Dr. Anderson Contaifer (CRM-SC 24.484, RQE de Clínica Médica 18.790), médico especialista em Clínica Médica e criador do blog Quebrando as Algemas, atende por teleconsulta pessoas com sequelas de abuso narcisista e TEPT-C em todo o Brasil.
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Resposta rápida
Sim, o silêncio usado como castigo pode ser uma forma de violência no relacionamento. Uma revisão publicada em 2026 por pesquisadores de Israel, da Turquia e dos Estados Unidos propõe que o tratamento de silêncio, o stonewalling e a retirada emocional funcionam como ostracismo: ser ignorado e excluído. Isso ameaça quatro necessidades básicas (pertencer, autoestima, controle e sentir que a própria existência importa). Quando se soma ao isolamento do controle coercitivo, a vítima fica sem caminho para se recuperar e tende a ficar presa na relação.
Agradecimento especial
Obrigado, Dra. Maayan Dvir
A revisão explicada neste artigo foi enviada ao Dr. Anderson pela pesquisadora Maayan Dvir, do The Academic College of Tel Aviv-Yaffo (Israel), primeira autora e autora de contato do trabalho. Quando o Dr. Anderson escreveu pedindo o texto completo para estudá-lo, ela enviou o artigo com cópia ao coautor Kipling D. Williams, da Purdue University (Estados Unidos), um dos principais pesquisadores do ostracismo e criador do modelo que organiza esta revisão. O nosso carinho também à coautora Ezgi Beşikci, da Uşak University (Turquia). A Dra. Dvir é ainda coautora de um questionário sobre exposição ao gaslighting citado no nosso guia sobre gaslighting. Fica aqui o nosso agradecimento especial pela gentileza e pela generosidade de compartilhar ciência com quem cuida de sobreviventes de violência no Brasil. Thank you, Dr. Dvir, for your kindness and generosity.
Faz três dias que ele não fala com você. Passa pelo corredor como se você fosse um móvel, responde aos filhos e ignora a sua pergunta, deixa a mensagem visualizada e sem resposta. Você relê a última conversa procurando o erro, ensaia um pedido de desculpas por algo que não sabe o que é, dorme mal. Quando conta para alguém, ouve: “mas ele nem gritou com você”.
É esse “nem gritou” que uma revisão científica recente coloca em xeque. Os autores defendem que o silêncio usado como punição não é ausência de violência: é uma forma dela, com mecanismo conhecido. Este artigo explica o que a revisão diz, por que esse silêncio dói tanto e o que muda quando ele se soma ao isolamento.
O que é ostracismo e por que o silêncio entra nessa conta
Ostracismo, na psicologia, é ser ignorado e excluído. Não precisa de palavra dura nem de porta batida: basta que alguém retire de você o reconhecimento, a conversa e a presença, como se você não estivesse ali.
No relacionamento, ele aparece com nomes que você talvez já conheça:
- Tratamento de silêncio (lei do gelo): o parceiro ignora o outro de propósito ou se recusa a se comunicar.
- Stonewalling (erguer um muro): durante um conflito, a pessoa se fecha emocionalmente e se recusa a participar da conversa.
- Retirada emocional: o afeto, a atenção e a resposta são cortados como forma de castigo.
A proposta central da revisão é que esses três comportamentos, já descritos nas pesquisas sobre casais e sobre violência, funcionam pelo mecanismo do ostracismo. Uma pausa combinada para esfriar a cabeça, com aviso e volta para conversar, é outra coisa. Explicamos essa diferença em tratamento de silêncio (stonewalling): o que o silêncio do narcisista faz com você. Aqui, o foco é o que a ciência do ostracismo acrescenta.
No vídeo abaixo, o Dr. Anderson fala sobre o que fazer quando o silêncio é usado como castigo:
O que a revisão fez
Dvir, Beşikci e Williams publicaram o trabalho na revista Current Opinion in Psychology, numa edição temática sobre violência interpessoal (online em dezembro de 2025, volume de 2026). Em tradução livre, o título é “A crueldade silenciosa: o ostracismo como violência por parceiro íntimo”.
É uma revisão narrativa: os autores não coletaram dados novos. Eles juntaram duas áreas que quase não conversavam, a psicologia social do ostracismo e a pesquisa sobre violência no relacionamento, e, a partir de 26 referências, discutiram por que ser ignorado pelo parceiro machuca tanto, se esse silêncio cabe nas definições oficiais de violência e o que acontece quando ele se soma ao controle coercitivo.
