Violência do parceiro na gravidez: o que a agressão faz com você e com o bebê

Mulher grávida sentada sozinha perto da janela, com a mão apoiada na barriga e expressão pensativa
Foto de Dr. Anderson Contaifer

Dr. Anderson Contaifer

Médico especialista em Clínica Médica (CRM-SC 24.484 | RQE de clínica médica 18.790), com formação pela EMESCAM (Escola de ciências Médicas da Santa Casa de Misericórida de Vitória - ES) e titulação em clínica médica pela SBCM (Sociedade Brasileira de Clínica Médica). Atua na recuperação médica e emocional de vítimas de abuso narcisista, produzindo conteúdos educativos nas redes sociais. Criador do Programa Quebrando as Algemas, curso para recuperação do abuso narcisista. Possui mais de 200 mil seguidores em redes sociais, criador do Blog Quebrando as Algemas que oferece conteúdo baseado em evidências científicas sobre narcisismo patológico, gaslighting, trauma bonding e TEPT-C. Possui Certificado de Excelência Doctoralia 2025.

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Definição rápida: violência do parceiro na gravidez é qualquer forma de agressão física, sexual, psicológica ou de controle coercitivo praticada por um companheiro durante a gestação ou o pós-parto. Não é um problema raro nem restrito a contextos de pobreza extrema, e não começa necessariamente com a gravidez: em muitos casos ela já existia e muda de formato, ficando mais psicológica e mais focada em controle. O efeito documentado tem dois destinatários. Sobre a gestante, aparece em sofrimento mental, no eixo do estresse e na inflamação. Sobre o bebê, as revisões sistemáticas mostram associação com parto prematuro e baixo peso ao nascer, em magnitude que é real, consistente entre estudos e ao mesmo tempo modesta no plano individual. O ponto que mais importa é este: risco aumentado não é sentença, e existem intervenções testadas em ensaio clínico que mudam o desfecho.

As repercussões do abuso narcisista no corpo (insônia, taquicardia, fadiga, alterações de sono e peso) têm avaliação e acompanhamento médico.

Dr. Anderson Contaifer · Médico Especialista em Clínica Médica · CRM-SC 24.484 · RQE 18.790 · Teleconsulta (qualquer lugar do Brasil e do mundo)

Existe uma expectativa social de que a gravidez funcione como uma trégua. Que o companheiro mais difícil vá se acalmar, que a família se una, que o susto de ver o exame de imagem mude alguma coisa. Para muitas mulheres, essa trégua não vem. E quando não vem, chega junto uma segunda camada de sofrimento, que é a sensação de estar falhando num período em que todo mundo diz que ela deveria estar feliz.

Este texto foi escrito para essa leitora. Não para explicar o que aconteceu na infância dela, e sim para responder à pergunta prática que ela está fazendo agora: o que isso está fazendo comigo, o que isso pode fazer com o bebê, e o que existe de concreto para mudar esse cenário.

Vou escrever os números como eles são, sem inflar e sem amenizar. Alarme não protege ninguém, e omissão também não. O que protege é informação correta com o que fazer em seguida.

Quanto isso acontece, e por que quase ninguém comenta

Atendimento médico

As repercussões do abuso narcisista no corpo (insônia, taquicardia, fadiga, alterações de peso e sono) têm avaliação e acompanhamento médico. O Dr. Anderson Contaifer, médico, especialista em Clínica Médica (CRM-SC 24.484, RQE 18.790), atende por teleconsulta para todo o Brasil. Cada consulta é uma avaliação clínica individual.

Ainda não quer marcar consulta? Você também pode conhecer o curso Quebrando as Algemas, material educativo para quem está se recuperando de um relacionamento abusivo.

A análise de dados de prevalência reunindo inquéritos de dezenove países encontrou violência física por parceiro durante a gravidez em proporções que variaram bastante entre os locais estudados, com números longe de desprezíveis em todos eles [1]. Ou seja, não é fenômeno de exceção, e a variação entre países tem mais a ver com contexto e método de coleta do que com a existência do problema.

A revisão clássica sobre consequências de saúde da violência por parceiro já descrevia um padrão que se confirma nas pesquisas seguintes: o efeito não se limita ao trauma físico do episódio, ele aparece em desfechos de saúde geral, ginecológicos e mentais [2]. E quando a violência é predominantemente psicológica, sem agressão física, a revisão sistemática mostra efeito consistente sobre a saúde mental de quem a sofre [3]. Registro isso cedo porque muita gestante desqualifica o que vive justamente por isso: ele nunca me bateu.

