Abuso psicológico pode causar estresse pós-traumático sem violência física? O que mostra uma revisão de 2025

Abuso psicológico pode causar estresse pós-traumático sem violência física? O que mostra uma revisão de 2025
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Dr. Anderson Contaifer

Médico · CRM-SC 24.484 · Especialista em Clínica Médica · RQE 18.790. Graduado pela EMESCAM em 2012, com título de especialista em Clínica Médica pela Sociedade Brasileira de Clínica Médica (SBCM), em 2019. Atende adultos exclusivamente por teleconsulta, com avaliação individual das repercussões físicas e emocionais de relacionamentos abusivos e do estresse prolongado. Criador do Programa Quebrando as Algemas e de conteúdo educativo sobre relacionamentos abusivos, limites e autocuidado.

Informação para entender relações abusivas e cuidar da sua saúde

Dr. Anderson Contaifer (CRM-SC 24.484, RQE de Clínica Médica 18.790), médico especialista em Clínica Médica e criador do blog Quebrando as Algemas, atende por teleconsulta pessoas com sequelas de abuso narcisista e TEPT-C em todo o Brasil.

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Resposta rápida

Em parte das pessoas, sim. Uma revisão sistemática de 2025, feita na York University (Canadá), reuniu os estudos sobre problemas do relacionamento que não entram no Critério A do DSM-5, a lista de eventos aceitos para diagnosticar TEPT. Nos três estudos sobre abuso psicológico, com participantes que negavam violência física ou sexual, o abuso se associou a mais sintomas de estresse pós-traumático. A base ainda é pequena e medida por questionários, então não muda o diagnóstico oficial, mas mostra que esses sintomas merecem avaliação séria.

Agradecimento especial

Obrigado, Ashley Siegel

A revisão explicada neste artigo foi enviada ao Dr. Anderson por Ashley Siegel, doutoranda em Psicologia Clínica no Departamento de Psicologia da York University, em Toronto (Canadá). Ela divide a primeira autoria do trabalho com Elizabeth A. Earle e é a autora de contato da equipe. Quando o Dr. Anderson escreveu pedindo o texto completo para estudá-lo, ela respondeu no dia seguinte, com o artigo e palavras de incentivo ao trabalho feito aqui. Estendemos o agradecimento a Elizabeth A. Earle, a Skye Fitzpatrick e a toda a equipe da York University e da Toronto Metropolitan University. Fica o nosso agradecimento especial pela gentileza e pela generosidade de compartilhar ciência de qualidade com quem cuida de sobreviventes de relações abusivas no Brasil. Este texto é a nossa forma de levar o trabalho delas a mais pessoas. Thank you, Ashley, for your kindness and generosity.

“Mas ele nunca me bateu.” Ela repete essa frase como motivo para não reclamar. Foram anos de críticas diárias, de silêncio como castigo, de ameaças de ir embora e de humilhação na frente dos outros. Meses depois do fim, ela ainda pula quando uma porta bate, acorda de madrugada com cenas da relação passando na cabeça e muda de calçada para não passar perto do prédio dele. Quando foi pesquisar, leu que estresse pós-traumático é coisa de guerra, acidente ou assalto, e concluiu: “então não é isso, eu estou exagerando”.

Este artigo explica o que uma revisão sistemática de 2025 encontrou sobre essa dúvida: abuso psicológico, traição e separação podem deixar sintomas de estresse pós-traumático mesmo sem violência física nem ameaça de morte? E o que isso muda na prática.

O que é o Critério A, em linguagem simples

O DSM-5-TR é o manual de classificação da Associação Americana de Psiquiatria, muito usado em pesquisas no mundo todo. Para diagnosticar transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), ele exige uma porta de entrada chamada Critério A: a pessoa precisa ter sido exposta a morte real ou ameaça de morte, a ferimento grave ou a violência sexual. Essa exposição pode ser vivida na própria pele, presenciada, ficar sabendo que aconteceu com alguém muito próximo, ou vir do contato repetido com detalhes chocantes de um trauma, como acontece com socorristas.

Humilhação constante, controle, chantagem emocional, traição e divórcio ficam fora dessa lista, desde que não envolvam ameaça de morte, agressão grave ou violência sexual. Os autores da revisão chamam essas experiências de estressores “não Critério A”. Um detalhe importante: se, no meio do abuso psicológico, houve ameaça de morte (“eu te mato”, “você não sai viva daqui”) ou violência sexual, isso já entra no Critério A. Muita gente minimiza essas frases na hora de contar.

