Definição rápida: percepção de tempo é o conjunto de processos que permite estimar quanto durou alguma coisa, sentir a distância até um prazo e sustentar a ação no intervalo entre agora e depois. No TDAH essas medidas são estudadas há mais de trinta anos, e a meta-análise mais recente sobre o tema encontrou déficit consistente de percepção temporal, presente em diferentes faixas etárias e em diferentes tipos de tarefa [1]. É importante dizer de saída o que isso não é: “cegueira temporal” não é diagnóstico, não consta no DSM-5-TR nem na CID-11, não é critério de TDAH, e não existe teste de percepção de tempo que diagnostique alguém. O que existe é uma diferença estatística entre grupos em tarefas de laboratório [1][2] e uma queixa clínica que quem convive com o quadro descreve sempre do mesmo jeito: existem dois tempos, agora e não agora. Quem responde se isso é TDAH é a avaliação clínica com profissional habilitado, não um texto e não um teste isolado.
As repercussões do abuso narcisista no corpo (insônia, taquicardia, fadiga, alterações de sono e peso) têm avaliação e acompanhamento médico.
Dr. Anderson Contaifer · Médico Especialista em Clínica Médica · CRM-SC 24.484 · RQE 18.790 · Teleconsulta (qualquer lugar do Brasil e do mundo)
Uma observação necessária sobre o vídeo acima. O canal ainda não tem material dedicado ao TDAH, e o que está ali trata de outra coisa, do tempo cronológico que passa depois de uma relação abusiva sem que o dano se resolva sozinho. Deixei de propósito, e por contraste. Lá o problema é o tempo que passa e não basta. Aqui o problema é o oposto, o tempo que passa e não é sentido passar. A palavra é a mesma e os mecanismos são diferentes, o que já diz bastante sobre por que este assunto merecia texto próprio.
A cena chega em consulta quase sempre com as mesmas palavras. A pessoa diz que ia sair às sete, que sentou um minuto para responder uma mensagem, e que quando olhou eram oito e vinte. Diz que a prova é sexta e que sexta não existe, que sexta vai começar a existir na quinta à noite, de preferência depois das onze. Diz que atrasa para tudo, que odeia atrasar, que sai de casa com raiva de si mesma, e que ninguém acredita quando ela jura que não é falta de consideração. Ela não está descrevendo desorganização, nem má vontade. Está descrevendo um instrumento de medida que informa errado.
Existem dois tempos, agora e não agora
Atendimento médico
As repercussões do abuso narcisista no corpo (insônia, taquicardia, fadiga, alterações de peso e sono) têm avaliação e acompanhamento médico. O Dr. Anderson Contaifer, médico, especialista em Clínica Médica (CRM-SC 24.484, RQE 18.790), atende por teleconsulta para todo o Brasil. Cada consulta é uma avaliação clínica individual.
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A frase não é minha, é de pacientes, e ela aparece com uma constância que impressiona. O calendário mostra que faltam nove dias. O corpo não sente nove dias. Sente uma névoa indistinta chamada depois, que não produz urgência nenhuma, até que em algum momento essa névoa vira agora e produz urgência demais, toda de uma vez, geralmente tarde.
A explicação teórica mais influente para isso está no modelo que organizou a compreensão do TDAH a partir dos anos noventa. Ele não descreve o transtorno como falta de atenção, e sim como uma falha de inibição comportamental que compromete as funções executivas dependentes dela, com prejuízo específico do senso de tempo e do comportamento dirigido ao futuro [5]. O mesmo autor desenvolveu depois um argumento mais amplo e, na minha leitura, mais útil clinicamente: as funções executivas existem justamente para atravessar o tempo, para permitir que uma decisão tomada agora governe um comportamento que só acontece daqui a três semanas [6]. Se é isso que elas fazem, então uma falha nelas aparece primeiro como miopia para o futuro, não como preguiça.
