Percepção de tempo no TDAH: por que existem só dois tempos, agora e não agora

Mulher sentada à mesa diante do notebook, apoiando a cabeça na mão e olhando para o relógio de parede
Foto de Dr. Anderson Contaifer

Dr. Anderson Contaifer

Médico especialista em Clínica Médica (CRM-SC 24.484, RQE 18.790), graduado pela EMESCAM (Escola Superior de Ciências da Santa Casa de Misericórdia de Vitória, ES), com título de especialista pela SBCM (Sociedade Brasileira de Clínica Médica). Pós-graduando em Psiquiatria Adulto pelo Ensino Einstein. Atua na recuperação médica e emocional de vítimas de abuso narcisista, em teleconsulta para todo o Brasil, e produz conteúdo educativo baseado em evidências científicas sobre narcisismo patológico, gaslighting, trauma bonding e TEPT-C. Criador do Programa Quebrando as Algemas, curso voltado à recuperação do abuso narcisista, e do blog de mesmo nome, com mais de 200 mil seguidores nas redes sociais. Possui Certificado de Excelência Doctoralia 2025.

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Definição rápida: percepção de tempo é o conjunto de processos que permite estimar quanto durou alguma coisa, sentir a distância até um prazo e sustentar a ação no intervalo entre agora e depois. No TDAH essas medidas são estudadas há mais de trinta anos, e a meta-análise mais recente sobre o tema encontrou déficit consistente de percepção temporal, presente em diferentes faixas etárias e em diferentes tipos de tarefa [1]. É importante dizer de saída o que isso não é: “cegueira temporal” não é diagnóstico, não consta no DSM-5-TR nem na CID-11, não é critério de TDAH, e não existe teste de percepção de tempo que diagnostique alguém. O que existe é uma diferença estatística entre grupos em tarefas de laboratório [1][2] e uma queixa clínica que quem convive com o quadro descreve sempre do mesmo jeito: existem dois tempos, agora e não agora. Quem responde se isso é TDAH é a avaliação clínica com profissional habilitado, não um texto e não um teste isolado.

As repercussões do abuso narcisista no corpo (insônia, taquicardia, fadiga, alterações de sono e peso) têm avaliação e acompanhamento médico.

Dr. Anderson Contaifer · Médico Especialista em Clínica Médica · CRM-SC 24.484 · RQE 18.790 · Teleconsulta (qualquer lugar do Brasil e do mundo)

Uma observação necessária sobre o vídeo acima. O canal ainda não tem material dedicado ao TDAH, e o que está ali trata de outra coisa, do tempo cronológico que passa depois de uma relação abusiva sem que o dano se resolva sozinho. Deixei de propósito, e por contraste. Lá o problema é o tempo que passa e não basta. Aqui o problema é o oposto, o tempo que passa e não é sentido passar. A palavra é a mesma e os mecanismos são diferentes, o que já diz bastante sobre por que este assunto merecia texto próprio.

A cena chega em consulta quase sempre com as mesmas palavras. A pessoa diz que ia sair às sete, que sentou um minuto para responder uma mensagem, e que quando olhou eram oito e vinte. Diz que a prova é sexta e que sexta não existe, que sexta vai começar a existir na quinta à noite, de preferência depois das onze. Diz que atrasa para tudo, que odeia atrasar, que sai de casa com raiva de si mesma, e que ninguém acredita quando ela jura que não é falta de consideração. Ela não está descrevendo desorganização, nem má vontade. Está descrevendo um instrumento de medida que informa errado.

Existem dois tempos, agora e não agora

Atendimento médico

As repercussões do abuso narcisista no corpo (insônia, taquicardia, fadiga, alterações de peso e sono) têm avaliação e acompanhamento médico. O Dr. Anderson Contaifer, médico, especialista em Clínica Médica (CRM-SC 24.484, RQE 18.790), atende por teleconsulta para todo o Brasil. Cada consulta é uma avaliação clínica individual.

Ainda não quer marcar consulta? Você também pode conhecer o curso Quebrando as Algemas, material educativo para quem está se recuperando de um relacionamento abusivo.