Existe um debate antigo sobre o tamanho dessa porta. Quem defende um Critério A estreito teme que fique difícil separar sofrimento comum de doença. Quem defende ampliar argumenta que importa a gravidade dos sintomas, não o rótulo do evento. A revisão cita um estudo com 832 pessoas em que eventos considerados “não traumáticos”, como problemas no relacionamento, geraram pelo menos tantos sintomas quanto os traumáticos.

E a CID-11, da Organização Mundial da Saúde? Ela também pede, para o TEPT, um evento ou uma série de eventos extremamente ameaçadores ou horríveis, e descreve o TEPT complexo depois de eventos prolongados ou repetidos dos quais é difícil ou impossível escapar. Se um abuso psicológico prolongado se encaixa nessa definição é algo avaliado caso a caso, na consulta. Explicamos as diferenças entre as duas classificações em TEPT-C está no DSM-5?

No vídeo abaixo, o Dr. Anderson explica os sinais de TEPT-C que aparecem depois de uma relação abusiva:

O que o estudo fez

Elizabeth A. Earle, Ashley Siegel e colegas da York University e da Toronto Metropolitan University, no Canadá, publicaram em 2025, no Journal of Trauma & Dissociation, uma revisão sistemática. Nesse tipo de estudo, os pesquisadores procuram, com regras definidas e registradas antes (no PROSPERO), todos os estudos publicados sobre uma pergunta e analisam o conjunto. Já tínhamos citado esta revisão de passagem no guia sobre relacionamento abusivo; aqui ela é explicada em detalhe.

A pergunta foi: com que frequência e com que intensidade aparecem sintomas de estresse pós-traumático em adultos que viveram problemas no relacionamento amoroso que não se encaixam no Critério A? A busca foi feita em fevereiro de 2022, em três bases científicas (PsycInfo, Scopus e PubMed). Entraram estudos quantitativos, com maioria de adultos, que mediram sintomas pós-traumáticos ligados a um estressor entre parceiros fora do Critério A. Ficaram de fora os estudos em que não dava para separar esse estressor de um evento do Critério A.

Etapa Número
Registros encontrados nas três bases 3.257
Artigos únicos, depois de tirar duplicados 2.060
Artigos lidos na íntegra 332
Estudos incluídos na revisão 9
Sobre conflito no relacionamento ou divórcio 4
Sobre infidelidade 2
Sobre abuso psicológico do parceiro 3
Desenho dos estudos 8 transversais (um único momento) e 1 de tratamento

O que a revisão encontrou

Abuso psicológico sem violência física ou sexual

Nos três estudos sobre abuso psicológico, os participantes do grupo analisado negavam violência física ou sexual, atual ou passada. Ou seja, o abuso era psicológico, sem ameaça de morte ou de ferimento grave.

Estudo Quem participou O que encontrou
Coker e colegas, 2002 Mulheres de 18 a 65 anos da comunidade: 1.152 no total, 136 no grupo só com abuso psicológico O abuso psicológico se associou a sintomas pós-traumáticos, com efeito que os autores da revisão classificaram como moderado (d = 0,47)
Começanha e colegas, 2017 364 universitários, cerca de 76% mulheres, quase todos portugueses Associação de moderada a grande entre abuso psicológico e sintomas pós-traumáticos (β = 0,51)
Chookolingo, 2016 Universitários: 153 no total, 65 no grupo de abuso psicológico Efeito pequeno, mas estatisticamente significativo, nas mulheres; 28,8% ficaram acima do ponto de corte de provável TEPT

Juntando os três, os autores concluem que o abuso psicológico, sozinho, é um preditor moderado de sintomas de estresse pós-traumático, e que talvez não seja tão forte quanto a violência física e a sexual. O estudo português resume a ideia no próprio título: “clinicamente falando, o abuso psicológico importa”.

Divórcio, conflito e infidelidade

Nos estudos sobre separação, a média dos sintomas ficou abaixo do ponto de corte dos questionários, mas uma parte importante das pessoas passou dele. Num estudo sobre divórcio nos últimos 12 meses, 39,2% dos participantes atingiram o nível de provável TEPT. Num estudo com universitários que viveram infidelidade, 45,2% ficaram acima do limiar. Esses estudos não informaram o tamanho do efeito.

O único estudo de tratamento, com 29 casais que passaram por infidelidade, encontrou melhora maior dos sintomas no grupo que recebeu terapia de aceitação e compromisso combinada com terapia cognitiva baseada em mindfulness. É um estudo pequeno, e não testou abuso psicológico.

