A paz parece sem graça depois do abuso narcisista: por que isso acontece

Mulher sentada sozinha no sofá de uma sala tranquila, olhando pela janela com expressão inquieta
Foto de Dr. Anderson Contaifer

Dr. Anderson Contaifer

Médico especialista em Clínica Médica (CRM-SC 24.484 | RQE de clínica médica 18.790), com formação pela EMESCAM (Escola de ciências Médicas da Santa Casa de Misericórida de Vitória - ES) e titulação em clínica médica pela SBCM (Sociedade Brasileira de Clínica Médica). Atua na recuperação médica e emocional de vítimas de abuso narcisista, produzindo conteúdos educativos nas redes sociais. Criador do Programa Quebrando as Algemas, curso para recuperação do abuso narcisista. Possui mais de 200 mil seguidores em redes sociais, criador do Blog Quebrando as Algemas que oferece conteúdo baseado em evidências científicas sobre narcisismo patológico, gaslighting, trauma bonding e TEPT-C. Possui Certificado de Excelência Doctoralia 2025.

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Definição rápida: sentir que a paz é sem graça depois de um relacionamento abusivo é uma queixa comum e tem explicação biológica. Durante meses ou anos, o seu sistema nervoso foi treinado por um regime de recompensa imprevisível, em que carinho e crueldade se alternavam sem aviso. Esse tipo de reforço é justamente o que mais ativa o circuito de dopamina, e o organismo passa a interpretar taquicardia, medo e alerta como sinais de intensidade e de conexão. Quando o caos acaba, o contraste faz a calma parecer vazia, morna, quase desconfortável. Isso não significa que você goste de sofrer nem que esteja destinada a repetir o padrão: significa que o seu cérebro está recalibrando a régua do que é normal, e essa régua pode voltar ao lugar com tempo, informação e acompanhamento adequado.

As repercussões do abuso narcisista no corpo (insônia, taquicardia, fadiga, alterações de sono e peso) têm avaliação e acompanhamento médico.

Dr. Anderson Contaifer · Médico Especialista em Clínica Médica · CRM-SC 24.484 · RQE 18.790 · Teleconsulta (qualquer lugar do Brasil e do mundo)

Você saiu. Depois de muito tempo pedindo socorro por dentro, conseguiu sair. E aí acontece uma coisa que ninguém tinha avisado: a paz chega e não parece boa. O apartamento silencioso incomoda. O fim de semana sem crise parece longo demais. Alguém educado, estável e presente aparece na sua vida e você não sente absolutamente nada. Sem borboletas, sem urgência, sem aquele frio na barriga. Você pensa que talvez esteja quebrada, ou pior, que talvez goste mesmo de sofrer.

Na prática clínica, essa é uma das confissões mais difíceis que escuto, e quase sempre vem acompanhada de vergonha. A pessoa baixa a voz para dizer que sente falta dele, ou que o namorado bom demais parece sem sal. Este guia existe para tirar esse peso do lugar errado. O que você está sentindo tem nome, tem mecanismo descrito na literatura científica e tem caminho de saída. Não é falha de caráter, não é masoquismo e não é sinal de que o abusador era, no fundo, o amor da sua vida. É a assinatura fisiológica de um sistema nervoso que passou tempo demais operando em modo de sobrevivência.

O que significa a paz parecer sem graça

Atendimento médico

As repercussões do abuso narcisista no corpo (insônia, taquicardia, fadiga, alterações de peso e sono) têm avaliação e acompanhamento médico. O Dr. Anderson Contaifer, médico, especialista em Clínica Médica (CRM-SC 24.484, RQE 18.790), atende por teleconsulta para todo o Brasil. Cada consulta é uma avaliação clínica individual.

Ainda não quer marcar consulta? Você também pode conhecer o curso Quebrando as Algemas, material educativo para quem está se recuperando de um relacionamento abusivo.

