Crianças expostas à violência doméstica: o impacto de testemunhar o abuso e o que protege (guia médico)

Crianças expostas à violência doméstica: o impacto de testemunhar o abuso e o que protege (guia médico)
Foto de Dr. Anderson Contaifer

Dr. Anderson Contaifer

Médico especialista em Clínica Médica (CRM-SC 24.484, RQE 18.790), graduado pela EMESCAM (Escola Superior de Ciências da Santa Casa de Misericórdia de Vitória, ES), com título de especialista pela SBCM (Sociedade Brasileira de Clínica Médica). Pós-graduando em Psiquiatria Adulto pelo Ensino Einstein. Atua na recuperação médica e emocional de vítimas de abuso narcisista, em teleconsulta para todo o Brasil, e produz conteúdo educativo baseado em evidências científicas sobre narcisismo patológico, gaslighting, trauma bonding e TEPT-C. Criador do Programa Quebrando as Algemas, curso voltado à recuperação do abuso narcisista, e do blog de mesmo nome, com mais de 200 mil seguidores nas redes sociais. Possui Certificado de Excelência Doctoralia 2025.

Deixe seu comentário abaixo! Sua experiência pode ajudar outras pessoas que estão passando pela mesma situação.

Definição rápida

Atendimento médico

As repercussões do abuso narcisista no corpo (insônia, taquicardia, fadiga, alterações de sono e peso) têm avaliação e acompanhamento médico.

Dr. Anderson Contaifer · Médico Especialista em Clínica Médica · CRM-SC 24.484 · RQE 18.790 · Teleconsulta (qualquer lugar do Brasil e do mundo)

As repercussões do abuso narcisista no corpo (insônia, taquicardia, fadiga, alterações de peso e sono) têm avaliação e acompanhamento médico. O Dr. Anderson Contaifer, médico, especialista em Clínica Médica (CRM-SC 24.484, RQE 18.790), atende por teleconsulta para todo o Brasil. Cada consulta é uma avaliação clínica individual.

Ainda não quer marcar consulta? Você também pode conhecer o curso Quebrando as Algemas, material educativo para quem está se recuperando de um relacionamento abusivo.

Crianças que testemunham violência doméstica desenvolvem problemas emocionais e de comportamento em nível comparável ao de crianças que sofrem agressão física direta. É o que mostra a meta-análise de Kitzmann e colaboradores, que reuniu 118 estudos: a diferença entre os dois grupos não foi estatisticamente significativa. A criança não precisa ver a cena nem apanhar para ser afetada: ouvir pela parede, ver o estrago no dia seguinte e viver a tensão da casa também contam como exposição. No Brasil, a Lei 13.431/2017 reconhece expressamente que expor a criança a crime violento contra alguém da família dela é violência psicológica contra a própria criança. E há um dado que muda tudo: o fator de proteção mais forte identificado na literatura é a relação estável com um cuidador seguro. Proteger quem cuida é proteger a criança.

Este artigo tem finalidade educativa e foi elaborado pelo Dr. Anderson Contaifer, médico especialista em Clínica Médica (CRM-SC 24.484, RQE 18.790), que atende por teleconsulta as repercussões físicas e clínicas do estresse crônico em pessoas que vivem ou viveram relacionamentos abusivos. Ele não substitui consulta com profissional de saúde.

Assista também: no vídeo, o Dr. Anderson explica por que filhos que crescem em lares com abuso adoecem mais, o mesmo mecanismo de estresse crônico descrito neste artigo.

A criança não viu. Mas sentiu

«Ele nunca encostou nas crianças.» Essa frase aparece em atendimento de saúde, em delegacia e em conversa de família como se encerrasse o assunto. Ela parte de uma premissa que a ciência derrubou há mais de vinte anos: a de que a criança só é afetada pela violência que acerta o corpo dela. A criança que mora numa casa onde existe violência entre os adultos vive dentro do problema, não ao lado dele.

