Descarte narcisista: por que dói tanto ser deixado do nada e como se recuperar

Pessoa sozinha olhando o celular apagado sobre a mesa depois do descarte narcisista
Foto de Dr. Anderson Contaifer

Dr. Anderson Contaifer

Médico especialista em Clínica Médica (CRM-SC 24.484 | RQE de clínica médica 18.790), com formação pela EMESCAM (Escola de ciências Médicas da Santa Casa de Misericórida de Vitória - ES) e titulação em clínica médica pela SBCM (Sociedade Brasileira de Clínica Médica). Atua na recuperação médica e emocional de vítimas de abuso narcisista, produzindo conteúdos educativos nas redes sociais. Criador do Programa Quebrando as Algemas, curso para recuperação do abuso narcisista. Possui mais de 200 mil seguidores em redes sociais, criador do Blog Quebrando as Algemas que oferece conteúdo baseado em evidências científicas sobre narcisismo patológico, gaslighting, trauma bonding e TEPT-C. Possui Certificado de Excelência Doctoralia 2025.

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Definição rápida

Atendimento médico

As repercussões do abuso narcisista no corpo (insônia, taquicardia, fadiga, alterações de sono e peso) têm avaliação e acompanhamento médico.

Dr. Anderson Contaifer · Médico Especialista em Clínica Médica · CRM-SC 24.484 · RQE 18.790 · Teleconsulta (qualquer lugar do Brasil e do mundo)

As repercussões do abuso narcisista no corpo (insônia, taquicardia, fadiga, alterações de peso e sono) têm avaliação e acompanhamento médico. O Dr. Anderson Contaifer, médico, especialista em Clínica Médica (CRM-SC 24.484, RQE 18.790), atende por teleconsulta para todo o Brasil. Cada consulta é uma avaliação clínica individual.

Ainda não quer marcar consulta? Você também pode conhecer o curso Quebrando as Algemas, material educativo para quem está se recuperando de um relacionamento abusivo.

O descarte narcisista é o fim abrupto e frio de um relacionamento com uma pessoa de funcionamento narcisista, geralmente por mensagem, sumiço (ghosting) ou substituição rápida por um novo parceiro, sem explicação e sem espaço para um fechamento. Do ponto de vista clínico, não é apenas um término: é a última fase do ciclo de abuso, na qual você deixa de ter valor como fonte de atenção, controle e energia (o chamado suprimento) e passa a ser tratado como algo descartável. O choque, a ruminação, a sensação de rejeição física e a vontade de correr atrás de respostas não são fraqueza de caráter, são reações neurobiológicas previsíveis do cérebro humano diante da rejeição social e da perda de vínculo. Este texto tem finalidade educativa e não substitui avaliação médica individual.

Assista também no canal do Dr. Anderson Contaifer: o que fazer com a vontade de ir atrás depois do descarte.

O que é o descarte narcisista

Quem passou por isso costuma descrever a mesma cena. Na segunda-feira a pessoa jurava amor eterno, falava em futuro, em morar junto, em envelhecer ao lado. Na terça, foi embora como se nada daquilo tivesse existido. Nenhuma conversa, nenhuma despedida, às vezes nem uma mensagem. Só o silêncio, e a pergunta que gira sem parar dentro da cabeça: como é que alguém consegue fazer isso?

O descarte é o momento em que a pessoa de funcionamento narcisista decide que você não serve mais ao propósito que ela tinha para você. Na literatura clínica, esse propósito é descrito como suprimento narcisista, ou seja, a atenção, a admiração, o controle e a regulação emocional que ela extraía do relacionamento. Enquanto você preenchia esse papel, houve idealização, elogios, intensidade. Quando você começou a impor limites, a adoecer, a questionar ou simplesmente deixou de entregar o mesmo brilho, a conta mudou. O descarte é a fase em que o vínculo deixa de ser lucrativo para o agressor e é encerrado da forma mais econômica possível para ele, quase sempre da forma mais devastadora possível para você.

