Dr. Anderson Contaifer (CRM-SC 24.484, RQE de Clínica Médica 18.790), médico especialista em Clínica Médica e criador do blog Quebrando as Algemas, foi o convidado do Barulho Mental Podcast no episódio “Os traumas que o narcisista deixa”, que foi ao ar em 8 de outubro de 2026. Em cerca de uma hora e vinte minutos de conversa, ele falou sobre o que acontece com a mente e o corpo de quem viveu um relacionamento abusivo, por que o descarte dói tanto, como funciona o vício emocional e quais são os primeiros passos da recuperação. Este texto resume os pontos principais, com o minuto de cada trecho, e acrescenta em cada um o que os estudos científicos mostram sobre o tema.
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Em resumo
No episódio, o Dr. Anderson explica que o abuso emocional crônico funciona como um vício, sustentado pela alternância entre punição e carinho (o reforço intermitente), e que muitas pessoas saem dele com sinais de estresse pós-traumático. A recuperação não acontece só com o passar do tempo: exige sair do isolamento, ter rede de apoio, cuidar do corpo, fazer terapia focada em trauma e, quando há ansiedade ou depressão importantes, tratamento médico.
Assista ao episódio completo
Sobre o programa
O Barulho Mental Podcast, apresentado por Otávio, conversa sobre relacionamentos e narcisismo com uma linguagem descontraída. O episódio foi gravado em São Caetano do Sul (SP) e publicado em 8 de outubro de 2026, em colaboração com o canal do Dr. Anderson no YouTube. Siga o programa também no Instagram: @barulhomentalpodcast.
1. Como o tema entrou na vida do médico (3:00)
O Dr. Anderson contou que se formou em Medicina na EMESCAM, em Vitória (ES), que tem título de especialista em Clínica Médica e que passou muitos anos trabalhando em terapia intensiva. O interesse pelo assunto começou depois de viver, ele mesmo, um relacionamento difícil, marcado por manipulação, e de não encontrar respostas claras em português. Por ser médico, foi buscar a literatura científica sobre o tema, e o que começou como relatos no Instagram virou o trabalho de hoje, voltado sobretudo às sequelas que esse tipo de relação deixa.
2. TEPT e TEPT complexo: qual é a diferença (14:30)
Ele explicou que o estresse pós-traumático é marcado por hipervigilância e flashbacks: algo do presente lembra o que foi vivido, e o corpo reage como se o perigo estivesse acontecendo de novo. No TEPT complexo, além disso, aparecem alterações na forma de se relacionar consigo, de se relacionar com os outros e de lidar com as emoções. Um exemplo que ele trouxe: depois de sair da relação, há quem não consiga confiar em ninguém e ache que todo gesto de carinho é love bombing.
Ele também descreveu as reações automáticas ao perigo: lutar, fugir, congelar ou apaziguar, esta última tratada no artigo sobre a resposta de apaziguamento. Nesses estados, lembrou, as decisões costumam ser piores, porque a parte do cérebro que planeja e pondera fica em segundo plano.
O que a ciência mostra: O TEPT complexo entrou na CID-11 como diagnóstico próprio (código 6B41): exige os sintomas centrais do TEPT e, além deles, alterações duradouras nas emoções, na autoimagem e nas relações, como explica Brewin em revisão no BJPsych Advances (DOI: 10.1192/bja.2019.48). E não é preciso ter havido agressão física: uma metanálise de Lohmann e colaboradores reuniu 68 estudos e encontrou associação do controle coercitivo (vigiar, isolar, ameaçar, controlar dinheiro e decisões) com sintomas de TEPT (correlação de 0,32) e de depressão (0,27) (DOI: 10.1177/15248380231162972). Um estudo brasileiro com 530 universitários do Rio de Janeiro mostrou que humilhação e ridicularização persistentes se associaram a mais sintomas pós-traumáticos do que crimes ou desastres, num retrato de um único momento (DOI: 10.1080/20008066.2026.2649110).
3. Por que vira um vício emocional (17:50)
“A mão que pune é a mão que reconforta.” É assim que ele resume o reforço intermitente: a mesma pessoa que critica e humilha é a que depois abraça. Como numa máquina de aposta, a recompensa incerta prende mais do que a recompensa garantida. Por isso, ao sair da relação, muita gente vive algo parecido com uma abstinência e precisa de cuidado para não voltar.