Exposição à violência doméstica não se resume a presenciar a agressão. A literatura descreve um espectro amplo de formas de exposição: ouvir a briga do quarto, ver o hematoma ou a mobília quebrada no dia seguinte, perceber o silêncio carregado entre os pais, ser usada como mensageira entre os dois, ou tentar intervir para proteger um deles [6]. A revisão de Holt, Buckley e Whelan, citada no carrossel que acompanha este artigo, organiza o impacto em domínios interligados: o risco de a própria criança sofrer abuso, o efeito sobre a capacidade de cuidado dos adultos, o efeito sobre o desenvolvimento e o acúmulo de outras adversidades [3].

Antes de entender as palavras, a criança lê o clima. O sistema de alarme cerebral não espera vocabulário: reage ao tom de voz, à porta batida, à tensão no corpo de quem cuida dela. Por isso bebês e crianças pequenas, que «não entendem nada» segundo o senso comum, aparecem nos estudos com risco levemente maior, não menor [1].

Forma de exposição Como acontece Por que conta
Presenciar Ver a agressão física ou verbal acontecendo Forma mais óbvia, mas não a única nem a mais comum
Ouvir Gritos, ameaças e objetos quebrando ouvidos de outro cômodo O alarme cerebral dispara pelo som; a imaginação preenche o resto [6]
Ver as consequências Hematomas, choro, casa destruída, polícia na porta Confirma o perigo e ensina que o lar não é seguro [6]
Viver a tensão Clima de medo constante, pisar em ovos, silêncio carregado Mantém o sistema de estresse ligado mesmo sem episódio agudo [9]
Ser envolvida Servir de mensageira, escudo ou motivo da briga; tentar separar Soma responsabilidade e culpa à exposição [3]

O que a ciência mostra sobre quem cresce nesse ambiente

A pergunta «testemunhar faz mal mesmo?» já foi respondida em escala. A meta-análise de Kitzmann, Gaylord, Holt e Kenny reuniu 118 estudos sobre desfechos psicossociais de crianças expostas à violência entre os pais. Os estudos correlacionais mostraram associação significativa entre exposição e problemas na criança (d = -0,29). Nas comparações de grupo, crianças expostas tiveram desfechos significativamente piores que crianças não expostas (d = -0,40) e piores que crianças de lares com agressão verbal sem violência física (d = -0,28) [1].

A meta-análise de Evans, Davies e DiLillo, também citada no carrossel, confirmou a associação entre exposição e sintomas internalizantes, como ansiedade e retraimento, e externalizantes, como agressividade e oposição, além de sintomas de trauma [2]. A meta-análise de Wolfe e colaboradores, com 41 estudos, chegou a efeito global pequeno porém consistente: 40 dos 41 estudos apontaram na mesma direção, e nem idade nem sexo da criança moderaram o resultado [4].

Efeito «pequeno» em estatística não significa problema pequeno na vida real. Significa que, na média de milhares de crianças, a exposição empurra o desenvolvimento na direção errada, e que algumas crianças são muito afetadas enquanto outras seguem bem. Nenhum desses números é sentença individual: eles medem risco de grupo, não destino de uma criança específica [3].

O dado mais incômodo vem dos estudos longitudinais, que acompanham as mesmas crianças ao longo dos anos. A meta-análise de Vu e colaboradores, com 74 estudos, mostrou que a exposição à violência entre parceiros se associa prospectivamente a problemas de ajustamento e que a magnitude dessa associação aumenta com o tempo, em vez de diluir [5]. O mesmo trabalho traz dois detalhes que interessam a qualquer responsável: a associação é mais forte quando a violência é definida de forma ampla, incluindo violência psicológica, e não apenas física; e a exposição em idades mais precoces se associa mais fortemente a problemas externalizantes [5]. A ideia de que «criança pequena não registra» falha nos dois testes.

