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Atendimento médico
As repercussões do abuso narcisista no corpo (insônia, taquicardia, fadiga, alterações de sono e peso) têm avaliação e acompanhamento médico.
Dr. Anderson Contaifer · Médico Especialista em Clínica Médica · CRM-SC 24.484 · RQE 18.790 · Teleconsulta (qualquer lugar do Brasil e do mundo)
As repercussões do abuso narcisista no corpo (insônia, taquicardia, fadiga, alterações de peso e sono) têm avaliação e acompanhamento médico. O Dr. Anderson Contaifer, médico, especialista em Clínica Médica (CRM-SC 24.484, RQE 18.790), atende por teleconsulta para todo o Brasil. Cada consulta é uma avaliação clínica individual.
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Crianças que testemunham violência doméstica desenvolvem problemas emocionais e de comportamento em nível comparável ao de crianças que sofrem agressão física direta. É o que mostra a meta-análise de Kitzmann e colaboradores, que reuniu 118 estudos: a diferença entre os dois grupos não foi estatisticamente significativa. A criança não precisa ver a cena nem apanhar para ser afetada: ouvir pela parede, ver o estrago no dia seguinte e viver a tensão da casa também contam como exposição. No Brasil, a Lei 13.431/2017 reconhece expressamente que expor a criança a crime violento contra alguém da família dela é violência psicológica contra a própria criança. E há um dado que muda tudo: o fator de proteção mais forte identificado na literatura é a relação estável com um cuidador seguro. Proteger quem cuida é proteger a criança.
Este artigo tem finalidade educativa e foi elaborado pelo Dr. Anderson Contaifer, médico especialista em Clínica Médica (CRM-SC 24.484, RQE 18.790), que atende por teleconsulta as repercussões físicas e clínicas do estresse crônico em pessoas que vivem ou viveram relacionamentos abusivos. Ele não substitui consulta com profissional de saúde.
A criança não viu. Mas sentiu
«Ele nunca encostou nas crianças.» Essa frase aparece em atendimento de saúde, em delegacia e em conversa de família como se encerrasse o assunto. Ela parte de uma premissa que a ciência derrubou há mais de vinte anos: a de que a criança só é afetada pela violência que acerta o corpo dela. A criança que mora numa casa onde existe violência entre os adultos vive dentro do problema, não ao lado dele.
Exposição à violência doméstica não se resume a presenciar a agressão. A literatura descreve um espectro amplo de formas de exposição: ouvir a briga do quarto, ver o hematoma ou a mobília quebrada no dia seguinte, perceber o silêncio carregado entre os pais, ser usada como mensageira entre os dois, ou tentar intervir para proteger um deles [6]. A revisão de Holt, Buckley e Whelan, citada no carrossel que acompanha este artigo, organiza o impacto em domínios interligados: o risco de a própria criança sofrer abuso, o efeito sobre a capacidade de cuidado dos adultos, o efeito sobre o desenvolvimento e o acúmulo de outras adversidades [3].
Antes de entender as palavras, a criança lê o clima. O sistema de alarme cerebral não espera vocabulário: reage ao tom de voz, à porta batida, à tensão no corpo de quem cuida dela. Por isso bebês e crianças pequenas, que «não entendem nada» segundo o senso comum, aparecem nos estudos com risco levemente maior, não menor [1].