Há ainda um motivo específico para o silêncio na gestação. A mulher está sob observação social intensa, com consultas frequentes, opinião de todo mundo e uma cobrança forte de gratidão. Reconhecer que está sendo humilhada em casa parece estragar um momento que deveria ser bonito. Some a isso o medo concreto de perder a guarda, o medo de julgamento e a dependência financeira, que costuma piorar exatamente nessa fase.

O que acontece com a gestante

Antes de falar do bebê, vale falar dela, porque a maior parte do conteúdo disponível na internet inverte essa ordem e transforma a mulher em recipiente. Ela é a paciente.

Saúde mental no período perinatal

A meta-análise sobre violência doméstica e transtornos mentais perinatais encontrou associação forte com depressão na gestação e no pós-parto, além de ansiedade e transtorno de estresse pós-traumático [4]. Não é tristeza passageira nem hormônio. É um quadro clínico com causa identificável do lado de fora.

Quando a exposição é prolongada, repetida e dentro de uma relação da qual é difícil sair, o quadro que se organiza pode ser o TEPT-C, descrito com desregulação emocional, autoconceito negativo e dificuldade persistente nos relacionamentos, somados aos sintomas clássicos de estresse pós-traumático [5]. Isso muda o tratamento e muda o prognóstico, e por isso o nome importa.

O eixo do estresse e a inflamação

Aqui entra a parte que costuma surpreender a paciente. O estudo que acompanhou gestantes ao longo do período perinatal encontrou associação entre exposição à violência por parceiro ao longo da vida e níveis mais altos de citocinas pró-inflamatórias [6]. Não é uma medida subjetiva de sofrimento, é marcador biológico.

Esse achado conversa com uma linha de pesquisa mais ampla. Estudos sobre estresse psicossocial na gravidez mostraram aumento de marcadores inflamatórios e alteração na produção de citocinas ao longo da gestação [7], e trabalhos anteriores do mesmo grupo já descreviam que o estresse pré-natal altera níveis de citocinas de um modo que pode comprometer a gestação [8]. Em outras palavras, existe um caminho biológico plausível ligando o que se vive em casa ao que acontece no corpo grávido, e ele passa por inflamação e por regulação do estresse.

A revisão sobre estresse pré-natal e neurodesenvolvimento acrescenta a peça que fecha o mecanismo: a placenta funciona como mediadora, regulando o quanto do estresse materno chega ao feto [9]. Isso é importante por dois motivos opostos. Mostra que existe transmissão biológica real, e mostra que existe uma barreira ativa, não um cano aberto.

O que a cena em casa produz na gestante, e por qual caminho
O que ela relata Mecanismo descrito O que isso exige da conduta
Tristeza que não passa, choro, sensação de não dar conta Depressão perinatal com associação forte à violência do parceiro [4] Rastrear e tratar como quadro clínico, sem atribuir a hormônio da gravidez
Sobressalto, vigilância constante, revisão mental das falas dele Sintomas pós-traumáticos e, na exposição prolongada, TEPT-C [4][5] Avaliação específica, porque o tratamento difere do de ansiedade comum
Infecções repetidas, mal-estar, sensação física de esgotamento Elevação de citocinas pró-inflamatórias associada à exposição [6][7][8] Levar a queixa a sério em vez de tratar como somatização inespecífica
“Ele nunca me bateu, então não é violência” Subtipo psicológico com efeito próprio e consistente sobre saúde mental [3] Nomear o que acontece sem exigir agressão física como critério de entrada
Falta às consultas, chega sempre acompanhada, não fala sozinha Controle coercitivo restringindo acesso a cuidado e a informação [2] Criar um momento de consulta a sós, que é pré-requisito de qualquer rastreio

O que a evidência mostra sobre o bebê

Esta é a parte que a paciente mais quer e mais teme ler, e é onde a divulgação erra com mais frequência, para os dois lados. Vou separar o que está bem estabelecido do que é exagero.