Testemunhar se compara a apanhar? O que os números dizem

Aqui está o achado central do carrossel, conferido na fonte primária: na meta-análise de Kitzmann, os desfechos das crianças que testemunharam não foram significativamente diferentes dos desfechos das crianças que sofreram abuso físico direto (d = 0,15), nem dos das crianças que apanharam e também testemunharam (d = 0,13) [1]. Testemunhar não é uma versão diluída do abuso. É outra porta de entrada para o mesmo tipo de dano.

Comparação (Kitzmann e cols., 118 estudos) Efeito Leitura
Testemunhas x crianças não expostas d = -0,40 Desfechos significativamente piores em quem testemunhou
Testemunhas x lares com agressão verbal d = -0,28 A violência física entre os pais piora o quadro além do conflito verbal
Testemunhas x crianças agredidas fisicamente d = 0,15 (não significativo) Sem diferença estatística: testemunhar se compara à agressão direta
Testemunhas x agredidas que também testemunharam d = 0,13 (não significativo) O acúmulo tende a piorar, mas a exposição sozinha já pesa

Há uma segunda razão para levar o testemunho a sério: ele raramente vem sozinho. No levantamento nacional americano NatSCEV, com 4.549 crianças e adolescentes de 0 a 17 anos, 33,9% dos que testemunharam violência entre os parceiros também haviam sofrido maus-tratos diretos no último ano, contra 8,6% dos não expostos. Considerando a vida inteira, mais da metade (56,8%) das crianças que testemunharam também foi vítima direta [7]. A meta-análise de Wolfe aponta na mesma direção: quando abuso direto e testemunho se somam, os problemas emocionais e de comportamento aumentam além do efeito da exposição isolada [4]. Uma casa onde um adulto agride o outro é uma casa onde a criança tem risco muito maior de ser a próxima.

O mecanismo: o que o corpo da criança faz com o perigo

Nada disso é birra, manha ou fraqueza. É neurobiologia do desenvolvimento funcionando exatamente como foi desenhada, num ambiente para o qual ela não foi desenhada.

O conceito central é o de estresse tóxico: a ativação forte, frequente ou prolongada do sistema de resposta ao estresse na ausência de um adulto que ajude a criança a se regular [9]. Cortisol e adrenalina existem para emergências curtas. Quando a emergência mora dentro de casa, o sistema não desliga: o sono fica leve, a atenção fica sequestrada pela vigilância, a digestão e a imunidade entram em modo de economia. A Academia Americana de Pediatria descreve esse mecanismo como capaz de alterar a arquitetura cerebral em desenvolvimento e a saúde física ao longo da vida [9].

A psicologia do desenvolvimento acrescenta uma camada: a hipótese da segurança emocional, de Davies e Cummings, propõe que a criança monitora o conflito entre os pais porque a estabilidade daquela relação é a base da segurança dela. Quando o conflito é destrutivo, a criança gasta recursos emocionais tentando prever, evitar ou apaziguar a próxima crise, e sobra menos para brincar, aprender e crescer [8].

A neurociência confirma que essa conta chega. A revisão de Teicher e Samson descreve alterações mensuráveis em circuitos de ameaça e recompensa de pessoas expostas a maus-tratos na infância, incluindo testemunhar violência doméstica, e propõe uma leitura importante: muitas dessas alterações são adaptações a um ambiente perigoso, não defeitos [10]. O cérebro que «desconfia de tudo» aprendeu direito a lição errada. Anda e colaboradores, na coorte das experiências adversas na infância, mostram que esses efeitos são duradouros e acumulativos [11]. No estudo original das ACEs, de Felitti, presenciar a mãe ser tratada com violência é uma das categorias de adversidade, e o risco de problemas de saúde na vida adulta cresce em gradiente: quanto mais categorias, maior o risco [12].