A queixa aparece de várias formas, e todas apontam para o mesmo fenômeno. Algumas pessoas dizem que a calma dá angústia, como se algo ruim estivesse prestes a acontecer. Outras contam que estranham não ter com quem brigar, que ficam procurando problema onde não há, que checam o celular esperando uma mensagem hostil que não vem mais. Muitas descrevem uma inquietação difusa nos primeiros meses de contato zero, um vazio que não é exatamente tristeza, mas também não é alívio.

Há ainda a versão que aparece mais tarde, quando a pessoa já está bem e tenta se relacionar de novo. Ela conhece alguém gentil, previsível, que responde as mensagens e cumpre o que promete. E não sente nada. A ausência de drama é lida como ausência de química. Em alguns casos a pessoa até termina esse vínculo saudável e vai atrás de alguém que reproduza a intensidade antiga, o que costuma ser interpretado por ela mesma como prova de que é atraída por pessoas ruins.

Vale separar duas coisas desde já. Uma é o desconforto com a calma, que é um fenômeno de recalibração e tende a ceder. A outra é a perda generalizada da capacidade de sentir prazer, que é um sintoma clínico com nome próprio e merece avaliação. As duas podem coexistir, e boa parte do sofrimento vem de confundir uma com a outra e concluir que o problema é permanente.

Por que o seu cérebro aprendeu a chamar caos de amor

Para entender por que a paz perdeu o sabor, é preciso olhar para o que estava acontecendo antes. Um relacionamento abusivo não é feito só de maus-tratos. Se fosse, ninguém ficaria. Ele é feito de maus-tratos intercalados com momentos de reconciliação, promessas, carinho intenso e alívio. É exatamente essa alternância que produz o efeito mais grudento.

A imprevisibilidade é o que mais mobiliza o circuito de recompensa

A neurociência da recompensa mostra que os neurônios dopaminérgicos não codificam simplesmente o prazer recebido. Eles codificam a diferença entre o que era esperado e o que aconteceu, o chamado erro de predição de recompensa [3]. Quando algo bom acontece de forma previsível, o sinal fica pequeno. Quando algo bom acontece de surpresa, o sinal dispara.

Mais do que isso, estudos clássicos demonstraram que existe uma atividade dopaminérgica sustentada que atinge o máximo justamente quando a chance de recompensa é de aproximadamente cinquenta por cento, ou seja, quando a incerteza é máxima [4]. Não é o prêmio garantido que prende o sistema. É o talvez. Um relacionamento em que você nunca sabe se vai receber afeto ou humilhação ao abrir a porta de casa é, do ponto de vista do circuito de recompensa, o cenário mais mobilizador possível.

Isso ajuda a explicar por que os momentos bons de um relacionamento abusivo são lembrados como extraordinários, muito acima do que seriam se tivessem acontecido em um vínculo estável. Eles chegaram depois de dias de tensão, quando o corpo já não esperava mais. O contraste inflou o valor subjetivo daquele carinho. E o cérebro guardou a associação.

Taquicardia lida como paixão: a excitação mal atribuída

Existe um segundo mecanismo, mais antigo na literatura e igualmente revelador. Em um estudo hoje clássico, participantes que atravessaram uma ponte suspensa instável avaliaram como mais atraente a pessoa que os abordou do outro lado, em comparação com participantes que atravessaram uma ponte firme [6]. A explicação é que o corpo produziu ativação fisiológica por causa do risco, e a mente atribuiu essa ativação à pessoa que estava na frente.

Transporte isso para anos de convivência com alguém imprevisível. O coração acelerado antes de uma conversa, o estômago fechado ao ouvir a chave na porta, a insônia esperando a resposta de uma mensagem: tudo isso é ativação autonômica gerada por ameaça. Só que ela acontece na presença da pessoa amada, todos os dias, durante muito tempo. O aprendizado que se consolida é perverso na sua simplicidade. Onde há taquicardia, há amor. Onde não há taquicardia, não há amor.

Quando você finalmente encontra alguém que não te assusta, o corpo fica quieto. E a mente, treinada com a régua errada, traduz esse silêncio como desinteresse.