O quadro geral

Somando os nove estudos, cerca de metade dos participantes chegou ao ponto de corte de provável TEPT, embora as médias costumassem ficar abaixo dele. Os autores lembram que isso se parece com o que acontece depois de eventos do Critério A: segundo um estudo citado por eles, 89,7% da população geral passa por um evento desses na vida, mas só cerca de 8,1% desenvolve TEPT. A leitura dos autores é que a maioria das pessoas se recupera nos dois cenários, mas uma parte considerável desenvolve sintomas importantes, com ou sem Critério A.

Por que um abuso sem agressão física pode deixar sintomas de trauma

A revisão não testou mecanismos, mas os autores discutem hipóteses que ajudam a entender o que muitos sobreviventes descrevem:

  • Traição de quem deveria proteger. Traumas causados de propósito, por alguém de confiança, costumam pesar mais do que acidentes ou agressões de estranhos. No relacionamento amoroso, o vínculo e a intimidade tornam essa quebra de confiança ainda mais dolorosa.
  • Crenças que se quebram. Depois do abuso, surgem pensamentos como “não dá para confiar em ninguém”, “eu devo ter merecido” ou “não sou digna de amor”. Essas crenças mantêm os sintomas e levam a evitar intimidade com novos parceiros.
  • Corpo em alerta. Quem viveu abuso psicológico pode ficar muito sensível a qualquer sinal de crítica, ruminar por horas e vigiar sinais de mentira, rejeição ou abandono. Esse estado de estresse crônico aparece como tensão muscular, coração acelerado e sono ruim.

No vídeo abaixo, o Dr. Anderson fala sobre como sair do estado de hipervigilância depois do abuso:

No Instagram, o Dr. Anderson resume por que a violência que não deixa hematoma também adoece:

O que esse estudo não diz

  • Não muda o diagnóstico oficial. Pelo DSM-5-TR, o diagnóstico formal de TEPT continua exigindo um evento do Critério A. A revisão mostra que a questão merece mais pesquisa, não que a regra mudou.
  • Não prova causa. Oito dos nove estudos mediram tudo num único momento. Eles mostram associação, não o que veio antes.
  • A base é pequena. Foram só nove estudos, e apenas três sobre abuso psicológico. A busca foi feita em fevereiro de 2022. Os próprios autores dizem que o número reduzido deve estimular novas pesquisas, e não conclusões definitivas.
  • Sintoma medido por questionário não é diagnóstico. Os estudos usaram questionários de autorrelato, e não a entrevista clínica, que é o padrão-ouro. Cada estudo usou um instrumento e um ponto de corte diferentes, e vários foram feitos com critérios antigos (DSM-IV).
  • Nem sempre ficou claro a qual evento a pessoa respondia. Parte dos sintomas pode vir de outras experiências, inclusive traumas não contados.
  • Pode haver mistura com depressão e ansiedade. Insônia, dificuldade de concentração, desânimo e crenças negativas sobre si aparecem também nesses quadros. Os autores reconhecem que parte do que foi medido pode ser sofrimento emocional mais geral, e não algo específico de trauma.
  • Amostras variadas e pouco representativas. Muitos participantes eram universitários, e nenhum estudo foi feito no Brasil. Não dá para estimar quantas pessoas que vivem abuso psicológico terão TEPT.

O que isso muda na prática

Para quem viveu

  • Sua dor não precisa de hematoma para ser levada a sério. Reviver cenas, evitar lugares e pessoas, viver em alerta e dormir mal depois de uma relação abusiva são sintomas que merecem avaliação, mesmo que nunca tenha havido agressão física.
  • Conte tudo na avaliação, inclusive as ameaças. Frases como “eu te mato” e situações de sexo forçado ou sem consentimento costumam ser minimizadas por quem viveu, e mudam a forma como o quadro é entendido.
  • Medir ajuda, mas não substitui a consulta. Um questionário pode organizar o que você sente, como o nosso questionário de TEPT-C baseado no ITQ, mas o diagnóstico é clínico.
  • Tratamento focado em trauma. Quando os sintomas se parecem com os do TEPT, os autores sugerem que o profissional considere tratamentos focados em trauma. As abordagens indicadas para TEPT e TEPT complexo são EMDR, Brainspotting e terapia cognitivo-comportamental focada no trauma. Ainda faltam estudos que comparem as opções nesse grupo específico.
  • Avaliação médica dos efeitos no corpo. Insônia, coração acelerado, tensão muscular e dores fazem parte do quadro e também têm cuidado.