Como o sofrimento aparece em cada idade

O sofrimento infantil raramente se anuncia com palavras. Ele aparece no corpo e no comportamento, e muda de roupa conforme a idade. Os sinais abaixo não são diagnóstico: são motivo para olhar mais de perto e, se persistirem, buscar avaliação profissional [3][17].

Faixa etária Sinais frequentes O que costuma ser confundido com
Bebês e primeira infância (0 a 5) Regressão do sono e do xixi, choro difícil de consolar, medo de dormir sozinha, apego grudado, atraso de marcos «Manha», «fase», «pirraça»
Idade escolar (6 a 11) Queda nas notas, agressividade ou retraimento, dor de barriga e de cabeça sem causa, culpa por não impedir as brigas «Preguiça», «má criação», «corpo mole»
Adolescência (12 a 17) Irritabilidade, isolamento, uso de álcool ou drogas, fuga de casa, namoro com dinâmica parecida, autolesão «Rebeldia», «idade difícil»
Qualquer idade O silêncio bom demais: a criança que nunca incomoda, antecipa o humor dos adultos e desapareceu do próprio radar «Criança madura», «ouro de criança»

O último item da tabela merece atenção especial. A criança excessivamente boazinha, que lê o ambiente e se antecipa aos adultos, costuma ser elogiada. Em contexto de violência, esse comportamento pode ser uma resposta de apaziguamento: ficar invisível e agradável é uma estratégia de sobrevivência, não um traço de personalidade [3]. É o mesmo padrão que, décadas depois, aparece em adultos como dificuldade crônica de dizer não.

Este tema também está no Instagram do Dr. Anderson Contaifer, em formato visual:

TEPT e TEPT-C: quando a exposição vira quadro clínico

Parte das crianças expostas desenvolve sintomas de estresse pós-traumático: revivência (pesadelos, brincadeiras repetitivas com tema de violência), evitação e hipervigilância. Quando a exposição é prolongada e acontece dentro da relação de cuidado, da qual a criança não pode escapar, o quadro pode assumir a forma do TEPT-C (Transtorno de Estresse Pós-Traumático Complexo, CID-11 6B41), que soma três perturbações da auto-organização: desregulação emocional, autoconceito negativo e dificuldade nos relacionamentos [13]. A revisão de Brewin e colaboradores sustenta a distinção entre TEPT e TEPT-C adotada pela CID-11 [13].

Quem quiser entender o quadro clínico em profundidade encontra um artigo dedicado ao TEPT-C em crianças e adolescentes neste blog. A diferença entre os dois textos é proposital: aquele descreve o transtorno, seus sinais e sua avaliação; este descreve a exposição à violência doméstica como experiência e fator de risco, que pode ou não evoluir para o transtorno. Nem toda criança exposta desenvolve TEPT-C, e nenhum texto substitui avaliação individual [3].

O que a lei brasileira diz: quem testemunha é vítima

No Brasil, a discussão saiu do campo da opinião em 2017. A Lei 13.431/2017, que organiza o sistema de garantia de direitos da criança e do adolescente vítima ou testemunha de violência, define no art. 4º, inciso II, alínea c, que é violência psicológica contra a criança qualquer conduta que a exponha, direta ou indiretamente, a crime violento contra membro de sua família ou de sua rede de apoio, particularmente quando isso a torna testemunha. A criança que assiste ao pai agredir a mãe é, perante a lei, vítima de violência psicológica, ainda que nunca tenha sido tocada.

A mesma lei criou a escuta especializada e o depoimento especial, para que a criança não precise repetir o relato várias vezes nem ser inquirida de forma revitimizante. Esse cuidado dialoga com o que este blog já descreveu sobre vitimização secundária: o dano que a própria passagem pelas instituições pode causar. Para a mulher em situação de violência, os caminhos práticos estão nos artigos sobre a Lei Maria da Penha e as 5 formas de violência e sobre a medida protetiva de urgência.

