Questionário ITQ e TEPT complexo: o que mostrou um estudo com 340 mulheres que sofreram violência do parceiro

Questionário ITQ e TEPT complexo: o que mostrou um estudo com 340 mulheres que sofreram violência do parceiro
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Dr. Anderson Contaifer

Médico · CRM-SC 24.484 · Especialista em Clínica Médica · RQE 18.790. Graduado pela EMESCAM em 2012, com título de especialista em Clínica Médica pela Sociedade Brasileira de Clínica Médica (SBCM), em 2019. Atende adultos exclusivamente por teleconsulta, com avaliação individual das repercussões físicas e emocionais de relacionamentos abusivos e do estresse prolongado. Criador do Programa Quebrando as Algemas e de conteúdo educativo sobre relacionamentos abusivos, limites e autocuidado.

Informação para entender relações abusivas e cuidar da sua saúde

Dr. Anderson Contaifer (CRM-SC 24.484, RQE de Clínica Médica 18.790), médico especialista em Clínica Médica e criador do blog Quebrando as Algemas, atende por teleconsulta pessoas com sequelas de abuso narcisista e TEPT-C em todo o Brasil.

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Resposta rápida

O ITQ (International Trauma Questionnaire) é um questionário curto, criado para medir os sintomas de TEPT e de TEPT complexo como a CID-11 os define. Um estudo espanhol publicado em 2026, com 340 mulheres que sofreram violência de ex-parceiros, mostrou que ele funciona bem nesse grupo: respostas consistentes, boa concordância com outra escala de estresse pós-traumático e a organização em seis grupos de sintomas prevista pela CID-11. Mesmo assim, o questionário rastreia e mede. Quem diagnostica é a avaliação clínica.

Agradecimento especial

Obrigado, Dra. Carmen Fernández-Fillol

O estudo explicado neste artigo foi enviado ao Dr. Anderson pela pesquisadora Carmen Fernández-Fillol, primeira autora do trabalho, do Departamento de Ciências da Saúde da Universidad Internacional de Valencia (VIU) e do Centro de Investigação Mente, Cérebro e Comportamento (CIMCYC) da Universidade de Granada, na Espanha. Quando o Dr. Anderson escreveu pedindo o texto completo para estudá-lo, ela o enviou com toda a gentileza. O artigo faz parte da tese de doutorado dela e nasceu de avaliações feitas, uma a uma, com mulheres sobreviventes de dez regiões da Espanha. Fica aqui o nosso agradecimento especial pela gentileza e pela generosidade de compartilhar ciência com quem cuida de sobreviventes de violência no Brasil. Este texto é a nossa forma de levar o trabalho da equipe a mais pessoas. Thank you, Dr. Fernández-Fillol, for your kindness and generosity.

Ela saiu da relação há dois anos. Dorme mal, pula da cadeira quando a campainha toca e evita a rua onde os dois moravam. Mas existe outra parte, mais difícil de explicar: a sensação de ser um fracasso, de não valer nada, de não conseguir mais se aproximar de ninguém, de levar horas para se acalmar depois de uma mensagem do ex sobre a guarda dos filhos. Quando ela procura respostas na internet, encontra testes de todo tipo e não sabe em qual confiar.

Este artigo explica um estudo espanhol de 2026 que testou se um questionário internacional, o ITQ, mede bem esses sintomas em mulheres que viveram violência de um parceiro. E mostra o que um questionário pode e não pode dizer sobre você, incluindo a diferença entre o teste educativo do blog e uma versão validada.

O que é TEPT complexo na CID-11

A CID-11, a classificação de doenças da Organização Mundial da Saúde, separa o transtorno de estresse pós-traumático (TEPT, código 6B40) do TEPT complexo (TEPT-C, código 6B41). O TEPT-C tem os três grupos de sintomas do TEPT: reviver o trauma no aqui e agora, evitar lembranças e viver com sensação de ameaça, em alerta e se assustando com facilidade. E soma a eles três grupos chamados de distúrbios na auto-organização:

  • Desregulação emocional: demorar muito para se acalmar ou, ao contrário, sentir-se anestesiada.
  • Autoconceito negativo: sentir-se derrotada, sem valor, carregando vergonha ou culpa.
  • Dificuldades nos relacionamentos: sentir-se distante das pessoas e ter dificuldade de manter proximidade.

A CID-11 define o TEPT-C pelos sintomas, não pelo tipo de trauma, e a pessoa recebe um diagnóstico ou o outro, nunca os dois. Explicamos o quadro em detalhes em TEPT complexo: sintomas, diagnóstico e cuidado, nos 12 sinais do TEPT-C e em por que o código oficial é CID-11 6B41.