Vínculo traumático: a intermitência é o ingrediente ativo

O termo vínculo traumático descreve exatamente esse apego que se forma em relações marcadas por desequilíbrio de poder e maus-tratos intermitentes. Pesquisas com mulheres que viveram violência por parceiro íntimo mostraram que o apego emocional ao agressor não era explicado apenas pela gravidade da violência, mas de forma importante pela intermitência dela, ou seja, pela alternância entre agressão e afeto [1][2]. Curiosamente, foi entre as mulheres que sofreram violência mais grave e mais intermitente que se observou maior apego, incluindo maior chance de retorno após a separação.

Isso desmonta a ideia de que quem fica ou quem sente falta é quem sofreu menos. Muitas vezes é o contrário. A intensidade do vínculo cresce com a intensidade do ciclo, não apesar dela.

Apego funciona nos mesmos circuitos da dependência

Uma revisão influente propôs que o apego social opera sobre a mesma maquinaria neural das dependências químicas, envolvendo dopamina, opioides endógenos e ocitocina [7]. Mais tarde, estudos de neuroimagem em pessoas que haviam sido rejeitadas recentemente por um parceiro amoroso mostraram ativação de regiões associadas a recompensa, motivação e craving, as mesmas descritas em quadros de dependência [5].

Ou seja, quando você sente uma vontade quase física de mandar mensagem para alguém que te machucou, você não está sendo fraca nem incoerente. Você está atravessando um estado neurobiológico com semelhanças reais aos estados de abstinência. Isso não é metáfora motivacional, é descrição de circuito.

O que você sente e o que está acontecendo por trás
O que você percebe Mecanismo descrito na literatura
“A calma me dá angústia, sinto que algo vai acontecer” Hipervigilância mantida e ausência de aprendizado consolidado de segurança [16][18]
“Sinto falta dele mesmo sabendo o que ele fez” Vínculo traumático reforçado pela intermitência do afeto [1][2]
“Tenho vontade física de mandar mensagem” Ativação de circuitos de recompensa e craving após a ruptura [5][7]
“Pessoa boa não me atrai, falta química” Excitação fisiológica aprendida como sinal de amor, por atribuição equivocada [6]
“Os momentos bons dele eram inesquecíveis” Erro de predição de recompensa amplificado pela imprevisibilidade [3][4]
“Nada mais me dá prazer, nem o que eu amava” Anedonia e embotamento afetivo, sintomas associados ao trauma [8][9][17]
“Estou exausta mesmo sem estar acontecendo nada” Custo acumulado da ativação crônica do estresse, a carga alostática [11][12]

Por que a calma vira tédio, e não alívio

Se a explicação parasse na dopamina, faltaria uma peça. Afinal, por que o organismo não comemora quando o perigo acaba? Aqui entram dois processos complementares.

O primeiro é a habituação, uma das formas mais básicas de aprendizado que existem, descrita em praticamente todas as espécies estudadas. Quando um estímulo se repete, a resposta a ele diminui progressivamente [14]. O corpo que conviveu por anos com gritos, portas batendo e ameaças passou a precisar de um volume alto de estimulação para registrar que algo está acontecendo. Um jantar tranquilo simplesmente não atinge esse limiar. Não é que você despreze o jantar tranquilo. É que ele não aparece no radar que foi calibrado para tempestades.

O segundo é o custo fisiológico da adaptação. Os sistemas de estresse existem para nos proteger em situações agudas, mas quando são acionados de forma repetida e prolongada, a própria proteção passa a desgastar o organismo. Esse acúmulo de desgaste é o que a literatura chama de carga alostática [11][12]. Situações de ameaça social, especialmente aquelas em que a pessoa é avaliada e julgada por outro, estão entre as que mais elevam o cortisol de forma sustentada [13]. Um sistema nesse estado não fica pronto para desfrutar. Ele fica pronto para reagir.

Sobre o tédio em si, vale uma correção conceitual útil. A pesquisa sobre o tema propõe que o tédio não é falta de coisas para fazer, mas um estado em que a pessoa quer se engajar e não consegue direcionar a atenção de forma satisfatória, atribuindo o problema ao ambiente [15]. Isso muda o diagnóstico da situação. Quando você diz que a vida em paz está sem graça, o mais provável não é que a paz seja entediante. É que a sua capacidade de sustentar atenção e extrair sentido de estímulos suaves ainda está prejudicada.