O que não se sustenta

«Não viu, então não sofreu.» Falso. Ouvir, ver as consequências e viver a tensão contam como exposição, e os estudos que definem violência de forma ampla encontram associações mais fortes com problemas de ajustamento, não mais fracas [5][6].

«Criança esquece rápido.» Os estudos longitudinais mostram o contrário: a associação entre exposição e problemas tende a se fortalecer com o tempo [5]. O que parece esquecimento costuma ser silêncio, e silêncio não é ausência de registro.

«Ele é ótimo pai, o problema é só entre a gente.» A exposição em si já é dano, com efeito comparável ao da agressão direta [1]. E a sobreposição entre agredir o parceiro e maltratar a criança é alta demais para ser ignorada [7].

«A criança que testemunhou está condenada.» Também falso, e este erro machuca na direção oposta. A revisão de Holt conclui que raramente existe um caminho causal direto e único entre exposição e desfecho: a criança é ativa na construção do próprio mundo, e fatores de proteção mudam a trajetória [3]. Masten chamou a resiliência de «magia comum»: ela não é dom raro de crianças extraordinárias, é o resultado esperado de sistemas comuns de proteção funcionando, principalmente o vínculo com um adulto que cuida [14]. Quem quiser entender como o ciclo se interrompe entre gerações encontra um artigo dedicado à transmissão intergeracional do trauma; a demarcação entre os dois textos é simples: aquele olha o adulto que teme repetir o que viveu, este olha a criança exposta agora.

O que protege de verdade

A leitura que fica do carrossel se confirma na literatura: o que mais protege a criança é a segurança de quem fica com ela. A revisão de Holt identifica, entre os fatores de proteção, com destaque, a relação forte e o apego a um adulto cuidador, na maior parte dos estudos a mãe [3]. Isso muda o enquadramento do autocuidado: para a mãe que se culpa por «pensar em si» no meio da crise, cuidar da própria segurança e da própria saúde não é egoísmo, é o solo firme onde a criança se reconstrói.

O que ajuda O que atrapalha
Nomear o que aconteceu de forma simples e adequada à idade, deixando claro que a criança não tem culpa Fingir que não houve nada e deixar a criança sozinha com a própria versão, que quase sempre inclui culpa
Restabelecer rotina e previsibilidade: horários, escola, sono, refeições Transformar a criança em confidente, mensageira ou juíza do conflito adulto
Manter e fortalecer o vínculo com o cuidador seguro [3][14] Falar mal do outro genitor para a criança em vez de protegê-la do conflito
Buscar avaliação profissional quando os sinais persistem Esperar a criança «esquecer sozinha» enquanto os sinais se acumulam [5]
Acionar os canais de proteção: 180, 190, Disque 100, Conselho Tutelar Adiar qualquer plano de segurança por medo de «destruir a família»

Proteção também tem tratamento com evidência. O ensaio clínico randomizado de Lieberman e colaboradores testou a psicoterapia criança-pais (CPP) com 75 duplas de mães e crianças pré-escolares expostas à violência conjugal: um ano de sessões semanais reduziu significativamente os problemas de comportamento, os sintomas de estresse traumático e o status diagnóstico das crianças, além dos sintomas de evitação das mães [15]. O ensaio de eficácia de Graham-Bermann, com 181 crianças de 6 a 12 anos, comparou intervenção só com a criança, intervenção com criança e mãe juntas e lista de espera: o grupo criança-mais-mãe teve a maior melhora, com 79% menos crianças em faixa clínica de problemas externalizantes e 77% menos em faixa clínica de internalizantes entre o início e o seguimento [16]. Nos dois estudos, a mensagem é a mesma: tratar a dupla funciona melhor do que tratar a criança isolada. Proteger e fortalecer quem cuida é intervenção, não detalhe.

