Dr. Anderson Contaifer (CRM-SC 24.484, RQE de Clínica Médica 18.790), médico especialista em Clínica Médica e criador do blog Quebrando as Algemas, atende por teleconsulta pessoas com sequelas de abuso narcisista e TEPT-C em todo o Brasil.
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Duas meta-análises da pesquisadora Chelsea M. Spencer e de sua equipe, na Kansas State University, reuniram 349 estudos e mais de 195 mil participantes. Elas mostraram que a violência psicológica e a violência sexual praticadas por um parceiro íntimo estão associadas a pior saúde mental e física. Na violência psicológica, os sinais mais ligados a quem sofre foram ideação suicida, estresse pós-traumático, ansiedade e depressão. Na violência sexual, os mesmos sinais apareceram junto com dissociação, insônia, sintomas no corpo e problemas ginecológicos. São associações, não provas de causa, mas a mensagem para quem cuida da saúde é clara: vale perguntar sobre violência, mesmo numa consulta de rotina.
Agradecimento especial
Obrigado, Dra. Chelsea M. Spencer
Os dois estudos explicados neste artigo foram enviados ao Dr. Anderson pela própria autora principal, a pesquisadora Chelsea M. Spencer, Ph.D., da Kansas State University (Estados Unidos). Ele escreveu pedindo os textos completos para estudá-los, e ela respondeu em poucas horas, com os dois artigos. Fica aqui o nosso agradecimento especial pela gentileza e pela generosidade de compartilhar ciência de qualidade com quem cuida de sobreviventes de violência no Brasil. Este texto é a nossa forma de levar o trabalho dela a mais pessoas. Thank you, Dr. Spencer, for your kindness and generosity.
Quem chega depois de uma relação abusiva raramente começa falando do abuso. Começa pela insônia que não passa, pela dor que nenhum exame explica, pela ansiedade que aparece do nada, pelo cansaço que o fim de semana não resolve. Muitas vezes, só no meio da conversa surge a frase: “ele nunca me bateu, mas…”. E, quando o assunto é sexo dentro da relação, o silêncio costuma ser ainda maior.
Este artigo explica, em linguagem simples, o que dois grandes estudos publicados na revista Trauma, Violence, & Abuse encontraram sobre a ligação entre essas duas formas de violência e a saúde de quem as sofre. Explica também como ler esses números sem exagerar nem minimizar e o que isso muda na prática.
O que é violência psicológica e violência sexual no relacionamento?
Violência psicológica (também chamada de violência emocional) são comportamentos sem agressão física usados para controlar, submeter, punir ou isolar o parceiro por meio do medo ou da humilhação: insultos, ameaças, gritos, manipulação, críticas e desqualificações constantes. É a forma mais comum de violência entre parceiros. Nos dados americanos citados pelas autoras, cerca de metade dos homens e das mulheres relata já ter sofrido violência psicológica de um parceiro ao longo da vida.
Violência sexual por parceiro íntimo é qualquer ato sexual forçado ou obtido por coerção, inclusive o estupro, e qualquer toque sexual sem consentimento, praticado por um parceiro atual ou antigo. Estar casado ou namorando não muda isso. Nos Estados Unidos, estima-se que cerca de 1 em cada 5 mulheres e 1 em cada 13 homens já passou por isso na vida. Entre as mulheres, a forma mais comum é a coerção sexual, ou seja, ceder por pressão, chantagem ou medo.
No Brasil, a Lei Maria da Penha (Lei 11.340/2006, artigo 7º) reconhece expressamente a violência psicológica e a violência sexual como formas de violência doméstica, ao lado da física, da patrimonial e da moral. No Instagram, o Dr. Anderson resume essas cinco formas:
As duas formas costumam andar juntas e com a violência física. Mesmo assim, são as menos estudadas e as menos perguntadas nos serviços de saúde. Por isso as autoras decidiram analisá-las separadamente.