Neurodesenvolvimento: real, e menos determinista do que se diz

A revisão sobre estresse materno pré-natal e efeitos de longo prazo no neurodesenvolvimento infantil descreve associação com desfechos cognitivos e comportamentais na criança, discutindo com honestidade as limitações metodológicas de separar o pré-natal do pós-natal [10]. E o estudo de coorte que testou a hipótese de programação encontrou associação entre ansiedade materna na gestação e problemas comportamentais e emocionais na criança, mantida após ajuste para fatores do pós-parto [11].

Isso significa que o ambiente da gestação conta. Não significa que uma gravidez estressada produza uma criança com problema garantido. As associações relatadas são de magnitude moderada no plano populacional, e a maioria das crianças nessas amostras não desenvolve o desfecho estudado.

Prematuridade e baixo peso: o achado mais consistente

Aqui a literatura é razoavelmente convergente. A revisão sistemática com meta-análise sobre exposição materna à violência doméstica e desfechos de gravidez e parto encontrou associação com baixo peso ao nascer e parto prematuro [12]. Outra meta-análise, publicada em revista de obstetrícia e ginecologia, chegou a conclusões na mesma direção para desfechos adversos no bebê [13], e uma terceira revisão com meta-análise reforçou o achado para desfechos selecionados de nascimento [14]. Estudo com mulheres de baixa renda descreveu associação entre violência por parceiro na gestação e desfechos neonatais adversos [15].

Um dos trabalhos citados na peça do Instagram merece um comentário específico, porque a legenda não dá o contexto. A coorte prospectiva com 1.112 gestantes que encontrou associação com prematuridade e baixo peso foi conduzida na Tanzânia [16]. O achado é válido e bem feito, mas o cenário obstétrico e social é bastante diferente do brasileiro, e transportar o tamanho do efeito de lá para cá sem ressalva seria um erro. O que se transporta com segurança é a direção do efeito, não a magnitude.

Para leitores que preferem dado de vigilância populacional, uma publicação de 2024 do sistema de monitoramento de risco na gravidez dos Estados Unidos, com dados de nove estados, relatou associação entre violência por parceiro e desfechos adversos de gravidez e de saúde infantil [17]. É um retrato de base populacional, com as limitações próprias de dado autorrelatado.

O que não se sustenta, e que circula assustando gestante

Três afirmações aparecem com frequência em conteúdo sobre o tema e não resistem à leitura das fontes.

A primeira é que o estresse da mãe “marca” o bebê de forma definitiva. A literatura de programação pré-natal descreve associações probabilísticas e discute abertamente a dificuldade de separar o efeito da gestação do efeito do ambiente depois do nascimento [10][11]. A placenta, além disso, funciona como reguladora do que chega ao feto, e não como transmissor passivo [9]. Ambiente pré-natal importa, e não determina.

A segunda é o inverso, e é igualmente falsa: a de que enquanto não houver agressão física o bebê está protegido. A violência psicológica tem efeito próprio documentado sobre a saúde mental materna [3], e a depressão e o estresse pós-traumático perinatais estão associados ao quadro [4]. O caminho biológico descrito passa por estresse e inflamação, não por trauma direto no abdome [6][7][8].

A terceira é a ideia de que a gravidez acalma o agressor. Não há base para isso, e existe um dado que aponta na direção oposta e precisa ser dito com responsabilidade: o levantamento nacional norte-americano sobre homicídio durante a gravidez e no pós-parto mostrou que essa é uma causa relevante de morte nesse período, com taxas superiores às de várias causas obstétricas tradicionais [18]. Não trago esse dado para assustar. Trago porque ele é a razão pela qual avaliação de segurança vem antes de qualquer plano de conversa ou de terapia de casal, e porque terapia de casal não é conduta indicada quando há violência.

Comparação: o que está estabelecido, o que é incerto e o que é falso
Bem estabelecido Incerto ou em discussão Sem sustentação
Efeito sobre a mãe Depressão, ansiedade e sintomas pós-traumáticos no período perinatal [4]; efeito da violência psicológica isolada [3] Peso relativo de cada forma de violência sobre cada desfecho Que seja “coisa da gravidez” ou oscilação hormonal esperada
Efeito sobre o bebê Associação com prematuridade e baixo peso ao nascer em várias meta-análises [12][13][14][15] Tamanho do efeito fora do cenário estudado, como na coorte tanzaniana [16] Marca definitiva e irreversível no bebê por causa do estresse materno [9][10]
Caminho biológico Elevação de marcadores inflamatórios e alteração de citocinas na gestação [6][7][8] Quanto de cada desfecho obstétrico é explicado por essa via Que só a agressão física atinja a gestação
O que fazer Rastreio no pré-natal com encaminhamento, com benefício líquido moderado [19] Qual formato de intervenção rende mais em cada contexto Terapia de casal como conduta diante de violência