Tédio comum, paz que incomoda e anedonia: como diferenciar
Critério Tédio comum Paz que incomoda após abuso Anedonia clínica
O que dispara Situação monótona pontual Ausência de conflito e de imprevisibilidade Independe do contexto, é generalizada
Corpo Neutro, inquieto Alerta, aguardando algo ruim Apático, sem impulso para buscar
Prazer preservado? Sim, basta mudar de atividade Parcial, sente mas com volume baixo Reduzido de forma persistente
Duração Minutos a horas Semanas a meses, com tendência a ceder Duas semanas ou mais, de forma contínua
Relação com o vínculo antigo Nenhuma Comparação constante com a intensidade anterior Perde o interesse até por assuntos alheios ao vínculo
O que costuma ajudar Trocar de estímulo Tempo, informação, rotina previsível e apoio [14][16] Avaliação profissional e plano de tratamento [8][10]

Este tema também está no Instagram do Dr. Anderson Contaifer, em formato visual:

Quando não é tédio, é anedonia

Existe um ponto em que o desconforto com a calma deixa de ser recalibração e passa a ser sintoma. Anedonia é a redução da capacidade de sentir prazer, e ela não se limita a quadros depressivos. Uma revisão sistemática sobre funcionamento da recompensa em transtorno de estresse pós-traumático encontrou alterações consistentes, sobretudo na fase de antecipação do prazer, ou seja, na expectativa de que algo bom possa acontecer [8]. Análises mais recentes descrevem a anedonia como um fenótipo relevante nesses quadros, com circuitos próprios e implicações para o tratamento [9].

A literatura sobre anedonia também mostra que ela não é uma coisa só. É útil separar o prazer de consumar uma experiência do impulso de buscá-la, porque os dois podem estar afetados de forma diferente [10]. Muita gente que se descreve como incapaz de sentir prazer, na verdade, ainda sente quando a experiência acontece, mas perdeu a motivação para ir atrás dela. Essa distinção tem valor prático: o caminho de recuperação passa mais por retomar a ação do que por esperar a vontade voltar sozinha.

Há ainda o embotamento afetivo, descrito há décadas na literatura de trauma como uma redução da reatividade emocional que atinge principalmente as emoções positivas, poupando relativamente as negativas [17]. Isso explica um relato que ouço com frequência no consultório: a pessoa continua sentindo medo, culpa e raiva com toda a força, mas alegria e ternura chegam abafadas. Não é indiferença. É proteção que ficou ligada tempo demais.

A segurança também precisa ser aprendida

Uma parte importante da recuperação depende de um processo que a neurociência descreve bem: a extinção do medo. Aprender que algo é perigoso é rápido. Aprender que aquilo deixou de ser perigoso é lento e depende de repetição, e envolve o córtex pré-frontal medial sinalizando a memória de segurança adquirida [16]. O detalhe que importa aqui é que essa memória de segurança não apaga a memória de ameaça. Ela é construída por cima e compete com a antiga.

Traduzindo para a sua rotina: cada dia em que nada de ruim acontece é uma repetição depositada nessa conta. No começo, o depósito parece não render nada, e a sensação de que a tempestade está para chegar continua. Com o tempo e com consistência, o novo aprendizado começa a vencer. É por isso que estabilidade e previsibilidade, que soam entediantes no papel, são justamente o tratamento comportamental do problema, e não o problema em si.

Quando esses sintomas se organizam de forma persistente, com dificuldade de regulação emocional, visão negativa de si mesma e problemas para se relacionar, a classificação atual reconhece um quadro específico, o TEPT-C, descrito na CID-11 e revisado na literatura médica de alto impacto [18]. Reconhecer que existe um nome e um corpo de evidências por trás do que você sente costuma ser, por si só, um alívio importante.