O que a ciência mostra: A ideia de que a alternância entre maus-tratos e carinho cria um vínculo forte foi testada por Dutton e Painter em 1993, com 75 mulheres que tinham acabado de sair de relações abusivas. A intermitência dos maus-tratos e a diferença de poder no casal se associaram a um apego mais intenso ao ex-parceiro, a mais sintomas de trauma e a autoestima mais baixa. Seis meses depois, o apego tinha diminuído cerca de 27%, o que mostra que ele cede com o tempo e com o afastamento, ainda que devagar. É um estudo antigo e de amostra pequena, mas continua sendo a base da teoria do vínculo traumático (DOI: 10.1891/0886-6708.8.2.105). Veja também o guia sobre trauma bonding.
4. Por que é tão difícil sair, e o luto depois (16:00 e 47:30)
Ele lembrou que muitas pessoas tentam sair várias vezes antes de conseguir, e que quem vai embora sem apoio, sem informação e sem acompanhamento tende a ficar presa no ciclo de idealização, desvalorização, descarte e tentativas de volta. Depois do fim, vem o luto, que às vezes dura mais do que a própria relação e passa por choque, negação e raiva até chegar à reconstrução. Para ele, a raiva tem uma função: dá energia para sair do lugar.
No mesmo trecho, ele cita a limerência (27:00), uma fixação quase obsessiva na outra pessoa, que ajuda a entender por que alguém não acredita no término mesmo depois de dezenas de rompimentos.
O que a ciência mostra: A limerência não é um diagnóstico. Uma revisão de escopo de Bradbury e colaboradores (2024) a descreve como uma fixação intrusiva em outra pessoa, com ruminação e busca de sinais de reciprocidade, e mostra que os estudos ainda são poucos e heterogêneos, sem ensaios de tratamento (DOI: 10.1007/s11896-024-09674-x).
5. “O tempo não cura” (31:00)
Na visão do Dr. Anderson, esperar o tempo passar não basta. A recuperação pede um trabalho ativo: reprocessar o trauma, cuidar da autoestima, do corpo, da espiritualidade e da rede de apoio. Na experiência dele, esse processo costuma levar de meses a alguns anos, e promessas de recuperação em 7, 21 ou 30 dias não condizem com a realidade.
O que a ciência mostra: Os estudos confirmam que a recuperação é longa. Em uma pesquisa com 1.116 mulheres australianas que viveram violência por parceiro, cerca de 8 em cada 10 ainda se viam em processo de recuperação mesmo mais de dois anos depois de sair. A recuperação percebida foi maior com mais tempo desde a separação, menor quando a relação abusiva durou mais de dez anos, e maior em quem tinha esperança no futuro. A medida foi uma escala simples, respondida pelas próprias participantes (DOI: 10.3390/ijerph192113825).
5b. Personalidade e os “cinco grandes traços” (32:50)
No episódio, o Dr. Anderson usou o modelo dos cinco grandes traços de personalidade (Big Five) para explicar o que costuma aparecer em pessoas com traços narcisistas: mais instabilidade emocional (neuroticismo), menos abertura para aprender, menos amabilidade, menos consideração pelo efeito das próprias atitudes nos outros (conscienciosidade) e, no modelo de seis fatores, menos honestidade e humildade. Ele lembrou que isso é um espectro, e não uma regra que vale para todos.
O que a ciência mostra: Uma revisão sistemática de Dorling e colaboradores (2024) reuniu 11 estudos com mais de 40 mil pessoas e comparou os cinco grandes traços entre quem pratica e quem não pratica violência no relacionamento. O neuroticismo foi o traço mais associado e a menor amabilidade apareceu em vários estudos, mas as associações foram fracas e não formam um “perfil de agressor”. O estudo não mediu narcisismo e não serve para diagnosticar ninguém: a violência, sobretudo o controle coercitivo, não se explica só por instabilidade emocional (DOI: 10.1177/15248380241299431).
6. Homens também são vítimas (36:00)
O apresentador trouxe a pergunta sobre os homens, e o médico concordou que eles costumam ter mais dificuldade para buscar ajuda, por vergonha ou por ouvirem que sofrer por um relacionamento é fraqueza. Na observação clínica dele, alguns homens acabam trocando o vício emocional por álcool ou outras drogas, enquanto muitas mulheres descontam em compras ou na comida, sempre com a ressalva de que cada caso é diferente. O tema está no guia sobre homens vítimas de abuso narcisista.