Segurança primeiro, e por que essa ordem não é detalhe

Antes de qualquer plano de longo prazo, existe uma pergunta que precisa ser respondida: você está segura hoje. Sinais que exigem avaliação imediata incluem ameaça de morte a você, ao bebê ou a alguém da família, estrangulamento em qualquer episódio anterior, presença de arma em casa, ciúme com perseguição, escalada de frequência ou de gravidade, e violência que começou ou piorou justamente depois que a gravidez foi anunciada.

Sair de uma relação abusiva é o momento de maior risco, e por isso a saída se planeja, não se improvisa. Isso significa rede acionada, documentos e cartão do pré-natal em local acessível, alguém informado, e orientação jurídica. Um artigo não substitui esse plano, e não vou fingir que substitui. Se você está em perigo imediato, o caminho é o serviço de emergência e a delegacia, não a leitura.

Este tema também está no Instagram do Dr. Anderson Contaifer, em formato visual:

O que já se mostrou capaz de mudar o desfecho

Existe intervenção com evidência, e ela não depende de o agressor mudar.

Rastreio no pré-natal

A recomendação da força-tarefa norte-americana de serviços preventivos orienta rastrear violência por parceiro em mulheres em idade reprodutiva e encaminhar as que tiverem rastreio positivo para serviços de apoio, classificando a conduta com benefício líquido moderado [19]. A gestação é um dos poucos períodos da vida adulta em que a mulher tem contato regular e frequente com o sistema de saúde, o que torna o pré-natal uma janela rara.

Vale a honestidade sobre o limite disso. O ensaio clínico randomizado que testou rastreio somado a aconselhamento na atenção primária encontrou resultados modestos sobre desfechos de violência em si, ainda que com efeito em saúde mental [20]. Rastrear é necessário e não é suficiente, e o que faz diferença é o que vem depois do rastreio.

Intervenções estruturadas durante a gestação

O ensaio clínico randomizado com gestantes que testou uma intervenção integrada de aconselhamento durante o pré-natal encontrou redução de episódios de violência recorrente e melhora em desfechos de gestação no grupo que recebeu a intervenção [21]. É um dos achados mais importantes da área justamente porque foi conduzido no período em que a mulher já está no serviço.

A revisão sistemática da Cochrane sobre intervenções para prevenir ou reduzir violência doméstica contra gestantes é mais cautelosa, apontando que o conjunto de estudos disponíveis é pequeno e heterogêneo e que a certeza da evidência é limitada [22]. Registro os dois lados porque prometer resultado garantido seria repetir o erro que este artigo critica.

Na ponta da visitação domiciliar, o ensaio randomizado de longo prazo com enfermeiras visitando mães em vulnerabilidade encontrou menos casos verificados de maus-tratos e negligência infantil ao longo de quinze anos de seguimento [23]. É a evidência mais robusta de que cuidado estruturado no começo da vida muda trajetória.

Intervenções: para quem, o que foi medido, qual a ressalva
Intervenção Desfecho relatado Ressalva honesta
Rastreio no pré-natal com encaminhamento Recomendado, com benefício líquido moderado [19] Rastrear sem rede de encaminhamento rende pouco [20]
Aconselhamento integrado durante a gestação Redução de violência recorrente e melhora de desfechos gestacionais em ensaio randomizado [21] Depende de a paciente conseguir comparecer sozinha
Conjunto das intervenções específicas para gestantes Sinal favorável na revisão sistemática [22] Poucos estudos, muito heterogêneos, certeza limitada
Visitação domiciliar por enfermeiras Menos maus-tratos e negligência em quinze anos de seguimento [23] Exige programa estruturado, não é visita informal
Tratamento do quadro mental materno Alvo direto do sofrimento documentado no período [4][5] Não substitui a avaliação de segurança nem a resolve

O que fazer daqui até o parto

Uma sequência concreta, pensada para quem está grávida e ainda dentro da relação.

Garanta uma consulta a sós. Se ele entra em todas as consultas e responde por você, isso por si só é informação clínica. Peça, em algum momento do exame, um instante sozinha com a equipe. É a porta de entrada de tudo o mais, e profissionais treinados sabem criar essa janela.

