Dr. Anderson Contaifer (CRM-SC 24.484, RQE de Clínica Médica 18.790), médico especialista em Clínica Médica e criador do blog Quebrando as Algemas, atende por teleconsulta pessoas com sequelas de abuso narcisista e TEPT-C em todo o Brasil.
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Resposta rápida
Um estudo italiano com 251 mulheres, publicado no Journal of Interpersonal Violence, encontrou que mais autocompaixão e mais apoio percebido da família e de uma pessoa significativa andavam junto com menos experiência de gaslighting. O apoio dos amigos não mostrou essa ligação. E quanto mais gaslighting, pior a saúde psicológica e menor o bem-estar. Como é um estudo transversal, ele mostra associação, não causa. E não transfere a responsabilidade para quem sofre: quem manipula é o responsável pela manipulação.
Agradecimento especial
Obrigado, Profa. Amanda Nerini
O estudo explicado neste artigo foi enviado ao Dr. Anderson pela professora Amanda Nerini, professora associada de Psicologia Social no Departamento de Educação, Línguas, Interculturas, Literaturas e Psicologia da Universidade de Florença (Itália), coautora e autora responsável pelo trabalho. Quando o Dr. Anderson escreveu pedindo o texto completo para estudá-lo, ela respondeu com gentileza e compartilhou o artigo. O trabalho foi liderado pela primeira autora, Marta Ciabatti, doutoranda da mesma universidade que pesquisa violência por parceiro íntimo, e assinado também pela professora Camilla Matera. Fica aqui o nosso agradecimento especial às três pela generosidade de compartilhar ciência com quem cuida de sobreviventes de violência no Brasil. Este texto é a nossa forma de levar o trabalho da equipe a mais pessoas. Thank you, Professor Nerini, for your kindness and generosity.
“Eu nunca disse isso.” “Você está imaginando coisas.” “De novo esse drama?” Ela tinha certeza do que tinha ouvido. Mesmo assim, foi reler as mensagens, refez a conversa na cabeça a noite inteira e, no dia seguinte, perguntou à irmã se estava ficando louca. A irmã respondeu sem hesitar: “Você não está louca. Eu vi”. Foi a primeira noite em semanas em que ela conseguiu dormir.
Essa cena junta as três peças de um estudo de pesquisadoras da Universidade de Florença: o gaslighting, a forma como a pessoa se trata por dentro (a autocompaixão) e quem está por perto para confirmar a realidade (o apoio social). Este artigo explica o que elas encontraram, o que o estudo não permite concluir e o que isso muda na prática.
Gaslighting em poucas palavras
Gaslighting é uma forma de violência psicológica em que uma pessoa, de modo repetido, nega fatos, distorce lembranças e desqualifica as percepções da outra até que ela passe a duvidar da própria memória, do próprio julgamento e, às vezes, da própria sanidade. As autoras lembram que o efeito buscado é tirar da vítima a autonomia, a segurança e a confiança no que ela mesma percebe, para ganhar poder sobre ela e sobre a relação. Explicamos o conceito, os sinais e as frases mais comuns em gaslighting: o que é, significado, sinais e frases comuns. Aqui, o foco é outro: o que um estudo recente mostra sobre o que anda junto com menos gaslighting e sobre o preço que ele cobra da saúde.
No vídeo abaixo, o Dr. Anderson explica como o gaslighting afeta a mente e as emoções de quem convive com ele:
O que o estudo fez
Marta Ciabatti, Amanda Nerini e Camilla Matera convidaram mulheres pelo Instagram e pelo Facebook, em 2023, a responder um questionário on-line, anônimo e voluntário, de cerca de 20 minutos. Podia participar quem tivesse 18 anos ou mais e já tivesse vivido pelo menos um relacionamento amoroso, mesmo curto. Responderam 251 mulheres que moravam na Itália, com idade média de cerca de 39 anos. A maioria vivia no centro do país (84,9%), trabalhava (63,7%) e estava num relacionamento no momento da pesquisa (82,9%).
Elas não foram escolhidas por terem sido vítimas: o questionário media quanto cada uma reconhecia ter vivido de gaslighting, o que permite comparar quem viveu mais com quem viveu menos.
