Definição rápida: estigma é o conjunto de crenças, emoções e comportamentos que uma sociedade dirige a quem carrega determinada marca, e ele opera em três camadas: o estigma público, que é o que os outros pensam e fazem; o estigma internalizado, que é o que a pessoa passa a pensar de si depois de ouvir aquilo muitas vezes; e o estigma por associação, que recai sobre a família. No TDAH essas três camadas estão documentadas, e o motor central identificado pela literatura é específico: a dúvida pública sobre se o diagnóstico é válido e sobre se o tratamento é legítimo [11]. Em amostra representativa dos Estados Unidos, entre as pessoas que já tinham ouvido falar de TDAH, 22% não o consideravam uma doença real [4]. É por isso que a acusação preferida é “preguiça”. Nada disso é diagnóstico: estigma e autoestigma não constam no DSM-5-TR nem na CID-11, e nenhum deles diz se a pessoa tem ou não TDAH. Quem responde isso é a avaliação clínica com profissional habilitado.
As repercussões do abuso narcisista no corpo (insônia, taquicardia, fadiga, alterações de sono e peso) têm avaliação e acompanhamento médico.
Dr. Anderson Contaifer · Médico Especialista em Clínica Médica · CRM-SC 24.484 · RQE 18.790 · Teleconsulta (qualquer lugar do Brasil e do mundo)
Uma observação sobre o vídeo acima. O canal ainda não tem material dedicado ao TDAH, e o que está ali trata de vergonha em outro contexto, o de filhos criados por pais narcisistas. Escolhi esse justamente porque o eixo emocional é o mesmo: a vergonha que se instala quando alguém ouve, repetidas vezes e de quem tem autoridade sobre ele, que o problema é o seu caráter. A origem é diferente e o mecanismo de instalação é parecido. Assista com essa chave.
A consulta começa quase sempre com uma variação da mesma frase. “Todo mundo acha que eu sou relaxado.” “Minha mãe diz que se eu quisesse, eu fazia.” “Meu chefe falou que é falta de comprometimento.” E, com uma frequência que impressiona, a pessoa acrescenta uma coisa mais difícil de escutar: que hoje ela também acha isso de si mesma. Essa passagem, do que dizem para o que se acredita, é o assunto deste texto.
Este texto não trata de por que não é preguiça
Atendimento médico
As repercussões do abuso narcisista no corpo (insônia, taquicardia, fadiga, alterações de peso e sono) têm avaliação e acompanhamento médico. O Dr. Anderson Contaifer, médico, especialista em Clínica Médica (CRM-SC 24.484, RQE 18.790), atende por teleconsulta para todo o Brasil. Cada consulta é uma avaliação clínica individual.
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Isso já está escrito. O artigo sobre disfunção executiva no TDAH explica o mecanismo, por que a distância entre saber e começar não é falta de vontade, e por que a receita de força de vontade falha de forma previsível. Quem quer entender o funcionamento deve ler aquele.
Aqui a pergunta é outra e ninguém costuma fazê-la: por que a acusação de preguiça é tão insistente, quem a faz, o que sustenta essa crença, e o que ela produz em quem a recebe durante anos. Ou seja, não o mecanismo do sintoma, mas o mecanismo do julgamento.
As três camadas do estigma
Separar as camadas é útil porque cada uma se combate de um jeito, e confundi-las gera conselhos inúteis do tipo “não ligue para o que os outros falam”, que ignora o fato de que parte do problema já não está mais do lado de fora.
| Camada | Como aparece | O que foi medido |
|---|---|---|
| Público | Descrédito do diagnóstico, irritação, recusa de oportunidades | Em amostra representativa alemã com 1.008 pessoas, cerca de um quarto se sentiu irritado com a pessoa descrita e recusou alugar-lhe um quarto ou dar recomendação profissional [20] |
| Internalizado | A acusação vira voz interna e critério de julgamento de si | Em 104 adultos com TDAH, 88,5% antecipavam discriminação e 69,3% percebiam estigma público, com correlação entre estigma internalizado, sofrimento psíquico, autoestima e qualidade de vida [19] |
| Por associação | A família é responsabilizada, sobretudo a mãe, por “má criação” | Entre 48 pais de crianças recém-diagnosticadas, 77% relataram experiências estigmatizantes, 40% isolamento e 21% terem sido desacreditados por profissionais de saúde e da escola [6] |
Uma revisão sobre estigma na infância já apontava que ele atinge criança e família ao mesmo tempo, com culpabilização direta dos pais pela conduta do filho [3]. Isso explica uma cena comum no consultório: a mãe que chega mais defendida que o filho, porque vem de anos de reuniões escolares em que a conversa não era sobre a criança, era sobre ela.