O que mantém o ciclo e o que ajuda a recalibrar
Alimenta a sensação de vazio Ajuda a recalibrar
Checar redes sociais dele, manter contato “só de vez em quando” Reduzir de forma consistente a exposição aos gatilhos, para permitir a extinção [16]
Esperar a vontade voltar antes de retomar as atividades Retomar a ação primeiro, mesmo sem vontade, e deixar o prazer vir depois [10]
Buscar substituição imediata com alguém intenso Dar tempo ao sistema de recompensa antes de avaliar química com alguém novo [3][4]
Interpretar a ausência de taquicardia como ausência de amor Aprender a ler outros indicadores de vínculo, como constância e reciprocidade [6]
Rotina irregular, sono desorganizado, isolamento Previsibilidade de horários e retomada gradual do convívio, reduzindo carga alostática [11][12]
Tratar o embotamento como traço de personalidade Tratar como sintoma e levar para avaliação profissional [8][9][17]

O que isso tem a ver com a sua saúde física

Vale insistir em um ponto que costuma ser negligenciado: nada disso acontece só na cabeça. A ativação repetida dos sistemas de estresse tem consequências mensuráveis no corpo, com repercussões cardiovasculares, metabólicas, imunológicas e cognitivas [11][12]. Situações sociais de avaliação e ameaça à imagem, que são o pão de cada dia de um relacionamento abusivo, estão entre os disparadores mais potentes de resposta de cortisol descritos em laboratório [13].

Do lado epidemiológico, uma meta-análise sobre violência por parceiro íntimo encontrou prevalências elevadas de depressão, transtorno de estresse pós-traumático, abuso de substâncias e ideação suicida entre mulheres expostas [20]. Uma revisão sistemática mais recente, focada especificamente no subtipo psicológico da violência, aquele que não deixa marca visível, mostrou associação com desfechos de saúde mental comparáveis aos da violência física [19]. Ou seja, a ausência de agressão física não torna o quadro mais leve.

Há ainda o efeito cumulativo ao longo da vida. O estudo sobre experiências adversas na infância demonstrou relação dose-resposta entre adversidades precoces e as principais causas de adoecimento e morte na vida adulta [21]. Para quem cresceu em ambiente instável e depois viveu um relacionamento abusivo, o padrão de imprevisibilidade não é novidade, é continuidade. Isso ajuda a entender por que, para algumas pessoas, o caos parece familiar de um jeito quase acolhedor. Familiaridade não é sinônimo de segurança, mas o cérebro tende a confundir as duas coisas.

O que ajuda na prática

Não existe atalho, e desconfie de quem prometer um. O que existe é um conjunto de medidas com racional claro. A primeira é entender o que está acontecendo, porque boa parte do sofrimento vem da interpretação moral que a pessoa faz de um fenômeno biológico. Trocar “eu gosto de sofrer” por “meu sistema de recompensa foi treinado com um regime de reforço imprevisível” já muda o que você faz a seguir.

A segunda é proteger o processo de extinção. Cada recontato, cada checagem de perfil, cada conversa “só para resolver uma pendência” reintroduz a incerteza que alimenta o circuito. Isso não é rigidez, é a lógica de como o aprendizado de segurança se consolida [16].

A terceira é agir antes de sentir vontade. Como a antecipação do prazer costuma ser o componente mais afetado [8][10], esperar a motivação voltar sozinha é uma armadilha. Retomar atividades em doses pequenas e regulares, mesmo sem entusiasmo, é o que devolve o entusiasmo com o tempo.

A quarta é dar tempo antes de julgar relações novas. Avaliar a química com alguém estável enquanto a sua régua ainda está calibrada pelo caos é como provar comida logo depois de comer pimenta. O problema não está no prato.

A quinta é cuidar da base fisiológica: sono em horários regulares, alimentação, movimento, redução do consumo de álcool e de estimulantes usados para preencher o vazio. Isso reduz a carga alostática e melhora a capacidade de sustentar atenção, que é justamente o que está prejudicado no estado de tédio [15].