As participantes responderam cinco questionários, todos em versão italiana:
- Experiência de gaslighting: questionário de 20 itens inspirado no trabalho clínico de Robin Stern.
- Autocompaixão: a escala de Kristin Neff, com 26 itens, sobre como a pessoa se trata quando sofre ou erra.
- Apoio social percebido: uma escala de 12 itens que separa três fontes de apoio: família, amigos e uma pessoa significativa, alguém especial que é fonte real de conforto (o questionário não define quem é essa pessoa).
- Saúde psicológica: o GHQ-12, um questionário curto que rastreia sintomas ligados ao humor, à autoestima, ao funcionamento social e à sensação de ser útil e capaz.
- Bem-estar eudaimônico: as escalas de bem-estar psicológico de Carol Ryff, com 18 itens.
O que é bem-estar eudaimônico? É o bem-estar de sentido, e não só a ausência de sintomas. Inclui aceitar a si mesma, ter relações positivas, decidir com autonomia, sentir que dá conta do próprio ambiente, continuar crescendo e ter propósito na vida. A escolha faz sentido: se o gaslighting tenta tirar da pessoa a autonomia e a confiança no próprio julgamento, é justamente esse tipo de bem-estar que ele pode corroer.
A análise estatística (análise de caminhos) testou todas essas relações ao mesmo tempo, levando em conta a idade.
O que o estudo encontrou
| Relação medida | O que o estudo encontrou |
|---|---|
| Autocompaixão e gaslighting | Associação inversa forte (r = -0,55): mais autocompaixão, menos experiência de gaslighting |
| Apoio da família e gaslighting | Associação inversa (r = -0,37), mantida no modelo completo |
| Apoio de pessoa significativa e gaslighting | Associação inversa (r = -0,35), mantida no modelo completo |
| Apoio dos amigos e gaslighting | Associação inversa isolada (r = -0,31), mas que não se manteve no modelo completo |
| Gaslighting e saúde psicológica | Associação inversa (r = -0,53): mais gaslighting, pior saúde psicológica |
| Quanto os modelos explicaram | Cerca de 38% das diferenças na experiência de gaslighting, 35% na saúde psicológica e 52% no bem-estar |
Como ler o “r”: vai de -1 a 1 e mostra o quanto duas medidas andam juntas; o sinal negativo indica que, quando uma sobe, a outra tende a descer.
1. Autocompaixão andou junto com menos gaslighting e com mais saúde
Mulheres com mais autocompaixão relataram menos experiência de gaslighting. Além disso, a autocompaixão se ligou a mais saúde psicológica e mais bem-estar por dois caminhos: um direto e outro que passava pelo gaslighting. Em termos estatísticos, o gaslighting foi um mediador parcial. Em termos práticos: a gentileza consigo mesma parece ajudar por si só e também por estar associada a menos exposição a esse tipo de manipulação.
As autoras interpretam que a gentileza consigo pode deixar a mulher mais firme diante de intenções manipuladoras. É uma hipótese plausível, mas o estudo não consegue provar essa direção.
No Instagram, o Dr. Anderson explica por que a dureza consigo mesma não protege ninguém:
2. Família e pessoa significativa, sim; amigos, não
Quando cada tipo de apoio foi olhado sozinho, os três (família, amigos e pessoa significativa) andavam junto com menos gaslighting. Mas, quando as autoras analisaram tudo junto, só o apoio da família e o de uma pessoa significativa continuaram ligados a menos gaslighting. O apoio dos amigos deixou de aparecer como proteção.
E o caminho foi indireto: o apoio da família e da pessoa significativa se associou a mais saúde psicológica e mais bem-estar apenas por meio de menos gaslighting (mediação total). Os amigos tiveram outro papel: o apoio deles se ligou diretamente a mais bem-estar eudaimônico, ou seja, a sentir propósito e crescimento, mas não à saúde psicológica nem à experiência de gaslighting.
3. Mais gaslighting, menos saúde e menos bem-estar
A experiência de gaslighting foi um preditor negativo das duas medidas de saúde. Quem relatou mais gaslighting tinha mais sintomas ligados ao humor e à autoestima e menos sensação de autonomia, propósito e crescimento. O achado conversa com o que já se sabe sobre a violência psicológica, tema de violência psicológica e sexual: o que acontece com a saúde.