A frase não é minha, é de pacientes, e ela aparece com uma constância que impressiona. O calendário mostra que faltam nove dias. O corpo não sente nove dias. Sente uma névoa indistinta chamada depois, que não produz urgência nenhuma, até que em algum momento essa névoa vira agora e produz urgência demais, toda de uma vez, geralmente tarde.

A explicação teórica mais influente para isso está no modelo que organizou a compreensão do TDAH a partir dos anos noventa. Ele não descreve o transtorno como falta de atenção, e sim como uma falha de inibição comportamental que compromete as funções executivas dependentes dela, com prejuízo específico do senso de tempo e do comportamento dirigido ao futuro [5]. O mesmo autor desenvolveu depois um argumento mais amplo e, na minha leitura, mais útil clinicamente: as funções executivas existem justamente para atravessar o tempo, para permitir que uma decisão tomada agora governe um comportamento que só acontece daqui a três semanas [6]. Se é isso que elas fazem, então uma falha nelas aparece primeiro como miopia para o futuro, não como preguiça.

Vale registrar o que esse modelo é e o que ele não é. É um modelo teórico, poderoso e amplamente citado, não um exame e não uma prova de mecanismo. Ele explica bem por que a pessoa consegue descrever o plano inteiro com perfeição e mesmo assim não começa, o que nenhuma explicação por falta de esforço consegue explicar sem culpar quem está sofrendo.

O que a literatura mediu de fato

Percepção de tempo parece um conceito único e não é. No laboratório ela se divide em tarefas bem diferentes entre si, que exigem coisas diferentes do cérebro, e boa parte da confusão pública sobre o assunto vem de tratar todas como se fossem a mesma coisa. Uma revisão metodológica clássica da área organizou justamente isso, catalogando o que já tinha sido medido no TDAH e propondo métodos mais padronizados, porque os estudos vinham usando paradigmas pouco comparáveis entre si [3].

As quatro perguntas que o laboratório faz sobre tempo
Tipo de tarefa O que se pede O que ela exige além do relógio interno
Discriminação Dizer qual de dois intervalos durou mais Atenção sustentada e comparação na memória de curto prazo
Estimativa verbal Dizer em segundos quanto durou o que acabou de passar Converter uma sensação em número, o que agrega ruído de linguagem
Produção Apertar um botão quando achar que passaram trinta segundos Inibir a resposta antecipada e monitorar a própria contagem
Reprodução Reproduzir a duração de um intervalo que acabou de ser apresentado Guardar a duração na memória de trabalho enquanto a nova contagem corre

Essa separação importa porque muda a interpretação. Um resultado ruim em reprodução pode significar relógio interno impreciso, mas também pode significar memória de trabalho sobrecarregada, e as duas coisas produzem o mesmo número na planilha. Voltarei a esse ponto adiante, porque ele é a maior armadilha do tema.

O tamanho do efeito, e a parte que a divulgação corta

A evidência agregada é favorável à existência do fenômeno. A meta-análise mais recente encontrou déficit significativo de percepção de tempo no TDAH, com robustez entre diferentes idades e diferentes formatos de tarefa [1]. Em crianças e adolescentes, uma meta-análise anterior chegou a resultado convergente, com prejuízo em discriminação, estimativa e reprodução, e um detalhe importante para a vida real: os efeitos tendem a ser maiores nos intervalos longos [2].

Esse detalhe merece parágrafo próprio, porque é o que conecta o laboratório à cena de sexta-feira. Se o desempenho piora conforme o intervalo cresce, então o problema não é medir dois segundos, é medir duas semanas. Um estudo clássico já tinha mostrado esse padrão em crianças, que erravam mais na reprodução de intervalos sobretudo em durações mais longas e sob distração, e que melhoravam com estimulante [7]. Distração piorando o desempenho não é acaso, é pista de mecanismo.

Agora a parte que a divulgação costuma cortar. Diferença de grupo não classifica indivíduo. Uma meta-análise dizer que o grupo com TDAH difere do grupo controle não autoriza ninguém a olhar o próprio desempenho numa tarefa de celular e concluir qualquer coisa sobre si. As distribuições se sobrepõem, há gente com TDAH com desempenho excelente e gente sem TDAH com desempenho ruim, e nenhuma dessas tarefas foi validada como instrumento diagnóstico. Elas foram feitas para estudar mecanismo, não para dar veredito.