Vale registrar o que esse modelo é e o que ele não é. É um modelo teórico, poderoso e amplamente citado, não um exame e não uma prova de mecanismo. Ele explica bem por que a pessoa consegue descrever o plano inteiro com perfeição e mesmo assim não começa, o que nenhuma explicação por falta de esforço consegue explicar sem culpar quem está sofrendo.
O que a literatura mediu de fato
Percepção de tempo parece um conceito único e não é. No laboratório ela se divide em tarefas bem diferentes entre si, que exigem coisas diferentes do cérebro, e boa parte da confusão pública sobre o assunto vem de tratar todas como se fossem a mesma coisa. Uma revisão metodológica clássica da área organizou justamente isso, catalogando o que já tinha sido medido no TDAH e propondo métodos mais padronizados, porque os estudos vinham usando paradigmas pouco comparáveis entre si [3].
| Tipo de tarefa | O que se pede | O que ela exige além do relógio interno |
|---|---|---|
| Discriminação | Dizer qual de dois intervalos durou mais | Atenção sustentada e comparação na memória de curto prazo |
| Estimativa verbal | Dizer em segundos quanto durou o que acabou de passar | Converter uma sensação em número, o que agrega ruído de linguagem |
| Produção | Apertar um botão quando achar que passaram trinta segundos | Inibir a resposta antecipada e monitorar a própria contagem |
| Reprodução | Reproduzir a duração de um intervalo que acabou de ser apresentado | Guardar a duração na memória de trabalho enquanto a nova contagem corre |
Essa separação importa porque muda a interpretação. Um resultado ruim em reprodução pode significar relógio interno impreciso, mas também pode significar memória de trabalho sobrecarregada, e as duas coisas produzem o mesmo número na planilha. Voltarei a esse ponto adiante, porque ele é a maior armadilha do tema.
O tamanho do efeito, e a parte que a divulgação corta
A evidência agregada é favorável à existência do fenômeno. A meta-análise mais recente encontrou déficit significativo de percepção de tempo no TDAH, com robustez entre diferentes idades e diferentes formatos de tarefa [1]. Em crianças e adolescentes, uma meta-análise anterior chegou a resultado convergente, com prejuízo em discriminação, estimativa e reprodução, e um detalhe importante para a vida real: os efeitos tendem a ser maiores nos intervalos longos [2].
Esse detalhe merece parágrafo próprio, porque é o que conecta o laboratório à cena de sexta-feira. Se o desempenho piora conforme o intervalo cresce, então o problema não é medir dois segundos, é medir duas semanas. Um estudo clássico já tinha mostrado esse padrão em crianças, que erravam mais na reprodução de intervalos sobretudo em durações mais longas e sob distração, e que melhoravam com estimulante [7]. Distração piorando o desempenho não é acaso, é pista de mecanismo.
Agora a parte que a divulgação costuma cortar. Diferença de grupo não classifica indivíduo. Uma meta-análise dizer que o grupo com TDAH difere do grupo controle não autoriza ninguém a olhar o próprio desempenho numa tarefa de celular e concluir qualquer coisa sobre si. As distribuições se sobrepõem, há gente com TDAH com desempenho excelente e gente sem TDAH com desempenho ruim, e nenhuma dessas tarefas foi validada como instrumento diagnóstico. Elas foram feitas para estudar mecanismo, não para dar veredito.
Como o cérebro conta o tempo
Não existe um órgão do tempo. O modelo teórico que dominou a área propõe um arranjo de três componentes, um marca-passo que emite pulsos, um acumulador que os soma e uma memória de referência que guarda como foi da última vez, o que ficou conhecido como teoria da expectativa escalar [8]. É um modelo, e ele é útil porque faz previsões testáveis: se o marca-passo acelera, o tempo parece passar mais devagar, e se a memória de referência está instável, a comparação com o padrão anterior sai errada.
Do lado neural, a revisão de referência sobre timing de segundos a minutos aponta circuitos córtico-estriatais como centrais, com participação importante da dopamina [9]. Um mapeamento posterior detalhou os substratos envolvidos, incluindo gânglios da base, cerebelo, área motora suplementar e córtex pré-frontal, e o papel modulador dos sistemas dopaminérgicos [10]. No TDAH especificamente, a revisão que integrou dados comportamentais e de neuroimagem mostrou que os déficits de timing envolvem redes fronto-estriatais, fronto-cerebelares e fronto-parietais [4].
