Sabotagem de datas: por que o narcisista estraga seu aniversário, Natal e viagens

Mulher sozinha e triste à mesa de aniversário enquanto a festa acontece ao fundo, ilustrando a sabotagem de datas comemorativas no abuso narcisista
Foto de Dr. Anderson Contaifer

Dr. Anderson Contaifer

Médico especialista em Clínica Médica (CRM-SC 24.484 | RQE de clínica médica 18.790), com formação pela EMESCAM (Escola de ciências Médicas da Santa Casa de Misericórida de Vitória - ES) e titulação em clínica médica pela SBCM (Sociedade Brasileira de Clínica Médica). Atua na recuperação médica e emocional de vítimas de abuso narcisista, produzindo conteúdos educativos nas redes sociais. Criador do Programa Quebrando as Algemas, curso para recuperação do abuso narcisista. Possui mais de 200 mil seguidores em redes sociais, criador do Blog Quebrando as Algemas que oferece conteúdo baseado em evidências científicas sobre narcisismo patológico, gaslighting, trauma bonding e TEPT-C. Possui Certificado de Excelência Doctoralia 2025.

Deixe seu comentário abaixo! Sua experiência pode ajudar outras pessoas que estão passando pela mesma situação.

Definição rápida: sabotagem de datas comemorativas é o padrão em que a pessoa abusiva provoca uma crise (briga do nada, mau humor, frieza, um “esquecimento” calculado ou uma doença súbita) justamente na véspera ou no dia de um evento importante para você, como aniversário, Natal, formatura ou viagem. Não é azar nem coincidência: é uma tática de controle. Datas em que a atenção sai do abusador geram incômodo narcísico, e destruir a sua alegria autônoma serve para manter o seu estado emocional dependente dele. Repetida ao longo do tempo, essa sabotagem instala ansiedade antecipatória, mantém o cortisol elevado e pode contribuir para quadros de TEPT-C. Reconhecer o padrão é o primeiro passo para se proteger.

As repercussões do abuso narcisista no corpo (insônia, taquicardia, fadiga, alterações de sono e peso) têm avaliação e acompanhamento médico.

Dr. Anderson Contaifer · Médico Especialista em Clínica Médica · CRM-SC 24.484 · RQE 18.790 · Teleconsulta (qualquer lugar do Brasil e do mundo)

Parece coincidência que, bem no dia do seu aniversário, na manhã de Natal ou na véspera da viagem que você esperou o ano inteiro, ele arrume uma briga gigantesca do nada. Você começa a achar que é você quem tem um problema, que atrai confusão, que “não sabe aproveitar as coisas”. Não é isso. Quando o mesmo tipo de crise acontece de forma repetida e sempre no mesmo tipo de momento, você não está diante de má sorte. Está diante de um padrão.

Na prática clínica, escuto essa história com uma frequência que assusta. A pessoa descreve o aniversário arruinado, o Natal transformado em campo de guerra, a lua de mel que virou pesadelo, e ainda pede desculpas por estar “reclamando de bobagem”. Este guia explica, com base na literatura científica, por que a sabotagem de datas comemorativas acontece, o que ela faz com o seu corpo e a sua mente, como diferenciar um imprevisto comum de uma sabotagem intencional e o que você pode fazer para proteger as próximas datas que importam para você.

O que é a sabotagem de datas comemorativas

Atendimento médico

As repercussões do abuso narcisista no corpo (insônia, taquicardia, fadiga, alterações de peso e sono) têm avaliação e acompanhamento médico. O Dr. Anderson Contaifer, médico, especialista em Clínica Médica (CRM-SC 24.484, RQE 18.790), atende por teleconsulta para todo o Brasil. Cada consulta é uma avaliação clínica individual.

Ainda não quer marcar consulta? Você também pode conhecer o curso Quebrando as Algemas, material educativo para quem está se recuperando de um relacionamento abusivo.

Sabotagem de datas comemorativas é a interferência deliberada, ainda que muitas vezes negada, na sua capacidade de viver momentos felizes que não giram em torno do abusador. Ela aparece em qualquer ocasião com carga emocional positiva: aniversários, casamentos, Natal, Ano Novo, Dia das Mães, formaturas, promoções no trabalho, viagens, reencontros de família. O denominador comum não é a data em si, é o fato de que, naquele momento, a atenção, o brilho e a alegria estão em você, e não nele.

