Síndrome do impostor e abuso narcisista: por que você se sente uma fraude

Mulher sentada à mesa de trabalho olhando para baixo com expressão de dúvida, ao lado de um diploma emoldurado, ilustrando a síndrome do impostor depois do abuso narcisista
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Dr. Anderson Contaifer

Médico especialista em Clínica Médica (CRM-SC 24.484 | RQE de clínica médica 18.790), com formação pela EMESCAM (Escola de ciências Médicas da Santa Casa de Misericórida de Vitória - ES) e titulação em clínica médica pela SBCM (Sociedade Brasileira de Clínica Médica). Atua na recuperação médica e emocional de vítimas de abuso narcisista, produzindo conteúdos educativos nas redes sociais. Criador do Programa Quebrando as Algemas, curso para recuperação do abuso narcisista. Possui mais de 200 mil seguidores em redes sociais, criador do Blog Quebrando as Algemas que oferece conteúdo baseado em evidências científicas sobre narcisismo patológico, gaslighting, trauma bonding e TEPT-C. Possui Certificado de Excelência Doctoralia 2025.

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As repercussões do abuso narcisista no corpo (insônia, taquicardia, fadiga, alterações de sono e peso) têm avaliação e acompanhamento médico.

Dr. Anderson Contaifer · Médico Especialista em Clínica Médica · CRM-SC 24.484 · RQE 18.790 · Teleconsulta (qualquer lugar do Brasil e do mundo)

As repercussões do abuso narcisista no corpo (insônia, taquicardia, fadiga, alterações de peso e sono) têm avaliação e acompanhamento médico. O Dr. Anderson Contaifer, médico, especialista em Clínica Médica (CRM-SC 24.484, RQE 18.790), atende por teleconsulta para todo o Brasil. Cada consulta é uma avaliação clínica individual.

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A síndrome do impostor é a sensação persistente de ser uma fraude: a pessoa acredita que suas conquistas foram sorte, acaso ou engano, e vive com medo de ser desmascarada. Depois de um relacionamento com uma pessoa narcisista, essa sensação costuma aparecer ou piorar muito, porque o abuso narcisista funciona como um treinamento diário para duvidar da própria competência: o narcisista desqualifica conquistas, se apropria de méritos, reescreve os fatos e faz a vítima acreditar que tudo de bom que ela fez veio de fora. Não é diagnóstico formal nem falha de caráter. É uma crença aprendida, e o que foi aprendido pode ser desaprendido com reconstrução da autoestima, revisão de evidências e, quando necessário, apoio médico e psicológico.

Assista também: narcisismo e a síndrome do impostor, no canal do Dr. Anderson Contaifer.

Você recebe um elogio no trabalho e a primeira reação é pensar que a pessoa está sendo educada. Entrega um projeto bom e atribui o resultado à sorte. Quando algo dá errado, porém, a culpa é inteira e imediatamente sua. Se alguém pergunta como você conseguiu chegar onde chegou, a resposta interna é um desconforto: “se soubessem como eu sou de verdade, veriam que eu não mereço estar aqui”. Essa é a experiência central da síndrome do impostor, e ela tem uma relação íntima com o abuso narcisista que pouca gente conhece.

Muita gente sai de um relacionamento com uma pessoa narcisista, seja um parceiro, um pai, uma mãe ou um chefe, sentindo que é uma farsa ambulante. A pessoa era segura, competente, reconhecida. Depois de anos de convivência com alguém que desqualificava cada conquista, ela passa a olhar para o próprio currículo como se fosse de outra pessoa. Este artigo explica, com base científica, por que isso acontece, como diferenciar a síndrome do impostor clássica da sensação de fraude fabricada pelo abuso, e o que fazer para devolver o mérito ao verdadeiro dono: você.

O que é a síndrome do impostor (e o que ela não é)

O termo nasceu em 1978, quando as psicólogas Pauline Clance e Suzanne Imes descreveram o “fenômeno do impostor” em mulheres de alto desempenho: profissionais objetivamente bem-sucedidas que se sentiam intelectualmente falsas e viviam com medo de serem descobertas [1]. Desde então, a pesquisa mostrou que o fenômeno não escolhe gênero nem área: uma revisão sistemática publicada no Journal of General Internal Medicine encontrou prevalências que variam de 9% a 82% conforme a população estudada, com taxas altas em homens e mulheres, estudantes e profissionais experientes [2].