Por que o silêncio dói tanto: quatro necessidades e três fases
A base da revisão é o modelo temporal de ameaça às necessidades, proposto por Williams em 2009. Ser ignorado atinge de uma vez quatro necessidades psicológicas básicas:
| Necessidade ameaçada | O que ela significa |
|---|---|
| Pertencimento | Sentir-se ligado e aceito por alguém |
| Autoestima | Sentir que você tem valor |
| Controle | Sentir que tem alguma influência sobre o que acontece com você |
| Existência significativa | Ser reconhecido como alguém cuja presença importa |
Repare no último item. Uma briga, por pior que seja, ainda trata você como alguém que existe; o silêncio punitivo comunica o oposto. E o controle é atingido em cheio: você não sabe o motivo nem quando vai acabar.
O modelo descreve ainda três fases:
- Reflexa: de forma imediata e automática, vêm dor, emoções negativas e a ameaça às quatro necessidades.
- Reflexiva: a pessoa tenta entender o porquê e recuperar o que perdeu, reaproximando-se de quem a excluiu ou buscando outras pessoas. Algumas reagem com agressividade ou se fecham.
- Resignação: quando o ostracismo é prolongado ou crônico, surgem desamparo, depressão e a sensação de não valer nada.
Estudos citados na revisão mostram que até a exclusão por desconhecidos ou por personagens de computador provoca sofrimento mensurável. A dor de ser ignorado não é drama: é uma resposta humana básica.
No Instagram, o Dr. Anderson resume por que o silêncio usado como castigo atinge essas quatro necessidades:
Quando quem ignora é o parceiro
Se até um estranho fere assim, o que acontece quando quem ignora é a pessoa que mais importa? A revisão reúne estas evidências:
| Evidência | O que mostrou | Tipo de estudo |
|---|---|---|
| Ostracismo no dia a dia (Büttner e colegas, 2025) | O parceiro romântico respondeu por 16,26% das situações de exclusão que as pessoas relataram no cotidiano | Registros feitos pelos participantes ao longo dos dias |
| Jogo virtual de bola, o Cyberball (Arriaga e colegas, 2014) | Quem acreditava que o próprio parceiro participava da exclusão sentiu ameaça maior às quatro necessidades do que quem foi excluído só por estranhos, e passou a ver a relação de forma mais negativa | Experimento breve, em laboratório |
| Entrevistas com 40 pessoas (Zadro, 2004) | Ostracismo duradouro por parceiros e familiares, que durava meses ou anos ou voltava em ciclos. A maioria disse que o tratamento de silêncio era mais destrutivo do que a agressão verbal e a física | Entrevistas estruturadas (qualitativo) |
| Outros contextos | Ser ignorado gerou mais ameaça do que discutir; no trabalho, o ostracismo teve efeitos piores do que o assédio ativo; em crianças, causou mais dano psicológico do que o bullying | Experimentos e questionários fora do relacionamento amoroso |
O que as entrevistas revelaram. O silêncio ia de gestos sutis, como evitar o olhar e não responder a um “bom dia”, até sair do cômodo quando o parceiro entrava ou passar longos períodos sem falar. As pessoas ignoradas relataram sensação de não valer nada e desamparo, além de estresse crônico, transtornos alimentares, queda da imunidade e piora de doenças que já tinham. Uma entrevistada disse que o silêncio era, em tradução livre, “muito mais prejudicial do que um olho roxo”.
Por que pesaria tanto? A agressão física tem começo e fim e costuma deixar marcas que podem ser mostradas para pedir ajuda. O silêncio pode durar indefinidamente e fere por baixo da pele, onde ninguém vê. Muitos entrevistados contaram que, ao pedir ajuda, não foram levados a sério, o que explicamos em vitimização secundária.
Como os experimentos são curtos e sem consequências reais, os autores sugerem que eles talvez mostrem só a ponta do iceberg.