Como a recalibração costuma se organizar ao longo do tempo
Fase O que costuma predominar O que costuma ajudar
Primeiras semanas Inquietação intensa, vontade física de recontato, sono ruim, alerta constante Rede de apoio, rotina previsível, evitar decisões afetivas importantes
Primeiros meses Oscilação entre alívio e vazio, comparação constante, sensação de vida sem cor Retomada gradual de atividades, ação antes da vontade, acompanhamento profissional
Meio do caminho Sustos pontuais e gatilhos, mas dias tranquilos que já não incomodam tanto Manter a consistência, registrar pequenos prazeres que voltaram
Mais adiante A calma deixa de ser vazio e passa a ser lida como descanso Reavaliar com calma o que você quer em uma relação, sem urgência

O tempo de cada fase varia bastante de pessoa para pessoa, e depende da duração da exposição, da rede de apoio disponível, de história prévia de adversidades e de quadros clínicos associados. Não use a tabela como cronograma, use como mapa.

Quando procurar avaliação médica

Estranhar a paz nas primeiras semanas depois de sair de uma relação abusiva é esperado. Alguns sinais, porém, indicam que vale procurar avaliação e não esperar passar sozinho: perda de prazer que se mantém por duas semanas ou mais e atinge áreas variadas da vida, alterações importantes de sono ou de apetite, cansaço que não melhora com repouso, dificuldade de concentração que atrapalha trabalho ou estudo, uso crescente de álcool ou de outras substâncias para preencher o vazio, sintomas físicos persistentes sem explicação clara e, especialmente, qualquer pensamento de morte ou de autolesão.

Se houver pensamentos de tirar a própria vida, procure ajuda imediatamente. No Brasil, o CVV atende gratuitamente pelo telefone 188, todos os dias e a qualquer hora, e também por chat no site cvv.org.br. Em situação de emergência, procure o serviço de urgência mais próximo ou ligue 192.

Uma avaliação médica ajuda a diferenciar o que é recalibração esperada do que é quadro clínico que merece tratamento, e a investigar causas físicas que se sobrepõem a esse cenário, como alterações de tireoide, anemia, deficiências nutricionais e distúrbios do sono, que também cursam com cansaço e perda de interesse. Diagnóstico não se faz por texto na internet, nem à distância. O que este artigo pode fazer é te dar vocabulário para descrever o que sente e critérios para decidir quando buscar ajuda.

Perguntas frequentes

É normal sentir falta do abusador mesmo sabendo tudo que ele fez?
Sim, e isso está descrito na literatura. O apego que se forma em relações com maus-tratos intermitentes tende a ser mais intenso justamente quando a alternância entre agressão e afeto é maior [1][2]. Além disso, estudos de neuroimagem mostram que a rejeição amorosa recente ativa circuitos de recompensa e craving semelhantes aos observados em quadros de dependência [5]. Sentir falta não significa que a relação era boa nem que você deveria voltar.

Por que relacionamentos saudáveis me parecem sem graça?
Porque a sua régua de intensidade foi calibrada por um regime de imprevisibilidade, que é o cenário que mais mobiliza o sistema de recompensa [3][4]. Um vínculo estável não produz os picos aos quais o seu organismo se acostumou, e a mente traduz essa ausência de picos como ausência de interesse. Com o tempo e com exposição consistente à estabilidade, a régua tende a se reajustar.

Isso significa que eu gosto de sofrer?
Não. Não existe base científica para essa leitura. O que existe é um processo de aprendizado associativo em que ativação fisiológica gerada por medo foi repetidamente pareada com a presença da pessoa amada, o que leva a interpretar taquicardia e ansiedade como sinais de conexão [6]. É um erro de leitura instalado pelo ambiente, não um traço de caráter.

Quanto tempo demora para a paz voltar a ser boa?
Varia bastante e não existe prazo único. O aprendizado de segurança depende de repetição e é construído por cima da memória de ameaça, sem apagá-la [16], o que explica por que a melhora costuma ser gradual e com oscilações. Duração da exposição, rede de apoio, história prévia e quadros clínicos associados influenciam esse tempo.

Como sei se é só recalibração ou se já é depressão?
Um bom parâmetro é a abrangência e a duração. O desconforto com a calma tende a ser específico, ligado à comparação com a relação anterior, e a ceder com o tempo. Perda de prazer que se mantém por duas semanas ou mais, atinge áreas variadas da vida e vem acompanhada de alterações de sono, apetite, energia e concentração merece avaliação [8][9]. Somente uma consulta permite essa diferenciação.