Três características formam o núcleo do quadro. Primeiro, a atribuição externa do sucesso: tudo de bom é sorte, ajuda alheia ou erro de avaliação dos outros. Segundo, a atribuição interna do fracasso: qualquer erro confirma a “verdade” escondida da incompetência. Terceiro, o medo constante de exposição: a pessoa vive como se houvesse um tribunal prestes a revogar seu diploma, seu cargo ou seu valor. Clance e colegas também descreveram a dinâmica familiar que costuma alimentar o padrão: ambientes em que o afeto e o reconhecimento eram condicionados ao desempenho, ou em que a pessoa era comparada de forma constante com outro membro da família [3].

É importante dizer o que a síndrome do impostor não é. Ela não é um diagnóstico formal: não existe na CID-11 nem nos manuais psiquiátricos como categoria própria. É um padrão de pensamento e emoção, bem descrito na literatura, que pode aparecer sozinho ou junto de quadros como ansiedade, depressão e Transtorno de Estresse Pós-Traumático Complexo (TEPT-C). Também não é sinônimo de humildade: a pessoa humilde reconhece o próprio mérito sem alarde; a pessoa com sensação de impostora não consegue reconhecer mérito nenhum, por mais evidência que exista. E não é fraqueza de personalidade: pesquisas com estudantes universitários mostraram que o fenômeno se associa a estilos parentais marcados por controle e baixo cuidado, o que reforça a ideia de que ele é aprendido nas relações, não trazido de fábrica [4].

Como o abuso narcisista fabrica um impostor

Se a síndrome do impostor clássica costuma nascer na infância, a versão pós-abuso pode ser instalada em qualquer idade. O abuso narcisista é um padrão de relacionamento em que uma pessoa com traços narcisistas patológicos usa desvalorização, controle e manipulação para manter o parceiro em posição de inferioridade. Estudos com parceiros de pessoas com narcisismo patológico descrevem exatamente esse cenário: críticas constantes, depreciação, alternância entre idealização e desprezo, e um desgaste profundo da autoimagem de quem convive com o quadro [6].

O mecanismo mais corrosivo é o gaslighting, a manipulação que faz a vítima duvidar da própria percepção, memória e sanidade [5]. Aplicado à competência, o gaslighting soa assim: “você só passou porque a prova estava fácil”, “quem carregou esse projeto fui eu”, “todo mundo comenta que você não dá conta, só eu te defendo”. Repetido por meses ou anos, esse discurso não é ouvido como opinião: é absorvido como fato. A pessoa não pensa “ele diz que eu sou incompetente”; ela passa a pensar “eu sou incompetente”. A pesquisa sobre abuso emocional em relacionamentos íntimos mostra que essa forma de violência, mesmo sem nenhuma agressão física, produz danos profundos e duradouros na autoestima e na saúde mental [11] [12].

A tabela abaixo resume as táticas mais comuns e a crença que cada uma instala. Se você reconhece as frases da coluna do meio, a sensação de fraude que sente hoje provavelmente não nasceu com você: foi construída, tijolo por tijolo.

Tática do narcisista Frase típica Crença instalada
Desqualificação da conquista “Isso aí qualquer um faz.” Meu sucesso não tem valor.
Apropriação de mérito “Você só conseguiu porque eu te ajudei.” O que dá certo na minha vida vem dos outros.
Atribuição à sorte “Dessa vez você deu sorte.” Não foi competência, foi acaso.
Comparação rebaixadora “Olha o fulano, esse sim é bom no que faz.” Eu sou sempre a versão inferior.
Mudança de critério (trave móvel) “Passou no concurso, mas não era o mais difícil.” Nada que eu faça é suficiente.
Gaslighting sobre a percepção “Você está inventando, ninguém te elogiou.” Não posso confiar no que eu percebo.
Profecia de fracasso “Sem mim você não vai conseguir nada.” Sozinho eu sou uma fraude prestes a cair.

