Abuso processual e filhos depois da separação: o que um estudo com mães sobreviventes revela

Abuso processual e filhos depois da separação: o que um estudo com mães sobreviventes revela
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Dr. Anderson Contaifer

Médico · CRM-SC 24.484 · Especialista em Clínica Médica · RQE 18.790. Graduado pela EMESCAM em 2012, com título de especialista em Clínica Médica pela Sociedade Brasileira de Clínica Médica (SBCM), em 2019. Atende adultos exclusivamente por teleconsulta, com avaliação individual das repercussões físicas e emocionais de relacionamentos abusivos e do estresse prolongado. Criador do Programa Quebrando as Algemas e de conteúdo educativo sobre relacionamentos abusivos, limites e autocuidado.

Informação para entender relações abusivas e cuidar da sua saúde

Dr. Anderson Contaifer (CRM-SC 24.484, RQE de Clínica Médica 18.790), médico especialista em Clínica Médica e criador do blog Quebrando as Algemas, atende por teleconsulta pessoas com sequelas de abuso narcisista e TEPT-C em todo o Brasil.

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Resposta rápida

Um estudo qualitativo publicado em 2026 na revista Violence Against Women entrevistou 20 mães dos Estados Unidos que pediram ordem de proteção contra o ex-parceiro. Mais da metade (55%) relatou abuso processual: ações sem fundamento, pedidos de visita ou guarda sem interesse real pelos filhos e mentiras sobre a renda para pagar menos pensão. Já 65% relataram controle e assédio continuados por meio dos filhos; várias descreveram sabotagem do trabalho e da relação com as crianças.

Agradecimento especial

Obrigado, Profa. Kristen Hefner

O estudo explicado neste artigo foi enviado ao Dr. Anderson pela pesquisadora M. Kristen Hefner, professora associada do Departamento de Justiça Criminal da The Citadel, em Charleston, na Carolina do Sul (Estados Unidos), primeira autora e autora de contato do trabalho. Quando o Dr. Anderson escreveu pedindo o texto completo para estudá-lo, ela compartilhou o artigo. Fica aqui o nosso agradecimento especial pela gentileza e pela generosidade de compartilhar ciência de qualidade com quem cuida de sobreviventes de violência no Brasil. Este texto é a nossa forma de levar o trabalho da equipe a mais pessoas. Thank you, Professor Hefner, for your kindness and generosity.

A ordem de proteção saiu, e ela dormiu tranquila pela primeira vez em meses. Duas semanas depois chega a intimação: o ex, que quase nunca perguntava pela filha, agora pede visitas. Depois vem um pedido de guarda, uma audiência marcada para as nove da manhã que só termina perto do meio-dia, o dia de trabalho perdido, a babá paga, o estacionamento, a conta do advogado. E ele nem aparece.

Quem passa por isso costuma ouvir que “é só briga de ex”. Um estudo publicado em 2026 deu nome a esse desgaste: ouviu mães que buscaram proteção na Justiça dos Estados Unidos e descreveu como o ex-parceiro usou os filhos e os processos para continuar no controle. Veja o que ele encontrou, o que não permite concluir e o que pode significar no Brasil.

O que é abuso processual e por que ele aparece depois da separação

Abuso processual (em inglês, litigation abuse ou paper abuse) é o uso do sistema de Justiça para controlar, assediar, intimidar ou empobrecer a ex-parceira. Ações sem fundamento, acusações falsas, pedidos feitos só para pressionar, faltas às audiências que geram adiamentos. Cada processo, isolado, parece um direito; o conjunto funciona como desgaste.

Ele é uma continuação do controle coercitivo, o padrão em que um parceiro vai tirando do outro a voz, as escolhas e os recursos. Os autores lembram que sair da relação não garante segurança: com filhos em comum, o contato continua, e o controle encontra outras vias. Eles citam duas táticas conhecidas em tribunais: retratar a mãe como mentirosa, vingativa ou “louca” (uma forma de gaslighting) e o DARVO: negar, atacar a credibilidade de quem denunciou e se colocar como vítima.

O título do estudo vem da fala de uma participante sobre o pedido de visitas do ex. Em tradução livre: ele só quer me tirar do sério.

No vídeo abaixo, o Dr. Anderson fala sobre o que esperar quando se tem filhos com alguém que usa o controle como forma de se relacionar:

O que o estudo fez

Hefner, Qiu, Fleury-Steiner e Miller, pesquisadoras da The Citadel e da University of Delaware, publicaram o estudo na revista Violence Against Women (versão online em 2025, edição impressa em 2026). Os dados vêm de um projeto maior sobre a ordem de proteção civil no estado de Delaware, nos Estados Unidos.