Silêncio também é violência psicológica
O CDC, agência de saúde pública dos Estados Unidos, divide a violência por parceiro íntimo em quatro tipos: física, sexual, perseguição e agressão psicológica, que inclui comunicação verbal e não verbal usada para ferir ou controlar o parceiro. Para os autores, o tratamento de silêncio e o stonewalling se encaixam aí. E esses comportamentos já estavam na pesquisa, com outros nomes:
- Nos estudos de John Gottman, o stonewalling prevê a separação.
- O padrão cobrança e afastamento (um insiste, o outro se retira) se associa a insatisfação, divórcio e até agressão física.
- No modelo de Caryl Rusbult, ignorar o parceiro e recusar-se a discutir problemas é negligência, resposta passiva e destrutiva.
- Questionários de violência por parceiro já incluem itens como “dar gelo” e sair do cômodo de forma brusca.
Ou seja: a ciência já media o silêncio punitivo, só não o chamava de ostracismo. Sobre os efeitos na saúde, veja abuso psicológico pode causar estresse pós-traumático sem violência física? e violência psicológica e sexual: o que acontece com a saúde.
Ostracismo e controle coercitivo: a armadilha
A Organização Mundial da Saúde inclui na violência por parceiro os comportamentos de controle: isolar da família e dos amigos, vigiar os passos, restringir dinheiro e recursos. O sociólogo Evan Stark chamou esse padrão de controle coercitivo.
Lembra da fase reflexiva? A pessoa ignorada tenta se recuperar reconquistando quem a excluiu ou buscando outras pessoas. Agora some as duas táticas:
- O primeiro caminho está fechado, porque o parceiro está, de propósito, ignorando.
- O segundo caminho também está fechado, porque o isolamento afastou amigos e família.
Sem ter onde se recuperar, a pessoa é empurrada mais rápido para a resignação: desamparo, depressão e afastamento de tudo. Segundo a teoria da interdependência, citada pelos autores, quem não enxerga alternativas tende a ficar na relação. Em uma frase: o ostracismo ameaça as necessidades e o controle coercitivo garante que elas não possam ser supridas em nenhum outro lugar.
Essa leitura pode ajudar a entender por que a pessoa pede desculpas pelo que não fez e aceita cada vez mais: não é falta de amor próprio, é o que resta quando a porta aberta é a de quem fechou todas as outras. Veja resposta de apaziguamento e culpa depois do controle coercitivo.
No vídeo abaixo, o Dr. Anderson explica como o isolamento é construído aos poucos, diante de todos:
O que esta revisão não diz
- Não traz dados novos. É uma revisão narrativa, não sistemática nem meta-análise: os autores escolheram e interpretaram os estudos.
- A comparação com a violência física ainda não foi medida em larga escala. A ideia de que o silêncio fere mais vem de entrevistas com 40 pessoas e de estudos em outros contextos. Os próprios autores pedem pesquisas grandes com vítimas de violência por parceiro.
- A “armadilha” é uma hipótese. A soma de ostracismo e controle coercitivo acelerando a resignação ainda precisa ser testada.
- Não sabemos com que frequência isso acontece. Faltam estudos sobre quão comum é o ostracismo entre parceiros e como ele se combina com outras violências.
- Falta estudar quem pratica. Os autores pedem pesquisas sobre por que alguém usa o silêncio como arma.
- Nem todo silêncio é abuso. Pedir um tempo, com aviso e retorno, é saudável. O ostracismo abusivo tem função de punir e controlar.
- Reconhecer o padrão não é diagnosticar ninguém. A revisão fala de comportamentos, não de transtornos, e não compara homens e mulheres.
O que isso muda na prática
Para quem viveu ou vive
- Dê o nome certo. Silêncio com função de castigo não é “só o jeito dele”, e a angústia que ele causa não é exagero.
- Proteja o segundo caminho. Se a volta pelo parceiro está fechada, o caminho pelas outras pessoas é o que pode quebrar a armadilha: uma amiga, um familiar, um grupo de apoio, um profissional.
- Psicoterapia focada em trauma. Com sintomas de estresse pós-traumático ou de TEPT complexo, as abordagens indicadas são EMDR, Brainspotting e terapia cognitivo-comportamental focada no trauma.
- Avaliação médica. Insônia, cansaço que não passa, alterações do apetite e piora de doenças que você já tinha merecem cuidado. Veja exaustão após relacionamento abusivo.