O que é uma meta-análise e por que ela pesa mais
Um estudo isolado pode ter uma amostra pequena ou um resultado ao acaso. Uma meta-análise junta, com método, todos os estudos disponíveis sobre a mesma pergunta e calcula um resultado médio. É um dos tipos de evidência mais fortes que existem.
| Violência psicológica | Violência sexual | |
|---|---|---|
| Publicação | Spencer, Keilholtz, Palmer e Vail, Trauma, Violence, & Abuse, 2024 (online em dezembro de 2022) | Spencer, Renken e Zehr, Trauma, Violence, & Abuse, 2026 (online em setembro de 2025) |
| Estudos triados | 31.321 | 20.188 |
| Estudos incluídos | 181 (348 resultados) | 168 (352 resultados) |
| Período | 1999 a 2019 | 2000 a 2022 |
| Participantes | 195.749, de 35 países | adultos, homens e mulheres, de estudos publicados em inglês |
| O que mediram | Quais problemas de saúde mental e física aparecem mais em quem sofre e em quem pratica a violência, e se isso muda entre homens e mulheres | |
Como ler os números. Os resultados aparecem como um coeficiente de correlação (r), que vai de 0 (nenhuma relação) a 1 (relação perfeita). Em saúde, valores de 0,2 a 0,4 já são relevantes. Para pesquisas sobre violência familiar, os autores usaram uma referência em que valores próximos de 0,26 ou mais já são considerados fortes. Correlação quer dizer que as duas coisas aparecem juntas com frequência, não que uma causou a outra.
Violência psicológica: o que aparece na saúde de quem sofre
A meta-análise de 2024 encontrou, em ordem de força, estes sinais associados a quem sofreu violência psicológica do parceiro:
| O que foi associado | Força da associação (r) | Observação |
|---|---|---|
| Ideação suicida | 0,36 | a mais forte de todas |
| Estresse pós-traumático | 0,32 | 52 resultados, muito consistente |
| Ansiedade | 0,30 | |
| Depressão | 0,28 | 68 resultados, o achado mais estudado |
| Traços de personalidade borderline | 0,28 | ver explicação abaixo |
| Sofrimento psicológico | 0,26 | |
| Dor física | 0,23 | só estudada em mulheres, poucos estudos |
| Trauma | 0,19 | |
| Pior saúde física geral | 0,15 | |
| Raiva, vergonha e sintomas no corpo (somáticos) | 0,10 a 0,18 | resultados frágeis, ler com cautela |
Três pontos chamam atenção. Primeiro, a ideação suicida foi o sinal mais fortemente ligado a esse tipo de violência, que muita gente ainda trata como “só briga”. Segundo, o estresse pós-traumático e o sofrimento psicológico foram mais fortes em quem sofre do que em quem pratica, o que reforça que são, em boa parte, consequência. Terceiro, nas mulheres, o estresse pós-traumático e a ideação suicida ligados à violência psicológica foram mais fortes do que nos homens.
Sobre os traços borderline. Isso não significa que a vítima “tenha” um transtorno de personalidade. Várias alterações do trauma prolongado, como instabilidade emocional, medo de abandono e dificuldade nas relações, se parecem com traços borderline, e as autoras deixam claro que não é possível saber o que veio antes. Explicamos essa confusão em TPB ou TEPT-C: como diferenciar.
No vídeo abaixo, o Dr. Anderson explica como o estresse pós-traumático se instala depois de uma relação com um narcisista:
Violência sexual: o que aparece na saúde de quem sofre
A meta-análise publicada em 2026 repetiu o padrão e acrescentou sinais que quase nunca são ligados à violência sexual numa consulta médica comum:
| O que foi associado | Força (r), homens e mulheres | Força (r), só mulheres |
|---|---|---|
| Ideação suicida | 0,32 | 0,36 |
| Dissociação | não calculado | 0,30 |
| Estresse pós-traumático | 0,23 | 0,25 |
| Ansiedade | 0,22 | 0,24 |
| Depressão | 0,21 | 0,22 |
| Sintomas no corpo sem causa definida (somáticos) | 0,19 | 0,21 |
| Insônia | não calculado | 0,19 (resultado frágil) |
| Infecções sexualmente transmissíveis | 0,17 | 0,17 |
| Problemas ginecológicos | não calculado | 0,17 |
| Uso de cigarro, álcool e outras drogas | 0,15 a 0,17 | 0,14 a 0,20 |
| HIV | 0,10 | 0,10 |
Nos homens, a depressão foi o sinal mais forte (r = 0,24), seguida de ideação suicida e ansiedade, mas havia poucos estudos com homens vítimas. Entre homens e mulheres, nenhum dos cinco sinais que puderam ser comparados mostrou diferença significativa. Ou seja, homens que sofrem violência sexual do parceiro também adoecem, e falam ainda menos sobre isso. Veja o nosso guia médico para homens vítimas de abuso.
