Dr. Anderson Contaifer (CRM-SC 24.484, RQE de Clínica Médica 18.790), médico especialista em Clínica Médica e criador do blog Quebrando as Algemas, atende por teleconsulta pessoas com sequelas de abuso narcisista e TEPT-C em todo o Brasil.
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Resposta rápida
“TEPT relacional” é o nome que pesquisadores usam para o estresse pós-traumático que surge depois de um trauma causado por outra pessoa, como abuso e violência, em oposição ao que surge depois de acidentes ou desastres. Não é um diagnóstico oficial. Uma metanálise italiana de 2026, com 189 estudos, mostrou que a dissociação pesa mais no TEPT relacional e no TEPT complexo (TEPT-C) do que no trauma sem agressor. O TEPT-C ainda se destacou por mais dificuldade nas formas saudáveis de lidar com as emoções.
Agradecimento especial
Obrigado, Dr. Marco Cavicchioli
O estudo explicado neste artigo foi enviado ao Dr. Anderson pelo pesquisador Marco Cavicchioli, do Departamento de Psicologia Dinâmica e Clínica e Estudos em Saúde da Faculdade de Medicina e Psicologia da Universidade Sapienza de Roma e da Faculdade de Psicologia da Sigmund Freud University de Milão (Itália), primeiro autor e autor responsável pelo trabalho. Quando o Dr. Anderson escreveu pedindo o texto completo para estudá-lo, ele compartilhou o artigo com generosidade. Fica aqui o nosso agradecimento especial pela gentileza de levar ciência de qualidade a quem cuida de sobreviventes de abuso e violência no Brasil. Este texto é a nossa forma de fazer o trabalho da equipe chegar a mais pessoas. Thank you, Dr. Cavicchioli, for your kindness and generosity.
Duas pessoas chegam à mesma conversa com o mesmo rótulo, “estresse pós-traumático”. A primeira sofreu um acidente de carro grave há um ano: não para de repassar a cena, se preocupa o tempo todo com o que poderia ter acontecido e evita a estrada. A segunda passou anos ao lado de alguém que humilhava, controlava e ameaçava. Ela conta que, no meio das brigas, “saía do ar”: via tudo de longe, não sentia o corpo, e depois não lembrava direito do que tinha sido dito.
O nome é parecido, mas o funcionamento por dentro pode ser bem diferente. Uma metanálise publicada em 2026 no Journal of Affective Disorders reuniu 189 estudos para responder isso: o trauma causado por outra pessoa deixa um padrão diferente do trauma sem agressor? E onde entra o TEPT complexo? Este artigo explica o que foi encontrado e o que pode mudar no cuidado.
Antes de tudo: os termos, em linguagem simples
TEPT (transtorno de estresse pós-traumático) é um quadro que pode surgir depois de um acontecimento extremamente ameaçador ou horrível. Na CID-11, a classificação de doenças da Organização Mundial da Saúde, ele tem três grupos de sintomas: reviver o trauma no presente (flashbacks, pesadelos), evitar o que lembra o trauma e viver em alerta, com sensação de ameaça atual.
TEPT complexo (TEPT-C) é um diagnóstico próprio da CID-11. Além dos três grupos do TEPT, ele exige outros três, chamados de distúrbios da auto-organização: dificuldade importante para regular as emoções, uma visão de si persistentemente negativa (sentir-se sem valor, fracassada, “quebrada”) e dificuldade para manter relações e se sentir próxima dos outros. Ele costuma aparecer depois de traumas repetidos e prolongados, dos quais era difícil ou impossível escapar. Explicamos as diferenças em detalhe em TEPT-C vs TEPT clássico e por que o DSM-5 não usa esse nome em TEPT-C está no DSM-5?.
No Instagram, o Dr. Anderson explica como o abuso longo pode mexer na identidade e por que isso tem nome na CID-11:
DESNOS (“transtornos de estresse extremo não especificados”) foi uma proposta dos anos 1990, durante a preparação do DSM-IV, apoiada em descrições clínicas como as de Judith Herman (1992). É uma precursora do TEPT-C, e no estudo as duas aparecem no mesmo grupo.
TEPT relacional e TEPT não relacional são agrupamentos usados pelos pesquisadores, não diagnósticos oficiais. “Relacional” é quando o trauma foi causado de propósito por outra pessoa: violência física ou sexual, abuso, maus-tratos, violência por parceiro. “Não relacional” é quando o trauma não teve um agressor, como um desastre natural ou um acidente.