| Forma de exposição | Como acontece | Por que conta |
|---|---|---|
| Presenciar | Ver a agressão física ou verbal acontecendo | Forma mais óbvia, mas não a única nem a mais comum |
| Ouvir | Gritos, ameaças e objetos quebrando ouvidos de outro cômodo | O alarme cerebral dispara pelo som; a imaginação preenche o resto [6] |
| Ver as consequências | Hematomas, choro, casa destruída, polícia na porta | Confirma o perigo e ensina que o lar não é seguro [6] |
| Viver a tensão | Clima de medo constante, pisar em ovos, silêncio carregado | Mantém o sistema de estresse ligado mesmo sem episódio agudo [9] |
| Ser envolvida | Servir de mensageira, escudo ou motivo da briga; tentar separar | Soma responsabilidade e culpa à exposição [3] |
O que a ciência mostra sobre quem cresce nesse ambiente
A pergunta «testemunhar faz mal mesmo?» já foi respondida em escala. A meta-análise de Kitzmann, Gaylord, Holt e Kenny reuniu 118 estudos sobre desfechos psicossociais de crianças expostas à violência entre os pais. Os estudos correlacionais mostraram associação significativa entre exposição e problemas na criança (d = -0,29). Nas comparações de grupo, crianças expostas tiveram desfechos significativamente piores que crianças não expostas (d = -0,40) e piores que crianças de lares com agressão verbal sem violência física (d = -0,28) [1].
A meta-análise de Evans, Davies e DiLillo, também citada no carrossel, confirmou a associação entre exposição e sintomas internalizantes, como ansiedade e retraimento, e externalizantes, como agressividade e oposição, além de sintomas de trauma [2]. A meta-análise de Wolfe e colaboradores, com 41 estudos, chegou a efeito global pequeno porém consistente: 40 dos 41 estudos apontaram na mesma direção, e nem idade nem sexo da criança moderaram o resultado [4].
Efeito «pequeno» em estatística não significa problema pequeno na vida real. Significa que, na média de milhares de crianças, a exposição empurra o desenvolvimento na direção errada, e que algumas crianças são muito afetadas enquanto outras seguem bem. Nenhum desses números é sentença individual: eles medem risco de grupo, não destino de uma criança específica [3].
O dado mais incômodo vem dos estudos longitudinais, que acompanham as mesmas crianças ao longo dos anos. A meta-análise de Vu e colaboradores, com 74 estudos, mostrou que a exposição à violência entre parceiros se associa prospectivamente a problemas de ajustamento e que a magnitude dessa associação aumenta com o tempo, em vez de diluir [5]. O mesmo trabalho traz dois detalhes que interessam a qualquer responsável: a associação é mais forte quando a violência é definida de forma ampla, incluindo violência psicológica, e não apenas física; e a exposição em idades mais precoces se associa mais fortemente a problemas externalizantes [5]. A ideia de que «criança pequena não registra» falha nos dois testes.
Testemunhar se compara a apanhar? O que os números dizem
Aqui está o achado central do carrossel, conferido na fonte primária: na meta-análise de Kitzmann, os desfechos das crianças que testemunharam não foram significativamente diferentes dos desfechos das crianças que sofreram abuso físico direto (d = 0,15), nem dos das crianças que apanharam e também testemunharam (d = 0,13) [1]. Testemunhar não é uma versão diluída do abuso. É outra porta de entrada para o mesmo tipo de dano.
| Comparação (Kitzmann e cols., 118 estudos) | Efeito | Leitura |
|---|---|---|
| Testemunhas x crianças não expostas | d = -0,40 | Desfechos significativamente piores em quem testemunhou |
| Testemunhas x lares com agressão verbal | d = -0,28 | A violência física entre os pais piora o quadro além do conflito verbal |
| Testemunhas x crianças agredidas fisicamente | d = 0,15 (não significativo) | Sem diferença estatística: testemunhar se compara à agressão direta |
| Testemunhas x agredidas que também testemunharam | d = 0,13 (não significativo) | O acúmulo tende a piorar, mas a exposição sozinha já pesa |
Há uma segunda razão para levar o testemunho a sério: ele raramente vem sozinho. No levantamento nacional americano NatSCEV, com 4.549 crianças e adolescentes de 0 a 17 anos, 33,9% dos que testemunharam violência entre os parceiros também haviam sofrido maus-tratos diretos no último ano, contra 8,6% dos não expostos. Considerando a vida inteira, mais da metade (56,8%) das crianças que testemunharam também foi vítima direta [7]. A meta-análise de Wolfe aponta na mesma direção: quando abuso direto e testemunho se somam, os problemas emocionais e de comportamento aumentam além do efeito da exposição isolada [4]. Uma casa onde um adulto agride o outro é uma casa onde a criança tem risco muito maior de ser a próxima.