A dissociação merece destaque: a sensação de sair do corpo, de assistir a si mesma de fora ou de “não estar ali” durante o sexo é uma resposta de proteção do cérebro, e não frieza ou falta de desejo. O Dr. Anderson fala sobre isso neste vídeo curto:
Aprofundamos o tema em dissociação e despersonalização depois do abuso e em por que o corpo congela no sexo sem afeto.
O corpo também adoece
As duas meta-análises mostram que a violência não fica só na mente. Dor física, pior saúde geral, sintomas no corpo sem explicação nos exames, insônia, problemas ginecológicos e infecções aparecem associados a quem sofreu. As autoras também citam sinais que surgiram em estudos isolados, ainda sem dados suficientes para entrar na conta, como dor de cabeça, síndrome do intestino irritável e pressão alta.
Há uma razão prática para isso importar: muitas vítimas têm barreiras para procurar ajuda em saúde mental, mas vão ao médico por queixas do corpo. As autoras concluem que médicos e profissionais de saúde mental deveriam perguntar sobre violência por parceiro mesmo em consultas de rotina, inclusive quando o motivo da consulta não tem nada a ver com a relação. É exatamente o espaço da Clínica Médica: olhar para a pessoa inteira, e não só para o sintoma da vez.
No vídeo a seguir, o Dr. Anderson explica os sintomas físicos mais comuns depois do abuso:
Para entender os mecanismos por trás disso, leia consequências físicas do abuso narcisista.
E quem pratica a violência?
Os estudos também olharam para quem pratica. Na violência psicológica, os traços mais associados foram traços de personalidade borderline (r = 0,42) e narcisismo (r = 0,41), seguidos de dificuldade de regular emoções, raiva e traços antissociais. Na violência sexual, o mais associado foi o transtorno de personalidade narcisista (r = 0,23), seguido de psicopatia e uso de álcool. Nos homens, o traço antissocial foi o mais forte. O uso de álcool foi mais ligado a quem pratica violência sexual do que a quem sofre.
Dois cuidados são essenciais aqui. O achado sobre narcisismo vem de poucos estudos (dois ou três em cada meta-análise), e as próprias autoras pedem mais pesquisa. E nenhum desses números permite diagnosticar um parceiro ou ex-parceiro a partir de uma lista. O que eles mostram é que traços de falta de empatia, sensação de merecimento e exploração do outro aparecem com frequência ao lado da violência, o que ajuda a entender por que ela costuma se repetir. As autoras lembram ainda, citando um estudo anterior de Spencer e Stith, que a violência sexual contra o parceiro está associada a um risco muito maior de homicídio dentro da relação. Por isso ela nunca deve ser tratada como um assunto menor.
O que esses estudos não dizem
- Não provam causa. São correlações. Em muitos casos a violência provavelmente causa ou piora os sintomas, mas também é possível que algumas condições deixem a pessoa mais vulnerável. Só estudos que acompanham as pessoas no tempo resolvem isso.
- Alguns sinais vêm de poucos estudos. Dor física, vergonha, insônia, sintomas somáticos e o narcisismo em quem pratica tiveram poucos dados, e alguns não resistiram aos testes de viés de publicação.
- A maioria dos estudos é dos Estados Unidos e olhou mais para mulheres vítimas e homens agressores. Há pouca informação sobre homens vítimas, mulheres que praticam e casais do mesmo sexo.