Dissociação é quando o cérebro “desliga” parte da experiência para tornar suportável o que não dá para enfrentar nem evitar. Pode aparecer como sensação de estar fora do próprio corpo (despersonalização), de que o mundo ficou irreal (desrealização), buracos na memória, anestesia emocional ou dores e sensações físicas sem explicação. O guia completo está em dissociação e despersonalização depois do abuso narcisista, que cita este estudo em poucas linhas. Aqui, olhamos o estudo por inteiro.
Regulação emocional é o conjunto de formas, conscientes ou automáticas, que usamos para lidar com o que sentimos. O estudo dividiu essas formas em três famílias:
- Desligamento: se distrair, evitar situações, evitar sentir, engolir a emoção.
- Ficar preso no pensamento negativo: ruminar (repassar a mesma cena sem parar), se preocupar o tempo todo, não conseguir aceitar o que sente.
- Engajamento saudável: resolver problemas, enxergar a situação de outro ângulo (reavaliação) e prestar atenção ao presente sem julgamento (atenção plena).
No vídeo abaixo, o Dr. Anderson mostra os sinais que costumam aparecer no TEPT-C depois de um relacionamento abusivo:
O que o estudo fez
Marco Cavicchioli e colegas da Universidade Sapienza de Roma, da Sigmund Freud University de Milão, da Universidade de Bergamo (Itália) e da Universidade de Ottawa (Canadá) fizeram uma metanálise: em vez de estudar pacientes diretamente, juntaram e recalcularam os resultados de muitos estudos já publicados. O protocolo foi registrado com antecedência (PROSPERO) e a busca foi até maio de 2025.
Entraram 189 estudos, divididos em três grupos:
| Grupo | Estudos | Participantes | Idade média |
|---|---|---|---|
| TEPT-C / DESNOS | 48 | 10.621 | cerca de 38 anos |
| TEPT relacional (trauma causado por outra pessoa) | 71 | 12.616 | cerca de 30 anos |
| TEPT não relacional (acidentes, desastres) | 70 | 22.074 | cerca de 31 anos |
Somando os três grupos, são mais de 45 mil pessoas. Alguns cuidados de desenho chamam atenção:
- Cada estudo precisava ter avaliado um único tipo de trauma (só relacional ou só não relacional), para não misturar as coisas.
- O TEPT tinha de ser avaliado pelos critérios do DSM ou da CID, e o TEPT-C pelos critérios da CID.
- Ficaram de fora estudos com veteranos e traumas de guerra, com luto por morte violenta ou repentina (traumas que formam um grupo à parte) e estudos de tratamento.
A medida usada foi a correlação (r), que indica o quanto duas coisas andam juntas. Pelo critério usado pelos autores, 0,10 é uma ligação pequena, 0,30 é moderada e 0,50 é grande. Na prática, a pergunta foi: quanto mais dissociação (ou mais dificuldade de regular emoções), mais intensos são os sintomas do trauma?
O que o estudo encontrou
| Ligação com a intensidade dos sintomas | TEPT-C / DESNOS | TEPT relacional | TEPT não relacional |
|---|---|---|---|
| Dissociação | 0,55 (grande) | 0,58 (grande) | 0,34 (moderada) |
| Dificuldades de regulação emocional, no geral | 0,43 | 0,37 | 0,38 |
1. Quando o trauma vem de outra pessoa, a dissociação é o centro. No TEPT-C e no TEPT relacional, a dissociação teve uma ligação grande com os sintomas, maior do que qualquer aspecto da regulação emocional. E os dois grupos não diferiram entre si nesse ponto. Já no trauma sem agressor, a ligação com a dissociação foi bem menor, e a diferença em relação aos outros dois grupos foi estatisticamente significativa.
2. No trauma sem agressor, o que pesa mais é ficar preso no pensamento. No TEPT não relacional, ruminar, se preocupar e não aceitar o que sente tiveram mais peso do que a dissociação. Isso combina com um modelo clássico do TEPT, criado em grande parte a partir de acidentes, em que tentar controlar os pensamentos acaba mantendo o problema.
