Violência no relacionamento e sofrimento psíquico em mulheres: o que mostra uma meta-análise

Violência no relacionamento e sofrimento psíquico em mulheres: o que mostra uma meta-análise
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Dr. Anderson Contaifer

Médico · CRM-SC 24.484 · Especialista em Clínica Médica · RQE 18.790. Graduado pela EMESCAM em 2012, com título de especialista em Clínica Médica pela Sociedade Brasileira de Clínica Médica (SBCM), em 2019. Atende adultos exclusivamente por teleconsulta, com avaliação individual das repercussões físicas e emocionais de relacionamentos abusivos e do estresse prolongado. Criador do Programa Quebrando as Algemas e de conteúdo educativo sobre relacionamentos abusivos, limites e autocuidado.

Informação para entender relações abusivas e cuidar da sua saúde

Dr. Anderson Contaifer (CRM-SC 24.484, RQE de Clínica Médica 18.790), médico especialista em Clínica Médica e criador do blog Quebrando as Algemas, atende por teleconsulta pessoas com sequelas de abuso narcisista e TEPT-C em todo o Brasil.

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Resposta rápida

Uma revisão sistemática com meta-análise publicada no Journal of Affective Disorders reuniu 34 estudos, com 63.139 mulheres de vários países, inclusive o Brasil. Mulheres que sofreram violência do parceiro íntimo, física, sexual ou psicológica, relataram com mais frequência pensamentos suicidas e tentativas de suicídio do que mulheres que não sofreram. A violência psicológica teve a associação mais forte com esses pensamentos. É uma associação, não prova de causa, e esse sofrimento tem tratamento.

Se você precisa de ajuda agora

Se você está pensando em suicídio ou em desistir da vida, ou se não está segura neste momento, procure ajuda hoje:

  • CVV 188: apoio emocional gratuito, 24 horas, por telefone, ou por chat em cvv.org.br.
  • SAMU 192 ou o pronto-socorro mais próximo, se houver risco imediato à sua vida.
  • 190: se você está em perigo agora por causa de outra pessoa.
  • Ligue 180: Central de Atendimento à Mulher, gratuita, 24 horas e anônima, para orientação sobre violência.

Pensamentos de morte são sinal de sofrimento intenso, não de fraqueza. Eles podem passar, e a ajuda funciona. Você não precisa atravessar isso sozinha.

Agradecimento especial

Obrigado, Prof. Mark Griffiths

O estudo explicado neste artigo foi enviado ao Dr. Anderson pelo professor Mark D. Griffiths, da International Gaming Research Unit, no Departamento de Psicologia da Nottingham Trent University (Reino Unido), coautor do trabalho. Quando o Dr. Anderson escreveu pedindo o texto completo para estudá-lo, ele compartilhou o artigo. A pesquisa foi liderada pela primeira autora, Zainab Alimoradi, da Qazvin University of Medical Sciences (Irã), com Jalal Arabloo, Mohammadamin Jandaghian-Bidgoli, Shiva Alizadeh, Hasan Abolghasem Gorji, Fatemeh Abdi (autora correspondente) e Mohammadreza Shalbafan, de universidades do Irã. Fica aqui o nosso agradecimento especial pela gentileza e pela generosidade de compartilhar ciência de qualidade com quem cuida de sobreviventes de violência no Brasil. Este texto é a nossa forma de levar o trabalho da equipe a mais pessoas. Thank you, Professor Griffiths, for your kindness and generosity.

Ela não fala em morrer. Fala em cansaço. “Eu queria sumir um pouco.” “Queria dormir e só acordar quando tudo isso tivesse passado.” Já ouviu tantas vezes que “ele nunca encostou a mão em você” que nem chama de violência o que vive em casa: as humilhações na frente dos filhos, as ameaças ditas em tom de brincadeira, o celular vigiado, o dinheiro contado. Por fora, segue cuidando de todo mundo. Por dentro, sente que não existe saída.

Frases assim merecem atenção, de quem sente e de quem ouve. Este artigo explica, em linguagem simples, o que uma grande revisão de estudos encontrou sobre a ligação entre a violência praticada pelo parceiro e o sofrimento psíquico mais grave em mulheres, incluindo os pensamentos suicidas. E, principalmente, o que isso muda na prática: como reconhecer, como pedir ajuda e como ajudar.

