Controle coercitivo prevê violência física? O que mostra um estudo com 1.629 jovens adultos nos EUA

Controle coercitivo prevê violência física? O que mostra um estudo com 1.629 jovens adultos nos EUA
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Dr. Anderson Contaifer

Médico · CRM-SC 24.484 · Especialista em Clínica Médica · RQE 18.790. Graduado pela EMESCAM em 2012, com título de especialista em Clínica Médica pela Sociedade Brasileira de Clínica Médica (SBCM), em 2019. Atende adultos exclusivamente por teleconsulta, com avaliação individual das repercussões físicas e emocionais de relacionamentos abusivos e do estresse prolongado. Criador do Programa Quebrando as Algemas e de conteúdo educativo sobre relacionamentos abusivos, limites e autocuidado.

Informação para entender relações abusivas e cuidar da sua saúde

Dr. Anderson Contaifer (CRM-SC 24.484, RQE de Clínica Médica 18.790), médico especialista em Clínica Médica e criador do blog Quebrando as Algemas, atende por teleconsulta pessoas com sequelas de abuso narcisista e TEPT-C em todo o Brasil.

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Resposta rápida

Um estudo publicado em 2025 na revista Psychological Services analisou 1.629 jovens adultos dos Estados Unidos que responderam a uma pesquisa nacional em duas ocasiões, com cerca de 5 meses de intervalo. Quem relatou ter ameaçado machucar, ameaçado expor informações ou fotos privadas ou humilhado o parceiro teve quase o dobro da chance de relatar agressão física contra o parceiro meses depois, mesmo levando em conta agressões anteriores. O efeito ficou claro entre os homens; entre as mulheres, não se confirmou de forma independente.

Agradecimento especial

Obrigado, Dra. Zoe Hilton

O estudo explicado neste artigo foi enviado ao Dr. Anderson pela pesquisadora N. Zoe Hilton, primeira autora do trabalho, pesquisadora sênior do Waypoint Research Institute, do Waypoint Centre for Mental Health Care, e professora do Departamento de Psiquiatria da Universidade de Toronto (Canadá). O artigo foi escrito em parceria com a pesquisadora Dana L. Radatz, do Departamento de Criminologia e Justiça Criminal da Niagara University (Estados Unidos). Quando o Dr. Anderson escreveu pedindo o texto completo para estudá-lo, a Dra. Hilton enviou o artigo e ainda se colocou à disposição para esclarecer dúvidas. Fica aqui o nosso agradecimento especial pela gentileza e pela generosidade de compartilhar ciência de qualidade com quem cuida de sobreviventes de violência no Brasil. Este texto é a nossa forma de levar o trabalho das duas pesquisadoras a mais pessoas. Thank you, Dr. Hilton, for your kindness and generosity.

“Nunca encostou um dedo em mim.” Essa frase aparece com frequência quando alguém tenta explicar por que não chama de violência o que vive em casa. E logo depois vem o resto: a ameaça de mostrar conversas e fotos íntimas para a família se a pessoa for embora, o “você não serve para nada” dito na frente dos filhos, o “se você me deixar, vai se arrepender” falado baixinho no meio de uma discussão. Como não há marca no corpo, fica a dúvida: isso é sério ou eu estou exagerando?

Um estudo de pesquisadoras do Canadá e dos Estados Unidos ajuda a responder uma parte dessa pergunta. Ele analisou as respostas de mais de 1.600 jovens adultos americanos em dois momentos, separados por alguns meses, e verificou se ameaças e humilhações no relacionamento ajudavam a prever agressões físicas depois. Aqui você vai ver o que foi encontrado, o que não dá para concluir e como usar essa informação para se proteger, sem pânico e sem adivinhar o futuro de ninguém.

O que é controle coercitivo e por que ele importa mesmo sem agressão física

Controle coercitivo é um termo proposto pelo pesquisador Evan Stark para descrever um padrão de comportamentos de controle, repetidos ao longo do tempo, que vão prendendo a pessoa dentro do relacionamento: ameaçar, vigiar, isolar, humilhar, controlar dinheiro e rotina. Stark comparou essas táticas às usadas em situações de sequestro. Na maior parte das vezes, são formas de abuso que não são físicas, mas deixam a pessoa controlada, encurralada e com medo. Explicamos o conceito em detalhes em controle coercitivo: quando cada passo precisa de autorização.