No vídeo abaixo, o Dr. Anderson explica como o TEPT-C aparece depois de um relacionamento abusivo:

O que é o ITQ e por que ele precisava ser testado nessas mulheres

O International Trauma Questionnaire (ITQ) foi publicado em 2018 por Cloitre e colegas para medir os sintomas descritos pela CID-11. A própria pessoa responde: são 12 perguntas sobre sintomas, duas para cada um dos seis grupos acima, e seis sobre o quanto eles atrapalham a vida. As respostas vão de 0 (nada) a 4 (extremamente), e nota a partir de 2 conta como sintoma presente. Para indicar TEPT-C, é preciso ter sintomas nos seis grupos e prejuízo no dia a dia.

O ITQ já tinha sido testado em vários países, com veteranos de guerra, população geral e sobreviventes de abuso sexual, mas nunca em mulheres que sofreram violência do parceiro. E esse grupo tem particularidades: a violência é intencional, vem de alguém com quem havia vínculo, se repete em ciclos e muitas vezes continua depois da separação, pelo contato por causa dos filhos ou da justiça.

O que o estudo fez

Carmen Fernández-Fillol, Miguel Pérez-García e Natalia Hidalgo-Ruzzante, da Universidade de Granada e de outras instituições espanholas, publicaram o estudo em 2026 na revista Violence Against Women. Participaram 340 mulheres residentes na Espanha que tinham sofrido violência psicológica, física e/ou sexual de ex-parceiros. Nenhuma estava mais na relação nem morava com o agressor. Elas foram encaminhadas por centros públicos de atendimento à mulher e por associações de sobreviventes de dez regiões do país, entre 2019 e 2022.

Quem eram as participantes Dado do estudo
Idade Média de cerca de 43 anos (de 19 a 75)
Violência psicológica 99,1%
Violência física 68,8%
Violência sexual 39,3%
Tinham filhos com o ex-parceiro 71,8%
Processo judicial em andamento com o agressor 60,4%
Ordem de afastamento contra o agressor em vigor 37%

Cada mulher fez uma sessão individual de cerca de 90 minutos, acompanhada por profissional de psicologia, presencialmente ou por vídeo. Respondeu à versão espanhola do ITQ, adaptada pela mesma equipe, e a uma escala espanhola de estresse pós-traumático aplicada por entrevistador. Cerca de 77 participantes também responderam a questionários de depressão (PHQ-9) e ansiedade (GAD-7). Explicamos esses dois instrumentos em depressão após abuso: PHQ-9 e ansiedade após abuso: GAD-7.

Com esses dados, os pesquisadores fizeram três perguntas sobre o ITQ:

  • Ele é consistente? As perguntas que medem a mesma coisa andam juntas nas respostas (confiabilidade)?
  • Ele concorda com outras medidas? Quem pontua alto no ITQ também pontua alto em outra escala já validada?
  • O mapa de sintomas bate com a CID-11? Com uma técnica chamada análise fatorial confirmatória, eles compararam quatro “mapas”: um bloco só, seis grupos relacionados entre si, seis grupos sob um fator geral, e seis grupos organizados em dois blocos, TEPT e auto-organização.

O que o estudo encontrou

O que foi medido Resultado Em palavras simples
Consistência interna (alfa de Cronbach) 0,86 no bloco TEPT, 0,88 no bloco de auto-organização e 0,90 no questionário inteiro Boa: as perguntas de cada bloco medem a mesma coisa
Concordância com a escala espanhola de estresse pós-traumático Correlação de 0,85 entre o total do ITQ e o total da outra escala Forte: as duas medidas apontam na mesma direção
Relação com depressão (cerca de 77 mulheres) 0,80 com o bloco de auto-organização e 0,64 com o bloco TEPT Os sintomas andam muito perto da depressão
Relação com ansiedade (cerca de 76 mulheres) 0,20 com o bloco de auto-organização e 0,32 com o bloco TEPT Relação bem mais fraca
Mapa de sintomas O de seis grupos relacionados entre si teve o melhor ajuste; o de dois grandes blocos ficou em segundo A estrutura prevista pela CID-11 se confirmou

Quase metade preencheu critérios para TEPT-C pelo questionário. Pelas regras do ITQ, 47,4% das mulheres (161) tinham respostas compatíveis com TEPT complexo e 18,2% (62) com TEPT, somando 65,6%. O padrão repete um estudo anterior da mesma equipe, de 2021, em que o TEPT-C também foi cerca de duas vezes mais frequente que o TEPT (39,5% contra 17,9%). Os autores sugerem que o TEPT-C pode estar sendo pouco diagnosticado e pouco tratado de forma específica nesse grupo.