Como o cérebro conta o tempo

Não existe um órgão do tempo. O modelo teórico que dominou a área propõe um arranjo de três componentes, um marca-passo que emite pulsos, um acumulador que os soma e uma memória de referência que guarda como foi da última vez, o que ficou conhecido como teoria da expectativa escalar [8]. É um modelo, e ele é útil porque faz previsões testáveis: se o marca-passo acelera, o tempo parece passar mais devagar, e se a memória de referência está instável, a comparação com o padrão anterior sai errada.

Do lado neural, a revisão de referência sobre timing de segundos a minutos aponta circuitos córtico-estriatais como centrais, com participação importante da dopamina [9]. Um mapeamento posterior detalhou os substratos envolvidos, incluindo gânglios da base, cerebelo, área motora suplementar e córtex pré-frontal, e o papel modulador dos sistemas dopaminérgicos [10]. No TDAH especificamente, a revisão que integrou dados comportamentais e de neuroimagem mostrou que os déficits de timing envolvem redes fronto-estriatais, fronto-cerebelares e fronto-parietais [4].

Vale um aviso que faço em todo texto deste cluster. Nada disso autoriza a frase pronta de que TDAH é falta de dopamina. O sistema é bem mais complicado do que essa simplificação, as alterações descritas são de grupo e por imagem de pesquisa, e não existe exame de dopamina que se peça no laboratório da esquina para investigar atraso crônico.

Nem tudo é relógio: atenção e memória contaminam a medida

Esta é a parte mais interessante do assunto e a menos contada. Estimar tempo não é uma função isolada que roda no fundo, ela consome os mesmos recursos que a pessoa está usando para tudo o mais. Um experimento clássico mostrou que tarefas concorrentes de memória de trabalho degradam a estimativa temporal, evidenciando recursos atencionais compartilhados [11]. Um estudo posterior do mesmo autor foi além e demonstrou interferência bidirecional entre produção temporal e tarefas executivas, ou seja, contar o tempo atrapalha a execução e executar atrapalha a contagem [12].

A consequência clínica disso é grande. Se o julgamento temporal depende de controle executivo e de memória de trabalho, então uma pessoa cujo funcionamento executivo já opera no limite vai errar mais o tempo justamente quando está mais ocupada, mais cansada ou mais estimulada. Não é que o relógio interno esteja quebrado o tempo todo. É que ele perde precisão exatamente nas condições em que a vida adulta acontece, e é por isso que a queixa piora em semanas cheias e melhora em férias.

“Cegueira temporal”: o que o termo ajuda e o que ele atrapalha

O termo circula muito e tem serventia. Ele nomeia uma experiência real, dá alívio a quem passou a vida ouvindo que era relaxada, e ajuda a família a entender que o atraso não é um recado. Uso a expressão em consulta quando ela ajuda a pessoa a se enxergar sem culpa.

O que ele atrapalha é quando vira carteirinha. Cegueira temporal não é uma entidade clínica, não tem critério, não tem ponto de corte e não aparece em nenhuma classificação diagnóstica. Ninguém tem “diagnóstico de cegueira temporal”, e usar o termo como se fosse diagnóstico produz dois danos opostos: faz quem não tem TDAH se autodiagnosticar por reconhecer a cena, e faz quem tem TDAH achar que já sabe o suficiente e não precisa de avaliação. As duas coisas atrasam cuidado.

O que isso cobra na vida real

A conta não é abstrata. Em amostra nacional de trabalhadores, o TDAH adulto associou-se a perda substancial de dias produtivos e a queda de desempenho no trabalho [17]. E há um achado que considero dos mais úteis de toda a literatura de TDAH adulto: escalas que medem o funcionamento executivo no dia a dia, incluindo gestão do tempo, predizem prejuízo ocupacional muito melhor do que os testes neuropsicológicos aplicados em consultório [18]. Traduzindo, o que a pessoa relata sobre a própria semana vale mais, para prever prejuízo, do que o desempenho dela numa tarefa cronometrada em sala silenciosa.