O que é violência por parceiro íntimo

Violência por parceiro íntimo é a violência praticada por um namorado, marido, companheiro ou ex. Ela pode ser física (bater, empurrar, sufocar), sexual (forçar relações ou práticas sem consentimento), psicológica (humilhar, ameaçar, desqualificar, fazer a pessoa duvidar de si) e também aparecer como comportamentos de controle, como isolar dos amigos e da família e dominar o dinheiro. Os autores lembram que, segundo a Organização Mundial da Saúde, cerca de uma em cada três mulheres no mundo já viveu alguma forma de violência física, sexual ou psicológica de um parceiro ao longo da vida.

A violência psicológica é a mais fácil de ser minimizada, porque não deixa marca visível. Mas a Lei Maria da Penha a reconhece como uma das cinco formas de violência doméstica, e o controle do dia a dia tem nome: controle coercitivo. Num artigo anterior, explicamos o que duas meta-análises mostram sobre a violência psicológica e sexual e a saúde mental e física. Aqui, o foco é mais estreito e mais delicado: os pensamentos suicidas e as tentativas de suicídio.

No vídeo abaixo, o Dr. Anderson reúne sinais de que uma relação se tornou abusiva, muitos deles sem nenhuma agressão física:

O que o estudo fez

Zainab Alimoradi e colegas fizeram uma revisão sistemática com meta-análise, publicada no Journal of Affective Disorders (volume de 2026, disponível online desde outubro de 2025). Na revisão sistemática, os pesquisadores definem regras antes e buscam todos os estudos sobre a pergunta. Na meta-análise, juntam os resultados num cálculo só, mais estável do que qualquer pesquisa isolada. O protocolo foi registrado com antecedência numa base internacional (PROSPERO), e a revisão seguiu as diretrizes PRISMA.

  • Busca: várias bases científicas internacionais e o Google Acadêmico, até 11 de abril de 2025. De milhares de artigos encontrados, 131 foram lidos na íntegra e 34 estudos preencheram os critérios.
  • Participantes: 63.139 mulheres, de 18 a 86 anos, com média de 32 anos, de países da Europa, Ásia, África, Oceania e Américas, inclusive o Brasil. Os estudos foram publicados entre 2008 e 2025.
  • Quem foi estudado: cerca de metade dos estudos avaliou mulheres da população geral. Os outros olharam grupos específicos, como gestantes e mulheres no pós-parto, universitárias, mulheres trans, mulheres atendidas em pronto-socorro e pacientes internadas em psiquiatria.
  • Desenho: 29 dos 34 estudos eram transversais, ou seja, mediram a violência e os pensamentos ou tentativas num mesmo momento. Só dois acompanharam as mulheres ao longo do tempo. Em todos, quem sofreu violência foi comparada com quem não sofreu.
  • Qualidade: dois revisores avaliaram cada estudo de forma independente. 21 foram classificados como de baixo risco de viés e 13 como de alto risco.

O que a meta-análise encontrou

Como os estudos usavam medidas diferentes, os autores converteram todos os resultados para uma mesma escala de força de associação (o escore z de Fisher, derivado da correlação). Nessa escala, valores perto de 0,1 indicam associação pequena, perto de 0,3, moderada, e perto de 0,5, grande.

Tipo de violência do parceiro Associação com pensamentos suicidas Associação com tentativa de suicídio
Psicológica 0,39 (moderada, a mais forte entre os tipos) 0,33 (moderada)
Física 0,31 (moderada) 0,31 (moderada)
Sexual 0,27 (moderada) 0,24 (pequena a moderada)
Várias formas juntas 0,38 (moderada) 0,36 (moderada)
Várias formas, com ajuste para outros fatores 0,33 (moderada) 0,32 (moderada)

Como ler esses números:

  • A associação foi consistente. Todos os tipos de violência se associaram a mais pensamentos suicidas e a mais tentativas. Com os resultados ajustados para outros fatores, ela continuou moderada. Traduzindo para chances, mulheres que sofreram violência do parceiro tinham de 3 a 5 vezes mais chance de relatar pensamentos suicidas ou tentativas do que mulheres que não sofreram.
  • A violência psicológica pesou mais nos pensamentos. Foi o tipo com a associação mais forte com a ideação suicida. É a violência que muita gente ainda chama de “só briga”.
  • O contexto muda a força da associação. Entre mulheres casadas, a ligação com pensamentos suicidas foi mais forte. Tentativas recentes tenderam a se associar mais à violência do que tentativas em algum momento da vida. E os estudos com menor risco de viés mostraram associações mais fortes, não mais fracas.
  • O resultado não dependeu de um estudo só. Retirar qualquer estudo da conta não mudou a conclusão, e os testes não encontraram sinal de que apenas estudos com resultados “positivos” tenham sido publicados.