Os sintomas mais intensos foram os de alerta e de fuga. As notas mais altas ficaram em evitar lembranças, por dentro e por fora, em viver de guarda, em se assustar com facilidade e em sentir-se emocionalmente anestesiada. Falamos dessa anestesia em embotamento emocional: quando você para de reagir.

Sentir-se um fracasso foi o sintoma que melhor representou o seu grupo. Na análise, cada pergunta tem um “peso” que mostra o quanto representa o seu grupo. A pergunta sobre sentir-se um fracasso, do autoconceito negativo, teve o maior peso do questionário (0,947, numa escala que vai até 1). Os autores lembram que agressores costumam atacar a autoestima da parceira como tática de dominação, e que muitas sobreviventes descrevem a violência como devastadora para a autoestima e a identidade.

No vídeo abaixo, o Dr. Anderson explica como a autoestima vai sendo corroída dentro de uma relação abusiva:

Emoções desreguladas e dificuldade de se aproximar andaram juntas. A ligação mais forte entre dois grupos de sintomas (0,69) foi entre a desregulação emocional e as dificuldades nos relacionamentos. Os autores discutem que, com a confiança quebrada, algumas mulheres mantêm distância emocional para se proteger de nova violência, e que o medo pode atrapalhar novos vínculos.

No Instagram, o Dr. Anderson explica por que ficou tão difícil se aproximar depois do abuso:

Mais perto da depressão do que da ansiedade. Os sintomas do ITQ, principalmente os de auto-organização, se relacionaram muito mais com depressão do que com ansiedade. Os autores observam que estudos baseados no DSM-5 costumam encontrar o oposto. Na prática, é um lembrete de que um quadro que parece “só depressão” pode ter uma história de trauma por trás.

O que esse estudo não diz

  • Não diz que quase metade das mulheres que sofrem violência tem TEPT-C. As participantes vieram de serviços de atendimento: é um grupo que já procurou ajuda, não uma amostra da população.
  • Não é diagnóstico. Os números de TEPT e TEPT-C vêm das regras de um questionário de autorrelato, não de entrevista clínica. Os autores lembram que ainda não havia, em espanhol, uma entrevista clínica pública para a CID-11, e sugerem comparar as duas formas em estudos futuros.
  • É um retrato de um único momento. O estudo é transversal: não acompanhou as mulheres ao longo do tempo. Ele avalia a qualidade do questionário, não a relação de causa entre a violência e cada sintoma.
  • Vale para a versão espanhola, na Espanha. Os resultados não se transferem automaticamente para uma tradução em português, para mulheres brasileiras ou para homens.
  • Depressão e ansiedade foram medidas em só cerca de 77 mulheres, o que pede mais cautela.

Questionário não é diagnóstico: e o teste do blog?

Um questionário é uma forma organizada de perguntar: mostra se há sinais compatíveis com um quadro, mede a intensidade e ajuda a acompanhar a melhora. O diagnóstico é clínico: depende da história, da linha do tempo dos sintomas, do quanto eles atrapalham a vida e de afastar outras explicações, como problemas de sono, da tireoide, efeitos de medicamentos e transtornos parecidos. Explicamos uma dessas diferenças em TPB ou TEPT-C.

O blog tem um questionário de estresse pós-traumático complexo, inspirado na estrutura do ITQ. Ele é diferente do que foi testado neste estudo:

  • O teste do blog é educativo. É uma tradução livre, sem estudo de validação em português. Serve para organizar o que você sente e levar para uma avaliação.
  • O ITQ do estudo é uma versão validada. A versão espanhola foi traduzida e adaptada seguindo diretrizes internacionais e testada em 340 mulheres. É isso que permite dizer que ela mede bem o que promete nesse grupo.
  • Nenhum dos dois fecha diagnóstico. Um resultado sugestivo é um bom motivo para procurar avaliação. Um resultado negativo não apaga o seu sofrimento, se ele existe.
  • Questionário é para você, não para o outro. Ele não serve para rotular um ex-parceiro, um familiar ou qualquer outra pessoa.

O que isso muda na prática

Para quem viveu

  • O que você sente tem nome e pode ser medido. Demorar a se acalmar e não conseguir se aproximar das pessoas fazem parte de um quadro reconhecido pela CID-11.
  • Sentir-se um fracasso é um sintoma, não um veredito. Muitas vezes essa ideia foi repetida por outra pessoa até virar voz interna.
  • Leve informações concretas para a avaliação. Anote quais sintomas aparecem, desde quando e quanto atrapalham. Se fez o teste do blog, leve o resultado como ponto de partida.
  • Tratamento focado em trauma. Para TEPT e TEPT-C, as abordagens de psicoterapia indicadas são EMDR, Brainspotting e terapia cognitivo-comportamental focada no trauma. Veja um exemplo em tratamento intensivo para TEPT complexo.
  • Avaliação médica também faz parte. Insônia, cansaço, dores e sintomas de depressão merecem cuidado próprio. Veja qual médico procurar após uma relação abusiva.