3. O TEPT-C se distingue pelas ferramentas saudáveis que faltam. As formas saudáveis de lidar com as emoções (resolver problemas, reavaliar a situação, atenção plena) estavam significativamente mais prejudicadas no grupo TEPT-C do que nos outros dois. No grupo TEPT-C também apareceu mais evitação do que no TEPT relacional, e, curiosamente, menos ruminação do que nos outros dois grupos. Uma leitura possível, dos autores: quando a mente desliga, ela também perde acesso aos recursos mais elaborados de pensamento, tanto os que ajudam quanto os que atrapalham.
4. Um espectro, não caixinhas. Os autores propõem enxergar os três quadros como um espectro de gravidade:
- TEPT não relacional: dissociação moderada e mais tendência a ficar preso em pensamentos repetitivos.
- TEPT relacional: também com pensamentos repetitivos, mas com dissociação alta e recursos saudáveis relativamente preservados.
- TEPT-C: no extremo mais grave, com dissociação alta, várias formas de regulação emocional prejudicadas e menos acesso às ferramentas saudáveis. Os autores relacionam esse perfil a traumas relacionais precoces e acumulados.
Para quem viveu um relacionamento abusivo, o achado ajuda a responder uma pergunta que costuma vir com vergonha: “por que eu travava e não reagia?”. A dissociação aparece como resposta de sobrevivência típica de quando o perigo vem de alguém próximo, e não como fraqueza. O mesmo vale para o congelamento e a resposta de apaziguamento.
No Instagram, o Dr. Anderson resume essa ideia de que a dissociação já foi uma proteção:
O que esse estudo não diz
- Não prova causa. Segundo os autores, 85,5% dos estudos reunidos mediram tudo num único momento (estudos transversais). Por isso não dá para saber se a dissociação ajuda a causar o quadro, se ela o mantém ou se as duas coisas acontecem juntas por outro motivo.
- “TEPT relacional” não é um diagnóstico oficial. É um agrupamento de pesquisa. Os autores defendem que os resultados apoiam essa diferenciação, mas nem a CID-11 nem o DSM-5 trazem essa categoria. O que existe oficialmente é o TEPT, o TEPT-C (na CID-11) e, no DSM-5, um subtipo dissociativo do TEPT.
- Os resultados variaram muito de um estudo para outro, e nenhuma característica testada explicou essa variação.
- Houve sinal de viés de publicação em todos os grupos: estudos com resultados positivos têm mais chance de serem publicados. Os efeitos continuaram significativos depois do ajuste, mas podem estar um pouco superestimados.
- A maior parte dos dados vem de países ocidentais (84,6% dos estudos, segundo os autores). Nos grupos de trauma relacional e TEPT-C, só 2 estudos eram do Brasil. Não dá para garantir que tudo se aplique igual aqui.
- Correlação de grupo não descreve uma pessoa. Dizer que a dissociação pesa mais no trauma relacional não significa que toda pessoa que viveu abuso dissocia, nem que quem sofreu um acidente não dissocia.
- Nenhum tratamento foi testado. As sugestões de tratamento do artigo são hipóteses, e os próprios autores pedem ensaios clínicos para confirmá-las.
O que isso muda na prática
Para quem viveu
- Dar nome ajuda. Sentir-se fora do corpo, “sair do ar” numa briga, ter buracos na memória ou não sentir nada são formas de dissociação, e elas são especialmente ligadas ao trauma causado por outra pessoa. Não é loucura nem frescura, e vale contar isso a quem cuida de você. Veja também embotamento emocional e memória fragmentada.
- Psicoterapia focada em trauma. Para TEPT e TEPT-C, as abordagens indicadas são EMDR, Brainspotting e terapia cognitivo-comportamental focada no trauma, conduzidas por profissional com formação em trauma. Quando há muita dissociação ou dificuldade de regular emoções, o plano costuma dar atenção extra à segurança, à estabilização e ao treino de habilidades de regulação, no ritmo de cada pessoa.
- Avaliação médica. Dissociação sem história de trauma que a explique, ou com perda de consciência, confusão ou sinais neurológicos, precisa ser investigada para afastar outras causas. Insônia, dores, cansaço e alterações do apetite também fazem parte do quadro e têm cuidado.