Vale registrar honestamente os limites: esses ensaios são americanos, e o que se transporta com mais segurança é a direção do efeito, não a magnitude exata. Faltam estudos brasileiros de intervenção nessa população, e este texto registra essa lacuna em vez de escondê-la [17].

Quando procurar avaliação médica

A avaliação de saúde mental infantil é território do pediatra, do psiquiatra da infância e do psicólogo infantil. Mas o adulto protetor dessa casa também precisa de cuidado, e é aí que a clínica médica entra: o estresse crônico de viver sob violência adoece o corpo de quem cuida, com repercussões em sono, pressão, dores, imunidade e metabolismo, descritas no artigo sobre o que é abuso psicológico e no pilar sobre abuso narcisista.

Procure avaliação para a criança quando os sinais da tabela de idades persistem por semanas, pioram ou impedem escola, sono e convivência. Procure ajuda imediata se houver qualquer menção a se machucar ou a não querer mais viver: o CVV atende no 188, por telefone, 24 horas, e em emergência o caminho é o 192 ou o 190. Para a situação de violência em si, os canais são o 180 (Central de Atendimento à Mulher), o Disque 100 (direitos humanos, incluindo crianças) e o Conselho Tutelar da sua cidade.

Se a sua preocupação é um relacionamento com traços narcisistas e o efeito dele sobre os filhos, os artigos sobre filhos de narcisistas, pais narcisistas e pai narcisista aprofundam o tema, e o caminho de saída está descrito no pilar de recuperação do abuso narcisista e no guia do TEPT-C.

Perguntas frequentes

Criança que só ouviu as brigas do quarto também é afetada?

Sim. A literatura define exposição de forma ampla: ouvir a violência, ver as consequências e viver o clima de medo contam tanto quanto presenciar [6]. As meta-análises que usam definição ampla de violência encontram associações mais fortes com problemas de ajustamento, não mais fracas [5]. O alarme cerebral da criança responde ao som e à tensão, não apenas à imagem.

Meu filho parece bem. Isso significa que não foi afetado?

Não necessariamente, e também não significa o contrário. Parte das crianças expostas segue bem, especialmente quando há vínculo forte com um cuidador seguro [3][14]. Mas o sofrimento infantil costuma aparecer disfarçado: notas caindo, dor de barriga, sono regredindo, ou um comportamento bom demais, de quem aprendeu a não incomodar. Vale observar ao longo do tempo e pedir avaliação se os sinais persistirem.

Testemunhar violência doméstica é considerado violência contra a criança no Brasil?

Sim. A Lei 13.431/2017 define como violência psicológica expor a criança ou o adolescente, direta ou indiretamente, a crime violento contra membro da família ou da rede de apoio, particularmente quando isso a torna testemunha (art. 4º, II, c). A mesma lei criou a escuta especializada e o depoimento especial para proteger a criança na hora de relatar.

Qual a relação entre exposição à violência e TEPT-C?

A exposição prolongada, dentro da relação de cuidado da qual a criança não pode escapar, é o tipo de situação associada ao TEPT-C (CID-11 6B41), que soma ao quadro do TEPT a desregulação emocional, o autoconceito negativo e a dificuldade nos relacionamentos [13]. Nem toda criança exposta desenvolve o transtorno; o tema tem artigo próprio sobre TEPT-C em crianças e adolescentes neste blog.

Criança pequena esquece o que viu?

A memória narrativa de um bebê é limitada, mas o registro do estresse não depende dela. Os estudos apontam risco levemente maior em pré-escolares [1], e a exposição precoce se associa mais fortemente a problemas de comportamento [5]. O corpo aprende que o mundo é perigoso antes de a criança saber contar o que aconteceu.

Devo conversar com meu filho sobre o que aconteceu?

Sim, de forma simples, honesta e adequada à idade, com três mensagens centrais: não foi culpa dela, ela não é responsável por proteger os adultos, e há um plano para ela ficar segura. O que atrapalha é o extremo oposto em qualquer direção: o silêncio total, que deixa a criança sozinha com a culpa, ou o excesso, que a transforma em confidente do conflito adulto [3].