O mecanismo: o que o corpo da criança faz com o perigo
Nada disso é birra, manha ou fraqueza. É neurobiologia do desenvolvimento funcionando exatamente como foi desenhada, num ambiente para o qual ela não foi desenhada.
O conceito central é o de estresse tóxico: a ativação forte, frequente ou prolongada do sistema de resposta ao estresse na ausência de um adulto que ajude a criança a se regular [9]. Cortisol e adrenalina existem para emergências curtas. Quando a emergência mora dentro de casa, o sistema não desliga: o sono fica leve, a atenção fica sequestrada pela vigilância, a digestão e a imunidade entram em modo de economia. A Academia Americana de Pediatria descreve esse mecanismo como capaz de alterar a arquitetura cerebral em desenvolvimento e a saúde física ao longo da vida [9].
A psicologia do desenvolvimento acrescenta uma camada: a hipótese da segurança emocional, de Davies e Cummings, propõe que a criança monitora o conflito entre os pais porque a estabilidade daquela relação é a base da segurança dela. Quando o conflito é destrutivo, a criança gasta recursos emocionais tentando prever, evitar ou apaziguar a próxima crise, e sobra menos para brincar, aprender e crescer [8].
A neurociência confirma que essa conta chega. A revisão de Teicher e Samson descreve alterações mensuráveis em circuitos de ameaça e recompensa de pessoas expostas a maus-tratos na infância, incluindo testemunhar violência doméstica, e propõe uma leitura importante: muitas dessas alterações são adaptações a um ambiente perigoso, não defeitos [10]. O cérebro que «desconfia de tudo» aprendeu direito a lição errada. Anda e colaboradores, na coorte das experiências adversas na infância, mostram que esses efeitos são duradouros e acumulativos [11]. No estudo original das ACEs, de Felitti, presenciar a mãe ser tratada com violência é uma das categorias de adversidade, e o risco de problemas de saúde na vida adulta cresce em gradiente: quanto mais categorias, maior o risco [12].
Como o sofrimento aparece em cada idade
O sofrimento infantil raramente se anuncia com palavras. Ele aparece no corpo e no comportamento, e muda de roupa conforme a idade. Os sinais abaixo não são diagnóstico: são motivo para olhar mais de perto e, se persistirem, buscar avaliação profissional [3][17].
| Faixa etária | Sinais frequentes | O que costuma ser confundido com |
|---|---|---|
| Bebês e primeira infância (0 a 5) | Regressão do sono e do xixi, choro difícil de consolar, medo de dormir sozinha, apego grudado, atraso de marcos | «Manha», «fase», «pirraça» |
| Idade escolar (6 a 11) | Queda nas notas, agressividade ou retraimento, dor de barriga e de cabeça sem causa, culpa por não impedir as brigas | «Preguiça», «má criação», «corpo mole» |
| Adolescência (12 a 17) | Irritabilidade, isolamento, uso de álcool ou drogas, fuga de casa, namoro com dinâmica parecida, autolesão | «Rebeldia», «idade difícil» |
| Qualquer idade | O silêncio bom demais: a criança que nunca incomoda, antecipa o humor dos adultos e desapareceu do próprio radar | «Criança madura», «ouro de criança» |
O último item da tabela merece atenção especial. A criança excessivamente boazinha, que lê o ambiente e se antecipa aos adultos, costuma ser elogiada. Em contexto de violência, esse comportamento pode ser uma resposta de apaziguamento: ficar invisível e agradável é uma estratégia de sobrevivência, não um traço de personalidade [3]. É o mesmo padrão que, décadas depois, aparece em adultos como dificuldade crônica de dizer não.