No Instagram, o Dr. Anderson mostra como desfazer o autoconceito que foi imposto pela relação:

Para profissionais e serviços de atendimento

  • Pergunte além dos flashbacks. Autoconceito, regulação emocional e relacionamentos são centrais no quadro e passam despercebidos quando se olha só para o TEPT clássico. O estudo apoia o ITQ como medida nesse grupo, ao lado da avaliação clínica.
  • Considere o contexto. Muitas sobreviventes seguem em contato com o agressor por causa dos filhos ou da justiça.

Perguntas frequentes

O que é o ITQ (International Trauma Questionnaire)?

É um questionário de autorrelato, publicado em 2018, que mede os sintomas de TEPT e de TEPT complexo segundo a CID-11. Tem 12 perguntas sobre sintomas e 6 sobre o prejuízo que eles causam na vida diária, com respostas de 0 a 4.

O ITQ dá diagnóstico de TEPT complexo?

Não sozinho. Ele indica se as respostas são compatíveis com TEPT ou TEPT-C e mede a intensidade dos sintomas. O diagnóstico depende de avaliação clínica.

O ITQ funciona para mulheres que sofreram violência do parceiro?

Um estudo espanhol de 2026, com 340 mulheres, indica que sim: a versão espanhola foi consistente, concordou com outra escala de estresse pós-traumático e confirmou os seis grupos de sintomas da CID-11.

Qual a diferença entre TEPT e TEPT complexo na CID-11?

O TEPT envolve reviver o trauma, evitar lembranças e sentir ameaça constante. O TEPT-C (6B41) inclui tudo isso e ainda desregulação emocional, autoconceito negativo e dificuldades nos relacionamentos. A pessoa recebe um diagnóstico ou o outro, não os dois.

O teste de TEPT-C do blog é o mesmo que o ITQ validado?

Não. O teste do blog é educativo, inspirado na estrutura do ITQ, mas é uma tradução livre que não passou por validação em português. Serve para organizar o que você sente, não para fechar diagnóstico.

Sentir-se um fracasso pode ser sintoma de trauma?

Pode. Na CID-11, o autoconceito negativo faz parte do TEPT complexo. No estudo espanhol, sentir-se um fracasso foi o item que melhor representou o seu grupo de sintomas.

Leia também

Referências científicas

  1. Fernández-Fillol C, Pérez-García M, Hidalgo-Ruzzante N. Psychometric properties of the ITQ for measuring ICD-11 complex PTSD in a Spanish sample of women survivors of intimate partner violence. Violence Against Women. 2026;32(3-4):974-996. (DOI: 10.1177/10778012251320585)
  2. Cloitre M, Shevlin M, Brewin CR, Bisson JI, Roberts NP, Maercker A, Karatzias T, Hyland P. The International Trauma Questionnaire: development of a self-report measure of ICD-11 PTSD and complex PTSD. Acta Psychiatrica Scandinavica. 2018;138(6):536-546. (DOI: 10.1111/acps.12956)
  3. Fernández-Fillol C, Pitsiakou C, Pérez-García M, Teva I, Hidalgo-Ruzzante N. Complex PTSD in survivors of intimate partner violence: risk factors related to symptoms and diagnoses. European Journal of Psychotraumatology. 2021;12(1):2003616. (DOI: 10.1080/20008198.2021.2003616)
  4. World Health Organization. International Classification of Diseases, 11th Revision (ICD-11). Geneva: WHO; 2018.

Conteúdo educativo, não substitui avaliação individual. Em situação de risco, ligue 190; para orientação sobre violência contra a mulher, Ligue 180; para apoio emocional, CVV 188.

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Sobre o autor

Dr. Anderson Contaifer de Carvalho
Médico · CRM-SC 24.484 · Especialista em Clínica Médica · RQE 18.790. Graduado pela EMESCAM em 2012, com título de especialista em Clínica Médica pela Sociedade Brasileira de Clínica Médica (SBCM), em 2019. Atende adultos exclusivamente por teleconsulta, com avaliação individual das repercussões físicas e emocionais de relacionamentos abusivos e do estresse prolongado. Criador do Programa Quebrando as Algemas e de conteúdo educativo sobre relacionamentos abusivos, limites e autocuidado.

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