Por que o apoio dos amigos não apareceu como proteção?
Esse é o resultado mais curioso do estudo, e as autoras levantam algumas explicações, todas hipóteses:
- Amigos em comum. Casais tendem a conviver com pessoas parecidas com eles, e muitos amigos são compartilhados com o parceiro. Esses amigos podem enxergar o comportamento abusivo como normal, justificá-lo ou até tomar o lado de quem manipula. Abordamos esse fenômeno em flying monkeys.
- Outras pesquisas citadas pelas autoras também não encontraram proteção no apoio de amigos, e uma chegou a associá-lo a mais violência.
- Amigos podem ajudar em outra frente. O vínculo com amigos pareceu importante para o sentido de vida e o crescimento pessoal, mas talvez não baste, sozinho, para aliviar ansiedade e sintomas depressivos.
O mesmo vale para a família: as autoras lembram que famílias com normas que limitam a liberdade da mulher nem sempre protegem, como discutimos em família que protege o narcisista e culpa você. O que o estudo sugere é que o apoio que conta é o de quem acolhe e ajuda a enxergar, não o rótulo “família” ou “amigo”.
Isso não é culpa de quem sofreu
Ler o estudo como “se eu tivesse mais autocompaixão, não teria acontecido comigo” é um erro, por três motivos.
- A responsabilidade é de quem manipula. Gaslighting é um comportamento escolhido por uma pessoa contra outra. Nenhum nível de autocompaixão torna alguém culpado pela manipulação que sofreu.
- A direção pode ser a contrária. Como tudo foi medido num único momento, é igualmente possível que o gaslighting tenha reduzido a autocompaixão e afastado a pessoa da família, e não o contrário. Quem viveu meses ou anos ouvindo que exagera, inventa e é o problema costuma sair com uma voz interna dura e com a rede de apoio encolhida.
- O isolamento costuma ser parte da tática. As próprias autoras reconhecem que quem abusa pode escolher pessoas com menos apoio, porque isso facilita a manipulação. Menos apoio, nesse caso, é consequência ou alvo do abuso, não falha de quem sofreu.
Se você se reconheceu aqui e sentiu culpa, vale ler autoculpabilização: por que você assume a culpa pelo abuso.
O que esse estudo não diz
- Não prova causa. É um estudo transversal: todas as respostas foram dadas uma única vez. As autoras deixam claro que o desenho não permite conclusões de causa e efeito e sugerem estudos que acompanhem as mulheres ao longo do tempo. Quando se fala em “preditor”, é no sentido estatístico.
- Amostra específica. Mulheres que moravam na Itália, na maioria do centro do país, heterossexuais, com estudo e emprego. Os resultados podem ser diferentes no Brasil, em outras classes sociais, em homens ou em casais do mesmo sexo.
- Recrutamento pela internet. Ficam de fora pessoas com pouco acesso à internet, e não há como conferir a precisão das respostas.
- Tudo é autorrelato. Gaslighting, apoio e saúde foram medidos pelo que cada mulher relatou, não por entrevista clínica nem por diagnóstico.
- Outros fatores ficaram de fora. As autoras citam, por exemplo, a resiliência e a sensação de ser importante para os outros como variáveis que também podem pesar.
O que isso muda na prática
Para quem viveu ou vive gaslighting
- Confira a realidade com quem é seguro. No estudo, o apoio que fez diferença foi o de família e de uma pessoa de confiança. Contar suas dúvidas sobre o relacionamento a uma ou duas pessoas que acolhem, e não julgam, ajuda a recalibrar a percepção. As autoras sugerem exatamente isso como estratégia de prevenção.
- Observe a voz que você usa consigo. Autocompaixão não é pena de si nem desculpa para tudo: é tratar a si mesma, num momento difícil, como trataria uma amiga querida. Ela pode ser treinada.
- Repare nos amigos em comum. Se eles sempre justificam ou minimizam o comportamento do parceiro, busque apoio fora desse círculo.
