Dr. Anderson Contaifer (CRM-SC 24.484, RQE de Clínica Médica 18.790), médico especialista em Clínica Médica e criador do blog Quebrando as Algemas, atende por teleconsulta pessoas com sequelas de abuso narcisista e TEPT-C em todo o Brasil.
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O ITQ (International Trauma Questionnaire) é um questionário curto, criado para medir os sintomas de TEPT e de TEPT complexo como a CID-11 os define. Um estudo espanhol publicado em 2026, com 340 mulheres que sofreram violência de ex-parceiros, mostrou que ele funciona bem nesse grupo: respostas consistentes, boa concordância com outra escala de estresse pós-traumático e a organização em seis grupos de sintomas prevista pela CID-11. Mesmo assim, o questionário rastreia e mede. Quem diagnostica é a avaliação clínica.
Agradecimento especial
Obrigado, Dra. Carmen Fernández-Fillol
O estudo explicado neste artigo foi enviado ao Dr. Anderson pela pesquisadora Carmen Fernández-Fillol, primeira autora do trabalho, do Departamento de Ciências da Saúde da Universidad Internacional de Valencia (VIU) e do Centro de Investigação Mente, Cérebro e Comportamento (CIMCYC) da Universidade de Granada, na Espanha. Quando o Dr. Anderson escreveu pedindo o texto completo para estudá-lo, ela o enviou com toda a gentileza. O artigo faz parte da tese de doutorado dela e nasceu de avaliações feitas, uma a uma, com mulheres sobreviventes de dez regiões da Espanha. Fica aqui o nosso agradecimento especial pela gentileza e pela generosidade de compartilhar ciência com quem cuida de sobreviventes de violência no Brasil. Este texto é a nossa forma de levar o trabalho da equipe a mais pessoas. Thank you, Dr. Fernández-Fillol, for your kindness and generosity.
Ela saiu da relação há dois anos. Dorme mal, pula da cadeira quando a campainha toca e evita a rua onde os dois moravam. Mas existe outra parte, mais difícil de explicar: a sensação de ser um fracasso, de não valer nada, de não conseguir mais se aproximar de ninguém, de levar horas para se acalmar depois de uma mensagem do ex sobre a guarda dos filhos. Quando ela procura respostas na internet, encontra testes de todo tipo e não sabe em qual confiar.
Este artigo explica um estudo espanhol de 2026 que testou se um questionário internacional, o ITQ, mede bem esses sintomas em mulheres que viveram violência de um parceiro. E mostra o que um questionário pode e não pode dizer sobre você, incluindo a diferença entre o teste educativo do blog e uma versão validada.
O que é TEPT complexo na CID-11
A CID-11, a classificação de doenças da Organização Mundial da Saúde, separa o transtorno de estresse pós-traumático (TEPT, código 6B40) do TEPT complexo (TEPT-C, código 6B41). O TEPT-C tem os três grupos de sintomas do TEPT: reviver o trauma no aqui e agora, evitar lembranças e viver com sensação de ameaça, em alerta e se assustando com facilidade. E soma a eles três grupos chamados de distúrbios na auto-organização:
- Desregulação emocional: demorar muito para se acalmar ou, ao contrário, sentir-se anestesiada.
- Autoconceito negativo: sentir-se derrotada, sem valor, carregando vergonha ou culpa.
- Dificuldades nos relacionamentos: sentir-se distante das pessoas e ter dificuldade de manter proximidade.
A CID-11 define o TEPT-C pelos sintomas, não pelo tipo de trauma, e a pessoa recebe um diagnóstico ou o outro, nunca os dois. Explicamos o quadro em detalhes em TEPT complexo: sintomas, diagnóstico e cuidado, nos 12 sinais do TEPT-C e em por que o código oficial é CID-11 6B41.
No vídeo abaixo, o Dr. Anderson explica como o TEPT-C aparece depois de um relacionamento abusivo:
O que é o ITQ e por que ele precisava ser testado nessas mulheres
O International Trauma Questionnaire (ITQ) foi publicado em 2018 por Cloitre e colegas para medir os sintomas descritos pela CID-11. A própria pessoa responde: são 12 perguntas sobre sintomas, duas para cada um dos seis grupos acima, e seis sobre o quanto eles atrapalham a vida. As respostas vão de 0 (nada) a 4 (extremamente), e nota a partir de 2 conta como sintoma presente. Para indicar TEPT-C, é preciso ter sintomas nos seis grupos e prejuízo no dia a dia.