Da queixa ao mecanismo, e o que costuma ajudar
Queixa como ela chega Mecanismo mais provável O que muda o resultado
“Sentei um minuto e passaram duas horas” Estimativa que piora em intervalos longos e sob absorção [2][7] Tempo externalizado, alarme intermediário, não confiar na sensação
“Só começo na véspera” Recompensa distante perde valor rápido demais [14] e a espera é aversiva [13] Encurtar a distância, dividir em entregas curtas com prazo real
“Atraso para tudo e não é falta de respeito” Erro sistemático ao dimensionar quanto uma tarefa leva [3][5] Medir o tempo real das rotinas por uma semana e usar o número medido
“Adio o que mais me interessa e depois me odeio” Adiamento como regulação do humor imediato, com custo para o eu futuro [16] Reduzir o custo emocional de iniciar, não aumentar a cobrança
“À noite eu finalmente rendo” Cronotipo vespertino e atraso de fase são frequentes no quadro [24] Tratar sono e horário de luz antes de concluir que é só desorganização

Onde termina a percepção de tempo e começa a aversão ao adiamento

Aqui é preciso separar duas coisas que se confundem, porque produzem a mesma cena por motivos diferentes. Uma é perceptual, a pessoa não sente quanto tempo passou ou quanto falta. A outra é motivacional, a pessoa sente perfeitamente a espera e a espera é intolerável.

O estudo fundador dessa segunda linha mostrou algo elegante: crianças hiperativas escolhiam a recompensa imediata mesmo quando esperar renderia mais, e a escolha mudava conforme o arranjo alterava o tempo total de espera, o que indicava aversão ao adiamento e não simples impulsividade [13]. Do lado da medida econômica desse fenômeno, uma meta-análise de estudos caso-controle confirmou desconto por atraso mais íngreme no TDAH, com efeito pequeno a moderado [14].

Essa dimensão motivacional já foi tratada em detalhe no texto sobre disfunção executiva no TDAH, que é o lugar certo para quem quer entender a distância entre saber e começar. Aqui ela entra só pelo contraste, porque distinguir as duas muda o que ajuda: se o problema é perceptual, externalizar o tempo resolve boa parte; se é motivacional, encurtar a distância até a recompensa importa mais do que qualquer relógio na parede.

A procrastinação merece um parágrafo à parte, porque quase todo mundo se reconhece nela e isso confunde. A meta-análise de referência sobre o assunto a define como falha de autorregulação e identifica aversão à tarefa, impulsividade e distância temporal da recompensa entre os preditores mais fortes [15]. Ou seja, procrastinar é um fenômeno humano geral, com mecanismos que apenas se sobrepõem aos do TDAH. Procrastinar não prova nada sozinho.

Por que isto não é névoa mental depois de um abuso

Faço essa comparação em todos os textos deste cluster por um motivo prático: boa parte de quem lê este blog chegou por causa de uma relação abusiva, e a queixa de perder a noção do tempo aparece nos dois cenários com palavras parecidas.

A mesma frase, três origens diferentes
Critério Percepção de tempo no TDAH Névoa mental depois do abuso Sono insuficiente ou desalinhado
Linha do tempo Presente desde cedo, sem marco de início Tem um antes e um depois identificável Acompanha as noites ruins e melhora quando elas melhoram
Onde aparece Em vários contextos, inclusive nos agradáveis Mais intensa perto do contexto da relação e dos gatilhos Pior nos dias seguintes às noites curtas
O que costuma vir junto Dificuldade de iniciar, de estimar e de sustentar o plano [5][6] Hipervigilância, memória fragmentada do período, sobressalto Sonolência diurna e queda de desempenho proporcional à privação
O que costuma ajudar Externalização do tempo e apoios estruturados [20] Tratar o trauma e reconstruir segurança Corrigir o sono e o horário de luz antes de qualquer conclusão [24]

As três podem coexistir, e coexistem com frequência. A diferença não é acadêmica: ela decide por onde começar. Quem quiser aprofundar a distinção encontra o texto completo em TDAH ou trauma, e o recorte do sono em TDAH e sono.

Onde este texto se encaixa entre os outros sobre TDAH

Este é o sétimo texto do cluster e fecha uma promessa feita em dois outros. O texto sobre disfunção executiva tratou da distância entre saber e começar, e disse expressamente que percepção de tempo teria texto próprio. O texto sobre hiperfoco tratou da atenção que não sai, e tocou a percepção de tempo apenas como consequência do estado de absorção, repetindo a mesma promessa. Este é o texto prometido.

