de sair; corrói a autonomia, o valor próprio e a confiança nos próprios planos
Manipular a percepção da realidade (gaslighting) Recontar as brigas para que a culpa seja de quem sofre; chamar de “louca” ou “paranoica”; mudar detalhes do passado; alternar com momentos de charme A pessoa deixa de confiar no que viu e sentiu, tem dificuldade de chamar aquilo de abuso e o agressor sai sem culpa
Concentrar o controle Decidir roupa e programa; rastrear pelo celular; ocupar o tempo com mensagens; limitar acesso a dinheiro; atrapalhar o trabalho; falar mal de amigos e família Rouba a sensação de ser capaz e de ter controle da própria vida; aumenta a dependência emocional, social e financeira
Provocar medo Ameaças, objetos arremessados, crises de raiva intimidadoras; ameaçar o acesso aos filhos ou à família; força física Aumenta o medo de sair e mantém a pessoa “pisando em ovos” para evitar a raiva do parceiro

Todas as linhas apontam para o mesmo lugar: menos confiança em si, mais dependência e mais medo. Explicamos esse sistema em controle coercitivo e a manipulação da realidade em gaslighting: o que é, sinais e frases comuns.

Por que a pessoa tenta “dar conta” do abuso em vez de sair

A gravidade e a vergonha

Quem está de fora costuma achar a agressão física mais grave do que o abuso psicológico. A revisão lembra que mulheres atendidas em um abrigo relataram mais dificuldade para se recuperar da humilhação repetida do que da violência física. E as pessoas julgam o mesmo abuso psicológico como mais grave quando quem o pratica é um homem do que quando é uma mulher.

Quem sofre conhece esses julgamentos e sente vergonha. Por isso, muitas vezes disfarça o que viveu ao contar: num estudo citado, quanto mais grave a violência física, mais detalhes as vítimas omitiam. As autoras levantam a hipótese de que homens agredidos minimizem ainda mais, por medo de não serem levados a sério.

A dependência: muito mais que “amor”

Na pesquisa sobre relacionamentos, dependência é o quanto a pessoa conta com o parceiro para atender necessidades que sente que não atenderia fora da relação. Relações não se mantêm só pela satisfação: também por memórias, rotina, planos, e muitas vezes filhos, amigos em comum e patrimônio. Somam-se o medo do incerto, de ser julgada se a relação “fracassar” e de perder a vida social do casal.

O agressor torna tudo isso mais pesado: em vez de equilibrar proximidade e autonomia, vai tomando conta de partes da vida do outro. A pessoa passa a se sentir sem valor, cheia de dúvidas sobre si, e perde interesses e objetivos próprios. Esse desgaste aumenta a dependência, enfraquece a decisão de sair e torna ainda mais necessário “administrar” o abuso.

No vídeo abaixo, o Dr. Anderson fala sobre o vínculo que mantém a pessoa na relação mesmo quando ela já percebe que faz mal:

Redefinir, minimizar, justificar e normalizar

Este é o centro do modelo: duas formas de “regular” o abuso, que muitas vezes acontecem sem que a pessoa perceba.

Forma O que a mente faz Como pode soar
Redefinir: reinterpretar Enxerga o ato abusivo como algo que não é abuso “Foi só brincadeira”
Redefinir: minimizar Diminui o peso do que aconteceu ou se agarra aos momentos bons “Ele não é assim de verdade”
Reenquadrar: justificar Reconhece o abuso, mas reduz a responsabilidade do parceiro “Eu provoquei”; “foi a bebida”
Reenquadrar: normalizar Passa a ver como normal o que antes seria inaceitável “Todo casal briga assim”

O compromisso funciona como um interruptor. O grau de compromisso com a relação e o abuso não costumam andar juntos: estar muito comprometida não causa o abuso nem é causado por ele. Mas, quando o compromisso é alto, ele parece “ligar” a redefinição. Num experimento, os participantes leram uma cena com atos agressivos que eles próprios tinham relatado na relação. Quem imaginou a cena dentro do próprio relacionamento julgou a agressão mais aceitável do que quem leu a mesma cena entre desconhecidos, e isso só aconteceu entre os muito comprometidos.