O ITQ já tinha sido testado em vários países, com veteranos de guerra, população geral e sobreviventes de abuso sexual, mas nunca em mulheres que sofreram violência do parceiro. E esse grupo tem particularidades: a violência é intencional, vem de alguém com quem havia vínculo, se repete em ciclos e muitas vezes continua depois da separação, pelo contato por causa dos filhos ou da justiça.
O que o estudo fez
Carmen Fernández-Fillol, Miguel Pérez-García e Natalia Hidalgo-Ruzzante, da Universidade de Granada e de outras instituições espanholas, publicaram o estudo em 2026 na revista Violence Against Women. Participaram 340 mulheres residentes na Espanha que tinham sofrido violência psicológica, física e/ou sexual de ex-parceiros. Nenhuma estava mais na relação nem morava com o agressor. Elas foram encaminhadas por centros públicos de atendimento à mulher e por associações de sobreviventes de dez regiões do país, entre 2019 e 2022.
| Quem eram as participantes | Dado do estudo |
|---|---|
| Idade | Média de cerca de 43 anos (de 19 a 75) |
| Violência psicológica | 99,1% |
| Violência física | 68,8% |
| Violência sexual | 39,3% |
| Tinham filhos com o ex-parceiro | 71,8% |
| Processo judicial em andamento com o agressor | 60,4% |
| Ordem de afastamento contra o agressor em vigor | 37% |
Cada mulher fez uma sessão individual de cerca de 90 minutos, acompanhada por profissional de psicologia, presencialmente ou por vídeo. Respondeu à versão espanhola do ITQ, adaptada pela mesma equipe, e a uma escala espanhola de estresse pós-traumático aplicada por entrevistador. Cerca de 77 participantes também responderam a questionários de depressão (PHQ-9) e ansiedade (GAD-7). Explicamos esses dois instrumentos em depressão após abuso: PHQ-9 e ansiedade após abuso: GAD-7.
Com esses dados, os pesquisadores fizeram três perguntas sobre o ITQ:
- Ele é consistente? As perguntas que medem a mesma coisa andam juntas nas respostas (confiabilidade)?
- Ele concorda com outras medidas? Quem pontua alto no ITQ também pontua alto em outra escala já validada?
- O mapa de sintomas bate com a CID-11? Com uma técnica chamada análise fatorial confirmatória, eles compararam quatro “mapas”: um bloco só, seis grupos relacionados entre si, seis grupos sob um fator geral, e seis grupos organizados em dois blocos, TEPT e auto-organização.
O que o estudo encontrou
| O que foi medido | Resultado | Em palavras simples |
|---|---|---|
| Consistência interna (alfa de Cronbach) | 0,86 no bloco TEPT, 0,88 no bloco de auto-organização e 0,90 no questionário inteiro | Boa: as perguntas de cada bloco medem a mesma coisa |
| Concordância com a escala espanhola de estresse pós-traumático | Correlação de 0,85 entre o total do ITQ e o total da outra escala | Forte: as duas medidas apontam na mesma direção |
| Relação com depressão (cerca de 77 mulheres) | 0,80 com o bloco de auto-organização e 0,64 com o bloco TEPT | Os sintomas andam muito perto da depressão |
| Relação com ansiedade (cerca de 76 mulheres) | 0,20 com o bloco de auto-organização e 0,32 com o bloco TEPT | Relação bem mais fraca |
| Mapa de sintomas | O de seis grupos relacionados entre si teve o melhor ajuste; o de dois grandes blocos ficou em segundo | A estrutura prevista pela CID-11 se confirmou |
Quase metade preencheu critérios para TEPT-C pelo questionário. Pelas regras do ITQ, 47,4% das mulheres (161) tinham respostas compatíveis com TEPT complexo e 18,2% (62) com TEPT, somando 65,6%. O padrão repete um estudo anterior da mesma equipe, de 2021, em que o TEPT-C também foi cerca de duas vezes mais frequente que o TEPT (39,5% contra 17,9%). Os autores sugerem que o TEPT-C pode estar sendo pouco diagnosticado e pouco tratado de forma específica nesse grupo.
Os sintomas mais intensos foram os de alerta e de fuga. As notas mais altas ficaram em evitar lembranças, por dentro e por fora, em viver de guarda, em se assustar com facilidade e em sentir-se emocionalmente anestesiada. Falamos dessa anestesia em embotamento emocional: quando você para de reagir.