Essa ordem lembra, na função, a medida protetiva brasileira, mas o sistema é outro. Corre na Justiça civil, separada do processo criminal, e pode ser concedida mesmo sem violência física. Pode trazer regras provisórias de guarda e visitas; a decisão definitiva exige outro processo, na Justiça de Família.

As participantes foram convidadas no próprio fórum, enquanto esperavam a audiência, e sorteadas para entrevista em profundidade ou questionário. Das 29 mulheres entrevistadas, ficaram na análise 20 mães com filhos menores morando com elas; 15 (75%) deram uma segunda entrevista três meses depois. Duas pesquisadoras codificaram as transcrições e agruparam os relatos em temas (análise temática).

Quem eram as participantes Dado do estudo
Idade média 35 anos (de 23 a 49)
Duração média da relação 9,6 anos (de 1 a 25)
Já tinham terminado a relação 80% (4 ainda eram casadas no papel, nem sempre morando juntos)
Relataram abuso psicológico, emocional ou verbal 100%
Relataram violência física 75%
Relataram que o agressor também maltratou ou negligenciou os filhos 60% (definição ampla, a partir dos relatos)
O agressor era pai biológico de pelo menos um dos filhos 95%
Os filhos foram parte do motivo para pedir a ordem 80%
Também lidavam com processo criminal / com outro processo de família 65% / 55%

O que o estudo encontrou: três formas de manter o controle

Tema Quantas mães relataram Como apareceu
Abuso processual 55% (11 de 20) Processos sem fundamento; pedidos de guarda ou visita sem interesse anterior; 25% relataram mentira sobre a renda; 25%, outros processos em retaliação
Controle e assédio continuados 65% (13 de 20) Levar ou ameaçar levar os filhos, usá-los como pretexto para descumprir a ordem, ameaças contra as crianças
Sabotagem e fuga da responsabilidade Vários relatos; 20% (4) sobre a relação com os filhos Atrapalhar o trabalho da mãe, acusá-la de ser perigosa, falar mal dela para os filhos

1. Abuso processual: a Justiça como ferramenta

Um pai que mal procurava a filha entrou com pedido de visitas depois que a ordem foi concedida, e o próprio advogado da mãe achou que era revide. Outro ficou com as crianças, não devolveu e pediu guarda de emergência acusando a mãe de usar drogas e maltratar os filhos. Outros pediram guarda e não compareceram às audiências, enquanto a mãe pagava o advogado a cada data marcada.

A pensão também virou arena. Um pai declarou ganhar muito menos do que ganhava; outro apresentou contracheques semanais como se fossem quinzenais, e o tribunal percebeu a manobra, algo que a mãe atribuiu a ter um advogado ao lado. Houve quem oferecesse dinheiro para os filhos em troca da retirada do pedido de proteção.

O custo vai além da raiva: combustível, babá, horas no fórum, faltas no trabalho. Os autores observam que, na medida em que juízes americanos levam em conta a estabilidade financeira ao decidir a guarda, o desgaste econômico causado por processos sem fundamento pode acabar prejudicando justamente a mãe.

No vídeo abaixo, o Dr. Anderson explica o que costuma ser usado contra a vítima no momento da separação:

2. Controle e assédio que continuam, agora pelos filhos

Uma mãe contou que o ex disse uma única vez que, se eles se separassem, poderia levar o filho para outro país e ela nunca mais o veria. Foi o bastante para ela continuar na relação por medo. Outras relataram ameaças de fazer mal aos filhos.

Das mulheres com ordem concedida, 57% (8 de 14) só podiam ter contato com o ex sobre os filhos. O canal foi usado para provocar, com ligações proibidas e até a foto do anel de noivado da nova parceira. Bloquear não era opção, porque com as crianças na casa do pai a mãe precisa de notícias. Alguns usaram os filhos como isca para reatar. Esse movimento lembra o hoovering, e em casos mais graves se aproxima da perseguição depois do término.

No Instagram, o Dr. Anderson resume por que a guerra pode continuar depois da separação quando existe um filho no meio:

3. Sabotagem e fuga da responsabilidade

Uma enfermeira, depois de um plantão noturno, esperou no carro a entrega das crianças às seis da manhã. O ex só deu notícia uma hora depois e, ao chegar, fotografou-a dormindo e a denunciou ao serviço de proteção à criança como se estivesse alcoolizada ou drogada. Como ele não cumpria os combinados, ela vivia trocando plantões, o que irritou o empregador. Outra mãe temia ser demitida pelas faltas em audiências adiadas porque o ex não aparecia.