Por que a sua mente aceitou a versão do narcisista

Uma dúvida comum de quem viveu isso: “como eu deixei me convencerem de algo tão falso?”. A resposta não está em ingenuidade, e sim em três mecanismos bem documentados pela ciência. O primeiro é a autoestima contingente. A psicologia distingue a autoestima estável, que se apoia em valores internos, da autoestima contingente, que depende de fontes externas de validação: aprovação alheia, desempenho, aparência [7]. O relacionamento abusivo empurra a vítima para o segundo modelo: como o afeto do narcisista é imprevisível e condicionado, a pessoa aprende que seu valor precisa ser provado todos os dias, e que a régua de quem avalia está na mão do outro. Pesquisadores como Michael Kernis mostraram que essa autoestima frágil e dependente de aprovação é justamente a mais vulnerável a oscilações e ao sofrimento psíquico [8].

O segundo mecanismo é a dor real da rejeição. Um estudo clássico de neuroimagem publicado na Science mostrou que a exclusão social ativa regiões cerebrais associadas ao sofrimento físico, como o córtex cingulado anterior [9]. Na prática, cada desqualificação do narcisista dói no cérebro de um jeito parecido com dor física. Para escapar dessa dor, a mente faz um acordo perverso: aceita a narrativa do abusador (“eu sou mesmo incompetente, ele tem razão”) porque concordar dói menos do que lutar. Com o tempo, o acordo vira identidade.

O terceiro mecanismo é o trauma. A exposição prolongada a abuso do qual é difícil escapar pode evoluir para o TEPT-C, o Transtorno de Estresse Pós-Traumático Complexo, reconhecido na CID-11. Um dos três pilares do TEPT-C, ao lado da desregulação emocional e da dificuldade nos relacionamentos, é exatamente o autoconceito negativo: a crença persistente de ser diminuído, derrotado e sem valor [10]. Ou seja, a sensação de fraude depois do abuso não é frescura nem exagero: em muitos casos, ela é um sintoma nuclear de um quadro pós-traumático descrito em classificação internacional de doenças. Uma meta-análise sobre maus-tratos na infância reforça o peso específico do abuso emocional: entre todas as formas de maus-tratos, o abuso psicológico e a negligência emocional foram os mais fortemente associados à depressão na vida adulta [11].

Síndrome do impostor clássica x sensação de fraude pós-abuso

Na prática clínica, vale distinguir dois caminhos que levam ao mesmo sintoma. A síndrome do impostor “clássica” costuma se formar cedo, em famílias que condicionavam afeto a desempenho, e acompanha a pessoa desde os primeiros sucessos [3] [4]. Já a sensação de fraude pós-abuso tem linha do tempo diferente: existe um antes e um depois. A pessoa consegue lembrar de uma época em que confiava na própria competência, e percebe que a dúvida cresceu junto com o relacionamento abusivo. Essa diferença importa porque muda o foco do tratamento: no segundo caso, é preciso tratar também o trauma e o luto da relação, não apenas o padrão de pensamento.

Aspecto Síndrome do impostor clássica Sensação de fraude pós-abuso narcisista
Origem Infância e adolescência, dinâmica familiar de desempenho Qualquer idade, durante ou após relação abusiva
Linha do tempo Sempre esteve presente, sem marco claro Existe um “antes e depois” identificável
Voz interna da dúvida Difusa, sem rosto definido Ecoa frases específicas de uma pessoa real
Sintomas associados Ansiedade de desempenho, perfeccionismo Hipervigilância, gatilhos, sintomas de TEPT-C, autoconceito negativo
Resposta a evidências Desconta o mérito, mas aceita fatos objetivos Duvida da própria percepção dos fatos (efeito do gaslighting)
Foco do cuidado Reestruturar crenças sobre desempenho Tratar o trauma, reconstruir autoconceito e rede de apoio

Os dois caminhos podem se somar. Quem cresceu com um pai ou uma mãe narcisista e depois repetiu o padrão num parceiro costuma carregar as duas camadas: a base aprendida na infância e o reforço da vida adulta. Nesses casos, a mudança de personalidade percebida depois da relação pode ser dramática, e o trabalho de recuperação precisa visitar as duas histórias.

O ciclo do impostor no trabalho e nos relacionamentos

A sensação de fraude não fica parada: ela dirige comportamento. Clance descreveu o “ciclo do impostor”, que a pesquisa moderna confirmou em ambientes de trabalho [13]. Diante de uma tarefa importante, a pessoa sente ansiedade desproporcional. Para lidar com ela, reage de um de dois jeitos: ou trabalha em excesso, revisando dez vezes o que estava pronto na segunda, ou procrastina até o limite, porque começar dói. Quando o resultado sai bom, o alívio dura pouco: quem trabalhou demais pensa “só deu certo porque eu me matei de trabalhar”, e quem procrastinou pensa “foi sorte, na próxima vão me descobrir”. Em nenhum dos cenários o sucesso é registrado como evidência de competência. O ciclo então recomeça, mais forte.