- Psicoterapia focada em trauma. Quando há sintomas de estresse pós-traumático ou de TEPT complexo, as abordagens indicadas são EMDR, Brainspotting e terapia cognitivo-comportamental focada no trauma. Cultivar autocompaixão pode fazer parte desse tratamento.
- Avaliação médica dos efeitos no corpo. Insônia, cansaço, dores e ansiedade também merecem cuidado. No estudo, só 6,8% das participantes já tinham buscado ajuda de um médico.
No Instagram, o Dr. Anderson mostra como reaprender a confiar nas próprias percepções depois do gaslighting:
Para família e pessoas próximas
- Esteja disponível para ouvir dúvidas. “Você acha que eu estou exagerando?” é um pedido de ajuda. Responda com o que você viu, sem pressa de dar ordens.
- Não reforce a narrativa de quem manipula. Evite “ele é tão gentil” ou “você é muito sensível”: essas frases confirmam a dúvida.
- Não culpe nem pressione. Apoio que funciona é o que aumenta a segurança e a confiança da pessoa em si, não o que tira dela mais uma decisão. Veja mais em como ajudar alguém que sofre abuso.
Para profissionais de saúde
As autoras sugerem preparar profissionais para fortalecer a gentileza das mulheres consigo e estimular que compartilhem dúvidas sobre o parceiro com pessoas de confiança, além de ações de informação sobre o gaslighting. Na prática clínica: perguntar sobre a rede de apoio, validar a percepção da pessoa e lembrar que sintomas físicos sem explicação aparente podem ter relação com o estresse prolongado.
No vídeo abaixo, o Dr. Anderson fala sobre fortalecer a confiança em si para resistir ao gaslighting:
Perguntas frequentes
O que protege contra o gaslighting?
Num estudo italiano com 251 mulheres, mais autocompaixão e mais apoio percebido da família e de uma pessoa significativa se associaram a menos experiência de gaslighting. O estudo é transversal, então mostra associação, não proteção comprovada. E a responsabilidade pelo gaslighting é sempre de quem manipula.
Gaslighting afeta a saúde mental?
Os dados sugerem que sim. No mesmo estudo, mais gaslighting se associou a mais sintomas ligados ao humor e à autoestima e a menos bem-estar, incluindo menos sensação de autonomia, propósito e crescimento pessoal.
Por que o apoio dos amigos não protegeu no estudo?
As autoras levantam a hipótese de que muitos amigos são compartilhados com o parceiro e podem justificar ou normalizar o comportamento dele. O apoio dos amigos se associou a mais sentido de vida e crescimento, mas não a menos gaslighting.
Se eu tenho pouca autocompaixão, a culpa do gaslighting é minha?
Não. Quem manipula é responsável pela manipulação. Como o estudo mediu tudo num único momento, é possível que o próprio gaslighting tenha reduzido sua autocompaixão e sua rede de apoio, e não o contrário.
Autocompaixão pode ser desenvolvida?
Pode, em psicoterapia e em práticas específicas. As autoras sugerem programas de treino, mas ainda faltam estudos que testem esse efeito em quem viveu gaslighting.
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Referências científicas
- Ciabatti M, Nerini A, Matera C. Gaslighting experience, psychological health, and well-being: the role of self-compassion and social support. Journal of Interpersonal Violence. 2025;40(23-24):5751-5773 (publicação online em 2024). (DOI: 10.1177/08862605241307232)
- Stern R. The Gaslight Effect: How to Spot and Survive the Hidden Manipulations Other People Use to Control Your Life. 2nd ed. Harmony; 2007.
- Neff KD. The development and validation of a scale to measure self-compassion. Self and Identity. 2003;2(3):223-250. (DOI: 10.1080/15298860309027)
- Zimet GD, Dahlem NW, Zimet SG, Farley GK. The Multidimensional Scale of Perceived Social Support. Journal of Personality Assessment. 1988;52(1):30-41. (DOI: 10.1207/s15327752jpa5201_2)
Conteúdo educativo, não substitui avaliação individual. Em situação de risco, ligue 190; para orientação sobre violência contra a mulher, Ligue 180; para apoio emocional, CVV 188.
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