Quatro mães (20%) relataram tentativas de abalar o vínculo delas com os filhos, como falar mal da mãe para a criança e culpá-la pela separação. Os autores citam o debate norte-americano sobre alegações de alienação parental em disputas de guarda; no Brasil, o tema também é discutido. Este artigo não entra nessa discussão: cada caso é avaliado pela Justiça, com apoio técnico.

Ao mesmo tempo, muitos desses pais fugiam do cuidado diário: só 55% das mães tinham a guarda integral, mas quase todas faziam a maior parte do trabalho. Para os autores, o amor das mães pelos filhos era o ponto de pressão explorado. E a proteção da Justiça vinha com custos: duas mães chegaram a hesitar em pedir a ordem para não prejudicar a relação dos filhos com o pai.

Por que isso pesa tanto na saúde

O estudo não mediu sintomas. Mas os autores descrevem as táticas como cumulativas: comprometem o bem-estar econômico e emocional das mães e podem agravar o trauma complexo. Quando juízes e servidores duvidam do relato ou minimizam o abuso, repetem sem perceber as táticas do agressor, o que se chama de vitimização secundária.

Na prática clínica, esse desgaste costuma aparecer como insônia, cansaço, ansiedade a cada intimação ou mensagem e o corpo em alerta constante. Quando isso se soma a anos de abuso, vale investigar TEPT complexo.

O contexto é dos Estados Unidos. E no Brasil?

As leis e os tribunais descritos são norte-americanos, de um estado específico, e as recomendações dos autores se dirigem àquele sistema: intervenção precoce em famílias com crianças expostas à violência, incluir o controle coercitivo nas leis (em 2021, poucos estados americanos o faziam) e mais treinamento para juízes, com cobrança de resultados.

No Brasil, a Lei Maria da Penha (Lei 11.340/2006) reconhece a violência psicológica e a patrimonial como formas de violência doméstica e prevê medidas protetivas de urgência; veja violência psicológica e a Lei Maria da Penha e medida protetiva. A Defensoria Pública oferece orientação jurídica gratuita a quem não pode pagar advogado. O Ligue 180 orienta mulheres em situação de violência, de graça e 24 horas; o 190 atende emergências; o Disque 100 recebe denúncias de violações de direitos de crianças e adolescentes. Como isso se aplica a quem tem filhos depende do caso.

O que esse estudo não diz

  • Não mede frequência na população. Os percentuais descrevem um grupo de 20 mães, não quantas mães separadas vivem isso.
  • Um estado, um momento. As participantes vieram de um fórum americano, enquanto pediam proteção. O projeto foi aprovado em 2014, e leis e práticas podem ter mudado.
  • Só um lado da história. Agressores, juízes e crianças não foram entrevistados, e os processos não foram conferidos. A leitura sobre as intenções do ex vem da percepção das mães.
  • Não prova causa nem mede saúde. O estudo descreve experiências; não avaliou sintomas nem consequências ao longo do tempo.
  • Maus-tratos às crianças foram definidos de forma ampla, a partir do que as mães contaram, e podem não atender a uma definição clínica ou jurídica.
  • Pedir visita ou guarda não é, por si, abuso. Conviver com os filhos é um direito. O estudo descreve um padrão, não um pedido isolado.
  • Só mães e parceiros homens. Pais e outras configurações familiares também podem viver abuso depois da separação, mas não foram estudados aqui.

O que isso muda na prática

Para quem vive isso

  • Dê nome ao padrão. Processo atrás de processo, pensão manipulada, provocação pelo canal dos filhos: isso está descrito na literatura científica. Não é exagero nem falha sua como mãe.
  • Comunicação curta, por escrito e só sobre logística: horário, escola, saúde.
  • Registros organizados de datas, mensagens e compromissos não cumpridos ajudam quem for orientar você a enxergar o padrão.
  • Orientação jurídica cedo. No estudo, ter advogado ajudou a desmontar a mentira sobre a renda. No Brasil, a Defensoria Pública atende quem não pode pagar. Decisões sobre processos se tomam com quem conhece o seu caso.
  • Cuide da sua saúde. Insônia, ansiedade e exaustão têm avaliação e tratamento. Havendo estresse pós-traumático ou TEPT complexo, a psicoterapia indicada é focada em trauma: EMDR, Brainspotting ou terapia cognitivo-comportamental focada no trauma.
  • Os filhos também precisam de apoio próprio. Veja crianças expostas à violência doméstica.