Por que “preguiça” é a acusação preferida
Existe uma explicação bem estabelecida em psicologia social, e ela é quase mecânica. Um estudo clássico mostrou que estigmas percebidos como controláveis, isto é, atribuídos ao comportamento da pessoa, geram raiva e menos disposição de ajudar, enquanto os percebidos como incontroláveis geram pena e mais ajuda [1]. Um modelo posterior, testado por equações estruturais, confirmou o caminho: atribuições de responsabilidade e de periculosidade medeiam as emoções, e são as emoções que produzem a discriminação, na forma de evitação, coerção e negação de ajuda [2].
Aplique isso ao TDAH e o resultado é previsível. Como o quadro não tem marcador visível, o observador precisa decidir sozinho se aquilo é “não consegue” ou “não quis”. Se ele decidir que era controlável, a emoção que aparece é raiva, e a palavra que traduz raiva é preguiça. A acusação não é um insulto aleatório, é a consequência lógica de uma atribuição errada.
Isso muda o que funciona na conversa. Discutir esforço com quem já concluiu que era controlável não costuma levar a lugar nenhum, porque o desacordo não é sobre o esforço, é sobre a atribuição. E há um dado curioso e útil: crenças de continuum, ou seja, entender que existe um espectro entre o funcionamento comum e o quadro clínico, associaram-se a reações mais pró-sociais na amostra populacional [20].
O que as pessoas realmente pensam
A revisão que organizou o campo é direta ao identificar o motor: o que sustenta o estigma no TDAH é a dúvida sobre a validade do diagnóstico e sobre a legitimidade do tratamento [11]. Não é o comportamento em si, é a suspeita de que a categoria inteira seja uma desculpa.
Os números acompanham. Em levantamento nacional com 1.139 pessoas, apenas 64% já tinham ouvido falar de TDAH, e entre essas, 22% não consideravam o quadro uma doença real [4]. Entre professores, um estudo com 170 docentes e 170 controles encontrou algo que dá esperança operacional: mais conhecimento sobre TDAH correlacionou-se com menos estigma, principalmente nas dimensões de confiabilidade e de suspeita de simulação e mau uso de medicação [15]. Informação, nesse caso, mede diferença.
Uma revisão evolutiva conclui que a estigmatização é substancial em todas as faixas etárias, mudando de conteúdo conforme a idade de quem julga [13]. Ou seja, não é um problema da infância que passa: muda de roupa.
Vale uma ressalva de escopo que quase nunca é feita. Quase toda essa literatura foi produzida na Europa e nos Estados Unidos, e cultura pesa. Um estudo com mais de 11 mil respondentes em 11 países encontrou estigma maior nos países do Leste, e mostrou que a ligação entre preconceito e disposição a discriminar se explica em parte por diferenças culturais nas atribuições causais do transtorno mental [21]. Ou seja, o quanto se culpa a pessoa varia conforme o que aquela cultura acredita ser a causa do problema. Faltam dados brasileiros de boa qualidade sobre estigma no TDAH, e ler os números de fora como se fossem daqui seria um erro. O mecanismo descrito neste texto se sustenta; as proporções, não necessariamente.
O rótulo diagnóstico ajuda ou piora?
Esta é a pergunta que mais recebo, e a resposta honesta é que a evidência aponta para os dois lados, o que é mais interessante do que uma resposta única.
Do lado que tranquiliza: em estudo com crianças de 11 e 12 anos, um colega hipotético com sintomas de TDAH foi avaliado negativamente, e acrescentar o rótulo diagnóstico não alterou atitudes nem intenções [5]. Entre universitários, com vinhetas, o mesmo padrão: o estigma foi produzido pelos comportamentos típicos, não pelo rótulo, e o TDAH foi tão estigmatizado quanto a depressão [17]. Traduzindo, o rótulo não é o que cria a rejeição. A rejeição já estava lá por causa do comportamento.
Do lado que complica: entre professores, o rótulo aumentou a percepção de prejuízo e gerou mais emoções negativas e menos autoconfiança, mas ao mesmo tempo elevou a disposição de implementar intervenções [9]. É um resultado de duas mãos, e ele descreve bem a vida real: o rótulo pode abrir portas de apoio e ao mesmo tempo rebaixar expectativas.
Do lado de quem recebe o diagnóstico tarde, uma meta-síntese qualitativa identificou os temas identidade antes e depois do diagnóstico, a luta desnecessária e o diagnóstico como revelação [22]. A expressão “luta desnecessária” resume o custo de anos de descrédito melhor do que qualquer estatística.