Sentir-se um fracasso foi o sintoma que melhor representou o seu grupo. Na análise, cada pergunta tem um “peso” que mostra o quanto representa o seu grupo. A pergunta sobre sentir-se um fracasso, do autoconceito negativo, teve o maior peso do questionário (0,947, numa escala que vai até 1). Os autores lembram que agressores costumam atacar a autoestima da parceira como tática de dominação, e que muitas sobreviventes descrevem a violência como devastadora para a autoestima e a identidade.
No vídeo abaixo, o Dr. Anderson explica como a autoestima vai sendo corroída dentro de uma relação abusiva:
Emoções desreguladas e dificuldade de se aproximar andaram juntas. A ligação mais forte entre dois grupos de sintomas (0,69) foi entre a desregulação emocional e as dificuldades nos relacionamentos. Os autores discutem que, com a confiança quebrada, algumas mulheres mantêm distância emocional para se proteger de nova violência, e que o medo pode atrapalhar novos vínculos.
No Instagram, o Dr. Anderson explica por que ficou tão difícil se aproximar depois do abuso:
Mais perto da depressão do que da ansiedade. Os sintomas do ITQ, principalmente os de auto-organização, se relacionaram muito mais com depressão do que com ansiedade. Os autores observam que estudos baseados no DSM-5 costumam encontrar o oposto. Na prática, é um lembrete de que um quadro que parece “só depressão” pode ter uma história de trauma por trás.
O que esse estudo não diz
- Não diz que quase metade das mulheres que sofrem violência tem TEPT-C. As participantes vieram de serviços de atendimento: é um grupo que já procurou ajuda, não uma amostra da população.
- Não é diagnóstico. Os números de TEPT e TEPT-C vêm das regras de um questionário de autorrelato, não de entrevista clínica. Os autores lembram que ainda não havia, em espanhol, uma entrevista clínica pública para a CID-11, e sugerem comparar as duas formas em estudos futuros.
- É um retrato de um único momento. O estudo é transversal: não acompanhou as mulheres ao longo do tempo. Ele avalia a qualidade do questionário, não a relação de causa entre a violência e cada sintoma.
- Vale para a versão espanhola, na Espanha. Os resultados não se transferem automaticamente para uma tradução em português, para mulheres brasileiras ou para homens.
- Depressão e ansiedade foram medidas em só cerca de 77 mulheres, o que pede mais cautela.
Questionário não é diagnóstico: e o teste do blog?
Um questionário é uma forma organizada de perguntar: mostra se há sinais compatíveis com um quadro, mede a intensidade e ajuda a acompanhar a melhora. O diagnóstico é clínico: depende da história, da linha do tempo dos sintomas, do quanto eles atrapalham a vida e de afastar outras explicações, como problemas de sono, da tireoide, efeitos de medicamentos e transtornos parecidos. Explicamos uma dessas diferenças em TPB ou TEPT-C.
O blog tem um questionário de estresse pós-traumático complexo, inspirado na estrutura do ITQ. Ele é diferente do que foi testado neste estudo:
- O teste do blog é educativo. É uma tradução livre, sem estudo de validação em português. Serve para organizar o que você sente e levar para uma avaliação.
- O ITQ do estudo é uma versão validada. A versão espanhola foi traduzida e adaptada seguindo diretrizes internacionais e testada em 340 mulheres. É isso que permite dizer que ela mede bem o que promete nesse grupo.
- Nenhum dos dois fecha diagnóstico. Um resultado sugestivo é um bom motivo para procurar avaliação. Um resultado negativo não apaga o seu sofrimento, se ele existe.
- Questionário é para você, não para o outro. Ele não serve para rotular um ex-parceiro, um familiar ou qualquer outra pessoa.
O que isso muda na prática
Para quem viveu
- O que você sente tem nome e pode ser medido. Demorar a se acalmar e não conseguir se aproximar das pessoas fazem parte de um quadro reconhecido pela CID-11.
- Sentir-se um fracasso é um sintoma, não um veredito. Muitas vezes essa ideia foi repetida por outra pessoa até virar voz interna.
- Leve informações concretas para a avaliação. Anote quais sintomas aparecem, desde quando e quanto atrapalham. Se fez o teste do blog, leve o resultado como ponto de partida.