- Sintoma não é prova de violência. As autoras alertam que nenhum desses sinais é exclusivo da violência sexual ou psicológica. Ter insônia ou ansiedade não quer dizer que alguém sofreu abuso. Quer dizer que vale fazer uma avaliação completa, que inclua essa pergunta.
O que isso muda na prática
- Dar nome ajuda. Muita gente só reconhece a violência psicológica ou sexual quando lê a definição. Isso não é exagero: a lei e a ciência tratam essas formas como violência.
- Os sintomas do corpo merecem avaliação médica. Dor, insônia, cansaço, alterações ginecológicas e aumento do uso de álcool ou cigarro fazem parte do quadro e têm tratamento.
- Psicoterapia focada em trauma. Quando há sintomas de estresse pós-traumático ou de TEPT complexo, as abordagens indicadas são EMDR, Brainspotting e terapia cognitivo-comportamental focada no trauma. As autoras citam que tratar depressão e estresse pós-traumático em vítimas reduziu o risco de nova violência.
- Segurança vem antes. Se a violência continua, o Ligue 180 orienta mulheres em situação de violência e o 190 atende emergências. Veja também como pedir medida protetiva no seu estado.
- Se surgirem pensamentos de morrer, fale com alguém hoje. A ideação suicida foi o sinal mais forte nos dois estudos, e ela tem tratamento. O CVV atende de graça, 24 horas, pelo telefone 188 e pelo site cvv.org.br. Em risco imediato, procure o SAMU (192) ou o pronto-socorro.
Perguntas frequentes
Violência psicológica faz mal à saúde mesmo sem agressão física?
Sim. A meta-análise de 2024, com 181 estudos, associou a violência psicológica do parceiro a ideação suicida, estresse pós-traumático, ansiedade, depressão, dor física e pior saúde geral. É a forma mais comum de violência entre parceiros e uma das que mais adoecem.
Quais são as consequências da violência sexual no relacionamento?
A meta-análise publicada em 2026, com 168 estudos, encontrou associação com ideação suicida, dissociação, estresse pós-traumático, ansiedade, depressão, insônia, sintomas físicos sem causa definida, problemas ginecológicos, infecções sexualmente transmissíveis e maior uso de álcool, cigarro e outras drogas.
Sexo forçado dentro do casamento é violência?
Sim. Qualquer ato sexual sem consentimento, obtido por força, ameaça ou coerção, é violência sexual, mesmo entre marido e mulher ou namorados. A Lei Maria da Penha inclui a violência sexual entre as formas de violência doméstica.
Homens também sofrem com isso?
Sim. Nos estudos, homens vítimas de violência sexual do parceiro apresentaram mais depressão, ansiedade e ideação suicida, sem diferença significativa em relação às mulheres nos sinais que puderam ser comparados. Eles costumam relatar ainda menos.
Por que procurar um médico, e não só terapia?
Porque os estudos mostram efeitos no corpo, como dor, insônia, sintomas sem explicação e alterações ginecológicas, além dos sintomas emocionais. A avaliação médica cuida dessas queixas, do sono e de eventuais medicações, e trabalha junto com a psicoterapia focada em trauma.
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Leia também
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- Crescimento pós-traumático depois da violência por parceiro
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Referências científicas
- Spencer CM, Keilholtz BM, Palmer M, Vail SL. Mental and physical health correlates for emotional intimate partner violence perpetration and victimization: a meta-analysis. Trauma, Violence, & Abuse. 2024;25(1):41-53. (DOI: 10.1177/15248380221137686)
- Spencer CM, Renken ND, Zehr P. Mental and physical health correlates for sexual intimate partner violence perpetration and victimization: a meta-analysis. Trauma, Violence, & Abuse. 2026;27(4):1952-1966. (DOI: 10.1177/15248380251366258)
- Brasil. Lei nº 11.340, de 7 de agosto de 2006 (Lei Maria da Penha), artigo 7º.
Conteúdo educativo, não substitui avaliação individual. Em situação de risco, ligue 190; para orientação sobre violência contra a mulher, Ligue 180; para apoio emocional, CVV 188.
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