- Segurança em primeiro lugar. Se o silêncio vem com isolamento, vigilância ou ameaças, o Ligue 180 orienta mulheres em situação de violência, e o 190 atende emergências. Veja como funciona a medida protetiva.
No Instagram, o Dr. Anderson mostra como reconstruir a rede de apoio depois do isolamento:
Para familiares e amigos
- Não minimize. Evite “mas ele nem grita”. Ausência de hematoma não é ausência de dano.
- Seja o caminho que continua aberto. Mantenha contato mesmo que a pessoa tenha se afastado: isso pode ter sido efeito do isolamento.
Para profissionais
- Não trate como problema de comunicação. Os autores alertam que ver o ostracismo como dificuldade de diálogo ignora a sua função de agressão e controle. O cuidado precisa olhar para a ameaça às necessidades e para o isolamento que bloqueia a recuperação.
Perguntas frequentes
Tratamento de silêncio é violência?
Quando usado de propósito para punir ou controlar, pode ser. Uma revisão de 2026 mostra que ele cabe na definição de agressão psicológica do CDC, que inclui comunicação não verbal, e propõe tratá-lo como ostracismo.
O que é ostracismo em um relacionamento?
É ser ignorado e excluído pelo parceiro, como se você não estivesse ali. Aparece como tratamento de silêncio, stonewalling e retirada emocional.
Por que ser ignorado dói tanto?
Porque ameaça ao mesmo tempo pertencimento, autoestima, controle e a sensação de que a sua existência importa. Quando vem do parceiro, a ameaça tende a ser maior.
O silêncio pode ser pior do que a agressão física?
Em entrevistas com 40 pessoas, a maioria disse que sim, talvez porque ele dura indefinidamente e não deixa marca visível. Faltam estudos grandes para confirmar, e toda agressão física exige proteção imediata.
Pedir um tempo depois de uma briga é ostracismo?
Não necessariamente. Uma pausa com aviso, prazo e retorno protege a relação. O ostracismo abusivo é o silêncio sem explicação nem prazo, que só termina quando o outro cede.
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Leia também
- Tratamento de silêncio (stonewalling)
- Controle coercitivo: quando cada passo precisa de autorização
- Gaslighting: o que é, sinais e frases comuns
- Descarte: por que dói tanto ser deixado do nada
- Relacionamento abusivo: 15 sinais
Referências científicas
- Dvir M, Beşikci E, Williams KD. The quiet cruelty: Ostracism as intimate partner violence. Current Opinion in Psychology. 2026;68:102229 (publicação online em 8 de dezembro de 2025). (DOI: 10.1016/j.copsyc.2025.102229)
- Williams KD. Ostracism: a temporal need-threat model. In: Advances in Experimental Social Psychology. Vol. 41. San Diego: Elsevier Academic Press; 2009. p. 275-314. (DOI: 10.1016/S0065-2601(08)00406-1)
- Arriaga XB, Capezza NM, Reed JT, Wesselmann ED, Williams KD. With partners like you, who needs strangers? Ostracism involving a romantic partner. Personal Relationships. 2014;21(4):557-569. (DOI: 10.1111/pere.12048)
- Büttner CM, Ren D, Stavrova O, Rudert SC, Williams KD, Greifeneder R. Ostracism in everyday life: a framework of threat and behavioral responses in real life. Journal of Personality and Social Psychology. 2025;129:870-887. (DOI: 10.1037/pspi0000471)
- Zadro L. Ostracism: empirical studies inspired by real-world experiences of silence and exclusion [tese]. Sydney: University of New South Wales; 2004.
- Zadro L, Williams KD, Richardson R. Riding the “O” train: comparing the effects of ostracism and verbal dispute on targets and sources. Group Processes & Intergroup Relations. 2005;8(2):125-143. (DOI: 10.1177/1368430205051062)
- Stark E. Coercive Control: How Men Entrap Women in Personal Life. Oxford: Oxford University Press; 2007.
- Tager-Shafrir T, Szepsenwol O, Dvir M, Zamir O. The gaslighting relationship exposure inventory: reliability and validity in two cultures. Journal of Social and Personal Relationships. 2024;41(10):3123-3146. (DOI: 10.1177/02654075241266942)
Conteúdo educativo, não substitui avaliação individual. Em situação de risco, ligue 190; para orientação sobre violência contra a mulher, Ligue 180; para apoio emocional, CVV 188.
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