É importante nomear com precisão. O descarte não é sinônimo de término. Casais terminam todos os dias, de formas doloridas, sem que isso configure abuso. O que caracteriza o descarte narcisista é a combinação de um padrão anterior de manipulação, a frieza calculada do encerramento, a recusa deliberada de dar um fechamento e, com frequência, a substituição imediata por outra pessoa exibida como troféu. Não é distração nem imaturidade afetiva. É a etapa final de um roteiro que se repete, descrito em estudos qualitativos com vítimas de narcisismo patológico, nos quais a experiência de ser reduzido a objeto aparece de forma consistente.

Por que o descarte é súbito, frio e sem explicação

Uma das perguntas mais frequentes no consultório é: se ele já ia embora, por que não conversou? Por que sumiu do nada? A resposta incomoda, porque contraria a lógica de quem ama. Para a pessoa de funcionamento narcisista, a conversa de encerramento não tem valor, porque ela não enxerga o outro como um igual que merece explicação. Enxerga um recurso que parou de render.

Há ainda um componente estratégico. Negar o fechamento mantém você preso. Sem uma explicação, o cérebro não consegue encerrar a história e fica em looping, tentando montar um quebra-cabeça ao qual faltam peças. Essa ausência de ponto final tem nome na psicologia: a teoria da perda ambígua descreve exatamente o sofrimento de perder alguém que continua existindo, sem morte, sem ritual, sem despedida, o que dificulta muito o processo de luto. O descarte narcisista é uma perda ambígua fabricada de propósito.

Somam-se a isso duas manobras comuns. A primeira é a substituição rápida, quando a pessoa aparece dias depois com um novo par, feliz, publicando tudo. Isso não significa que ela estava certa e você era o problema. Significa que ela precisa de suprimento contínuo e já engatou a próxima fonte, muitas vezes preparada antes mesmo de encerrar com você. A segunda é a inversão de culpa. No lugar de assumir a decisão, o agressor deixa no ar a impressão de que você provocou o fim, e você passa a se interrogar: será que eu não fui suficiente? Essa pergunta é o veneno do descarte, e ela é plantada, não é conclusão sua.

O que acontece no seu cérebro durante o descarte

Aqui está a parte que mais alivia quem me procura, porque tira o peso da culpa e devolve a explicação para onde ela pertence, para a biologia. A dor que você sente não é figura de linguagem. Quando somos rejeitados socialmente, o cérebro ativa regiões que também processam a dor física, em especial o córtex cingulado anterior dorsal e a ínsula. O estudo clássico de Eisenberger e colaboradores mostrou, em ressonância funcional, que a exclusão social acende esse circuito de forma muito parecida com a de uma lesão no corpo. Anos depois, o trabalho de Kross e colaboradores foi além e demonstrou que a rejeição amorosa intensa compartilha representações com a dor somatossensorial, ou seja, com a mesma matéria-prima neural de uma queimadura ou de um corte.

Por isso a revisão de MacDonald e Leary propôs que a exclusão social e a dor física dividem um sistema de alarme comum, herdado da evolução: para um animal social, ser expulso do grupo já foi, historicamente, uma sentença de morte. O corpo trata o abandono como ameaça à sobrevivência, e reage com a mesma urgência.

Há ainda o componente de abstinência. A pesquisa de Fisher e colaboradores, também com ressonância, mostrou que a rejeição amorosa recente ativa áreas ligadas à recompensa, ao desejo e à dependência, as mesmas envolvidas na fissura por substâncias. É por isso que a vontade de mandar mensagem, de checar o perfil, de correr atrás de uma resposta é tão física quanto a fissura de quem tenta parar um vício. Você não está sendo fraco. Seu circuito de recompensa está em síndrome de abstinência de uma pessoa. E, no plano mais profundo, o sistema cerebral de angústia de separação, descrito por Panksepp como um circuito primário de sofrimento diante da perda do vínculo, dispara o mesmo pânico do filhote separado da mãe. Entender isso muda tudo, porque a vontade de voltar deixa de ser um sinal de que o relacionamento era bom e passa a ser lida como o que é: um sintoma de abstinência.