Vários estudos já mostravam que controle coercitivo e agressão física costumam aparecer juntos. Faltava saber se o controle de hoje ajuda a prever a agressão de amanhã. Um trabalho anterior da Dra. Hilton e colegas, com registros policiais de 1.421 homens que tinham agredido a parceira, sugeriu que sim. Alguns pesquisadores defendem que o controle deveria acender o alerta dos serviços de proteção mesmo antes de qualquer agressão física. O estudo de 2025 testou a pergunta em pessoas comuns da população, e não só em casos que chegaram à polícia.

No vídeo abaixo, o Dr. Anderson descreve sinais de um parceiro ou parceira controladora no dia a dia:

O que o estudo fez

Hilton e Radatz publicaram o estudo na revista Psychological Services, da Associação Americana de Psicologia (online em junho de 2024; edição impressa em 2025). Elas fizeram uma análise secundária de uma grande pesquisa americana sobre conflitos, o estudo iCOR, com amostra nacional representativa de jovens adultos de 18 a 32 anos: usaram uma base já existente para responder a uma pergunta nova.

  • Quem participou: 1.629 pessoas, 1.039 mulheres e 590 homens, com idade média de 26 anos, quase todas respondendo pela internet.
  • Quando: a primeira onda foi respondida entre agosto de 2016 e abril de 2017; a segunda, cerca de 5 meses depois (entre dezembro de 2016 e setembro de 2017). Como as mesmas pessoas responderam duas vezes, dá para ver o que veio antes e o que veio depois.
  • Um detalhe importante: os participantes contaram o que eles mesmos fizeram com o parceiro, e não o que sofreram, porque o objetivo era entender o que ajuda a prever quem vai agredir.

Como o controle coercitivo foi medido. A pesquisa perguntava como a pessoa costuma lidar com brigas com o parceiro. Três respostas contaram como controle coercitivo: ameaçar machucar fisicamente o parceiro; ameaçar revelar informações ou fotos privadas, ou usar informações para controlá-lo; e colocá-lo para baixo ou desrespeitá-lo. Qualquer resposta diferente de “nunca” já contava. Também houve perguntas sobre agressão verbal (gritar, xingar, acusar com raiva) e física ou sexual (empurrar, dar tapa, socar, chutar, forçar atos sexuais). Na segunda onda, todos responderam de novo sobre agressão física ao parceiro.

Como a análise foi feita. As autoras primeiro mediram quanto a agressão física da primeira onda previa a da segunda, e só depois acrescentaram o controle coercitivo e a agressão verbal. É uma forma rigorosa de perguntar: o controle avisa alguma coisa além do que a violência física passada já avisa?

O que o estudo encontrou

Comportamento relatado contra o parceiro Homens Mulheres Total
Controle coercitivo (1ª onda) 14% 26% 22% (353 pessoas)
Agressão física ou sexual (1ª onda) 8% 15% 13% (204 pessoas)
Agressão verbal (1ª onda) 42% 61% 54% (883 pessoas)
Agressão física (2ª onda, cerca de 5 meses depois) 8% 12% 10% (164 pessoas)

O controle mais comum foi colocar o parceiro para baixo ou desrespeitá-lo (20%). Ameaças de machucar apareceram em 7%, e ameaças de expor informações ou fotos privadas, em 3%.

O que ajudou a prever agressão física meses depois Resultado
Agressão física já relatada na 1ª onda O sinal mais forte: aumentou a chance de nova agressão quase seis vezes no grupo todo
Controle coercitivo (grupo todo) Quase dobrou a chance, mesmo considerando a agressão física anterior
Controle coercitivo entre os homens Aumentou a chance em pouco mais de três vezes, peso parecido com o da agressão física anterior (pouco mais de quatro vezes)
Controle coercitivo entre as mulheres Não trouxe informação a mais; só a agressão física anterior previu nova agressão (quase sete vezes)
Agressão verbal Não trouxe informação a mais

“Chance”, aqui, é a medida estatística usada pelas autoras (odds): compara grupos e não é a probabilidade para uma pessoa específica.

Na primeira onda, quem relatou controle também relatou mais agressão física ou sexual, numa ligação forte entre as mulheres e pequena entre os homens. O controle sobre o parceiro não previu agressão contra amigos ou desconhecidos. A conclusão das autoras: entre os homens, o controle coercitivo foi um sinal próprio de risco de agressão física futura, além da violência que já existia.

No Instagram, o Dr. Anderson lembra que ameaçar, humilhar e vigiar já é violência, mesmo sem hematoma:

Por que os resultados foram diferentes entre homens e mulheres?