É importante separar essa sabotagem de um contratempo ocasional. Todo casal tem um Natal em que alguém acordou de mau humor ou uma viagem estragada por um imprevisto real. O que caracteriza a sabotagem é a repetição, a previsibilidade e a direção: a crise chega quase sempre antes ou durante o evento, quase sempre parte da mesma pessoa e quase sempre tem como efeito prático anular o seu prazer. Um episódio é azar. Um padrão é estratégia.

A literatura sobre narcisismo patológico ajuda a entender o mecanismo. Pessoas com traços narcisistas acentuados dependem de um fluxo constante de admiração e de controle para regular a própria autoestima, que por baixo da fachada é frágil e instável [1]. Quando o holofote se desloca para outra pessoa, mesmo que seja o parceiro em um dia especial, isso é vivido como uma ameaça, uma espécie de fome que precisa ser saciada de imediato. Reconquistar o centro das atenções, nem que seja pelo conflito, é uma forma de restaurar a sensação de poder.

Por que o narcisista faz isso: o que acontece nos bastidores

Do lado de fora, o comportamento parece autossabotagem, porque o abusador também estraga o próprio evento. Por dentro, existe uma lógica. O primeiro motor é a ferida narcísica. Datas comemorativas são momentos em que o outro recebe carinho, presentes, mensagens e presença. Para quem precisa ser sempre o personagem principal, dividir esse palco é insuportável. Provocar uma crise devolve o protagonismo ao abusador: de repente, a festa não é mais sobre você, é sobre a briga dele, sobre o clima que ele criou, sobre acalmá-lo.

O segundo motor é a inveja. A pesquisa mostra que a inveja é um traço central sobretudo no narcisismo vulnerável, e que ela funciona como um mecanismo de comparação em que o sucesso ou a alegria do outro é sentido como uma perda pessoal [2]. Ver você feliz, cercado de gente que te ama, realizando um sonho, aciona nessa pessoa um desconforto que ela alivia rebaixando o seu momento. Estragar a sua alegria reequilibra, na cabeça dela, uma balança que ela sente injusta.

O terceiro motor é mais desconfortável de admitir: em alguns casos existe prazer no controle e no sofrimento alheio. Estudos sobre sadismo cotidiano mostram que uma parcela de pessoas obtém gratificação genuína ao infligir dor, inclusive sem provocação e à custa de esforço próprio [3]. Nem todo abusador é sádico, mas quando esse traço se soma ao narcisismo, ver o seu rosto se apagar no dia que deveria ser feliz não é um efeito colateral indesejado, é parte da recompensa.

Há ainda um motor estratégico que costuma passar despercebido. Ao arruinar sistematicamente os seus bons momentos, o abusador ensina o seu cérebro que a felicidade fora dele custa caro. A ciência da motivação humana mostra que autonomia, a sensação de conduzir a própria vida, é uma necessidade psicológica básica, e que relações que a sufocam corroem o bem-estar [4]. Cada data sabotada é uma lição: “não se anime demais sem mim”. Aos poucos, você para de esperar coisas boas, para de fazer planos, e passa a organizar a própria vida em torno do humor dele.

O que ele diz ou faz Como você tende a interpretar A função clínica nos bastidores
Começa uma briga por um motivo banal na manhã do evento “Ele estava estressado, foi mal-entendido” Recuperar o protagonismo perdido para a data (ferida narcísica)
Fica emburrado e frio no meio da comemoração “Estraguei o clima, devia ter cuidado melhor dele” Transferir o foco da sua alegria para o desconforto dele
“Esquece” o seu aniversário ou dá um presente ofensivo “Ele é distraído, não faz por mal” Rebaixar o seu valor e comunicar quem manda (inveja e controle)
Cria uma crise financeira ou de ciúme na véspera da viagem “Que azar, sempre acontece algo” Impedir a experiência autônoma e reforçar a dependência
Passa mal ou adoece exatamente no dia marcado “Coitado, não teve culpa” Redirecionar todo o cuidado para ele, anulando o evento