O que você sente O que acontece no cérebro Evidência
Dor no peito, sensação de pancada física Ativação do córtex cingulado anterior e da ínsula, regiões da dor Eisenberger 2003 [1]; Kross 2011 [2]
Vontade incontrolável de mandar mensagem ou ir atrás Circuito de recompensa e fissura, semelhante ao de dependência Fisher 2010 [3]
Pânico, aperto, sensação de emergência Sistema de angústia de separação (PANIC/GRIEF) Panksepp 2014 [4]
Sensação de ter sido expulso, de não pertencer Sistema de alarme social compartilhado com a dor física MacDonald e Leary 2005 [5]; Williams 2007 [6]

Por que dói tanto: rejeição, ostracismo e a falta de fechamento

O descarte reúne, num só golpe, três feridas que a psicologia estuda separadamente. A primeira é a rejeição, que já vimos ser processada como dor. A segunda é o ostracismo, o ato de ser ignorado e excluído, que o pesquisador Kipling Williams descreve como uma ameaça direta a quatro necessidades humanas fundamentais: pertencer, ter autoestima, sentir controle e sentir que a própria existência tem sentido. O silêncio do agressor não é neutro. Ele ataca esses quatro pilares ao mesmo tempo, e é por isso que o tratamento de silêncio parece querer apagar você.

A terceira ferida é a ausência de fechamento. Sem explicação, sem despedida, sem sentido, a mente não encontra onde pousar. A perda ambígua, conceito desenvolvido por Pauline Boss, descreve como perdas sem confirmação e sem ritual travam o luto e mantêm a pessoa em suspenso, oscilando entre a esperança e a desistência. O descarte narcisista instala essa perda ambígua de forma artificial. É por isso que muita gente relata que teria sofrido menos com um término honesto e doloroso do que com esse desaparecimento sem contorno.

Reconhecer as três feridas ajuda a entender por que conselhos simplistas do tipo vira a página não funcionam. Não há uma página, há um livro sem última linha. O trabalho clínico consiste justamente em ajudar a construir esse fechamento por dentro, já que ele nunca virá de fora.

Descarte narcisista e término saudável: como diferenciar

Uma das perguntas centrais de quem chega ao consultório é: será que eu estou dramatizando um término comum? A dúvida é legítima, e a resposta importa, porque o caminho de recuperação de um descarte abusivo é diferente do luto de uma separação respeitosa. A tabela abaixo reúne os marcadores que costumo usar para orientar essa diferenciação. Ela não fecha diagnóstico, que é sempre individual, mas ajuda a organizar a percepção.

Aspecto Término saudável Descarte narcisista
Comunicação do fim Conversa, mesmo que difícil e dolorosa Sumiço, mensagem seca ou silêncio total
Fechamento Há espaço para entender o motivo Fechamento negado de propósito
Histórico da relação Reciprocidade, altos e baixos comuns Ciclo de idealização, desvalorização e controle
Substituição Tempo de luto antes de outro vínculo Novo par exibido em dias, como troféu
Culpa Responsabilidade dividida com honestidade Culpa jogada inteira sobre você
Depois do fim Distância respeitosa Retorno súbito (hoovering) quando convém a ele

Se a coluna da direita descreve o que você viveu, saiba que a intensidade da sua dor faz sentido. Você não está exagerando. Você está reagindo a um padrão de abuso que tem nome, literatura e caminho de recuperação. Para entender o quadro inteiro, vale ler o guia sobre o abuso narcisista e o texto sobre o ciclo do abuso narcisista, onde o descarte aparece como uma das quatro fases.

Este tema também está no Instagram do Dr. Anderson Contaifer, em formato visual:

Ghosting: o descarte na era digital

O descarte encontrou no mundo digital a ferramenta perfeita. O ghosting, o ato de desaparecer sem aviso e cortar todo contato, virou objeto de estudo próprio. A pesquisa de LeFebvre e colaboradores descreve o ghosting como uma estratégia de dissolução de vínculo mediada pela tecnologia, na qual o bloqueio e o silêncio substituem qualquer explicação. Para quem é deixado, o efeito é justamente a perda ambígua de que falamos, agravada pela facilidade de checar, a qualquer hora, um perfil que continua ativo enquanto ignora você.