Este ponto pede cuidado. Neste estudo, as mulheres relataram mais controle coercitivo e mais agressão contra o parceiro do que os homens. Isso não quer dizer que mulheres sejam mais violentas nem que o controle praticado por homens seja menos grave. As perguntas registram atos numa briga, mas não medem quem sente medo, quem tem mais poder, se o ato foi defesa ou ataque, nem o impacto na vida do outro. As próprias autoras observam que respostas assim podem refletir conflitos pontuais do casal, e não o padrão de dominação descrito por Stark. Quando o controle é avaliado como um sistema, com medo e perda de liberdade, as mulheres aparecem como a grande maioria das vítimas, como explicamos no artigo sobre controle coercitivo.

O que o estudo mostra com segurança é mais modesto: entre os homens desta amostra, ameaças e humilhações contra a parceira avisaram sobre agressão física futura. E o controle coercitivo pode acontecer em qualquer relação, inclusive com homens como vítimas.

O que esse estudo não diz

  • Não prevê o futuro de nenhuma relação específica. Risco maior em média, num grupo, não é sentença para ninguém. E a ausência de controle não garante segurança.
  • Não prova causa. O desenho em duas ondas mostra que o controle veio antes, mas não que causou a agressão. Fatores de risco conhecidos, como uso de álcool e outras drogas e histórico criminal, não entraram na análise.
  • Não mostra se o controle prevê a primeira agressão. Como a análise considerou a violência física anterior, ela não responde se o controle prevê a primeira agressão numa relação que nunca teve nenhuma, nem agressões graves. As autoras dizem isso de forma explícita.
  • A medida de controle foi simples. Três perguntas, não validadas para esse fim; abuso financeiro, isolamento e vigilância ficaram de fora. Como incluía ameaças de violência, a ligação com agressão física pode ter sido inflada.
  • Acompanhamento curto, amostra específica. Cerca de 5 meses, com poucos homens relatando agressão na segunda onda, e só jovens adultos dos Estados Unidos. Em outras idades e países, como o Brasil, os resultados podem ser diferentes.
  • As autoras pedem cautela. Recomendam perguntar sobre controle coercitivo, mas não incluí-lo ainda nos instrumentos formais de avaliação de risco.

O que isso muda na prática

Para quem vive uma relação com ameaças e humilhações

  • Leve a sério, sem se apavorar. Ameaçar machucar, ameaçar expor fotos ou informações íntimas e humilhar não são briga normal de casal. São violência psicológica e, segundo este estudo, um sinal de alerta. Reconhecer o padrão não é diagnosticar ninguém: é olhar para comportamentos e para o efeito deles em você.
  • Preste atenção ao que muda. Ameaças mais graves, controle que aumenta, medo da reação da pessoa e qualquer empurrão ou tapa, mesmo “só uma vez”, pedem apoio já.
  • Monte um plano de segurança. Pessoas de confiança que sabem o que está acontecendo, uma palavra-código para pedir ajuda, documentos e remédios à mão, celular carregado, números importantes anotados também no papel, senhas e localização revistas, provas (prints, áudios) guardadas onde a outra pessoa não alcança. Se pensa em sair, planeje com apoio: a separação pode ser um período de risco maior.
  • Saiba a quem recorrer. Em perigo imediato, ligue 190. Para orientação sobre violência contra a mulher, o Ligue 180 funciona 24 horas, de graça. Homens em situação de risco também podem acionar o 190.
  • A lei enxerga o que não deixa marca. A Lei Maria da Penha reconhece a violência psicológica como forma de violência doméstica e prevê medidas protetivas de urgência, que não dependem de agressão física. Como pedir e o que a lei garante estão em medida protetiva não é exagero. Se o controle continua depois do término, leia sobre perseguição depois do término.
  • Cuide da saúde. Viver sob ameaça mantém o corpo em alerta e pode deixar insônia, ansiedade, dores e estresse pós-traumático mesmo sem agressão física. Para estresse pós-traumático ou TEPT complexo, as abordagens indicadas são EMDR, Brainspotting e terapia cognitivo-comportamental focada no trauma; a avaliação médica cuida dos efeitos no corpo.

No vídeo abaixo, o Dr. Anderson comenta uma situação frequente: o ex-parceiro que some e reaparece mesmo com medida protetiva em vigor.