Etapa do ciclo O que acontece O que a pessoa conclui
1. Tarefa ou desafio Surge uma entrega, prova ou responsabilidade “Agora vão descobrir que eu não sei nada.”
2. Ansiedade Medo de exposição dispara o alarme do corpo “Eu não deveria estar sentindo tanto medo.”
3. Reação extrema Excesso de preparação ou procrastinação “Preciso compensar minha incapacidade.”
4. Resultado positivo A entrega é bem avaliada “Foi sorte” ou “foi só esforço bruto”.
5. Desconto do mérito O sucesso não atualiza a autoimagem “Continuo sendo uma fraude, só que ainda não descoberta.”

No contexto pós-abuso, esse ciclo ganha um combustível extra: a voz do narcisista. A cada etapa, a pessoa não ouve apenas a própria dúvida; ouve a frase específica que o abusador repetia. A literatura mostra ainda que sentimentos de impostor amplificam o dano de outras experiências de desvalorização: em estudantes universitários de minorias étnicas, os sentimentos de impostor intensificaram o impacto da discriminação percebida sobre a ansiedade e a depressão [15]. O mesmo raciocínio se aplica à vítima de abuso: quanto mais forte a sensação de fraude, mais cada crítica externa, mesmo injusta, encontra eco dentro dela.

Há também um efeito silencioso sobre a carreira. Quem se sente impostor evita se candidatar a promoções, cobra menos pelo próprio trabalho, aceita cargas desproporcionais para “compensar” e não negocia. A revisão sistemática de Bravata e colegas associou a síndrome do impostor a burnout, pior desempenho percebido e sofrimento psíquico em profissionais [2]. Some isso ao desgaste de um relacionamento abusivo em casa e o resultado é uma pessoa exausta, produtiva além da conta e convencida de que não faz nada direito.

Sinais de que a sua sensação de fraude veio do abuso

Não existe um teste único, mas alguns marcadores sugerem fortemente que a sensação de impostor foi fabricada ou agravada por uma relação abusiva. Compare com a sua história:

  • Você lembra de uma época em que confiava na própria competência, e a dúvida cresceu durante o relacionamento.
  • A voz interna que desqualifica suas conquistas repete frases específicas que o narcisista dizia.
  • Você sente culpa ao ser elogiado, como se estivesse enganando quem elogia.
  • Antes de decidir qualquer coisa, você imagina o que “aquela pessoa” diria, mesmo sem contato.
  • Você pede desculpas de forma automática, inclusive por coisas que não fez.
  • Sucessos antigos, anteriores à relação, também começaram a parecer fraude retroativamente.
  • Você tem sintomas associados de trauma: hipervigilância, gatilhos, insônia, esgotamento.
  • A sensação piora perto de pessoas com o mesmo perfil dominador e melhora longe delas.

O último sinal é especialmente revelador. A síndrome do impostor clássica costuma ser razoavelmente estável entre ambientes. A versão pós-abuso oscila conforme a segurança do contexto: perto de gente que valida, a competência reaparece; perto de quem lembra o abusador, a fraude domina. Pesquisas sobre autoestima mostram exatamente isso: pessoas com sentimentos de impostor apresentam autoestima mais baixa e também mais instável, oscilando ao sabor do ambiente [14]. Essa instabilidade é a assinatura de uma autoestima que foi terceirizada à força.

Como devolver o mérito ao dono: caminhos de recuperação

A boa notícia: crença aprendida pode ser desaprendida. O caminho não é “pensar positivo”, e sim reconstruir, com método, o circuito de avaliação interna que o abuso desligou. O primeiro passo é interromper a fonte de desqualificação. Enquanto o narcisista tiver acesso diário à sua autoimagem, cada tijolo reconstruído amanhece quebrado. É para isso que servem o contato zero ou, quando ele não é possível (filhos em comum, trabalho, família), os limites firmes de baixa reatividade. O guia completo está no artigo sobre recuperação do abuso narcisista.