Os demais completam o quadro por outros ângulos: TDAH em mulheres trata do diagnóstico que chega tarde, sensibilidade à rejeição trata da resposta emocional desproporcional à recusa, e quanto tempo leva para se recuperar trata de outro tempo, o da recuperação, que não é este.

O que não se sustenta

Reuni aqui as afirmações que mais circulam sobre o assunto, ao lado do que a evidência de fato permite dizer.

Afirmação corrente e o que a evidência sustenta
Afirmação O que a evidência permite dizer
“Cegueira temporal é um sintoma diagnóstico do TDAH” Não é. O termo não consta em classificação diagnóstica alguma. O que existe é diferença de grupo em tarefas de timing [1][2] e um modelo teórico que a deriva da falha de inibição [5]
“Existe teste de percepção de tempo que fecha o diagnóstico” Não existe. As tarefas foram feitas para estudar mecanismo, com distribuições que se sobrepõem entre grupos [3]
“Quem procrastina tem TDAH” Procrastinação é fenômeno geral de autorregulação, com preditores próprios em população ampla [15][16]
“É só falta de dopamina” A dopamina modula os circuitos de timing [9][10], o que está longe de autorizar uma explicação de causa única
“Basta se esforçar mais para sentir o prazo” O julgamento temporal compete por recursos executivos e piora quando eles estão ocupados [11][12], então esforço concentrado em outra coisa tende a piorar a estimativa, não a melhorar
“Teste normal no consultório afasta o problema” Escalas do dia a dia predizem prejuízo ocupacional melhor do que testes de consultório [18]

Este tema também está no Instagram do Dr. Anderson Contaifer, em formato visual:

O que ajuda, e o quanto ajuda

A intervenção mais coerente com tudo o que foi descrito acima é também a mais simples de enunciar: se o instrumento interno informa errado, use um instrumento externo. Isso tem nome na literatura e tem teste. Um ensaio randomizado com crianças e adolescentes mostrou que auxílios externos de tempo, relógios, agendas e apoios visuais estruturados, melhoraram a habilidade de processamento temporal e a gestão diária do tempo [20]. Não é conselho de bom senso, é intervenção estudada.

Na prática clínica isso significa relógio analógico à vista em vez de digital no bolso, porque a passagem fica visível em vez de exigir cálculo, alarmes intermediários e não apenas o do horário final, e a substituição da estimativa pela medição: cronometrar por uma semana quanto de fato levam as rotinas que a pessoa jura que levam dez minutos, e passar a usar o número medido.

Para adultos, a evidência mais forte está na psicoterapia estruturada. Um ensaio inicial mostrou que TCC com módulos de organização e manejo do tempo reduziu sintomas residuais em adultos já medicados [22], e um ensaio randomizado maior confirmou superioridade da TCC estruturada sobre um controle ativo nessa mesma população [21]. Em paralelo, um ensaio de terapia metacognitiva em grupo, centrada exatamente em manejo do tempo, planejamento e organização, mostrou superioridade sobre terapia de apoio na redução de sintomas de desatenção [23].

Sobre medicação, a informação honesta é que ela atua sobre os circuitos envolvidos e não sobre a agenda. O estudo clássico já mostrava melhora do desempenho temporal em crianças sob estimulante [7], e um estudo de neuroimagem mostrou que o metilfenidato normaliza a hipoativação e a conectividade de redes fronto-estriatais atencionais e motivacionais em crianças virgens de tratamento [19]. Isso apoia a plausibilidade do mecanismo, mas indicação, dose e adequação são decisão clínica individual, que não se toma por texto. E como o horário do sono aparece com frequência nesse quadro, com cronotipo vespertino e atraso de fase descritos em revisão sistemática [24], corrigir sono e exposição à luz costuma ser parte do plano, não um detalhe.

Quando procurar avaliação

Perder a noção do tempo de vez em quando é experiência humana comum, e a maior parte de quem se reconhece nesta leitura não tem transtorno nenhum. O que muda a conversa é prejuízo consistente.