Vale um aviso que faço em todo texto deste cluster. Nada disso autoriza a frase pronta de que TDAH é falta de dopamina. O sistema é bem mais complicado do que essa simplificação, as alterações descritas são de grupo e por imagem de pesquisa, e não existe exame de dopamina que se peça no laboratório da esquina para investigar atraso crônico.
Nem tudo é relógio: atenção e memória contaminam a medida
Esta é a parte mais interessante do assunto e a menos contada. Estimar tempo não é uma função isolada que roda no fundo, ela consome os mesmos recursos que a pessoa está usando para tudo o mais. Um experimento clássico mostrou que tarefas concorrentes de memória de trabalho degradam a estimativa temporal, evidenciando recursos atencionais compartilhados [11]. Um estudo posterior do mesmo autor foi além e demonstrou interferência bidirecional entre produção temporal e tarefas executivas, ou seja, contar o tempo atrapalha a execução e executar atrapalha a contagem [12].
A consequência clínica disso é grande. Se o julgamento temporal depende de controle executivo e de memória de trabalho, então uma pessoa cujo funcionamento executivo já opera no limite vai errar mais o tempo justamente quando está mais ocupada, mais cansada ou mais estimulada. Não é que o relógio interno esteja quebrado o tempo todo. É que ele perde precisão exatamente nas condições em que a vida adulta acontece, e é por isso que a queixa piora em semanas cheias e melhora em férias.
“Cegueira temporal”: o que o termo ajuda e o que ele atrapalha
O termo circula muito e tem serventia. Ele nomeia uma experiência real, dá alívio a quem passou a vida ouvindo que era relaxada, e ajuda a família a entender que o atraso não é um recado. Uso a expressão em consulta quando ela ajuda a pessoa a se enxergar sem culpa.
O que ele atrapalha é quando vira carteirinha. Cegueira temporal não é uma entidade clínica, não tem critério, não tem ponto de corte e não aparece em nenhuma classificação diagnóstica. Ninguém tem “diagnóstico de cegueira temporal”, e usar o termo como se fosse diagnóstico produz dois danos opostos: faz quem não tem TDAH se autodiagnosticar por reconhecer a cena, e faz quem tem TDAH achar que já sabe o suficiente e não precisa de avaliação. As duas coisas atrasam cuidado.
O que isso cobra na vida real
A conta não é abstrata. Em amostra nacional de trabalhadores, o TDAH adulto associou-se a perda substancial de dias produtivos e a queda de desempenho no trabalho [17]. E há um achado que considero dos mais úteis de toda a literatura de TDAH adulto: escalas que medem o funcionamento executivo no dia a dia, incluindo gestão do tempo, predizem prejuízo ocupacional muito melhor do que os testes neuropsicológicos aplicados em consultório [18]. Traduzindo, o que a pessoa relata sobre a própria semana vale mais, para prever prejuízo, do que o desempenho dela numa tarefa cronometrada em sala silenciosa.
| Queixa como ela chega | Mecanismo mais provável | O que muda o resultado |
|---|---|---|
| “Sentei um minuto e passaram duas horas” | Estimativa que piora em intervalos longos e sob absorção [2][7] | Tempo externalizado, alarme intermediário, não confiar na sensação |
| “Só começo na véspera” | Recompensa distante perde valor rápido demais [14] e a espera é aversiva [13] | Encurtar a distância, dividir em entregas curtas com prazo real |
| “Atraso para tudo e não é falta de respeito” | Erro sistemático ao dimensionar quanto uma tarefa leva [3][5] | Medir o tempo real das rotinas por uma semana e usar o número medido |
| “Adio o que mais me interessa e depois me odeio” | Adiamento como regulação do humor imediato, com custo para o eu futuro [16] | Reduzir o custo emocional de iniciar, não aumentar a cobrança |
| “À noite eu finalmente rendo” | Cronotipo vespertino e atraso de fase são frequentes no quadro [24] | Tratar sono e horário de luz antes de concluir que é só desorganização |
Onde termina a percepção de tempo e começa a aversão ao adiamento
Aqui é preciso separar duas coisas que se confundem, porque produzem a mesma cena por motivos diferentes. Uma é perceptual, a pessoa não sente quanto tempo passou ou quanto falta. A outra é motivacional, a pessoa sente perfeitamente a espera e a espera é intolerável.