As formas mais comuns de sabotagem

A sabotagem raramente se anuncia. Ela costuma vir disfarçada de acaso, de mau humor passageiro ou até de fragilidade dele, o que torna difícil nomear o que está acontecendo. A forma mais clássica é a briga da véspera. Tudo estava aparentemente bem, e então, na noite anterior ou na manhã do evento, surge uma discussão por algo mínimo: um comentário mal interpretado, um ciúme repentino, uma cobrança antiga ressuscitada do nada. Ao meio-dia você já chorou, e a comemoração acontece com os olhos inchados ou não acontece.

Outra forma frequente é o boicote presencial. Ele até comparece à festa, mas leva junto uma nuvem. Fica no canto, responde por monossílabos, olha o relógio, te trata com uma frieza que só você percebe e que te obriga a dividir a atenção entre os convidados e o esforço de agradá-lo. Muitas vezes o desfecho é você inventando uma desculpa para ir embora cedo, envergonhada, enquanto ele se posiciona como quem “só queria ir para casa”. Nas formas mais silenciosas, aparecem o esquecimento estratégico de datas que importam para você, o presente escolhido para magoar, a doença que surge sempre no momento mais inoportuno e a crise financeira ou de ciúme que inviabiliza a viagem.

É útil entender que essas táticas não são independentes umas das outras. Elas fazem parte de um repertório de controle coercitivo, um padrão contínuo de dominação que a literatura descreve como mais nocivo à saúde mental do que episódios isolados de agressão, porque restringe de forma sistemática a liberdade e a rede de apoio da vítima [8]. Sabotar datas é uma das faces desse controle: ao minar justamente os momentos em que você se conecta com amigos, família e com a sua própria alegria, o abusador estreita o mundo até que ele caiba dentro do relacionamento.

Tática Como se disfarça Objetivo real
A briga da véspera “Foi só uma discussão, casal briga” Chegar ao evento emocionalmente destruído
O boicote presencial “Ele estava cansado, não gosta de festa” Envenenar o clima sem deixar prova para os outros
O esquecimento estratégico “Ele é distraído, tem memória ruim” Comunicar que você não é prioridade
O presente que magoa “Foi a intenção que valeu” Rebaixar o seu valor em um dia sobre você
A doença ou crise súbita “Não teve culpa, passou mal” Transferir todo o cuidado do evento para ele
O boicote da viagem “Deu tudo errado, foi o destino” Bloquear a experiência de alegria autônoma

DARVO: como ele te convence de que você estragou a data

Depois de arruinar a comemoração, o abusador raramente assume o que fez. Ao contrário: com uma velocidade impressionante, ele inverte os papéis e transforma você na culpada. Esse mecanismo tem nome na literatura científica. Chama-se DARVO, sigla em inglês para negar, atacar e inverter vítima e agressor. A pesquisa mostra que agressores confrontados tendem a negar o ato, atacar quem os confronta e se apresentar como as verdadeiras vítimas, e que essa estratégia é eficaz em fazer a vítima real se sentir culpada [6].

Na sabotagem de datas, o DARVO soa assim: “eu não fiz nada, você que está sensível”, “você sempre transforma tudo em drama”, “olha só, eu que estou sofrendo agora e você preocupada com festa”. Some-se a isso o gaslighting, a distorção sistemática da sua percepção que faz você duvidar da própria memória e do próprio julgamento [7], e o resultado é que, no fim da noite, quem pede desculpas é você. Você agradece por ele “ter aguentado”, promete se esforçar mais no próximo ano, e sai convencida de que o Natal estragado foi obra sua.

Essa inversão é a peça que mantém o padrão girando. Enquanto você acreditar que é a responsável por cada data arruinada, você vai continuar tentando prevenir o imprevisível, pisando em ovos, moderando a própria animação, reduzindo as expectativas. O abusador não precisa mais nem se esforçar: você mesma passa a sabotar a própria alegria por antecipação, para não “provocar”. É por isso que reconhecer o DARVO é tão libertador. No momento em que você entende que a culpa foi plantada, e não sentida legitimamente, o feitiço começa a perder força.