E as sugestões de tratamento dos autores? No fim do artigo, eles arriscam uma hipótese: para o TEPT-C, tratamentos estruturados e de longo prazo, focados na dissociação e no desenvolvimento de habilidades de regulação emocional e de relacionamento (citam, por exemplo, a terapia comportamental dialética, ou DBT, e o STAIR, um treino de habilidades); para o TEPT relacional, abordagens voltadas à dissociação; e, para o trauma sem agressor, abordagens que exigem mais trabalho cognitivo, entre elas EMDR e terapia cognitivo-comportamental focada no trauma. Os próprios autores dizem que isso ainda precisa ser testado. O estudo não comparou tratamentos e não mostra que EMDR ou TCC focada em trauma funcionem menos no trauma relacional. A escolha continua individual.
Para familiares e profissionais
- Silêncio e “frieza” podem ser dissociação. Quem parece distante ou não lembra de detalhes nem sempre está desinteressado ou mentindo.
- Pergunte sobre dissociação. Em quem viveu violência ou abuso, vale perguntar sobre irrealidade, sensação de estar fora do corpo e falhas de memória, e não só sobre pesadelos.
- Segurança primeiro. Em situação de violência, o Ligue 180 orienta mulheres e o 190 atende emergências. Veja também controle coercitivo.
No vídeo abaixo, o Dr. Anderson fala sobre a sensação de anestesia emocional depois do abuso, uma das faces da dissociação:
Perguntas frequentes
O que é TEPT relacional?
É o termo usado em pesquisas para o estresse pós-traumático que surge depois de um trauma causado de propósito por outra pessoa, como abuso, violência física ou sexual e violência por parceiro. O contrário é o TEPT não relacional, depois de acidentes ou desastres.
TEPT relacional é um diagnóstico oficial?
Não. É um agrupamento de pesquisa. Os diagnósticos oficiais são o TEPT e o TEPT complexo, na CID-11 da Organização Mundial da Saúde. O DSM-5 descreve ainda um subtipo dissociativo do TEPT.
Por que quem viveu abuso dissocia mais?
Uma metanálise de 2026 com 189 estudos encontrou ligação grande entre dissociação e sintomas quando o trauma veio de outra pessoa (0,58) e no TEPT-C (0,55), e moderada no trauma sem agressor (0,34). Os autores entendem a dissociação como uma resposta de sobrevivência ao perigo vindo de alguém próximo, do qual não se consegue escapar. O estudo mostra associação, não causa.
Dissociação tem tratamento?
Tem cuidado. Para TEPT e TEPT-C, as abordagens indicadas são EMDR, Brainspotting e TCC focada em trauma, com atenção à estabilização e às habilidades de regulação emocional quando há muita dissociação, além de avaliação médica para afastar outras causas e cuidar do sono e dos sintomas físicos.
Se eu não ruminar tanto, quer dizer que estou melhor?
Não necessariamente. No estudo, o grupo com TEPT-C teve menos ruminação do que os outros, mas mais dissociação e menos recursos saudáveis para lidar com as emoções. Pensar menos no trauma pode ser sinal de desligamento, e não de recuperação. Vale conversar sobre isso com quem acompanha você.
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Leia também
- Dissociação e despersonalização depois do abuso narcisista
- TEPT complexo (TEPT-C): sintomas, diagnóstico e cuidado
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Referências científicas
- Cavicchioli M, Masoumi S, Maffei C, Galli F, Scaini S, Mucci C, Scalabrini A. At the core of relational vs. non-relational post-traumatic stress disorders: Distinct profiles of dissociative and emotion regulation mechanisms. Journal of Affective Disorders. 2026;412:122034 (publicação online em 27 de maio de 2026). (DOI: 10.1016/j.jad.2026.122034)
- Brewin CR, Cloitre M, Hyland P, Shevlin M, Maercker A, Bryant RA, et al. A review of current evidence regarding the ICD-11 proposals for diagnosing PTSD and complex PTSD. Clinical Psychology Review. 2017;58:1-15. (DOI: 10.1016/j.cpr.2017.09.001)
- Naragon-Gainey K, McMahon TP, Chacko TP. The structure of common emotion regulation strategies: A meta-analytic examination. Psychological Bulletin. 2017;143(4):384-427. (DOI: 10.1037/bul0000093)
- Herman JL. Trauma and Recovery. New York: Basic Books; 1992.
- World Health Organization. International Classification of Diseases, 11th Revision (ICD-11). Geneva: WHO; 2019.
Conteúdo educativo, não substitui avaliação individual. Em situação de risco, ligue 190; para orientação sobre violência contra a mulher, Ligue 180; para apoio emocional, CVV 188.
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