O estudo fundador dessa segunda linha mostrou algo elegante: crianças hiperativas escolhiam a recompensa imediata mesmo quando esperar renderia mais, e a escolha mudava conforme o arranjo alterava o tempo total de espera, o que indicava aversão ao adiamento e não simples impulsividade [13]. Do lado da medida econômica desse fenômeno, uma meta-análise de estudos caso-controle confirmou desconto por atraso mais íngreme no TDAH, com efeito pequeno a moderado [14].
Essa dimensão motivacional já foi tratada em detalhe no texto sobre disfunção executiva no TDAH, que é o lugar certo para quem quer entender a distância entre saber e começar. Aqui ela entra só pelo contraste, porque distinguir as duas muda o que ajuda: se o problema é perceptual, externalizar o tempo resolve boa parte; se é motivacional, encurtar a distância até a recompensa importa mais do que qualquer relógio na parede.
A procrastinação merece um parágrafo à parte, porque quase todo mundo se reconhece nela e isso confunde. A meta-análise de referência sobre o assunto a define como falha de autorregulação e identifica aversão à tarefa, impulsividade e distância temporal da recompensa entre os preditores mais fortes [15]. Ou seja, procrastinar é um fenômeno humano geral, com mecanismos que apenas se sobrepõem aos do TDAH. Procrastinar não prova nada sozinho.
Por que isto não é névoa mental depois de um abuso
Faço essa comparação em todos os textos deste cluster por um motivo prático: boa parte de quem lê este blog chegou por causa de uma relação abusiva, e a queixa de perder a noção do tempo aparece nos dois cenários com palavras parecidas.
| Critério | Percepção de tempo no TDAH | Névoa mental depois do abuso | Sono insuficiente ou desalinhado |
|---|---|---|---|
| Linha do tempo | Presente desde cedo, sem marco de início | Tem um antes e um depois identificável | Acompanha as noites ruins e melhora quando elas melhoram |
| Onde aparece | Em vários contextos, inclusive nos agradáveis | Mais intensa perto do contexto da relação e dos gatilhos | Pior nos dias seguintes às noites curtas |
| O que costuma vir junto | Dificuldade de iniciar, de estimar e de sustentar o plano [5][6] | Hipervigilância, memória fragmentada do período, sobressalto | Sonolência diurna e queda de desempenho proporcional à privação |
| O que costuma ajudar | Externalização do tempo e apoios estruturados [20] | Tratar o trauma e reconstruir segurança | Corrigir o sono e o horário de luz antes de qualquer conclusão [24] |
As três podem coexistir, e coexistem com frequência. A diferença não é acadêmica: ela decide por onde começar. Quem quiser aprofundar a distinção encontra o texto completo em TDAH ou trauma, e o recorte do sono em TDAH e sono.
Onde este texto se encaixa entre os outros sobre TDAH
Este é o sétimo texto do cluster e fecha uma promessa feita em dois outros. O texto sobre disfunção executiva tratou da distância entre saber e começar, e disse expressamente que percepção de tempo teria texto próprio. O texto sobre hiperfoco tratou da atenção que não sai, e tocou a percepção de tempo apenas como consequência do estado de absorção, repetindo a mesma promessa. Este é o texto prometido.
Os demais completam o quadro por outros ângulos: TDAH em mulheres trata do diagnóstico que chega tarde, sensibilidade à rejeição trata da resposta emocional desproporcional à recusa, e quanto tempo leva para se recuperar trata de outro tempo, o da recuperação, que não é este.