Coincidência, imprevisto ou sabotagem? Como diferenciar

Uma dúvida honesta costuma aparecer aqui: e se for exagero da minha parte? E se ele realmente só estava de mau humor, ou passou mal de verdade? Essa dúvida é saudável, porque relações reais têm dias ruins que não são sabotagem. A diferença não está em um episódio isolado, e sim no padrão ao longo do tempo. Vale observar três marcadores: a repetição (acontece quase toda vez que há um evento importante), a direção (a crise sempre parte dele e sempre te esvazia) e a resposta ao seu incômodo (quando você aponta, ele reconhece e ajusta, ou nega, ataca e te culpa).

A tabela abaixo ajuda a separar três situações que se parecem por fora, mas são muito diferentes por dentro. Um imprevisto genuíno é pontual e vem acompanhado de cuidado com o seu sentimento. Um mau humor ocasional existe, mas não sequestra o evento nem te responsabiliza por ele. A sabotagem intencional é repetida, direcionada e blindada por inversão de culpa. Se, ao ler, você reconhecer o terceiro padrão se repetindo há anos, isso é um dado clínico, não paranoia.

Aspecto Imprevisto genuíno Mau humor ocasional Sabotagem intencional
Frequência Raro e aleatório Esporádico, sem alvo Repetido, quase toda data importante
Momento Qualquer dia Qualquer dia Concentrado na véspera ou no dia do evento
Efeito sobre você Ele lamenta e tenta compensar Passa e a data segue Sua alegria é anulada de forma consistente
Quando você reclama Pede desculpas sinceras Reconhece o exagero Nega, ataca e te culpa (DARVO)
Intenção percebida Nenhuma, foi acaso Nenhuma contra você Recuperar controle e protagonismo

Este tema também está no Instagram do Dr. Anderson Contaifer, em formato visual:

O que a sabotagem repetida faz com o seu corpo e a sua mente

Viver anos sob esse padrão deixa marcas que vão muito além da tristeza pontual. A primeira delas é a ansiedade antecipatória. Como o cérebro aprende por associação, ele passa a ligar datas felizes a perigo. Semanas antes do seu aniversário ou do Natal, o corpo já entra em alerta, o sono piora, o estômago fecha, e você se pega torcendo para que a data simplesmente passe rápido. Esse mecanismo é o mesmo do desamparo aprendido descrito na literatura: quando o organismo conclui que não tem controle sobre um evento aversivo recorrente, ele deixa de tentar evitá-lo e entra em um estado de resignação e passividade [11].

No plano fisiológico, a repetição das crises mantém o eixo do estresse cronicamente ativado. Situações que ameaçam a autoestima e o pertencimento social, exatamente o que uma data sabotada faz, estão entre os gatilhos mais potentes de liberação de cortisol [12]. Quando esse estado se repete por anos, o organismo paga um preço acumulado, o que a fisiologia chama de carga alostática: o desgaste de sistemas que deveriam ser acionados apenas em emergências e acabam ligados o tempo todo, com repercussões sobre sono, humor, pressão arterial, metabolismo e imunidade [13]. O corpo, em outras palavras, envelhece sob a vigília constante.

Há também um efeito insidioso sobre a sua capacidade de sentir prazer. A ciência do bem-estar mostra que saborear os bons momentos, antecipá-los, vivê-los plenamente e relembrá-los, é uma habilidade que sustenta a saúde emocional [5]. A sabotagem sistemática ataca justamente essa habilidade: se toda expectativa boa terminou em decepção, o cérebro aprende a não se animar, e a alegria vai perdendo cor. Some-se a isso o vínculo traumático, o apego paradoxal que se forma quando carinho e crueldade se alternam de forma imprevisível [10], e você entende por que fica tão difícil simplesmente ir embora: o mesmo ciclo que te machuca também te prende.