- Tratamento focado em trauma. Para TEPT e TEPT-C, as abordagens de psicoterapia indicadas são EMDR, Brainspotting e terapia cognitivo-comportamental focada no trauma. Veja um exemplo em tratamento intensivo para TEPT complexo.
- Avaliação médica também faz parte. Insônia, cansaço, dores e sintomas de depressão merecem cuidado próprio. Veja qual médico procurar após uma relação abusiva.
No Instagram, o Dr. Anderson mostra como desfazer o autoconceito que foi imposto pela relação:
Para profissionais e serviços de atendimento
- Pergunte além dos flashbacks. Autoconceito, regulação emocional e relacionamentos são centrais no quadro e passam despercebidos quando se olha só para o TEPT clássico. O estudo apoia o ITQ como medida nesse grupo, ao lado da avaliação clínica.
- Considere o contexto. Muitas sobreviventes seguem em contato com o agressor por causa dos filhos ou da justiça.
Perguntas frequentes
O que é o ITQ (International Trauma Questionnaire)?
É um questionário de autorrelato, publicado em 2018, que mede os sintomas de TEPT e de TEPT complexo segundo a CID-11. Tem 12 perguntas sobre sintomas e 6 sobre o prejuízo que eles causam na vida diária, com respostas de 0 a 4.
O ITQ dá diagnóstico de TEPT complexo?
Não sozinho. Ele indica se as respostas são compatíveis com TEPT ou TEPT-C e mede a intensidade dos sintomas. O diagnóstico depende de avaliação clínica.
O ITQ funciona para mulheres que sofreram violência do parceiro?
Um estudo espanhol de 2026, com 340 mulheres, indica que sim: a versão espanhola foi consistente, concordou com outra escala de estresse pós-traumático e confirmou os seis grupos de sintomas da CID-11.
Qual a diferença entre TEPT e TEPT complexo na CID-11?
O TEPT envolve reviver o trauma, evitar lembranças e sentir ameaça constante. O TEPT-C (6B41) inclui tudo isso e ainda desregulação emocional, autoconceito negativo e dificuldades nos relacionamentos. A pessoa recebe um diagnóstico ou o outro, não os dois.
O teste de TEPT-C do blog é o mesmo que o ITQ validado?
Não. O teste do blog é educativo, inspirado na estrutura do ITQ, mas é uma tradução livre que não passou por validação em português. Serve para organizar o que você sente, não para fechar diagnóstico.
Sentir-se um fracasso pode ser sintoma de trauma?
Pode. Na CID-11, o autoconceito negativo faz parte do TEPT complexo. No estudo espanhol, sentir-se um fracasso foi o item que melhor representou o seu grupo de sintomas.
Leia também
- Questionário de estresse pós-traumático complexo (TEPT-C)
- Sintomas do TEPT-C: os 12 sinais do trauma complexo
- TEPT-C vs TEPT clássico: diferenças que mudam o tratamento
- Abuso psicológico pode causar estresse pós-traumático sem violência física?
- Violência no relacionamento e sofrimento psíquico em mulheres
Referências científicas
- Fernández-Fillol C, Pérez-García M, Hidalgo-Ruzzante N. Psychometric properties of the ITQ for measuring ICD-11 complex PTSD in a Spanish sample of women survivors of intimate partner violence. Violence Against Women. 2026;32(3-4):974-996. (DOI: 10.1177/10778012251320585)
- Cloitre M, Shevlin M, Brewin CR, Bisson JI, Roberts NP, Maercker A, Karatzias T, Hyland P. The International Trauma Questionnaire: development of a self-report measure of ICD-11 PTSD and complex PTSD. Acta Psychiatrica Scandinavica. 2018;138(6):536-546. (DOI: 10.1111/acps.12956)
- Fernández-Fillol C, Pitsiakou C, Pérez-García M, Teva I, Hidalgo-Ruzzante N. Complex PTSD in survivors of intimate partner violence: risk factors related to symptoms and diagnoses. European Journal of Psychotraumatology. 2021;12(1):2003616. (DOI: 10.1080/20008198.2021.2003616)
- World Health Organization. International Classification of Diseases, 11th Revision (ICD-11). Geneva: WHO; 2018.
Conteúdo educativo, não substitui avaliação individual. Em situação de risco, ligue 190; para orientação sobre violência contra a mulher, Ligue 180; para apoio emocional, CVV 188.
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