Estudos recentes começaram a medir o custo emocional disso. O trabalho de Telari e colaboradores, de 2025, comparou reações ao longo de vários dias e descreveu o que os autores chamam de dor fantasma do ghosting, a persistência do sofrimento mesmo depois de o contato ter cessado, alimentada pela ruminação e pela ausência de resolução. Não é frescura de uma geração conectada. É a tradução digital de um mecanismo antigo de rejeição, agora com um botão de recarga sempre à mão. Por isso o contato zero deixa de ser vingança e passa a ser tratamento: interromper o acesso é interromper a fissura. Se esse é o seu caso, o guia sobre recuperação do abuso narcisista detalha como sustentar essa distância.

A linha do tempo do descarte: o que costuma acontecer

Cada história é única, mas há uma sequência que se repete com frequência suficiente para valer o aviso. Conhecer o roteiro ajuda a não confundir reação normal com recaída e a antecipar o momento em que o agressor tenta voltar.

Fase O que costuma acontecer O que ajuda
Choque (dias 1 a 7) Descrença, insônia, aperto no peito, ruminação constante Não decidir nada importante, buscar apoio próximo
Fissura (semanas 1 a 4) Vontade física de ir atrás, checar perfil, mandar mensagem Contato zero, remover gatilhos, rotina de sono e movimento
Tentativa de retorno (hoovering) Ele reaparece com saudade, desculpa ou provocação Reconhecer o padrão, não responder, pedir apoio
Reorganização (meses) A dor perde força, volta o sono, volta o apetite pela vida Reconstruir sentido, tratar sintomas persistentes

A fase de retorno merece atenção especial. O descarte quase nunca é o ponto final na cabeça do agressor. Quando o novo suprimento falha, ou quando ele apenas sente que perdeu o controle sobre você, é comum a tentativa de reaproximação, o chamado hoovering. Saber que isso pode vir, e que não significa arrependimento genuíno, é parte da proteção.

Os efeitos do descarte na saúde

O descarte não fere só o coração em sentido figurado. Ele deixa marcas no corpo. A ruminação prolongada, a hipervigilância e a sensação constante de ameaça mantêm o organismo em estado de alerta, com ativação repetida do eixo do estresse. No curto prazo, isso aparece como insônia, palpitações, perda ou aumento de apetite, dores de cabeça e cansaço que não passa com o descanso.

No longo prazo, o abuso vivido de forma crônica e as experiências adversas se somam ao risco de adoecimento. O grande estudo de Felitti e colaboradores sobre experiências adversas mostrou uma relação consistente entre adversidade relacional acumulada e desfechos de saúde ao longo da vida, do humano ao cardiovascular. Não se trata de dizer que o descarte causa doença por si só, e sim de reconhecer que o sofrimento relacional intenso e repetido tem repercussão biológica real e merece cuidado, não minimização.

Quando os sintomas de reexperiência, evitação, hipervigilância e alteração de humor se organizam e se mantêm, o quadro pode evoluir para um TEPT-C, o Transtorno de Estresse Pós-Traumático Complexo, que responde bem a tratamento estruturado. É por isso que insisto: pedir ajuda depois de um descarte não é exagero. É prevenção.

Sintoma Mecanismo provável O que costuma ajudar
Insônia e sono fragmentado Hiperativação do eixo do estresse, ruminação noturna Higiene do sono, avaliação médica, contato zero
Fissura por contato Circuito de recompensa em abstinência Bloqueio, remover gatilhos, adiar a resposta
Autoestima destruída Ostracismo ataca pertencer e valor próprio Rede de apoio, psicoterapia, resgate de identidade
Ruminação e falta de fechamento Perda ambígua, luto travado Construir fechamento interno com apoio clínico

O que ajuda e o que atrapalha na recuperação

Depois de acompanhar muitas pessoas nessa travessia, alguns pontos se firmaram. O que mais ajuda é o contato zero, sustentado não como punição ao outro, mas como interrupção da própria fissura. Ajuda tratar a rotina como remédio: sono regular, alimentação, movimento, luz do sol, coisas simples que estabilizam o corpo enquanto a mente se reorganiza. Ajuda nomear o que aconteceu, porque dar nome ao abuso tira o peso da culpa. E ajuda buscar apoio, seja de pessoas de confiança, seja de acompanhamento profissional, sobretudo quando os sintomas não cedem.