Quando esse conjunto de experiências se prolonga, ele pode evoluir para um quadro clínico bem descrito. A violência psicológica sustentada está associada a taxas elevadas de depressão, ansiedade e estresse pós-traumático [9], e a exposição repetida a adversidades interpessoais na vida adulta se soma a um risco maior de problemas de saúde física e mental ao longo do tempo, como mostram os estudos sobre experiências adversas [14]. O desfecho mais grave é o TEPT-C, o transtorno de estresse pós-traumático complexo, reconhecido pela CID-11, que combina os sintomas clássicos do trauma com dificuldades persistentes de regular emoções, uma autoimagem negativa e prejuízos nos relacionamentos [15]. A boa notícia é que existe tratamento, e a maioria das pessoas se recupera com o suporte adequado.

O que você sente O mecanismo por trás
Pavor quando uma data importante se aproxima Ansiedade antecipatória por associação aprendida entre alegria e perigo [11]
Insônia, estômago fechado e tensão nas semanas anteriores Ativação crônica do cortisol por ameaça à autoestima e ao pertencimento [12]
Cansaço, dores e adoecimento frequente Carga alostática: desgaste acumulado do sistema de estresse [13]
Perda da vontade de comemorar qualquer coisa Erosão da capacidade de saborear e antecipar o prazer [5]
Ruminar a briga por dias, sem conseguir desligar Ruminação, o pensamento repetitivo que prolonga o sofrimento [16]
Não conseguir ir embora mesmo entendendo o padrão Vínculo traumático formado pelo reforço intermitente [10]

Como se proteger nas próximas datas

Proteger uma data começa por retirar dela o poder de te surpreender. Se você já sabe que existe um padrão, pode planejar a alegria de forma mais autônoma e menos dependente da cooperação dele. Isso significa, por exemplo, marcar a comemoração importante com pessoas que te fazem bem, em um contexto onde a presença dele não seja o centro de gravidade da festa. Ter testemunhas de confiança por perto reduz o espaço para o boicote silencioso e te dá referências externas, algo que o gaslighting tenta apagar.

Uma segunda estratégia é reduzir a exposição ao conflito nas vésperas. Se a briga costuma chegar na noite anterior, essa é a janela em que menos vale a pena entrar em discussões, prestar contas ou tentar convencer. Uma comunicação mais contida e objetiva, sem alimentar provocações, retira combustível da crise programada. Documentar para si mesma o que acontece, anotar as datas e o que se passou em cada uma, também ajuda: com o tempo, o próprio registro desfaz a dúvida de “será que sou eu que exagero?” e devolve a você a confiança na própria percepção.

Acima de tudo, preserve e reconstrua a sua rede de apoio. O controle coercitivo age isolando, e cada amigo reaproximado, cada vínculo de família retomado, é um passo na direção contrária. Recuperar autonomia, a sensação de que a sua vida e a sua alegria pertencem a você, é protetor para a saúde mental [4]. Você não precisa fazer isso sozinha, e não precisa ter todas as respostas de uma vez. Precisa apenas começar a tratar a sua alegria como algo que merece ser defendido.

Quando procurar ajuda médica

Se as datas comemorativas viraram fonte de pavor, se a ansiedade antecipatória tomou conta de semanas do seu ano, se você percebe sintomas físicos persistentes (insônia, dores, alterações de apetite, pressão alterada) ou sinais de depressão e estresse pós-traumático, vale procurar avaliação médica. Sabotagem repetida de momentos felizes não é frescura nem drama: é uma forma de violência psicológica com efeitos reais e mensuráveis sobre o corpo e a mente, e merece cuidado profissional.

Uma avaliação clínica cuidadosa ajuda a entender o que está acontecendo, a diferenciar o sofrimento reativo de quadros como transtornos de ansiedade, depressão e TEPT-C, e a construir um plano de cuidado individualizado. Este texto tem finalidade educativa e não substitui uma consulta. Se você se reconheceu aqui, procurar ajuda é um ato de cuidado com a sua saúde, e a recuperação, com o suporte certo, é o desfecho mais provável.

Perguntas frequentes sobre a sabotagem de datas comemorativas

Por que o narcisista sempre arruma briga perto do meu aniversário ou do Natal?
Porque datas comemorativas deslocam a atenção para você, e isso é vivido por quem tem traços narcisistas como uma ameaça à necessidade constante de ser o centro [1]. Provocar uma crise devolve o protagonismo a ele e transforma o seu dia especial em um dia sobre o problema dele. A repetição no mesmo tipo de momento é o que denuncia o padrão.