O segundo passo é o trabalho de reatribuição: devolver cada conquista ao verdadeiro autor. Uma técnica simples e poderosa é o registro de evidências: anotar, por escrito, cada resultado objetivo (projeto entregue, prova passada, problema resolvido, pessoa ajudada) e, ao lado, a explicação que sua mente dá (“sorte”, “ajuda”, “prova fácil”). Com o registro acumulado, os padrões ficam visíveis: cem sucessos seguidos não são sorte; são competência com um narrador desonesto. Esse tipo de reestruturação cognitiva é a base das abordagens que a literatura aponta como promissoras para o fenômeno do impostor [2] [3].

O terceiro passo é trocar o crítico interno de cargo. A pesquisa de Kristin Neff sobre autocompaixão mostra que tratar a si mesmo com a mesma gentileza que se ofereceria a um amigo, reconhecendo que errar é parte da experiência humana, se associa a menos ansiedade e depressão e a mais estabilidade emocional, sem cair na autoindulgência [16]. Para quem saiu de uma relação com um crítico externo implacável, a autocompaixão não é luxo: é a substituição do juiz. E o quarto passo, quando há sintomas de trauma, é tratar o trauma: o autoconceito negativo do TEPT-C responde a tratamento estruturado, e é comum a sensação de fraude diminuir junto com os demais sintomas [10].

Ajuda de verdade Parece ajudar, mas atrapalha
Contato zero ou limites firmes com quem desqualifica Buscar a aprovação do narcisista para “provar” o próprio valor
Registro escrito de evidências de competência Confiar na memória emocional, que o gaslighting distorceu
Aceitar elogios com um simples “obrigado”, sem rebater Responder elogios listando os próprios defeitos
Autocompaixão: falar consigo como falaria com um amigo Autocobrança extrema como “método de melhora”
Assumir desafios pequenos e colher o resultado Recusar oportunidades até “se sentir pronto” (o dia não chega)
Avaliação médica e psicológica quando há sofrimento Esperar a sensação sumir sozinha enquanto a vida encolhe

Um alerta importante nesse processo: cuidado para não substituir a busca da aprovação do narcisista pela busca de aprovação de todo mundo. É um desvio comum, explicado em detalhe no artigo sobre busca de aprovação depois do abuso narcisista. O objetivo final não é convencer os outros de que você é competente: é não precisar mais do veredito deles para saber disso.

Quando procurar avaliação médica

A sensação de impostor merece avaliação profissional quando deixa de ser um incômodo ocasional e passa a limitar a vida: recusar promoções ou oportunidades por medo de exposição, sofrimento intenso antes de qualquer entrega, exaustão por excesso de trabalho compensatório, ou quando ela vem acompanhada de sintomas como insônia persistente, crises de ansiedade, tristeza profunda, desesperança ou os sinais de TEPT-C descritos acima. Nesses casos, não se trata mais de “jeito de ser”: trata-se de um quadro de saúde que tem nome, avaliação e tratamento.

A avaliação médica também serve para descartar e tratar condições associadas. Depressão, transtornos de ansiedade e TEPT-C frequentemente caminham junto com a sensação de fraude, e tratar o quadro de base costuma mudar o cenário por completo. O Dr. Anderson Contaifer, médico especialista em Clínica Médica (CRM-SC 24.484, RQE 18.790), atende pessoas em recuperação de relacionamentos abusivos e pode avaliar seu caso de forma individualizada, presencialmente ou por telemedicina. Se você está em sofrimento emocional intenso ou com pensamentos de morte, procure ajuda agora: o CVV atende pelo 188, 24 horas por dia, de forma gratuita e sigilosa.

Este tema também está no Instagram do Dr. Anderson Contaifer, em formato visual:

Perguntas frequentes sobre síndrome do impostor e abuso narcisista

Síndrome do impostor é doença?

Não. A síndrome do impostor não é um diagnóstico formal da CID-11 nem dos manuais psiquiátricos: é um padrão de pensamento e emoção bem descrito na literatura científica desde 1978. Isso não significa que seja inofensiva. Ela se associa a ansiedade, depressão e burnout, e quando causa sofrimento ou limita a vida, merece avaliação profissional, inclusive para identificar quadros associados que têm tratamento específico.

O abuso narcisista pode causar síndrome do impostor em quem nunca teve?