Vale procurar avaliação quando o padrão atravessa contextos diferentes e não é episódio isolado, quando aparece desde cedo na história de vida e não começou há alguns meses, quando produz consequências reais e repetidas em trabalho, estudo, saúde ou relações, e quando vem acompanhado de outras dificuldades de regulação da atenção e do impulso. A avaliação existe justamente para separar TDAH de quadros de humor, de ansiedade, de sono, de uso de substâncias e de resposta a eventos de vida, que produzem cenas parecidas por razões diferentes.

Se o que trouxe você até aqui foi uma relação que consumiu sua atenção e seus anos, o caminho de avaliação também existe e começa por outro lugar. Nos dois casos quem responde é a consulta com profissional habilitado, não um texto e não um questionário de internet. Este conteúdo é educativo e não substitui avaliação individual.

Perguntas frequentes

Cegueira temporal é um diagnóstico?

Não. O termo descreve bem uma experiência e ajuda muita gente a se entender sem culpa, mas não consta no DSM-5-TR nem na CID-11, não tem critério nem ponto de corte, e ninguém recebe alta com esse diagnóstico. O que a literatura sustenta é diferença de grupo em tarefas de percepção temporal [1][2].

Existe algum teste que meça minha percepção de tempo e diga se tenho TDAH?

Não. As tarefas usadas em pesquisa foram desenhadas para estudar mecanismo, os grupos se sobrepõem bastante e nenhuma delas foi validada como instrumento diagnóstico [3]. Diagnóstico se faz com avaliação clínica, história de vida e informação de mais de uma fonte.

Por que eu só consigo começar na véspera?

Porque na véspera a recompensa deixou de ser distante. A literatura mostra que no TDAH o valor de uma recompensa cai mais rápido conforme ela se afasta no tempo [14], e que a espera em si é aversiva [13]. Mudou a distância, não a sua disciplina.

Perco a noção do tempo o dia inteiro. Isso é hiperfoco?

São coisas relacionadas e não idênticas. No hiperfoco a distorção do tempo é consequência de um estado de absorção intensa numa atividade específica. A dificuldade descrita aqui aparece também fora desse estado, inclusive em tarefas chatas. O tema está detalhado em hiperfoco no TDAH.

Procrastinar muito significa que tenho TDAH?

Não sozinho. Procrastinação é uma falha de autorregulação estudada em população geral, com preditores próprios como aversão à tarefa e impulsividade [15], e frequentemente funciona como alívio do humor imediato às custas do eu futuro [16]. É um sinal a considerar no conjunto, nunca uma prova.

Por que meu desempenho é pior justamente nas semanas mais cheias?

Porque estimar tempo não é uma função independente. Ela compete pelos mesmos recursos de atenção e memória de trabalho que a semana cheia está consumindo, e experimentos mostram interferência nos dois sentidos [11][12]. Quanto mais carregado o sistema, pior a medida.

Relógio e alarme resolvem?

Ajudam mais do que a maioria das pessoas espera, e isso foi testado. Um ensaio randomizado mostrou que auxílios externos de tempo melhoraram tanto o processamento temporal quanto a gestão diária do tempo [20]. A lógica é substituir um instrumento impreciso por um preciso, em vez de exigir precisão de quem não a tem.

A medicação conserta minha noção de tempo?

Ela atua sobre os circuitos envolvidos, o que é diferente de organizar a agenda. Há melhora de desempenho temporal descrita com estimulante [7] e normalização de ativação e conectividade em redes fronto-estriatais [19], mas indicação e dose são decisão clínica individual, e o manejo do tempo continua exigindo estrutura externa.

Isso pode ser consequência de uma relação abusiva em vez de TDAH?

Pode, e a distinção mais útil é a linha do tempo. O padrão do TDAH é de neurodesenvolvimento e atravessa contextos desde cedo, enquanto a dificuldade que se instala depois de uma relação costuma ter um antes e um depois identificáveis. A comparação completa está em TDAH ou trauma.

Se eu rendo à noite, sou só uma pessoa noturna?

Pode ser, e também pode ser parte do quadro. Uma revisão sistemática associa o TDAH a cronotipo vespertino e a atraso de fase circadiana [24]. Vale investigar sono e horário de luz antes de concluir que se trata apenas de preferência ou de desorganização.