Será que é sabotagem ou eu que exagero e “atraio” confusão?
A dúvida em si é saudável, mas observe o padrão ao longo do tempo. Se a crise se repete quase toda vez que há um evento importante, se sempre parte dele e sempre esvazia a sua alegria, e se ao apontar isso você é negada, atacada e culpada, você está diante de um padrão, não de azar. Sentir que “você atrai confusão” costuma ser efeito do gaslighting e do DARVO, não a causa real [6][7].

Ele estraga o próprio evento também. Por que faria isso contra si mesmo?
Porque o ganho dele não está no evento, está no controle. Recuperar o centro das atenções, aliviar a inveja da sua alegria e reforçar a sua dependência valem, para ele, mais do que a festa em si [2]. Em alguns casos há ainda gratificação no próprio ato de causar sofrimento, um traço descrito na literatura sobre sadismo cotidiano [3].

Por que eu me sinto culpada mesmo quando foi ele quem começou?
Por causa do DARVO, a inversão em que o agressor nega o que fez, ataca você e se apresenta como a verdadeira vítima [6]. Combinado ao gaslighting, esse mecanismo faz você duvidar da própria memória e assumir uma culpa que não é sua [7]. Reconhecer que a culpa foi plantada é o primeiro passo para devolvê-la a quem pertence.

A sabotagem de datas é uma forma de violência?
Sim. Ela é uma das faces do controle coercitivo e da violência psicológica, padrões contínuos de dominação que a literatura associa a prejuízos importantes de saúde mental, muitas vezes mais duradouros do que os de uma agressão isolada [8][9].

Por que fico com tanto medo das datas mesmo quando nada aconteceu ainda?
Porque o seu cérebro aprendeu a associar momentos felizes a perigo. Depois de várias datas arruinadas, o corpo entra em alerta por antecipação, um mecanismo próximo do desamparo aprendido, em que o organismo passa a esperar o pior e a se resignar [11]. Isso ativa o cortisol semanas antes e explica a insônia e a tensão [12].

Por que continuo com ele mesmo entendendo que faz mal?
Porque a alternância entre carinho e crueldade cria um vínculo traumático, um apego paradoxal fortalecido justamente pela imprevisibilidade do reforço [10]. Não é falta de inteligência nem de força: é um mecanismo neurobiológico conhecido, e sair dele costuma exigir apoio, rede e, muitas vezes, acompanhamento profissional.

A sabotagem repetida pode adoecer meu corpo de verdade?
Pode. A ativação crônica do estresse gera carga alostática, o desgaste acumulado de sistemas que só deveriam ligar em emergências, com efeitos sobre sono, pressão, metabolismo e imunidade [13]. A exposição prolongada a adversidades interpessoais também se associa a maior risco de problemas de saúde física e mental ao longo da vida [14].

Isso pode virar TEPT-C?
Quando a violência psicológica é sustentada por anos, pode evoluir para o transtorno de estresse pós-traumático complexo, reconhecido pela CID-11, que soma aos sintomas clássicos do trauma a dificuldade de regular emoções, uma autoimagem negativa e prejuízo nos relacionamentos [15]. É um quadro tratável, e a maioria das pessoas se recupera com o suporte adequado.

Como posso proteger a próxima data importante?
Planeje a comemoração com pessoas de confiança e testemunhas por perto, reduza a exposição a discussões nas vésperas, documente os episódios para si mesma e preserve a sua rede de apoio. Retomar a autonomia sobre a própria alegria é protetor para a saúde mental [4]. Se as datas viraram fonte de sofrimento intenso, procure avaliação médica.