Justificar não é o mesmo que não enxergar. Em relatos de mulheres em um abrigo, muitas reconheciam o abuso, mas reduziam a culpa do parceiro: se culpavam ou atribuíam a agressão ao álcool, às drogas ou a fatores fora do controle dele, como ter vivido uma guerra. Aprofundamos esse ponto em por que a vítima defende o agressor e em autoculpabilização.

A linha vai se movendo. Num estudo que acompanhou ao longo do tempo pessoas sem histórico de abuso, quem passou a sofrer abuso mudou os próprios critérios: a “linha” que justificaria terminar a relação foi para atos cada vez mais graves.

No Instagram, o Dr. Anderson descreve essa experiência de saber e, ao mesmo tempo, negar:

O dano invisível

Redefinir e reenquadrar aliviam no curto prazo, mas cobram um preço. Num estudo que acompanhou pessoas ao longo do tempo, quem relatou um novo episódio de agressão ficou mais angustiado do que os demais, mas não identificou a relação como fonte desse sofrimento. As autoras chamam isso de dano invisível: regular o abuso pode preservar a relação à custa da própria saúde. Na prática, ele costuma chegar como insônia, ansiedade, dores e cansaço. Veja abuso psicológico e estresse pós-traumático.

O que ajuda a virar o jogo? Segundo a revisão, o apoio de outras pessoas é mais eficaz quando leva em conta o quanto a pessoa está presa. E passar de “preservar a relação” para “preservar a si mesma” exige duas coisas: deixar de acreditar na ideia, reforçada pelo parceiro, de que ficar é melhor do que sair, e ter uma alternativa real que atenda às próprias necessidades.

O que essa revisão não diz

  • Não é um estudo novo. É uma revisão curta, do tipo narrativo, que organiza pesquisas anteriores em um modelo. Não traz dados próprios nem foi feita como revisão sistemática.
  • O modelo ainda está em teste. A própria figura indica que uma das ligações propostas é mais fraca e ainda não foi confirmada de forma robusta.
  • As evidências são de tipos variados (experimentos, acompanhamentos e análises de relatos), algumas mostram só associação, não causa, e boa parte vem do próprio grupo. As autoras pedem amostras do mundo todo e formas padronizadas de medir o abuso; ainda sabemos pouco sobre o contexto brasileiro.
  • Fala de abuso por parceiro em geral, não de narcisismo. As táticas descritas aparecem com frequência em relações com pessoas com traços narcisistas, mas reconhecer um padrão não é diagnosticar ninguém. E minimizar não significa “querer” ficar: o foco do modelo está nas táticas do agressor e nas pressões sociais.

O que isso muda na prática

Para quem viveu ou ainda vive

  • Troque “por que eu fiquei?” por “o que me prendeu?”. A pergunta tira o foco da culpa e coloca no mecanismo: humilhação, manipulação, controle, medo e dependência construída aos poucos.
  • Repare nas frases que você usa para explicar o que vive. “Foi brincadeira”, “ele não é assim”, “eu provoquei”. Elas podem ser sinais de que a mente está tentando aguentar algo grande demais. Se hoje você tolera o que antes seria motivo para terminar, pode ser a linha se movendo.
  • Construa alternativas, não só coragem. Rede de apoio, renda, um lugar seguro, informação sobre direitos. Veja como funciona a medida protetiva.
  • Cuide da saúde, inclusive do dano invisível. Quando há sintomas de estresse pós-traumático ou de TEPT complexo, as abordagens indicadas são EMDR, Brainspotting e terapia cognitivo-comportamental focada no trauma. Sono, dor, ansiedade e cansaço também merecem avaliação médica.