Ficar no relacionamento «pelos filhos» protege as crianças?

A premissa não se sustenta quando há violência. A exposição em si já produz dano comparável ao da agressão direta [1], o risco de a criança virar vítima direta é alto [7], e o efeito se acumula com o tempo [5]. O que a literatura identifica como proteção não é a casa com os dois pais, é a segurança e a estabilidade de quem cuida [3]. Cada situação exige plano de segurança próprio, de preferência com apoio profissional e da rede de proteção.

Que tipo de ajuda profissional tem evidência para crianças expostas?

As melhores evidências vêm de intervenções que tratam a criança junto com o cuidador protetor: a psicoterapia criança-pais reduziu sintomas de trauma e problemas de comportamento em ensaio randomizado [15], e o programa criança-mais-mãe teve os melhores resultados num ensaio com 181 crianças [16]. Para o adulto, tratar o próprio quadro pós-traumático e as repercussões físicas do estresse também é parte da proteção da criança.

A criança exposta vai repetir isso quando crescer?

Repetição não é destino. O risco de grupo aumenta, mas a revisão de Holt mostra que raramente há caminho causal direto [3], e a resiliência é o desfecho comum quando os sistemas de proteção funcionam [14]. O tema tem artigo dedicado neste blog, sobre transmissão intergeracional do trauma, com o que a ciência mostra sobre interromper o ciclo.

O que acontece se a criança contar na escola ou numa consulta?

Profissionais de saúde e educação têm dever legal de comunicar suspeita de violência, e a Lei 13.431/2017 organiza a escuta para que a criança não seja inquirida repetidamente. A revelação espontânea deve ser acolhida sem interrogatório: ouvir, validar e acionar a rede (Conselho Tutelar, Disque 100). Para a mulher, denunciar também abre acesso à medida protetiva de urgência, descrita em artigo próprio.