Referências científicas

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  3. Toplak ME, Dockstader C, Tannock R. Temporal information processing in ADHD: findings to date and new methods. Journal of Neuroscience Methods. 2006. DOI: 10.1016/j.jneumeth.2005.09.018
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  9. Buhusi CV, Meck WH. What makes us tick? Functional and neural mechanisms of interval timing. Nature Reviews Neuroscience. 2005. DOI: 10.1038/nrn1764
  10. Coull JT, Cheng RK, Meck WH. Neuroanatomical and neurochemical substrates of timing. Neuropsychopharmacology. 2011. DOI: 10.1038/npp.2010.113
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  12. Brown SW, Bennett ED. Timing and executive function: bidirectional interference between concurrent temporal production and randomization tasks. Memory & Cognition. 2006. DOI: 10.3758/bf03195911
  13. Sonuga-Barke EJS, Taylor E, Sembi S, Smith J. Hyperactivity and delay aversion I: the effect of delay on choice. Journal of Child Psychology and Psychiatry. 1992. DOI: 10.1111/j.1469-7610.1992.tb00874.x
  14. Jackson JNS, MacKillop J. Attention-deficit/hyperactivity disorder and monetary delay discounting: a meta-analysis of case-control studies. Biological Psychiatry: Cognitive Neuroscience and Neuroimaging. 2016. DOI: 10.1016/j.bpsc.2016.01.007
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  16. Sirois F, Pychyl T. Procrastination and the priority of short-term mood regulation: consequences for future self. Social and Personality Psychology Compass. 2013. DOI: 10.1111/spc3.12011
  17. Kessler RC, Adler L, Ames M, et al. The prevalence and effects of adult attention deficit/hyperactivity disorder on work performance in a nationally representative sample of workers. Journal of Occupational and Environmental Medicine. 2005. DOI: 10.1097/01.jom.0000166863.33541.39
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  19. Rubia K, Halari R, Cubillo A, Mohammad AM, Brammer M, Taylor E. Methylphenidate normalises activation and functional connectivity deficits in attention and motivation networks in medication-naive children with ADHD during a rewarded continuous performance task. Neuropharmacology. 2009. DOI: 10.1016/j.neuropharm.2009.08.013
  20. Wennberg B, Janeslätt G, Kjellberg A, Gustafsson PA. Effectiveness of time-related interventions in children with ADHD aged 9-15 years: a randomized controlled study. European Child & Adolescent Psychiatry. 2017. DOI: 10.1007/s00787-017-1052-5
  21. Safren SA, Sprich S, Mimiaga MJ, et al. Cognitive behavioral therapy vs relaxation with educational support for medication-treated adults with ADHD and persistent symptoms: a randomized controlled trial. JAMA. 2010. DOI: 10.1001/jama.2010.1192
  22. Safren SA, Otto MW, Sprich S, Winett CL, Wilens TE, Biederman J. Cognitive-behavioral therapy for ADHD in medication-treated adults with continued symptoms. Behaviour Research and Therapy. 2005. DOI: 10.1016/j.brat.2004.07.001
  23. Solanto MV, Marks DJ, Wasserstein J, et al. Efficacy of meta-cognitive therapy for adult ADHD. American Journal of Psychiatry. 2010. DOI: 10.1176/appi.ajp.2009.09081123
  24. Coogan AN, McGowan NM. A systematic review of circadian function, chronotype and chronotherapy in attention deficit hyperactivity disorder. ADHD Attention Deficit and Hyperactivity Disorders. 2017. DOI: 10.1007/s12402-016-0214-5

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Dr. Anderson Contaifer de Carvalho é médico especialista em Clínica Médica (CRM-SC 24.484 | RQE 18.790), formado pela EMESCAM em 2012, com título de especialista em clínica médica pela SBCM em 2019. Pós-graduando em Psiquiatria Adulto pelo Ensino Einstein. Possui pós-graduação em Saúde da Família, Nutrologia e Medicina Intensiva, além de certificações ACLS e ATLS. É o criador do Quebrando as Algemas, programa dedicado à recuperação de vítimas de abuso narcisista, com atuação dedicada às repercussões clínicas e emocionais de relacionamentos abusivos, em teleconsulta para todo o Brasil. Certificado Excelência Doctoralia 2025.

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