No Instagram, o Dr. Anderson explica por que violência psicológica é violência, na ciência e na lei brasileira:

Por que a violência psicológica pesa tanto

Na discussão, os autores propõem algumas explicações. Elas não foram testadas nesta meta-análise, mas ajudam a entender o que muitas sobreviventes descrevem.

  • Sentir-se presa. Um modelo conhecido de estudo do comportamento suicida dá grande peso à sensação de estar encurralada numa situação sem saída. Na violência do parceiro, essa sensação é alimentada pelo abuso contínuo, pela dependência financeira e pelo medo do julgamento dos outros.
  • Humilhação repetida. Xingamentos, ameaças e controle corroem a autoestima e produzem vergonha. Somados à sensação de não ter saída, podem gerar um sentimento de derrota.
  • Dissociação. Os autores citam a desconexão de si e do ambiente, uma resposta comum ao trauma, como possível caminho entre a violência e o sofrimento mais grave. Veja dissociação e despersonalização depois do abuso.
  • Depressão, ansiedade e estresse pós-traumático. São frequentes depois da violência, também se associam a pensamentos suicidas e têm tratamento. Veja depressão após abuso: sintomas e tratamento.

Nenhum desses fatores, sozinho, explica o sofrimento de uma pessoa. Pensamentos suicidas surgem de muitos fatores juntos, biológicos, psicológicos e sociais. A violência é um deles, e é um fator que pode ser modificado: com proteção, apoio e tratamento.

O que esse estudo não diz

  • Não prova causa. A maioria dos estudos incluídos era transversal. Eles mostram que as duas coisas aparecem juntas, mas não qual veio antes. Os próprios autores admitem que a relação pode ter mão dupla e pedem estudos que acompanhem as mulheres ao longo do tempo.
  • Os estudos eram muito diferentes entre si. A variação entre os resultados foi muito alta (acima de 90% por um indicador estatístico de heterogeneidade). Países, populações, definições de violência e questionários mudavam bastante, o que deixa os números finais menos precisos.
  • Poucos estudos por tipo de violência. As estimativas para violência psicológica e sexual se apoiaram em poucas observações cada, o que pede cautela antes de comparar um tipo com o outro.
  • Tudo dependeu do relato das participantes. Em quase todos os estudos, violência e pensamentos foram informados pelas próprias mulheres, muitas vezes em entrevistas. Vergonha e estigma podem ter levado a relatar menos do que viveram.
  • Só mulheres e só estudos em inglês. A revisão não permite tirar conclusões sobre homens, e estudos publicados em outras línguas, inclusive em português, ficaram de fora.
  • Não mediu caminhos nem proteções. A revisão não analisou o papel da depressão ou do estresse pós-traumático no meio do caminho, nem fatores que protegem, como o apoio social.

O que isso muda na prática

Para quem viveu ou vive violência no relacionamento

  • Pensar em morrer não é fraqueza nem drama. É um sinal de que o sofrimento passou do limite, e um motivo para buscar ajuda hoje, não quando “ficar pior”. O CVV atende pelo 188, 24 horas, e pelo chat em cvv.org.br. Em risco imediato, SAMU 192 ou pronto-socorro.
  • A violência psicológica conta. Se você vive humilhação, ameaça e controle, isso é violência, mesmo sem nenhum hematoma. O Ligue 180 orienta de graça, 24 horas, e a medida protetiva também vale para violência psicológica.
  • Conte para uma pessoa de confiança. Não precisa contar tudo nem decidir nada. Um primeiro “não estou bem” já abre caminho.
  • Cuide da saúde como um todo. Insônia, cansaço, dores, uso de álcool ou de remédios por conta própria e tristeza que não passa merecem avaliação médica. Um médico de clínica médica pode ser a porta de entrada e encaminhar para avaliação psiquiátrica quando necessário. Veja qual médico procurar após uma relação abusiva.
  • Psicoterapia focada em trauma. Quando há estresse pós-traumático ou TEPT complexo, as abordagens indicadas são EMDR, Brainspotting e terapia cognitivo-comportamental focada no trauma.

No vídeo abaixo, o Dr. Anderson explica por que tantas sobreviventes se sentem “um peso” justamente quando mais precisam de apoio:

Para familiares e amigos

  • Leve a sério frases como “queria sumir” ou “ninguém sentiria minha falta”. Pergunte com calma e de forma direta se ela tem pensado em morrer. A cartilha da Associação Brasileira de Psiquiatria com o Conselho Federal de Medicina é clara: falar sobre suicídio não aumenta o risco, e conversar pode aliviar a angústia.
  • Escute sem julgar. Evite “por que você não sai daí?” e “você tem tudo para ser feliz”.
  • Ajude a chegar à ajuda. Ofereça companhia para ligar para o CVV, para o 180 ou para marcar uma consulta. Se houver risco imediato, não deixe a pessoa sozinha e acione o SAMU (192).
  • Respeite o tempo dela para decisões sobre a relação. Sair é um processo que envolve planejamento e segurança. Veja como ajudar alguém que sofre abuso.