Para familiares, amigos e profissionais

  • Pergunte sobre controle, não só sobre agressão. É a principal recomendação das autoras: diante de ameaças, desrespeito ou uso de informações pessoais contra o outro, considere o risco de violência física. E, quando já se sabe de agressão, pergunte sobre controle, porque ele pode tirar da pessoa a liberdade de planejar a própria segurança. “Mas nunca te bateu” não é motivo para tranquilizar ninguém.
  • Não pressione nem decida pela pessoa. Mandar “sair logo” costuma soar como julgamento, e a saída pode ser um momento de risco. Ajude a planejar e respeite o tempo dela. Veja como acolher quem conta em culpa depois do controle coercitivo e a primeira vez que você conta.

No Instagram, o Dr. Anderson resume como se proteger com método, para que a mente possa sair do estado de alerta:

Perguntas frequentes

Controle coercitivo pode virar violência física?

É um sinal de alerta. Num estudo de 2025 com 1.629 jovens adultos americanos, quem relatou ameaçar, expor ou humilhar o parceiro teve quase o dobro da chance de relatar agressão física cerca de 5 meses depois, sobretudo entre os homens. Isso indica risco em grupos, não destino individual.

Meu parceiro me controla, mas nunca me bateu. Estou em risco?

Ninguém consegue prever o futuro de uma relação específica, e este estudo não testou a primeira agressão. Mas ameaças, humilhação e controle já são violência psicológica. Se você sente medo, monte um plano de segurança e busque orientação no Ligue 180; em perigo imediato, 190.

Quais comportamentos o estudo considerou controle coercitivo?

Três: ameaçar machucar o parceiro, ameaçar revelar informações ou fotos privadas (ou usar informações para controlá-lo) e colocá-lo para baixo ou desrespeitá-lo. É uma medida simples; o controle coercitivo completo inclui também isolamento, vigilância e abuso financeiro.

O estudo vale para homens e mulheres?

Incluiu os dois, com resultados diferentes: entre os homens, o controle previu agressão física futura de forma independente; entre as mulheres, só a agressão anterior previu nova agressão. A medida não captava medo, poder ou defesa, então não permite comparar quem sofre mais.

Posso pedir medida protetiva sem ter sofrido agressão física?

A Lei Maria da Penha reconhece a violência psicológica como forma de violência doméstica, e as medidas protetivas de urgência não se limitam a casos com agressão física. A delegacia, a Defensoria Pública e o Ligue 180 orientam sobre o pedido.

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Referências científicas

  1. Hilton NZ, Radatz DL. Coercive control in a national U.S. self-report survey: Prediction of repeated intimate partner violence. Psychological Services. 2025;22(1):92-101 (publicação online em 17 de junho de 2024). (DOI: 10.1037/ser0000881)
  2. Mumford EA, Taylor BG, Liu W, Berg M. The Interpersonal Conflict and Resolution (iCOR) study, United States, 2016-2018. Inter-University Consortium for Political and Social Research; 2019. (DOI: 10.3886/ICPSR37164.v1)
  3. Hilton NZ, Eke AW, Kim S, Ham E. Coercive control in police reports of intimate partner violence: Conceptual definition and association with recidivism. Psychology of Violence. 2023;13(4):277-285. (DOI: 10.1037/vio0000457)
  4. Myhill A, Hohl K. The “Golden Thread”: Coercive control and risk assessment for domestic violence. Journal of Interpersonal Violence. 2019;34(21-22):4477-4497. (DOI: 10.1177/0886260516675464)
  5. Stark E. Coercive Control: How Men Entrap Women in Personal Life. New York: Oxford University Press; 2007. (DOI: 10.1093/oso/9780195154276.001.0001)
  6. Brasil. Lei nº 11.340, de 7 de agosto de 2006 (Lei Maria da Penha).

Conteúdo educativo, não substitui avaliação individual. Em situação de risco, ligue 190; para orientação sobre violência contra a mulher, Ligue 180; para apoio emocional, CVV 188.

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Sobre o autor

Dr. Anderson Contaifer de Carvalho
Médico · CRM-SC 24.484 · Especialista em Clínica Médica · RQE 18.790. Graduado pela EMESCAM em 2012, com título de especialista em Clínica Médica pela Sociedade Brasileira de Clínica Médica (SBCM), em 2019. Atende adultos exclusivamente por teleconsulta, com avaliação individual das repercussões físicas e emocionais de relacionamentos abusivos e do estresse prolongado. Criador do Programa Quebrando as Algemas e de conteúdo educativo sobre relacionamentos abusivos, limites e autocuidado.

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