Referências científicas

  1. Kitzmann KM, Gaylord NK, Holt AR, Kenny ED. Child witnesses to domestic violence: a meta-analytic review. Journal of Consulting and Clinical Psychology. 2003;71(2):339-352. DOI: 10.1037/0022-006X.71.2.339
  2. Evans SE, Davies C, DiLillo D. Exposure to domestic violence: A meta-analysis of child and adolescent outcomes. Aggression and Violent Behavior. 2008;13(2):131-140. DOI: 10.1016/j.avb.2008.02.005
  3. Holt S, Buckley H, Whelan S. The impact of exposure to domestic violence on children and young people: A review of the literature. Child Abuse & Neglect. 2008;32(8):797-810. DOI: 10.1016/j.chiabu.2008.02.004
  4. Wolfe DA, Crooks CV, Lee V, McIntyre-Smith A, Jaffe PG. The effects of children’s exposure to domestic violence: a meta-analysis and critique. Clinical Child and Family Psychology Review. 2003;6(3):171-187. DOI: 10.1023/A:1024910416164
  5. Vu NL, Jouriles EN, McDonald R, Rosenfield D. Children’s exposure to intimate partner violence: A meta-analysis of longitudinal associations with child adjustment problems. Clinical Psychology Review. 2016;46:25-33. DOI: 10.1016/j.cpr.2016.04.003
  6. Edleson JL. Children’s witnessing of adult domestic violence. Journal of Interpersonal Violence. 1999;14(8):839-870. DOI: 10.1177/088626099014008004
  7. Hamby S, Finkelhor D, Turner H, Ormrod R. The overlap of witnessing partner violence with child maltreatment and other victimizations in a nationally representative survey of youth. Child Abuse & Neglect. 2010;34(10):734-741. DOI: 10.1016/j.chiabu.2010.03.001
  8. Davies PT, Cummings EM. Marital conflict and child adjustment: an emotional security hypothesis. Psychological Bulletin. 1994;116(3):387-411. DOI: 10.1037/0033-2909.116.3.387
  9. Shonkoff JP, Garner AS, et al. The lifelong effects of early childhood adversity and toxic stress. Pediatrics. 2012;129(1):e232-e246. DOI: 10.1542/peds.2011-2663
  10. Teicher MH, Samson JA. Annual Research Review: Enduring neurobiological effects of childhood abuse and neglect. Journal of Child Psychology and Psychiatry. 2016;57(3):241-266. DOI: 10.1111/jcpp.12507
  11. Anda RF, Felitti VJ, Bremner JD, et al. The enduring effects of abuse and related adverse experiences in childhood. European Archives of Psychiatry and Clinical Neuroscience. 2006;256(3):174-186. DOI: 10.1007/s00406-005-0624-4
  12. Felitti VJ, Anda RF, Nordenberg D, et al. Relationship of childhood abuse and household dysfunction to many of the leading causes of death in adults: The Adverse Childhood Experiences (ACE) Study. American Journal of Preventive Medicine. 1998;14(4):245-258. DOI: 10.1016/S0749-3797(98)00017-8
  13. Brewin CR, Cloitre M, Hyland P, et al. A review of current evidence regarding the ICD-11 proposals for diagnosing PTSD and complex PTSD. Clinical Psychology Review. 2017;58:1-15. DOI: 10.1016/j.cpr.2017.09.001
  14. Masten AS. Ordinary magic: Resilience processes in development. American Psychologist. 2001;56(3):227-238. DOI: 10.1037/0003-066X.56.3.227
  15. Lieberman AF, Van Horn P, Ippen CG. Toward evidence-based treatment: child-parent psychotherapy with preschoolers exposed to marital violence. Journal of the American Academy of Child and Adolescent Psychiatry. 2005;44(12):1241-1248. DOI: 10.1097/01.chi.0000181047.59702.58
  16. Graham-Bermann SA, Lynch S, Banyard V, DeVoe ER, Halabu H. Community-based intervention for children exposed to intimate partner violence: an efficacy trial. Journal of Consulting and Clinical Psychology. 2007;75(2):199-209. DOI: 10.1037/0022-006X.75.2.199
  17. McTavish JR, MacGregor JCD, Wathen CN, MacMillan HL. Children’s exposure to intimate partner violence: an overview. International Review of Psychiatry. 2016;28(5):504-518. DOI: 10.1080/09540261.2016.1205001

Sobre o autor

Dr. Anderson Contaifer de Carvalho é médico especialista em Clínica Médica (CRM-SC 24.484 | RQE 18.790), formado pela EMESCAM em 2012, com título de especialista em clínica médica pela SBCM em 2019. Pós-graduando em Psiquiatria Adulto pelo Ensino Einstein. Possui pós-graduação em Saúde da Família, Nutrologia e Medicina Intensiva, além de certificações ACLS e ATLS. É o criador do Quebrando as Algemas, programa dedicado à recuperação de vítimas de abuso narcisista, com atuação dedicada às repercussões clínicas e emocionais de relacionamentos abusivos, em teleconsulta para todo o Brasil. Certificado Excelência Doctoralia 2025.

Quer entender o abuso narcisista em profundidade?

O curso Quebrando as Algemas oferece um método médico estruturado para quem quer compreender os mecanismos do abuso narcisista e dar os primeiros passos no entendimento deste tema complexo e auxiliar na recuperação da autoestima.

✨ Acesso vitalício ✨ • 12x R$ 29,16 sem juros ou R$ 349,90 à vista

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Mais leituras

Receba em primeira mão meus conteúdos, direto no seu e-mail

Agendar Teleconsulta - Dr. Anderson Contaifer

Medico Especialista em Clinica Medica - CRM-SC 24.484 - RQE 18.790

Ver horarios