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TEPT e TEPT-C: quando a exposição vira quadro clínico
Parte das crianças expostas desenvolve sintomas de estresse pós-traumático: revivência (pesadelos, brincadeiras repetitivas com tema de violência), evitação e hipervigilância. Quando a exposição é prolongada e acontece dentro da relação de cuidado, da qual a criança não pode escapar, o quadro pode assumir a forma do TEPT-C (Transtorno de Estresse Pós-Traumático Complexo, CID-11 6B41), que soma três perturbações da auto-organização: desregulação emocional, autoconceito negativo e dificuldade nos relacionamentos [13]. A revisão de Brewin e colaboradores sustenta a distinção entre TEPT e TEPT-C adotada pela CID-11 [13].
Quem quiser entender o quadro clínico em profundidade encontra um artigo dedicado ao TEPT-C em crianças e adolescentes neste blog. A diferença entre os dois textos é proposital: aquele descreve o transtorno, seus sinais e sua avaliação; este descreve a exposição à violência doméstica como experiência e fator de risco, que pode ou não evoluir para o transtorno. Nem toda criança exposta desenvolve TEPT-C, e nenhum texto substitui avaliação individual [3].
O que a lei brasileira diz: quem testemunha é vítima
No Brasil, a discussão saiu do campo da opinião em 2017. A Lei 13.431/2017, que organiza o sistema de garantia de direitos da criança e do adolescente vítima ou testemunha de violência, define no art. 4º, inciso II, alínea c, que é violência psicológica contra a criança qualquer conduta que a exponha, direta ou indiretamente, a crime violento contra membro de sua família ou de sua rede de apoio, particularmente quando isso a torna testemunha. A criança que assiste ao pai agredir a mãe é, perante a lei, vítima de violência psicológica, ainda que nunca tenha sido tocada.
A mesma lei criou a escuta especializada e o depoimento especial, para que a criança não precise repetir o relato várias vezes nem ser inquirida de forma revitimizante. Esse cuidado dialoga com o que este blog já descreveu sobre vitimização secundária: o dano que a própria passagem pelas instituições pode causar. Para a mulher em situação de violência, os caminhos práticos estão nos artigos sobre a Lei Maria da Penha e as 5 formas de violência e sobre a medida protetiva de urgência.
O que não se sustenta
«Não viu, então não sofreu.» Falso. Ouvir, ver as consequências e viver a tensão contam como exposição, e os estudos que definem violência de forma ampla encontram associações mais fortes com problemas de ajustamento, não mais fracas [5][6].
«Criança esquece rápido.» Os estudos longitudinais mostram o contrário: a associação entre exposição e problemas tende a se fortalecer com o tempo [5]. O que parece esquecimento costuma ser silêncio, e silêncio não é ausência de registro.
«Ele é ótimo pai, o problema é só entre a gente.» A exposição em si já é dano, com efeito comparável ao da agressão direta [1]. E a sobreposição entre agredir o parceiro e maltratar a criança é alta demais para ser ignorada [7].
«A criança que testemunhou está condenada.» Também falso, e este erro machuca na direção oposta. A revisão de Holt conclui que raramente existe um caminho causal direto e único entre exposição e desfecho: a criança é ativa na construção do próprio mundo, e fatores de proteção mudam a trajetória [3]. Masten chamou a resiliência de «magia comum»: ela não é dom raro de crianças extraordinárias, é o resultado esperado de sistemas comuns de proteção funcionando, principalmente o vínculo com um adulto que cuida [14]. Quem quiser entender como o ciclo se interrompe entre gerações encontra um artigo dedicado à transmissão intergeracional do trauma; a demarcação entre os dois textos é simples: aquele olha o adulto que teme repetir o que viveu, este olha a criança exposta agora.