O que atrapalha é igualmente previsível. Atrapalha correr atrás de explicação, porque ela não virá honesta, virá como mais manipulação. Atrapalha vigiar o perfil e as fotos do novo par, que só recarregam a dor. Atrapalha se isolar completamente, porque o isolamento aprofunda a sensação de não pertencer. E atrapalha se cobrar um prazo, como se houvesse data certa para parar de doer. A recuperação de um descarte abusivo não é linear, e recaídas de saudade não apagam o progresso. O estudo longitudinal de Grenyer, Day e colaboradores sobre recuperação após relacionamentos com narcisismo patológico aponta que fatores do cotidiano, como trabalho com sentido e vínculos saudáveis, têm papel real no processo de melhora, o que reforça que a reconstrução acontece na vida concreta, um dia de cada vez.

Quando procurar avaliação médica

Nem todo sofrimento após um descarte exige intervenção clínica, mas alguns sinais indicam que é hora de buscar ajuda profissional. Procure avaliação se a insônia persistir por semanas, se houver perda importante de peso ou de apetite, se a ansiedade ou a tristeza estiverem tomando conta dos seus dias e prejudicando trabalho e relações, se surgirem crises de pânico, se você sentir que não consegue funcionar, ou se aparecer qualquer pensamento de que não vale a pena continuar vivendo.

Se em algum momento surgirem pensamentos de morte ou de se machucar, procure ajuda imediatamente. No Brasil, o Centro de Valorização da Vida atende de graça, em sigilo, 24 horas por dia, pelo telefone 188, e também por chat no site do CVV. Em emergência, procure o serviço de saúde mais próximo. Pedir ajuda é um ato de coragem, não de fraqueza.

Do ponto de vista clínico, a avaliação médica ajuda a identificar quadros como ansiedade, depressão e TEPT-C, a tratar sintomas físicos que estejam sendo mantidos pelo estresse e a organizar um plano de cuidado. Se quiser entender como funciona esse acompanhamento e o que levar, veja o texto sobre a consulta médica para quem sofreu abuso narcisista.

Perguntas frequentes sobre o descarte narcisista

Por que o narcisista descarta quem ele dizia amar?

Porque, no funcionamento narcisista, o vínculo serve para extrair suprimento, ou seja, atenção, controle e regulação emocional. Quando você deixa de entregar isso na medida que ele quer, seja por impor limites, adoecer ou questionar, o relacionamento perde a função e é encerrado. Não é sobre o seu valor, é sobre a incapacidade dele de amar de forma recíproca.

O descarte foi porque eu não fui suficiente?

Não. Essa é justamente a pergunta que o descarte planta em você. A decisão de descartar diz respeito ao funcionamento do agressor, não ao seu valor. Pessoas descartadas frequentemente eram dedicadas e leais, e foi essa entrega que serviu de suprimento por tanto tempo.

Por que dói tanto, mais do que um término comum?

Porque o descarte reúne três feridas ao mesmo tempo: a rejeição, processada pelo cérebro como dor física; o ostracismo, que ataca a sua sensação de pertencer e de valer; e a ausência de fechamento, que trava o luto. Some-se a abstinência do vínculo, e o resultado é uma dor de intensidade real e biologicamente explicável.

Por que sinto uma vontade física de correr atrás dele?

Porque o seu circuito de recompensa está em abstinência. Estudos com ressonância mostram que a rejeição amorosa recente ativa as mesmas áreas ligadas ao desejo e à dependência. A vontade de ir atrás é um sintoma de fissura, não uma prova de que o relacionamento era bom.

Ele descartou e já está com outra pessoa. Isso significa que o problema era eu?

Não. A substituição rápida é típica do padrão. A pessoa de funcionamento narcisista precisa de suprimento contínuo e engata outra fonte depressa, às vezes preparada antes do fim. A felicidade exibida costuma ser encenação para aniquilar a sua autoconfiança.

Devo procurar o narcisista para ter uma explicação e fechar o ciclo?

Não é o caminho recomendado. Ele raramente dará uma resposta honesta, e o contato tende a reabrir a ferida e alimentar a manipulação. O fechamento que cura é construído por dentro, com apoio, e não depende da versão do agressor.

O narcisista pode voltar depois do descarte?