7. Por que é tão difícil parar de olhar as redes do ex (47:30 e 56:50)
Ficar olhando o perfil do ex, ou criar perfis falsos para isso, é uma forma de comparação: a pessoa quer saber se o outro também está sofrendo. O Dr. Anderson sugere tratar como um hábito de vício, reduzindo aos poucos: de dez vezes por dia para sete, depois três, até deixar de fazer sentido. Ele reforça que a vontade passa quando a pessoa melhora por dentro, não apenas porque o tempo passou.
O que a ciência mostra: Um estudo na Alemanha com 297 pessoas separadas havia no máximo seis meses mostrou que quem descrevia o ex-parceiro como narcisista relatava menos confiança nas pessoas e autoestima um pouco menor, além de mais vontade de se conhecer. As diferenças foram pequenas, num retrato de um só momento, e o “narcisista” foi a percepção de quem respondeu, não um diagnóstico (DOI: 10.1177/00332941251400728).
8. O narcisista sempre volta? (55:25)
“Volta se você largar a porta aberta”, respondeu, sobre o hoovering. Quando há filhos ou negócios em comum, é preciso construir distanciamento. Ele compartilhou uma opinião pessoal sobre a técnica grey rock: pode ajudar, mas usada por muito tempo pode deixar a pessoa fria com tudo; por isso, ele aposta mais no reprocessamento do trauma e na autoestima do que só em técnicas de contato.
9. O que fazer logo depois do descarte (1:08:54)
- Sair do isolamento. Uma rede de apoio, mesmo pequena, com pessoas de confiança.
- Buscar informação de qualidade. Conhecimento orienta, mas assistir a vídeos sozinho não basta.
- Mexer o corpo. Caminhar, se alongar, voltar a atividades em grupo, de esporte, dança, música ou fé.
- Procurar terapia focada em trauma, como EMDR ou TCC focada no trauma. Se não for possível pagar, procurar a rede do SUS.
- Procurar avaliação médica quando há ansiedade, depressão, pânico ou sono muito alterado, porque esses quadros podem precisar de medicação.
Ele citou ainda os questionários usados na avaliação: o ITQ para estresse pós-traumático e TEPT complexo (disponível no nosso teste de TEPT-C), o GAD-7 para ansiedade e o PHQ-9 para depressão. São ferramentas de triagem, que orientam a conversa, mas não fecham diagnóstico sozinhas.
O que a ciência mostra: Rede de apoio tem efeito mensurável: em 166 mulheres atendidas em centros de apoio na Jordânia, quanto maior o apoio percebido de família e amigos, menores os sintomas pós-traumáticos (DOI: 10.1186/s40359-025-03942-z). Sobre as terapias, uma revisão de 54 revisões sistemáticas concluiu que a TCC focada no trauma e o EMDR têm a base mais sólida para TEPT e TEPT complexo (DOI: 10.1093/bmb/ldaf015), e uma diretriz dinamarquesa recomenda psicoterapia focada no trauma para as apresentações complexas, com evidência de certeza baixa (DOI: 10.1136/bmjment-2024-301158). O abandono é o grande obstáculo: em um ensaio em Madri, 45% das mulheres sobreviventes de violência não concluíram a terapia em grupo (DOI: 10.1002/cpp.70092). Quanto ao ITQ, um estudo de 2026 mostrou que ele identifica bem quem tem TEPT-C, mas parte dos resultados positivos não se confirma na entrevista clínica, por isso serve como triagem (DOI: 10.1080/20008066.2026.2635917).
10. O corpo também precisa ser cuidado (1:02:00)
Para acalmar o sistema nervoso, ele recomendou alongamento, a respiração 4-7-8 (inspirar em 4 tempos, segurar em 7 e soltar em 8), caminhar ao sol e o aterramento, que é trazer a atenção para o que se vê, se toca e se sente no momento presente. Explicou que as ondas mais fortes de pânico costumam passar em minutos e que esses recursos ajudam a atravessá-las. Mais exercícios estão no artigo sobre dissociação e despersonalização.
11. Dar tempo antes de se comprometer (1:13:44)
No fechamento, ele deixou um conselho para relações futuras, sejam amorosas ou não: no começo, todo mundo mostra o melhor de si. A ordem saudável é paixão, depois intimidade, depois compromisso, e muita gente pula a intimidade por ansiedade. Para ele, “o relacionamento saudável é igual jogar frescobol na praia. Não é uma partida de tênis”: os dois jogam a favor um do outro. Ter clareza sobre os próprios objetivos de vida também protege contra pessoas controladoras.