Para familiares, amigos e profissionais

  • Minimizar é um sinal, não uma mentira. Segundo a revisão, indica que talvez a pessoa ainda não esteja pronta para sair, e que a percepção dela pode estar sendo manipulada.
  • Não empurre a saída sem olhar para o que prende. Insistir para a pessoa ir embora, sem enfrentar as condições que a mantêm presa, costuma não funcionar. Fique por perto e ofereça companhia, informação e alternativas concretas.
  • Não meça a gravidade pela marca no corpo e acredite também nos homens, que podem minimizar ainda mais.
  • Em risco, aja. O Ligue 180 orienta mulheres em situação de violência e o 190 atende emergências. Veja também como ajudar alguém que sofre abuso narcisista e vitimização secundária.

No Instagram, o Dr. Anderson explica por que é possível amar e temer a mesma pessoa:

Perguntas frequentes

Por que é tão difícil sair de um relacionamento abusivo?

Porque o abuso aumenta a dependência e a dúvida sobre si. Humilhação, gaslighting, controle e medo corroem a confiança e os recursos da pessoa, enquanto a cultura reforça que estar num casal é o ideal. Uma revisão de 2026 descreve isso como aprisionamento psicológico, não como fraqueza.

Minimizar o abuso significa que ele não foi grave?

Não. Minimizar é uma forma de a mente aguentar um conflito grande demais quando sair parece impossível. Um estudo citado na revisão mostrou que, quanto mais grave a violência física, mais detalhes as vítimas omitiam ao contar.

Por que a vítima justifica o comportamento do agressor?

Justificar reduz o choque entre amar alguém e ser machucada por essa pessoa. É comum reconhecer o abuso, mas atribuí-lo à bebida, ao estresse, ao passado do parceiro ou a si mesma, muitas vezes sem plena consciência.

Abuso psicológico é menos grave do que agressão física?

Não necessariamente. Mulheres atendidas em um abrigo relataram mais dificuldade para se recuperar da humilhação repetida do que da violência física. O abuso psicológico pode causar sofrimento duradouro, muitas vezes sem que a pessoa ligue os sintomas à relação.

Como ajudar alguém que ainda não quer sair?

Mantenha o vínculo, não julgue e não exija a saída. Ajude a reduzir a dependência com companhia, informação e alternativas concretas, e respeite o ritmo da pessoa. Em situação de risco, o Ligue 180 orienta e o 190 atende emergências.

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Referências científicas

  1. Arriaga XB, Florkiewicz RM, Gu Y. The psychological entrapment of partner abuse. Current Opinion in Psychology. 2026;70:102305 (publicação online em 26 de março de 2026). (DOI: 10.1016/j.copsyc.2026.102305)
  2. Goodfriend W, Arriaga XB. Cognitive reframing of intimate partner aggression: social and contextual influences. International Journal of Environmental Research and Public Health. 2018;15:2464. (DOI: 10.3390/ijerph15112464)
  3. Arriaga XB, Capezza NM, Daly CA. Personal standards for judging aggression by a relationship partner: how much aggression is too much? Journal of Personality and Social Psychology. 2016;110:36-54. (DOI: 10.1037/pspi0000035)
  4. Arriaga XB, Schkeryantz EL. Intimate relationships and personal distress: the invisible harm of psychological aggression. Personality and Social Psychology Bulletin. 2015;41:1332-1344. (DOI: 10.1177/0146167215594123)
  5. Arriaga XB, Capezza NM, Goodfriend W, Allsop KE. The invisible harm of downplaying a romantic partner’s aggression. Current Directions in Psychological Science. 2018;27:275-280. (DOI: 10.1177/0963721417754198)

Conteúdo educativo, não substitui avaliação individual. Em situação de risco, ligue 190; para orientação sobre violência contra a mulher, Ligue 180; para apoio emocional, CVV 188.

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Sobre o autor

Dr. Anderson Contaifer de Carvalho
Médico · CRM-SC 24.484 · Especialista em Clínica Médica · RQE 18.790. Graduado pela EMESCAM em 2012, com título de especialista em Clínica Médica pela Sociedade Brasileira de Clínica Médica (SBCM), em 2019. Atende adultos exclusivamente por teleconsulta, com avaliação individual das repercussões físicas e emocionais de relacionamentos abusivos e do estresse prolongado. Criador do Programa Quebrando as Algemas e de conteúdo educativo sobre relacionamentos abusivos, limites e autocuidado.

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