Para profissionais de saúde

Os autores recomendam perguntar de rotina sobre violência do parceiro nos serviços de saúde mental, sobretudo quando uma mulher chega com pensamentos suicidas, e também na atenção primária e no pronto-socorro, com instrumentos validados. Identificada a violência, sugerem avaliar a gravidade e a segurança imediata, construir um plano de segurança individual, encaminhar para serviços especializados (apoio psicológico, jurídico e social) e trabalhar em equipe. E, diante de violência do parceiro, perguntar também sobre pensamentos de morte.

No Instagram, o Dr. Anderson lembra que ninguém precisa sair sozinha da violência, e mostra a rede que existe para isso:

Perguntas frequentes

A violência psicológica está ligada a pensamentos suicidas?

Sim. Numa meta-análise com 34 estudos e 63.139 mulheres, a violência psicológica do parceiro teve a associação mais forte com pensamentos suicidas entre os tipos de violência analisados. Como a maioria dos estudos era transversal, isso mostra associação, não prova de causa.

Mulheres que sofrem violência do parceiro correm mais risco?

Os dados indicam que sim. Mulheres que sofreram violência física, sexual ou psicológica do parceiro tinham de 3 a 5 vezes mais chance de relatar pensamentos suicidas ou tentativas do que mulheres que não sofreram. A associação se manteve quando os autores consideraram outros fatores.

O que fazer se eu tiver pensamentos de morte depois de um relacionamento abusivo?

Fale com alguém hoje. O CVV atende de graça, 24 horas, pelo 188 e pelo chat em cvv.org.br. Em risco imediato, procure o SAMU (192) ou o pronto-socorro. Depois, busque avaliação médica e psicoterapia focada em trauma. Esse sofrimento tem tratamento.

Perguntar a alguém se pensa em suicídio pode piorar?

Não. Segundo a cartilha da Associação Brasileira de Psiquiatria com o Conselho Federal de Medicina, falar sobre suicídio não aumenta o risco, e conversar pode aliviar a angústia.

A violência do parceiro é a única causa desse sofrimento?

Não. Pensamentos suicidas têm muitas causas juntas, como depressão, estresse pós-traumático, isolamento e fatores biológicos e sociais. A meta-análise mostra que a violência é um fator importante e modificável, o que reforça o valor de proteção, apoio e tratamento.

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Referências científicas

  1. Alimoradi Z, Arabloo J, Jandaghian-Bidgoli M, Alizadeh S, Griffiths MD, Gorji HA, Abdi F, Shalbafan M. The association between intimate partner violence and suicide ideation and attempts among women: a systematic review and meta-analysis. Journal of Affective Disorders. 2026;394:120511 (publicação online em 27 de outubro de 2025). (DOI: 10.1016/j.jad.2025.120511)
  2. O’Connor RC, Kirtley OJ. The integrated motivational-volitional model of suicidal behaviour. Philosophical Transactions of the Royal Society B. 2018;373(1754):20170268. (DOI: 10.1098/rstb.2017.0268)
  3. Spencer CM, Keilholtz BM, Palmer M, Vail SL. Mental and physical health correlates for emotional intimate partner violence perpetration and victimization: a meta-analysis. Trauma, Violence, & Abuse. 2024;25(1):41-53. (DOI: 10.1177/15248380221137686)
  4. Associação Brasileira de Psiquiatria; Conselho Federal de Medicina. Suicídio: informando para prevenir. Brasília: CFM/ABP; 2014.
  5. Brasil. Lei nº 11.340, de 7 de agosto de 2006 (Lei Maria da Penha), artigo 7º.

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Sobre o autor

Dr. Anderson Contaifer de Carvalho
Médico · CRM-SC 24.484 · Especialista em Clínica Médica · RQE 18.790. Graduado pela EMESCAM em 2012, com título de especialista em Clínica Médica pela Sociedade Brasileira de Clínica Médica (SBCM), em 2019. Atende adultos exclusivamente por teleconsulta, com avaliação individual das repercussões físicas e emocionais de relacionamentos abusivos e do estresse prolongado. Criador do Programa Quebrando as Algemas e de conteúdo educativo sobre relacionamentos abusivos, limites e autocuidado.

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