Sim, e é frequente. Chama-se hoovering. Quando o novo suprimento falha ou ele sente que perdeu o controle sobre você, tenta reaproximação com saudade, desculpas ou provocações. Isso não é arrependimento genuíno, é retomada de controle.

Quanto tempo leva para superar um descarte narcisista?

Não há prazo único. A dor mais aguda costuma ceder ao longo de semanas a meses com contato zero e apoio, mas o processo não é linear e recaídas de saudade são normais. Fatores do cotidiano, como vínculos saudáveis e trabalho com sentido, aceleram a recuperação. Se os sintomas persistirem ou incapacitarem, a avaliação médica encurta o caminho.

Referências científicas

  1. Eisenberger NI, Lieberman MD, Williams KD. Does rejection hurt? An fMRI study of social exclusion. Science. 2003. doi.org/10.1126/science.1089134
  2. Kross E, Berman MG, Mischel W, Smith EE, Wager TD. Social rejection shares somatosensory representations with physical pain. PNAS. 2011. doi.org/10.1073/pnas.1102693108
  3. Fisher HE, Brown LL, Aron A, Strong G, Mashek D. Reward, addiction, and emotion regulation systems associated with rejection in love. Journal of Neurophysiology. 2010. doi.org/10.1152/jn.00784.2009
  4. Panksepp J, Watt D. Primary-process separation-distress (PANIC/GRIEF) and reward eagerness (SEEKING) processes. Mechanisms of Social Connection. 2014. doi.org/10.1037/14250-003
  5. MacDonald G, Leary MR. Why does social exclusion hurt? The relationship between social and physical pain. Psychological Bulletin. 2005. doi.org/10.1037/0033-2909.131.2.202
  6. Williams KD. Ostracism. Annual Review of Psychology. 2007. doi.org/10.1146/annurev.psych.58.110405.085641
  7. Boss P. Ambiguous loss theory: challenges for scholars and practitioners. Family Relations. 2007. doi.org/10.1111/j.1741-3729.2007.00444.x
  8. LeFebvre LE, Allen M, Rasner RD, Garstad S, Wilms A, Parrish C. Ghosting in emerging adults’ romantic relationships: the digital dissolution disappearance strategy. Imagination, Cognition and Personality. 2019. doi.org/10.1177/0276236618820519
  9. Telari G, et al. The phantom pain of ghosting: multi-day experiments comparing the reactions to ghosting. Computers in Human Behavior. 2025. doi.org/10.1016/j.chb.2025.108756
  10. Day NJS, Townsend ML, Grenyer BFS. Living with pathological narcissism: a qualitative study. Borderline Personality Disorder and Emotion Dysregulation. 2020. doi.org/10.1186/s40479-020-00132-8
  11. Grenyer BFS, Day NJS, et al. To love and work: a longitudinal study of everyday life factors in recovery after a relationship with a person with pathological narcissism. Personality and Mental Health. 2022. doi.org/10.1002/pmh.1547
  12. Felitti VJ, Anda RF, Nordenberg D, et al. Relationship of childhood abuse and household dysfunction to many of the leading causes of death in adults (ACE Study). American Journal of Preventive Medicine. 1998. doi.org/10.1016/S0749-3797(98)00017-8

Conteúdo educativo produzido pelo Dr. Anderson Contaifer, médico, Clínica Médica, CRM-SC 24.484, RQE 18.790, com apoio de inteligência artificial revisado por médico. Não substitui consulta, diagnóstico ou tratamento individualizado. Em caso de sofrimento intenso ou pensamentos de morte, ligue 188 (CVV) ou procure atendimento de emergência.

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Sobre o autor

Dr. Anderson Contaifer de Carvalho é médico especialista em Clínica Médica (CRM-SC 24.484 | RQE 18.790), formado pela EMESCAM em 2012, com título de especialista em clínica médica pela SBCM em 2019. Possui pós-graduação em Saúde da Família, Nutrologia e Medicina Intensiva, além de certificações ACLS e ATLS. É o criador do Quebrando as Algemas, programa dedicado à recuperação de vítimas de abuso narcisista, médico com atuação nas repercussões clínicas e emocionais de relacionamentos abusivos. Certificado Excelência Doctoralia 2025.

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