Para familiares e profissionais

  • Evite o “mas ele nunca te bateu”. A ausência de violência física não mede o tamanho do sofrimento. Acreditar e acolher faz diferença, como explicamos em vitimização secundária.
  • Profissionais de saúde: os autores recomendam perguntar ativamente por sintomas pós-traumáticos nesses casos e considerar tratamento focado em trauma quando o quadro se parecer com TEPT, diferenciando de depressão e ansiedade.
  • Violência psicológica tem nome na lei. No Brasil, a Lei Maria da Penha reconhece a violência psicológica como forma de violência doméstica. O Ligue 180 orienta mulheres em situação de violência, e o 190 atende emergências. Veja também como pedir medida protetiva.

No Instagram, o Dr. Anderson explica por que a violência psicológica é violência, inclusive para a lei:

Perguntas frequentes

Abuso psicológico pode causar estresse pós-traumático?

Pode se associar a sintomas de estresse pós-traumático em parte das pessoas. Uma revisão sistemática de 2025 encontrou três estudos com pessoas que viveram abuso psicológico sem violência física ou sexual, e nos três o abuso se associou a mais sintomas. Como quase todos os estudos foram feitos num único momento, eles mostram associação, não causa.

O que é o Critério A do DSM-5?

É a exigência de exposição a morte real ou ameaça de morte, ferimento grave ou violência sexual, vivida, presenciada, sabida de alguém próximo ou por contato repetido com detalhes chocantes. Sem ele, o DSM-5-TR não permite o diagnóstico formal de TEPT.

Se nunca houve violência física, posso ter TEPT?

Depende do que aconteceu. Ameaças de morte e violência sexual entram no Critério A mesmo sem agressão física. Quando não houve nada disso, o diagnóstico formal de TEPT pelo DSM-5-TR não se aplica, mas os sintomas continuam reais, merecem avaliação e podem ser tratados. Na CID-11, o enquadramento é avaliado caso a caso.

Traição e divórcio podem dar sintomas de estresse pós-traumático?

Em parte das pessoas, sim: 39,2% passaram do ponto de corte de provável TEPT num estudo sobre divórcio recente, e 45,2% num estudo sobre infidelidade. As médias ficaram abaixo do ponto de corte, e a medida foi por questionário.

Qual tratamento é indicado nesses casos?

Quando o quadro se parece com TEPT, os autores sugerem considerar tratamentos focados em trauma, como EMDR, Brainspotting e terapia cognitivo-comportamental focada no trauma. Sono e sintomas no corpo também merecem cuidado médico. Ainda faltam estudos comparando opções nesse grupo.

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Referências científicas

  1. Earle EA, Siegel A, Tissera T, Hernandez KM, Di Bartolomeo AA, Ip J, Fitzpatrick S. The impact of non-Criterion A traumas in intimate relationships on posttraumatic stress symptoms: a systematic review. Journal of Trauma & Dissociation. 2025;26(4):469-490. (DOI: 10.1080/15299732.2025.2503713)
  2. American Psychiatric Association. Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders. 5th ed., text revision (DSM-5-TR). 2022. (DOI: 10.1176/appi.books.9780890425787)
  3. Kilpatrick DG, Resnick HS, Acierno R. Should PTSD Criterion A be retained? Journal of Traumatic Stress. 2009;22(5):374-383. (DOI: 10.1002/jts.20436)
  4. Marx BP, Hall-Clark B, Friedman MJ, Holtzheimer P, Schnurr PP. The PTSD Criterion A debate: a brief history, current status, and recommendations for moving forward. Journal of Traumatic Stress. 2024;37(1):5-15. (DOI: 10.1002/jts.23007)
  5. Começanha R, Basto-Pereira M, Maia A. Clinically speaking, psychological abuse matters. Comprehensive Psychiatry. 2017;73:120-126. (DOI: 10.1016/j.comppsych.2016.11.015)
  6. World Health Organization. International Classification of Diseases, 11th Revision (ICD-11): 6B40 Post traumatic stress disorder; 6B41 Complex post traumatic stress disorder. Geneva: WHO; 2022.

Conteúdo educativo, não substitui avaliação individual. Em situação de risco, ligue 190; para orientação sobre violência contra a mulher, Ligue 180; para apoio emocional, CVV 188.

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Sobre o autor

Dr. Anderson Contaifer de Carvalho
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