O que não se sustenta
Reuni aqui as afirmações que mais circulam sobre o assunto, ao lado do que a evidência de fato permite dizer.
| Afirmação | O que a evidência permite dizer |
|---|---|
| “Cegueira temporal é um sintoma diagnóstico do TDAH” | Não é. O termo não consta em classificação diagnóstica alguma. O que existe é diferença de grupo em tarefas de timing [1][2] e um modelo teórico que a deriva da falha de inibição [5] |
| “Existe teste de percepção de tempo que fecha o diagnóstico” | Não existe. As tarefas foram feitas para estudar mecanismo, com distribuições que se sobrepõem entre grupos [3] |
| “Quem procrastina tem TDAH” | Procrastinação é fenômeno geral de autorregulação, com preditores próprios em população ampla [15][16] |
| “É só falta de dopamina” | A dopamina modula os circuitos de timing [9][10], o que está longe de autorizar uma explicação de causa única |
| “Basta se esforçar mais para sentir o prazo” | O julgamento temporal compete por recursos executivos e piora quando eles estão ocupados [11][12], então esforço concentrado em outra coisa tende a piorar a estimativa, não a melhorar |
| “Teste normal no consultório afasta o problema” | Escalas do dia a dia predizem prejuízo ocupacional melhor do que testes de consultório [18] |
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O que ajuda, e o quanto ajuda
A intervenção mais coerente com tudo o que foi descrito acima é também a mais simples de enunciar: se o instrumento interno informa errado, use um instrumento externo. Isso tem nome na literatura e tem teste. Um ensaio randomizado com crianças e adolescentes mostrou que auxílios externos de tempo, relógios, agendas e apoios visuais estruturados, melhoraram a habilidade de processamento temporal e a gestão diária do tempo [20]. Não é conselho de bom senso, é intervenção estudada.
Na prática clínica isso significa relógio analógico à vista em vez de digital no bolso, porque a passagem fica visível em vez de exigir cálculo, alarmes intermediários e não apenas o do horário final, e a substituição da estimativa pela medição: cronometrar por uma semana quanto de fato levam as rotinas que a pessoa jura que levam dez minutos, e passar a usar o número medido.
Para adultos, a evidência mais forte está na psicoterapia estruturada. Um ensaio inicial mostrou que TCC com módulos de organização e manejo do tempo reduziu sintomas residuais em adultos já medicados [22], e um ensaio randomizado maior confirmou superioridade da TCC estruturada sobre um controle ativo nessa mesma população [21]. Em paralelo, um ensaio de terapia metacognitiva em grupo, centrada exatamente em manejo do tempo, planejamento e organização, mostrou superioridade sobre terapia de apoio na redução de sintomas de desatenção [23].
Sobre medicação, a informação honesta é que ela atua sobre os circuitos envolvidos e não sobre a agenda. O estudo clássico já mostrava melhora do desempenho temporal em crianças sob estimulante [7], e um estudo de neuroimagem mostrou que o metilfenidato normaliza a hipoativação e a conectividade de redes fronto-estriatais atencionais e motivacionais em crianças virgens de tratamento [19]. Isso apoia a plausibilidade do mecanismo, mas indicação, dose e adequação são decisão clínica individual, que não se toma por texto. E como o horário do sono aparece com frequência nesse quadro, com cronotipo vespertino e atraso de fase descritos em revisão sistemática [24], corrigir sono e exposição à luz costuma ser parte do plano, não um detalhe.
Quando procurar avaliação
Perder a noção do tempo de vez em quando é experiência humana comum, e a maior parte de quem se reconhece nesta leitura não tem transtorno nenhum. O que muda a conversa é prejuízo consistente.
Vale procurar avaliação quando o padrão atravessa contextos diferentes e não é episódio isolado, quando aparece desde cedo na história de vida e não começou há alguns meses, quando produz consequências reais e repetidas em trabalho, estudo, saúde ou relações, e quando vem acompanhado de outras dificuldades de regulação da atenção e do impulso. A avaliação existe justamente para separar TDAH de quadros de humor, de ansiedade, de sono, de uso de substâncias e de resposta a eventos de vida, que produzem cenas parecidas por razões diferentes.