Quando a acusação vira voz interna
Aqui o assunto deixa de ser sociologia e vira clínica. Uma meta-análise sobre estigma internalizado em transtornos mentais mostrou associação robusta e negativa com esperança, autoestima, empoderamento, adesão ao tratamento e gravidade sintomática [7]. Não é sobre se sentir mal: mexe com a adesão, portanto mexe com desfecho.
Some a isso o que se sabe sobre vergonha. Uma meta-análise com 108 estudos encontrou associação forte entre vergonha e sintomas depressivos, substancialmente maior do que a da culpa [8]. A distinção importa e é clinicamente útil: culpa é “fiz algo ruim”, vergonha é “eu sou ruim”. A acusação de preguiça, repetida por anos, ensina exatamente a segunda.
| O que se ouve por fora | O que vira crença sobre si | O custo documentado |
|---|---|---|
| “Se você quisesse, você fazia” | “Então eu não quero o bastante, e isso me define” | Vergonha, que se associa a sintomas depressivos mais do que a culpa [8] |
| “Todo mundo tem um pouco disso” | “Meu sofrimento não é legítimo, é frescura” | Descrédito prolongado e a luta desnecessária antes do diagnóstico [22] |
| “Isso é desculpa para não se esforçar” | “Pedir ajuda é confessar fraqueza” | Estigma é uma das principais barreiras à busca de ajuda em saúde mental [14] |
| “Você só quer remédio” | “Tratar é trapaça, então melhor não tratar” | Estigma internalizado associa-se a pior adesão ao tratamento [7] |
| “A culpa é da criação que ele teve” | Nos pais: “eu falhei como mãe ou pai” | Estigma por associação previu parentalidade mais negativa, mediando pior desfecho social na criança [16] |
Vale destacar o último item, porque ele é o mais desconfortável e o mais acionável. Controlada a gravidade dos sintomas, quanto maior o estigma por associação sentido pelos pais, mais negativa a parentalidade, e foi essa parentalidade que mediou piores habilidades sociais e mais agressividade na criança [16]. Ou seja, o julgamento externo não fica no plano simbólico: ele entra em casa e muda o que acontece ali dentro. Cuidar da vergonha dos pais é intervenção sobre a criança, não gentileza.
No trabalho: contar ou não contar
A pergunta chega em quase toda consulta de adulto, e a intuição costuma ser “não conte, vão te achar incapaz”. A evidência sugere o contrário com mais frequência do que se imagina. Um estudo experimental com vinhetas sobre condições de saúde invisíveis encontrou benefício social na revelação: sem ela, os colegas atribuem o comportamento a falha de caráter e reagem com incivilidade [23]. Faz sentido dentro do modelo de atribuição: na ausência de informação, o observador preenche a lacuna com a explicação moral.
Isso não transforma revelar em recomendação universal, porque o contexto pesa e o risco é real e desigual entre ambientes. Mas há um achado que reposiciona a conversa: em 125 adultos jovens acompanhados desde a infância, os sintomas foram descritos como dependentes do ambiente ocupacional, e em contextos dinâmicos e desafiadores características como alta energia funcionavam como força e não como defeito [18]. Antes de concluir que a pessoa não serve para o trabalho, vale perguntar se o trabalho serve para a pessoa.
O custo em saúde: a conta que ninguém soma
Uma revisão sistemática de 144 estudos posicionou o estigma como a quarta maior barreira à busca de ajuda em saúde mental, com efeito desproporcionalmente forte em minorias étnicas, jovens, homens e profissionais de saúde [14]. E um estudo de métodos mistos sobre disposição de usar tratamento para TDAH mostrou que ela foi menor entre os adolescentes, dependendo de o jovem se sentir informado e de julgar o tratamento aceitável, com relatos qualitativos de constrangimento social [10].
Junte as peças e o circuito se fecha: a acusação produz vergonha, a vergonha reduz a procura por ajuda, a ausência de ajuda mantém o prejuízo, e o prejuízo alimenta a acusação. É um ciclo, e ele se interrompe em mais de um ponto.