O que a ciência mostra: Em um estudo com 436 parceiros, ex-parceiros e familiares de pessoas com traços narcisistas marcantes, Day, Townsend e Grenyer descreveram um padrão de idealização mútua no início seguido de desvalorização, junto com ansiedade, depressão e queixas no corpo em quem convivia com essa pessoa. É um estudo de relatos, que não mede frequência nem causa, mas ajuda a entender por que dar tempo para conhecer alguém protege (DOI: 10.1002/pmh.1532).
Frases do episódio
- “A mão que pune é a mão que reconforta.”
- “O tempo não cura. Você tem que mudar um padrão de comportamento.”
- “O relacionamento saudável é igual jogar frescobol na praia. Não é uma partida de tênis.”
Perguntas frequentes
Sobre o que é o episódio do Dr. Anderson Contaifer no Barulho Mental?
Sobre os efeitos do abuso emocional crônico: TEPT e TEPT complexo, reforço intermitente, luto depois do término, homens vítimas, o hábito de olhar as redes do ex e os primeiros passos da recuperação.
Quanto tempo leva para se recuperar de um relacionamento abusivo?
Não existe prazo fixo. Na experiência do Dr. Anderson, o processo costuma levar de meses a alguns anos e depende de rede de apoio, terapia focada em trauma e cuidado com o corpo. O artigo quanto tempo leva para se recuperar aprofunda o tema.
Que tipo de terapia ajuda depois de um relacionamento abusivo?
Quando há sintomas de estresse pós-traumático, as abordagens indicadas são as focadas em trauma, como EMDR, Brainspotting e TCC focada no trauma. Ansiedade e depressão importantes também merecem avaliação médica.
Risco imediato
Se você está em perigo agora, ligue 190. Para orientação sobre violência contra a mulher, Ligue 180. Se pensamentos de tirar a própria vida aparecerem, procure o CVV pelo 188 (ligação gratuita, 24 horas) ou um serviço de emergência.
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Referências científicas
- Brewin CR. Complex post-traumatic stress disorder: a new diagnosis in ICD-11. BJPsych Advances. 2020;26(3):145-152.
- Lohmann S, Cowlishaw S, Ney L, et al. The trauma and mental health impacts of coercive control: a systematic review and meta-analysis. Trauma, Violence, & Abuse. 2023.
- Gonçalves R, Gama C, Junior S, et al. The overlooked trauma: psychological violence and its impact on PTSD symptoms. European Journal of Psychotraumatology. 2026.
- Dutton DG, Painter S. Emotional attachments in abusive relationships: a test of traumatic bonding theory. Violence and Victims. 1993;8(2):105-120.
- Bradbury P, Short E, Bleakley P. Limerence, hidden obsession, fixation, and rumination: a scoping review of human behaviour. Journal of Police and Criminal Psychology. 2024.
- Carman M, Kay-Lambkin F. Long-term recovery from intimate partner violence: recovery and hope. International Journal of Environmental Research and Public Health. 2022;19(21):13825.
- Dorling E, Onifade H, Browne K. Intimate partner violence perpetration and the five-factor model of personality: a systematic review. Trauma, Violence, & Abuse. 2024.
- Kornberger S, Schneider S. Leaving scars? Post-separation psychological adjustment in individuals with presumably narcissistic ex-partners. Psychological Reports. 2025.
- Masa’Deh R, Maabreh R, Khaisha T, et al. The relationship between perceived social support and post-traumatic stress disorder in Jordanian women. BMC Psychology. 2026.
- Billings J, Nicholls H. PTSD and complex PTSD, current treatments and debates: a review of reviews. British Medical Bulletin. 2025.
- Schaug J, Møller L, Reinholt N, et al. Psychotherapies for adults with complex presentations of PTSD: a clinical guideline and five systematic reviews. BMJ Mental Health. 2025.
- Crespo M, Antón A, Hornillos C, et al. Dropout from trauma-focused treatment for intimate partner violence against women. Clinical Psychology & Psychotherapy. 2025.
- Melkevik O, Roberts N, Folke S. Self-reported versus clinician-evaluated assessment of ICD-11 PTSD and CPTSD. European Journal of Psychotraumatology. 2026.
- Day NJS, Townsend ML, Grenyer BFS. Pathological narcissism: an analysis of interpersonal dysfunction within intimate relationships. Personality and Mental Health. 2022;16(3):204-216.
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Resumo feito a partir do episódio publicado no YouTube. Conteúdo educativo, não substitui avaliação individual.
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