Pode. A versão clássica costuma nascer na infância, mas a exposição prolongada a desqualificação, apropriação de mérito e gaslighting consegue instalar a sensação de fraude em qualquer idade. A marca característica é a linha do tempo: a pessoa lembra de uma época em que confiava na própria competência e percebe que a dúvida cresceu junto com a relação abusiva.

Por que eu duvido até das conquistas que tive antes do relacionamento?

Porque o gaslighting não ataca só o presente: ele reescreve o passado. Quando alguém repete por anos que você “sempre deu sorte” ou que “nunca fez nada sozinho”, a memória emocional das conquistas antigas vai sendo recontada com esse filtro. É um efeito documentado da manipulação: a pessoa perde a confiança na própria percepção, inclusive retroativamente. O registro escrito de evidências ajuda a reverter essa reescrita.

Qual a diferença entre humildade e síndrome do impostor?

A pessoa humilde reconhece o próprio mérito sem precisar anunciá-lo, aceita elogios e sabe o que faz bem. A pessoa com sensação de impostor não consegue registrar mérito nenhum: o elogio gera desconforto ou culpa, o sucesso é explicado por sorte e o erro é tomado como prova da incompetência “verdadeira”. Humildade é uma virtude escolhida; a sensação de fraude é uma distorção sofrida.

Sentir-se um impostor no trabalho tem a ver com o meu relacionamento em casa?

Frequentemente sim. A autoestima não vive em compartimentos: quem passa as noites sendo desqualificado em casa leva essa autoimagem para o expediente. Além disso, a sensação de fraude amplifica o efeito de críticas e injustiças no trabalho, que passam a “confirmar” a crença instalada. Muitas pessoas só percebem a origem do problema quando a sensação melhora depois do fim da relação abusiva.

A síndrome do impostor pós-abuso passa sozinha quando a relação acaba?

Sair da relação é condição necessária, mas raramente suficiente. A crença de fraude foi treinada por repetição e não se desliga no dia da separação: a voz do narcisista continua tocando de dentro. A melhora costuma vir com o conjunto: distância de quem desqualifica, reconstrução ativa das evidências de competência, autocompaixão e, quando há sintomas de trauma ou depressão, tratamento profissional.

Síndrome do impostor tem relação com TEPT-C?

Tem. Um dos três pilares do TEPT-C, reconhecido na CID-11, é o autoconceito negativo: a crença persistente de ser diminuído, derrotado e sem valor. Em quem desenvolveu TEPT-C após abuso prolongado, a sensação de fraude costuma ser uma das faces desse pilar. Nesses casos, tratar o quadro pós-traumático como um todo tende a reduzir também a sensação de impostor.

Por que a desaprovação dos outros me dói tanto fisicamente?

Porque o cérebro processa rejeição social em circuitos que se sobrepõem aos da dor física, como mostrou um estudo clássico de neuroimagem. Depois de uma relação em que a desaprovação vinha acompanhada de punição emocional real, esse alarme fica ainda mais sensível. Não é drama: é neurobiologia. Com segurança, tempo e tratamento adequado, a sensibilidade do alarme diminui.

Filhos de pais narcisistas têm mais síndrome do impostor?

A literatura sobre o fenômeno do impostor aponta dinâmicas familiares de risco que se sobrepõem ao estilo parental narcisista: afeto condicionado ao desempenho, comparações constantes entre irmãos, críticas frequentes e pouco cuidado emocional. Quem cresceu nesse ambiente e depois viveu um parceiro narcisista costuma carregar as duas camadas de aprendizado, e o trabalho de recuperação precisa considerar as duas histórias.

Preciso de remédio para tratar isso?

Depende do que existe junto. A sensação de impostor, isolada, se trabalha principalmente com psicoterapia e estratégias de reestruturação. Quando há depressão, transtorno de ansiedade, insônia persistente ou TEPT-C associados, o tratamento medicamentoso pode ser indicado pelo médico para tratar esses quadros, o que costuma facilitar todo o resto. A decisão é sempre individualizada, feita em consulta, considerando história, sintomas e preferências.