O que protege de verdade
A leitura que fica do carrossel se confirma na literatura: o que mais protege a criança é a segurança de quem fica com ela. A revisão de Holt identifica, entre os fatores de proteção, com destaque, a relação forte e o apego a um adulto cuidador, na maior parte dos estudos a mãe [3]. Isso muda o enquadramento do autocuidado: para a mãe que se culpa por «pensar em si» no meio da crise, cuidar da própria segurança e da própria saúde não é egoísmo, é o solo firme onde a criança se reconstrói.
| O que ajuda | O que atrapalha |
|---|---|
| Nomear o que aconteceu de forma simples e adequada à idade, deixando claro que a criança não tem culpa | Fingir que não houve nada e deixar a criança sozinha com a própria versão, que quase sempre inclui culpa |
| Restabelecer rotina e previsibilidade: horários, escola, sono, refeições | Transformar a criança em confidente, mensageira ou juíza do conflito adulto |
| Manter e fortalecer o vínculo com o cuidador seguro [3][14] | Falar mal do outro genitor para a criança em vez de protegê-la do conflito |
| Buscar avaliação profissional quando os sinais persistem | Esperar a criança «esquecer sozinha» enquanto os sinais se acumulam [5] |
| Acionar os canais de proteção: 180, 190, Disque 100, Conselho Tutelar | Adiar qualquer plano de segurança por medo de «destruir a família» |
Proteção também tem tratamento com evidência. O ensaio clínico randomizado de Lieberman e colaboradores testou a psicoterapia criança-pais (CPP) com 75 duplas de mães e crianças pré-escolares expostas à violência conjugal: um ano de sessões semanais reduziu significativamente os problemas de comportamento, os sintomas de estresse traumático e o status diagnóstico das crianças, além dos sintomas de evitação das mães [15]. O ensaio de eficácia de Graham-Bermann, com 181 crianças de 6 a 12 anos, comparou intervenção só com a criança, intervenção com criança e mãe juntas e lista de espera: o grupo criança-mais-mãe teve a maior melhora, com 79% menos crianças em faixa clínica de problemas externalizantes e 77% menos em faixa clínica de internalizantes entre o início e o seguimento [16]. Nos dois estudos, a mensagem é a mesma: tratar a dupla funciona melhor do que tratar a criança isolada. Proteger e fortalecer quem cuida é intervenção, não detalhe.
Vale registrar honestamente os limites: esses ensaios são americanos, e o que se transporta com mais segurança é a direção do efeito, não a magnitude exata. Faltam estudos brasileiros de intervenção nessa população, e este texto registra essa lacuna em vez de escondê-la [17].
Quando procurar avaliação médica
A avaliação de saúde mental infantil é território do pediatra, do psiquiatra da infância e do psicólogo infantil. Mas o adulto protetor dessa casa também precisa de cuidado, e é aí que a clínica médica entra: o estresse crônico de viver sob violência adoece o corpo de quem cuida, com repercussões em sono, pressão, dores, imunidade e metabolismo, descritas no artigo sobre o que é abuso psicológico e no pilar sobre abuso narcisista.
Procure avaliação para a criança quando os sinais da tabela de idades persistem por semanas, pioram ou impedem escola, sono e convivência. Procure ajuda imediata se houver qualquer menção a se machucar ou a não querer mais viver: o CVV atende no 188, por telefone, 24 horas, e em emergência o caminho é o 192 ou o 190. Para a situação de violência em si, os canais são o 180 (Central de Atendimento à Mulher), o Disque 100 (direitos humanos, incluindo crianças) e o Conselho Tutelar da sua cidade.
Se a sua preocupação é um relacionamento com traços narcisistas e o efeito dele sobre os filhos, os artigos sobre filhos de narcisistas, pais narcisistas e pai narcisista aprofundam o tema, e o caminho de saída está descrito no pilar de recuperação do abuso narcisista e no guia do TEPT-C.
Perguntas frequentes
Criança que só ouviu as brigas do quarto também é afetada?
Sim. A literatura define exposição de forma ampla: ouvir a violência, ver as consequências e viver o clima de medo contam tanto quanto presenciar [6]. As meta-análises que usam definição ampla de violência encontram associações mais fortes com problemas de ajustamento, não mais fracas [5]. O alarme cerebral da criança responde ao som e à tensão, não apenas à imagem.