Por que eu me sinto vazia e não aliviada depois de sair?
Porque o organismo ainda está operando em modo de alerta e porque houve habituação a um nível alto de estimulação [14]. Estímulos suaves deixam de atingir o limiar necessário para serem registrados como recompensa. Some-se a isso o desgaste acumulado dos sistemas de estresse, a carga alostática, que reduz a disponibilidade para desfrutar [11][12].

Devo forçar um relacionamento novo para me distrair?
Não é recomendável usar um vínculo novo como analgésico. Enquanto a régua de intensidade ainda está calibrada pelo caos, a avaliação sobre química tende a ser distorcida, e o risco de reproduzir o padrão antigo aumenta. Dar tempo ao sistema de recompensa antes de julgar uma relação nova é uma decisão prudente [3][4].

Perdi a vontade até de coisas que eu amava. Isso volta?
A literatura distingue o prazer de consumar uma experiência do impulso de buscá-la, e essas dimensões podem estar afetadas de forma diferente [10]. Muitas pessoas ainda sentem prazer quando a atividade acontece, mas perderam a motivação para iniciar. Por isso a estratégia costuma ser retomar a ação em doses pequenas antes de esperar a vontade voltar. A evolução depende de cada caso e deve ser acompanhada.

Sinto medo e raiva com toda a força, mas alegria chega abafada. Por quê?
Esse padrão é descrito como embotamento afetivo, uma redução da reatividade emocional que atinge sobretudo as emoções positivas, preservando relativamente as negativas [17]. É um sintoma associado a quadros de trauma, não uma característica da sua personalidade, e por isso deve ser levado para avaliação em vez de aceito como definitivo.

Isso pode adoecer meu corpo, e não só minha cabeça?
Sim. A ativação crônica dos sistemas de estresse tem repercussões cardiovasculares, metabólicas, imunológicas e cognitivas [11][12], e ameaças sociais repetidas estão entre os disparadores mais potentes de cortisol [13]. Estudos populacionais mostram associação entre violência por parceiro íntimo e desfechos como depressão, estresse pós-traumático e uso de substâncias [20], inclusive no subtipo psicológico, sem agressão física [19].

Cresci em uma casa instável. Isso tem relação?
Pode ter. O estudo sobre experiências adversas na infância mostrou relação dose-resposta entre adversidades precoces e desfechos de saúde na vida adulta [21]. Para quem cresceu em ambiente imprevisível, o caos tende a soar familiar, e familiaridade é frequentemente confundida com segurança. Reconhecer essa história ajuda a entender o padrão sem transformá-lo em sentença.

Referências científicas

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  2. Dutton DG, Painter S. The Battered Woman Syndrome: Effects of Severity and Intermittency of Abuse. American Journal of Orthopsychiatry. 1993. DOI: 10.1037/h0079474
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  20. Golding JM. Intimate Partner Violence as a Risk Factor for Mental Disorders: A Meta-Analysis. Journal of Family Violence. 1999. DOI: 10.1023/A:1022079418229
  21. Felitti VJ, Anda RF, Nordenberg D, et al. Relationship of Childhood Abuse and Household Dysfunction to Many of the Leading Causes of Death in Adults (ACE Study). American Journal of Preventive Medicine. 1998. DOI: 10.1016/S0749-3797(98)00017-8

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Sobre o autor

Dr. Anderson Contaifer de Carvalho é médico especialista em Clínica Médica (CRM-SC 24.484 | RQE 18.790), formado pela EMESCAM em 2012, com título de especialista em clínica médica pela SBCM em 2019. Possui pós-graduação em Saúde da Família, Nutrologia e Medicina Intensiva, além de certificações ACLS e ATLS. É o criador do Quebrando as Algemas, programa dedicado à recuperação de vítimas de abuso narcisista, médico com atuação nas repercussões clínicas e emocionais de relacionamentos abusivos. Certificado Excelência Doctoralia 2025.

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