Por que isto não é a culpa que sobra depois de um abuso
Faço essa demarcação em todos os textos do cluster, porque boa parte de quem lê este blog chegou por causa de uma relação abusiva, e “eu me sinto um lixo por não dar conta” é uma frase que aparece nos dois cenários.
| Critério | Autoestigma do TDAH | Culpa depois do abuso narcisista |
|---|---|---|
| De onde veio | Difusa, de muitas fontes ao longo dos anos: escola, casa, trabalho [13] | Concentrada, de uma pessoa ou de um núcleo, com intenção de controle |
| Linha do tempo | Sem marco de início, acompanha a história desde cedo | Tem um antes e um depois identificáveis |
| Conteúdo da crença | “Sou relapso, indigno de confiança, incapaz de me organizar” | “Sou difícil, exagerada, a culpada pelo que aconteceu” |
| Por onde começar | Avaliação, informação de qualidade e apoio estruturado [15] | Segurança, reconstrução da confiança no próprio julgamento e cuidado do trauma |
As duas coexistem com frequência, e quando coexistem se reforçam. A vergonha no contexto de abuso está tratada em vergonha em vítimas de abuso, e a separação entre os dois quadros está em TDAH ou trauma.
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Onde este texto se encaixa entre os outros sobre TDAH
Este é o oitavo e último texto do cluster, e ele fecha o conjunto pelo lado de fora. Os outros descrevem o funcionamento: disfunção executiva trata da distância entre saber e começar, hiperfoco trata da atenção que não sai, percepção de tempo trata dos dois tempos, agora e não agora, e TDAH e sono trata da noite que não colabora.
Os outros três tratam de quem recebe: TDAH em mulheres trata do diagnóstico que chega tarde, e vale registrar que uma revisão sistemática sobre mulheres adultas identificou justamente impacto socioemocional, relações difíceis, falta de controle e autoaceitação após o diagnóstico [24]; sensibilidade à rejeição trata da resposta emocional desproporcional à recusa; e TDAH ou trauma separa o que se parece na superfície. Este aqui trata do julgamento que atravessa todos eles.
O que não se sustenta
| Afirmação | O que a evidência permite dizer |
|---|---|
| “TDAH é invenção moderna, uma desculpa” | Essa crença é justamente o motor do estigma descrito na literatura [11], e aparece medida em população geral [4]. Ser popular não a torna correta |
| “O rótulo é que faz a criança ser rejeitada” | Nos estudos com vinhetas, a rejeição foi produzida pelos comportamentos, não pelo rótulo, tanto entre crianças [5] quanto entre universitários [17] |
| “Receber o diagnóstico só traz alívio” | Entre professores o rótulo aumentou emoções negativas e a percepção de prejuízo, ainda que também aumentasse a disposição de intervir [9]. É de duas mãos |
| “É só ignorar o que os outros pensam” | Quando o estigma já foi internalizado, ele opera de dentro e se associa a autoestima, adesão e sofrimento [7][19]. Não há o que ignorar |
| “Explicar para as pessoas resolve” | Informação ajuda e correlaciona-se com menos estigma entre professores [15], mas a discriminação é mediada por emoção e atribuição [2], que não mudam só com dado |
| “Estigma é problema social, não clínico” | Ele é uma das principais barreiras à busca de ajuda [14] e, nos pais, chega a mediar desfecho comportamental da criança [16] |
O que ajuda, e o quanto ajuda
Começo pelo que a evidência sustenta melhor. Informação de qualidade reduz estigma em quem convive profissionalmente com o quadro: entre professores, mais conhecimento sobre TDAH associou-se a menos estigma, sobretudo na suspeita de simulação [15]. Isso torna a conversa com a escola uma intervenção, não uma formalidade.
Segundo, a linguagem do continuum funciona melhor do que a do “ou tem ou não tem”. Na amostra populacional, crenças de continuum associaram-se a reações mais pró-sociais [20]. Explicar que existe um espectro, e que o corte clínico é sobre prejuízo, tende a produzir mais cooperação do que exigir que o outro aceite uma categoria fechada.
Terceiro, para a camada internalizada, o alvo é a vergonha e não a lista de tarefas. Uma meta-análise com 14 estudos e mais de 4.000 participantes encontrou correlação grande e inversa entre autocompaixão e sintomas de depressão, ansiedade e estresse [12]. Isso não é autoindulgência nem substituto de tratamento: é o trabalho de trocar “eu sou assim porque presto pouco” por uma leitura que não destrua a pessoa no caminho.
Quarto, ambiente importa e é modificável antes da pessoa [18]. E, quinto, no trabalho, a revelação seletiva costuma reduzir a atribuição de falha de caráter [23], desde que feita com leitura realista do contexto.
Uma ressalva necessária: nada disso promete que o julgamento acabe, e este texto não é tratamento. É informação para reposicionar a conversa e reduzir dano enquanto o cuidado adequado é organizado.