Meu filho parece bem. Isso significa que não foi afetado?
Não necessariamente, e também não significa o contrário. Parte das crianças expostas segue bem, especialmente quando há vínculo forte com um cuidador seguro [3][14]. Mas o sofrimento infantil costuma aparecer disfarçado: notas caindo, dor de barriga, sono regredindo, ou um comportamento bom demais, de quem aprendeu a não incomodar. Vale observar ao longo do tempo e pedir avaliação se os sinais persistirem.
Testemunhar violência doméstica é considerado violência contra a criança no Brasil?
Sim. A Lei 13.431/2017 define como violência psicológica expor a criança ou o adolescente, direta ou indiretamente, a crime violento contra membro da família ou da rede de apoio, particularmente quando isso a torna testemunha (art. 4º, II, c). A mesma lei criou a escuta especializada e o depoimento especial para proteger a criança na hora de relatar.
Qual a relação entre exposição à violência e TEPT-C?
A exposição prolongada, dentro da relação de cuidado da qual a criança não pode escapar, é o tipo de situação associada ao TEPT-C (CID-11 6B41), que soma ao quadro do TEPT a desregulação emocional, o autoconceito negativo e a dificuldade nos relacionamentos [13]. Nem toda criança exposta desenvolve o transtorno; o tema tem artigo próprio sobre TEPT-C em crianças e adolescentes neste blog.
Criança pequena esquece o que viu?
A memória narrativa de um bebê é limitada, mas o registro do estresse não depende dela. Os estudos apontam risco levemente maior em pré-escolares [1], e a exposição precoce se associa mais fortemente a problemas de comportamento [5]. O corpo aprende que o mundo é perigoso antes de a criança saber contar o que aconteceu.
Devo conversar com meu filho sobre o que aconteceu?
Sim, de forma simples, honesta e adequada à idade, com três mensagens centrais: não foi culpa dela, ela não é responsável por proteger os adultos, e há um plano para ela ficar segura. O que atrapalha é o extremo oposto em qualquer direção: o silêncio total, que deixa a criança sozinha com a culpa, ou o excesso, que a transforma em confidente do conflito adulto [3].
Ficar no relacionamento «pelos filhos» protege as crianças?
A premissa não se sustenta quando há violência. A exposição em si já produz dano comparável ao da agressão direta [1], o risco de a criança virar vítima direta é alto [7], e o efeito se acumula com o tempo [5]. O que a literatura identifica como proteção não é a casa com os dois pais, é a segurança e a estabilidade de quem cuida [3]. Cada situação exige plano de segurança próprio, de preferência com apoio profissional e da rede de proteção.
Que tipo de ajuda profissional tem evidência para crianças expostas?
As melhores evidências vêm de intervenções que tratam a criança junto com o cuidador protetor: a psicoterapia criança-pais reduziu sintomas de trauma e problemas de comportamento em ensaio randomizado [15], e o programa criança-mais-mãe teve os melhores resultados num ensaio com 181 crianças [16]. Para o adulto, tratar o próprio quadro pós-traumático e as repercussões físicas do estresse também é parte da proteção da criança.
A criança exposta vai repetir isso quando crescer?
Repetição não é destino. O risco de grupo aumenta, mas a revisão de Holt mostra que raramente há caminho causal direto [3], e a resiliência é o desfecho comum quando os sistemas de proteção funcionam [14]. O tema tem artigo dedicado neste blog, sobre transmissão intergeracional do trauma, com o que a ciência mostra sobre interromper o ciclo.
O que acontece se a criança contar na escola ou numa consulta?
Profissionais de saúde e educação têm dever legal de comunicar suspeita de violência, e a Lei 13.431/2017 organiza a escuta para que a criança não seja inquirida repetidamente. A revelação espontânea deve ser acolhida sem interrogatório: ouvir, validar e acionar a rede (Conselho Tutelar, Disque 100). Para a mulher, denunciar também abre acesso à medida protetiva de urgência, descrita em artigo próprio.
Referências científicas
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