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Referências científicas

  1. [1] Clance PR, Imes SA. The imposter phenomenon in high achieving women: Dynamics and therapeutic intervention. Psychotherapy: Theory, Research and Practice. 1978. DOI: 10.1037/h0086006
  2. [2] Bravata DM, Watts SA, Keefer AL, et al. Prevalence, Predictors, and Treatment of Impostor Syndrome: a Systematic Review. Journal of General Internal Medicine. 2020. DOI: 10.1007/s11606-019-05364-1
  3. [3] Langford J, Clance PR. The imposter phenomenon: Recent research findings regarding dynamics, personality and family patterns and their implications for treatment. Psychotherapy: Theory, Research, Practice, Training. 1993. DOI: 10.1037/0033-3204.30.3.495
  4. [4] Want J, Kleitman S. Imposter phenomenon and self-handicapping: Links with parenting styles and self-confidence. Personality and Individual Differences. 2006. DOI: 10.1016/j.paid.2005.10.005
  5. [5] Sweet PL. The Sociology of Gaslighting. American Sociological Review. 2019. DOI: 10.1177/0003122419874843
  6. [6] Day NJS, Townsend ML, Grenyer BFS. Pathological narcissism: An analysis of interpersonal dysfunction within intimate relationships. Personality and Mental Health. 2022. DOI: 10.1002/pmh.1532
  7. [7] Crocker J, Wolfe CT. Contingencies of self-worth. Psychological Review. 2001. DOI: 10.1037/0033-295X.108.3.593
  8. [8] Kernis MH. Toward a conceptualization of optimal self-esteem. Psychological Inquiry. 2003. DOI: 10.1207/S15327965PLI1401_01
  9. [9] Eisenberger NI, Lieberman MD, Williams KD. Does rejection hurt? An fMRI study of social exclusion. Science. 2003. DOI: 10.1126/science.1089134
  10. [10] Cloitre M, Shevlin M, Brewin CR, et al. The International Trauma Questionnaire: development of a self-report measure of ICD-11 PTSD and complex PTSD. Acta Psychiatrica Scandinavica. 2018. DOI: 10.1111/acps.12956
  11. [11] Infurna MR, Reichl C, Parzer P, et al. Associations between depression and specific childhood experiences of abuse and neglect: A meta-analysis. Journal of Affective Disorders. 2016. DOI: 10.1016/j.jad.2015.09.006
  12. [12] Karakurt G, Silver KE. Emotional abuse in intimate relationships: The role of gender and age. Violence and Victims. 2013. DOI: 10.1891/0886-6708.VV-D-12-00041
  13. [13] Vergauwe J, Wille B, Feys M, et al. Fear of Being Exposed: The Trait-Relatedness of the Impostor Phenomenon and its Relevance in the Work Context. Journal of Business and Psychology. 2015. DOI: 10.1007/s10869-014-9382-5
  14. [14] Schubert N, Bowker A. Examining the Impostor Phenomenon in Relation to Self-Esteem Level and Self-Esteem Instability. Current Psychology. 2019. DOI: 10.1007/s12144-017-9650-4
  15. [15] Cokley K, Smith L, Bernard D, et al. Impostor feelings as a moderator and mediator of the relationship between perceived discrimination and mental health among racial/ethnic minority college students. Journal of Counseling Psychology. 2017. DOI: 10.1037/cou0000198
  16. [16] Neff KD. Self-Compassion: An Alternative Conceptualization of a Healthy Attitude Toward Oneself. Self and Identity. 2003. DOI: 10.1080/15298860309032

Conteúdo educativo produzido com apoio de tecnologia e revisado pelo Dr. Anderson Contaifer, Médico especialista em Clínica Médica (CRM-SC 24.484 | RQE 18.790). Este artigo tem finalidade exclusivamente informativa e não substitui consulta, diagnóstico ou tratamento com profissional de saúde qualificado. Se você está em sofrimento emocional intenso, procure ajuda: CVV 188 (24 horas, gratuito).

Sobre o autor

Dr. Anderson Contaifer de Carvalho é médico especialista em Clínica Médica (CRM-SC 24.484 | RQE 18.790), formado pela EMESCAM em 2012, com título de especialista em clínica médica pela SBCM em 2019. Possui pós-graduação em Saúde da Família, Nutrologia e Medicina Intensiva, além de certificações ACLS e ATLS. É o criador do Quebrando as Algemas, programa dedicado à recuperação de vítimas de abuso narcisista, médico com atuação nas repercussões clínicas e emocionais de relacionamentos abusivos. Certificado Excelência Doctoralia 2025.

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