Quando procurar avaliação
Sentir-se julgado não é diagnóstico, e reconhecer-se nas cenas acima não significa ter TDAH. O que muda a conversa é prejuízo consistente.
Vale procurar avaliação quando as dificuldades atravessam contextos diferentes e não são episódio isolado, quando aparecem desde cedo na história de vida, quando produzem consequências reais e repetidas em trabalho, estudo, saúde ou relações, e quando vêm acompanhadas de outras dificuldades de regulação da atenção, do tempo e do impulso. A avaliação existe para separar TDAH de quadros de humor, de ansiedade, de sono, de uso de substâncias e de resposta a eventos de vida.
Há ainda um motivo específico deste texto para procurar ajuda: quando a vergonha já organiza as decisões, quando a pessoa deixa de tentar para não confirmar o que dizem dela, isso por si só merece cuidado, com ou sem diagnóstico de TDAH no fim. Quem responde é a consulta com profissional habilitado, não um texto e não um questionário de internet. Este conteúdo é educativo e não substitui avaliação individual.
Perguntas frequentes
Estigma e autoestigma são diagnósticos?
Não. Nenhum dos dois consta no DSM-5-TR ou na CID-11, e nenhum diz se a pessoa tem TDAH. São fenômenos estudados por suas consequências, e as consequências são mensuráveis: estigma internalizado se associa a autoestima, adesão e sofrimento psíquico [7][19].
Por que as pessoas insistem que é preguiça?
Porque, sem marcador visível, o observador decide sozinho se o comportamento era controlável. Quando decide que sim, a emoção que surge é raiva, e isso reduz a disposição de ajudar [1]. A discriminação vem por essa via, mediada por atribuição e emoção [2], e não por má-fé consciente na maioria dos casos.
Devo contar no trabalho que tenho TDAH?
Depende do ambiente, e a decisão é sua. O que a evidência acrescenta é que, sem informação, colegas tendem a atribuir o comportamento a falha de caráter e a reagir com incivilidade [23]. Vale também avaliar o próprio ambiente, já que os sintomas se manifestam de forma dependente do contexto ocupacional [18].
O diagnóstico vai fazer as pessoas me tratarem pior?
Os estudos com vinhetas sugerem que a rejeição é dirigida ao comportamento e não ao rótulo, tanto entre crianças [5] quanto entre universitários [17]. Entre professores, porém, o rótulo teve efeito duplo, aumentando emoções negativas e também a disposição de intervir [9].
Minha mãe se sente culpada pelo meu diagnóstico. Isso é comum?
É muito comum e tem nome, estigma por associação. Entre pais de crianças recém-diagnosticadas, 77% relataram experiências estigmatizantes [6], e a literatura já descrevia a culpabilização direta dos pais pela conduta do filho [3]. Cuidar disso não é detalhe: o estigma dos pais chegou a mediar desfecho comportamental na criança [16].
Se todo mundo tem um pouco disso, meu sofrimento é legítimo?
A existência de um espectro não invalida o prejuízo. Aliás, entender o continuum se associou a reações mais pró-sociais na população geral [20]. O que define a necessidade de cuidado é o prejuízo consistente, não a exclusividade do sintoma.
Tomar medicação é trapacear?
Essa crença aparece medida como parte do estigma, na forma de suspeita de simulação e mau uso [15], e a dúvida sobre a legitimidade do tratamento é um dos motores do estigma no TDAH [11]. Indicação e dose são decisão clínica individual, que não se toma por texto nem por opinião alheia.
Fui diagnosticado adulto e sinto raiva do tempo perdido. É normal?
Aparece com frequência na literatura qualitativa, que descreve os temas identidade antes e depois do diagnóstico, a luta desnecessária e o diagnóstico como revelação [22]. Em mulheres, uma revisão sistemática identificou impacto socioemocional e autoaceitação depois do diagnóstico [24].
Como respondo a quem diz que é desculpa?
Discutir esforço raramente funciona, porque o desacordo está na atribuição, não no esforço [1][2]. Costuma render mais falar de prejuízo concreto e de contexto do que tentar provar boa vontade. E, com professores e colegas próximos, informação de qualidade tem efeito documentado [15].
Isso pode ser sequela de uma relação abusiva em vez de TDAH?
Pode, e a distinção mais útil é a origem e a linha do tempo. O autoestigma do TDAH costuma vir difuso e desde cedo, de muitas fontes [13], enquanto a culpa depois de uma relação abusiva costuma ser concentrada e ter um antes e um depois. A comparação completa está em TDAH ou trauma.
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