Referências científicas

  1. Pincus AL, Lukowitsky MR. Pathological Narcissism and Narcissistic Personality Disorder. Annual Review of Clinical Psychology. 2010. DOI: 10.1146/annurev.clinpsy.121208.131215
  2. Krizan Z, Johar O. Envy Divides the Two Faces of Narcissism. Journal of Personality. 2012. DOI: 10.1111/j.1467-6494.2011.00767.x
  3. Buckels EE, Jones DN, Paulhus DL. Behavioral Confirmation of Everyday Sadism. Psychological Science. 2013. DOI: 10.1177/0956797613490749
  4. Ryan RM, Deci EL. Self-Determination Theory and the Facilitation of Intrinsic Motivation, Social Development, and Well-Being. American Psychologist. 2000. DOI: 10.1037/0003-066X.55.1.68
  5. Bryant FB. Savoring Beliefs Inventory (SBI): A Scale for Measuring Beliefs About Savouring. Journal of Mental Health. 2003. DOI: 10.1080/0963823031000103489
  6. Harsey SJ, Zurbriggen EL, Freyd JJ. Perpetrator Responses to Victim Confrontation: DARVO and Victim Self-Blame. Journal of Aggression, Maltreatment & Trauma. 2017. DOI: 10.1080/10926771.2017.1320777
  7. Sweet PL. The Sociology of Gaslighting. American Sociological Review. 2019. DOI: 10.1177/0003122419874843
  8. Hamberger LK, Larsen SE, Lehrner A. Coercive Control in Intimate Partner Violence. Aggression and Violent Behavior. 2017. DOI: 10.1016/j.avb.2017.08.003
  9. Dokkedahl S, et al. The Psychological Subtype of Intimate Partner Violence and Its Effect on Mental Health. Systematic Reviews. 2022. DOI: 10.1186/s13643-022-02025-z
  10. Dutton DG, Painter S. Emotional Attachments in Abusive Relationships: A Test of Traumatic Bonding Theory. Violence and Victims. 1993. DOI: 10.1891/0886-6708.8.2.105
  11. Maier SF, Seligman MEP. Learned Helplessness at Fifty: Insights from Neuroscience. Psychological Review. 2016. DOI: 10.1037/rev0000033
  12. Dickerson SS, Kemeny ME. Acute Stressors and Cortisol Responses: A Theoretical Integration and Synthesis of Laboratory Research. Psychological Bulletin. 2004. DOI: 10.1037/0033-2909.130.3.355
  13. McEwen BS. Protective and Damaging Effects of Stress Mediators. New England Journal of Medicine. 1998. DOI: 10.1056/NEJM199801153380307
  14. Felitti VJ, et al. Relationship of Childhood Abuse and Household Dysfunction to Many of the Leading Causes of Death in Adults (ACE Study). American Journal of Preventive Medicine. 1998. DOI: 10.1016/S0749-3797(98)00017-8
  15. Maercker A, et al. Complex Post-Traumatic Stress Disorder. The Lancet. 2022. DOI: 10.1016/S0140-6736(22)00821-2
  16. Treynor W, Gonzalez R, Nolen-Hoeksema S. Rumination Reconsidered: A Psychometric Analysis. Cognitive Therapy and Research. 2003. DOI: 10.1023/A:1023910315561

Leia também

Sobre o autor

Dr. Anderson Contaifer de Carvalho é médico especialista em Clínica Médica (CRM-SC 24.484 | RQE 18.790), formado pela EMESCAM em 2012, com título de especialista em clínica médica pela SBCM em 2019. Possui pós-graduação em Saúde da Família, Nutrologia e Medicina Intensiva, além de certificações ACLS e ATLS. É o criador do Quebrando as Algemas, programa dedicado à recuperação de vítimas de abuso narcisista, médico com atuação nas repercussões clínicas e emocionais de relacionamentos abusivos. Certificado Excelência Doctoralia 2025.

Quer entender o abuso narcisista em profundidade?

O curso Quebrando as Algemas oferece um método médico estruturado para quem quer compreender os mecanismos do abuso narcisista e dar os primeiros passos no entendimento deste tema complexo e auxiliar na recuperação da autoestima.

✨ Acesso vitalício ✨ • 12x R$ 29,16 sem juros ou R$ 349,90 à vista

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Mais leituras

Receba em primeira mão meus conteúdos, direto no seu e-mail

Agendar Teleconsulta - Dr. Anderson Contaifer

Medico Especialista em Clinica Medica - CRM-SC 24.484 - RQE 18.790

Ver horarios