No Instagram, o Dr. Anderson mostra como reduzir o atrito na coparentalidade depois da separação:

Para família, amigos e profissionais

  • Não reduza a “briga de ex”. “Deixa ele ver o filho e pronto” ignora o histórico.
  • Ofereça ajuda concreta: ficar com as crianças em dia de audiência, acompanhar, organizar documentos.
  • Profissionais de saúde, escola, assistência social e Justiça: conhecer controle coercitivo, DARVO e abuso processual ajuda a não repetir, sem querer, as táticas do agressor.

Perguntas frequentes

O que é abuso processual depois da separação?

É o uso da Justiça para controlar, assediar, intimidar ou empobrecer a ex-parceira, com ações sem fundamento, acusações falsas e pedidos feitos para pressionar. Num estudo de 2026 com 20 mães dos Estados Unidos, 55% relataram esse padrão.

O ex pode usar os filhos para continuar o controle?

Os relatos do estudo mostram que sim: 65% das mães descreveram controle e assédio continuados por meio dos filhos, como ameaças de levar as crianças, uso do contato sobre os filhos para provocar e tentativas de reatar usando as visitas.

Pedir guarda ou visita é sempre abuso?

Não. Conviver com os filhos é um direito. O sinal de alerta é o padrão: histórico de controle, pedidos que surgem depois de uma medida de proteção, falta de interesse anterior pelos filhos, ausência nas audiências e acusações falsas.

A medida protetiva também pode envolver os filhos?

A Lei Maria da Penha permite que o juiz adote medidas que também envolvam os filhos quando entender necessário. Como isso se aplica depende de cada caso. Procure a Defensoria Pública, um advogado ou o Ligue 180 para orientação.

O abuso depois da separação faz mal à saúde?

Este estudo não mediu sintomas, mas os autores afirmam que as táticas somadas comprometem o bem-estar emocional e econômico e podem agravar o trauma complexo. Insônia, ansiedade e exaustão persistentes merecem avaliação.

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Referências científicas

  1. Hefner MK, Qiu X, Fleury-Steiner RE, Miller SL. “He just wants to get under my skin”: systemic barriers that mother-survivors confront while prioritizing protection. Violence Against Women. 2026;32(5):1104-1125 (publicação online em 15 de abril de 2025). (DOI: 10.1177/10778012251334766)
  2. Miller SL, Smolter NL. “Paper abuse”: when all else fails, batterers use procedural stalking. Violence Against Women. 2011;17(5):637-650. (DOI: 10.1177/1077801211407290)
  3. Gutowski ER, Goodman LA. Coercive control in the courtroom: the Legal Abuse Scale (LAS). Journal of Family Violence. 2023;38(3):527-542. (DOI: 10.1007/s10896-022-00408-3)
  4. Spearman KJ, Hardesty JL, Campbell J. Post-separation abuse: a concept analysis. Journal of Advanced Nursing. 2023;79(4):1225-1246. (DOI: 10.1111/jan.15310)
  5. Harsey S, Freyd JJ. Deny, attack, and reverse victim and offender (DARVO): what is the influence on perceived perpetrator and victim credibility? Journal of Aggression, Maltreatment & Trauma. 2020;29(8):897-916. (DOI: 10.1080/10926771.2020.1774695)
  6. Stark E. Coercive Control: How Men Entrap Women in Personal Life. New York: Oxford University Press; 2007.

Conteúdo educativo, não substitui avaliação individual. Em situação de risco, ligue 190; para orientação sobre violência contra a mulher, Ligue 180; para apoio emocional, CVV 188.

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Sobre o autor

Dr. Anderson Contaifer de Carvalho
Médico · CRM-SC 24.484 · Especialista em Clínica Médica · RQE 18.790. Graduado pela EMESCAM em 2012, com título de especialista em Clínica Médica pela Sociedade Brasileira de Clínica Médica (SBCM), em 2019. Atende adultos exclusivamente por teleconsulta, com avaliação individual das repercussões físicas e emocionais de relacionamentos abusivos e do estresse prolongado. Criador do Programa Quebrando as Algemas e de conteúdo educativo sobre relacionamentos abusivos, limites e autocuidado.

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