Se o que trouxe você até aqui foi uma relação que consumiu sua atenção e seus anos, o caminho de avaliação também existe e começa por outro lugar. Nos dois casos quem responde é a consulta com profissional habilitado, não um texto e não um questionário de internet. Este conteúdo é educativo e não substitui avaliação individual.
Perguntas frequentes
Cegueira temporal é um diagnóstico?
Não. O termo descreve bem uma experiência e ajuda muita gente a se entender sem culpa, mas não consta no DSM-5-TR nem na CID-11, não tem critério nem ponto de corte, e ninguém recebe alta com esse diagnóstico. O que a literatura sustenta é diferença de grupo em tarefas de percepção temporal [1][2].
Existe algum teste que meça minha percepção de tempo e diga se tenho TDAH?
Não. As tarefas usadas em pesquisa foram desenhadas para estudar mecanismo, os grupos se sobrepõem bastante e nenhuma delas foi validada como instrumento diagnóstico [3]. Diagnóstico se faz com avaliação clínica, história de vida e informação de mais de uma fonte.
Por que eu só consigo começar na véspera?
Porque na véspera a recompensa deixou de ser distante. A literatura mostra que no TDAH o valor de uma recompensa cai mais rápido conforme ela se afasta no tempo [14], e que a espera em si é aversiva [13]. Mudou a distância, não a sua disciplina.
Perco a noção do tempo o dia inteiro. Isso é hiperfoco?
São coisas relacionadas e não idênticas. No hiperfoco a distorção do tempo é consequência de um estado de absorção intensa numa atividade específica. A dificuldade descrita aqui aparece também fora desse estado, inclusive em tarefas chatas. O tema está detalhado em hiperfoco no TDAH.
Procrastinar muito significa que tenho TDAH?
Não sozinho. Procrastinação é uma falha de autorregulação estudada em população geral, com preditores próprios como aversão à tarefa e impulsividade [15], e frequentemente funciona como alívio do humor imediato às custas do eu futuro [16]. É um sinal a considerar no conjunto, nunca uma prova.
Por que meu desempenho é pior justamente nas semanas mais cheias?
Porque estimar tempo não é uma função independente. Ela compete pelos mesmos recursos de atenção e memória de trabalho que a semana cheia está consumindo, e experimentos mostram interferência nos dois sentidos [11][12]. Quanto mais carregado o sistema, pior a medida.
Relógio e alarme resolvem?
Ajudam mais do que a maioria das pessoas espera, e isso foi testado. Um ensaio randomizado mostrou que auxílios externos de tempo melhoraram tanto o processamento temporal quanto a gestão diária do tempo [20]. A lógica é substituir um instrumento impreciso por um preciso, em vez de exigir precisão de quem não a tem.
A medicação conserta minha noção de tempo?
Ela atua sobre os circuitos envolvidos, o que é diferente de organizar a agenda. Há melhora de desempenho temporal descrita com estimulante [7] e normalização de ativação e conectividade em redes fronto-estriatais [19], mas indicação e dose são decisão clínica individual, e o manejo do tempo continua exigindo estrutura externa.
Isso pode ser consequência de uma relação abusiva em vez de TDAH?
Pode, e a distinção mais útil é a linha do tempo. O padrão do TDAH é de neurodesenvolvimento e atravessa contextos desde cedo, enquanto a dificuldade que se instala depois de uma relação costuma ter um antes e um depois identificáveis. A comparação completa está em TDAH ou trauma.
Se eu rendo à noite, sou só uma pessoa noturna?
Pode ser, e também pode ser parte do quadro. Uma revisão sistemática associa o TDAH a cronotipo vespertino e a atraso de fase circadiana [24]. Vale investigar sono e horário de luz antes de concluir que se trata apenas de preferência ou de desorganização.
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