Diga o que está acontecendo, com as palavras que você tiver. Não é preciso usar a palavra violência nem ter certeza da classificação. Descrever a cena basta: ele controla meu dinheiro, ele decide se eu saio, ele grita comigo quando eu contrario, ele me acusa de coisas que eu não fiz.

Trate o seu quadro. Depressão e sintomas pós-traumáticos no período perinatal são tratáveis, e tratar não é adiar a decisão sobre a relação. É recuperar a capacidade de decidir.

Amplie a rede em torno da criança desde já. Uma avó, uma irmã, uma vizinha, alguém do posto. Quando o bebê nascer, esse é o mesmo fator que a literatura de proteção infantil aponta como o mais determinante.

Não conte com a mudança dele como plano. Planejar a própria segurança não é desistir da relação, é parar de terceirizar o desfecho.

Se você já saiu e está lidando com a fase seguinte, o material sobre recuperação depois do abuso narcisista descreve o que costuma acontecer nas primeiras semanas. Se o que pesa agora é o medo pelo futuro da criança, o texto sobre transmissão intergeracional do trauma trata do que vem depois do nascimento, que é assunto diferente deste: lá o foco é aprendizagem, apego e ambiente ao longo da infância, aqui é o que acontece durante a gestação. E se a dúvida ainda é sobre o próprio quadro, vale conhecer o panorama do abuso narcisista e os critérios do TEPT-C. Se a disputa envolver o uso da criança contra você, veja também o que a lei prevê sobre alienação parental.

O que agrava e o que protege, ainda dentro da gestação
Agrava Protege
Ele entrar em todas as consultas e responder por você Garantir um momento a sós com a equipe, que é a porta de entrada do rastreio [19]
Adiar o cuidado do próprio quadro esperando a relação melhorar Tratar depressão e sintomas pós-traumáticos como quadro clínico próprio [4][5]
Isolamento progressivo de família, amigos e trabalho Ampliar a rede de adultos de confiança antes do parto
Contar com a mudança dele como estratégia de segurança Plano de segurança orientado, com rede e apoio jurídico [18]
Aceitar terapia de casal como solução para a violência Acompanhamento individual e intervenção estruturada no pré-natal [21]
Supor que o risco acaba quando o bebê nascer Estender o plano ao pós-parto, com apoio estruturado de seguimento [23]

Quando procurar avaliação com urgência

Procure atendimento imediato diante de sangramento, dor abdominal intensa, redução de movimentação fetal, contrações antes do tempo, ou qualquer trauma físico, mesmo que pareça leve e mesmo que ele diga que foi sem querer. Trauma abdominal na gravidez é avaliação de urgência, sem exceção.

Procure avaliação em saúde mental diante de tristeza persistente, ansiedade que atrapalha o dia, sono destruído, sensação de estar falhando o tempo todo, e principalmente diante de qualquer pensamento de se machucar ou de que seria melhor não estar aqui. Esse último item não é sinal de fraqueza nem de má mãe: é sintoma, é frequente no período perinatal e tem tratamento.

E procure orientação de segurança, com a rede de proteção e com apoio jurídico, diante dos sinais de risco listados antes. A avaliação de risco não é um julgamento sobre a sua relação, é um procedimento.

Perguntas frequentes

A briga em casa pode fazer eu perder o bebê?
As meta-análises mostram associação da violência do parceiro na gestação com prematuridade e baixo peso ao nascer [12][13][14]. Essa associação é consistente entre estudos e, no plano individual, é um aumento de risco, não uma previsão do que vai acontecer com você. Qualquer sintoma agudo, como sangramento ou dor, é avaliação imediata, independentemente da causa.

Ele nunca encostou a mão em mim. Isso conta?
Conta. A violência psicológica tem efeito próprio e documentado sobre saúde mental [3], e o caminho biológico descrito para a gestação passa por estresse e inflamação [6][7][8], não por trauma físico direto. Não é preciso ter apanhado para o quadro existir e para ter direito a cuidado.

O estresse que eu passei já prejudicou o bebê para sempre?
Não é assim que a literatura descreve. As associações entre estresse pré-natal e neurodesenvolvimento são probabilísticas e discutidas com ressalvas metodológicas [10][11], e a placenta atua como reguladora do que chega ao feto [9]. Ambiente pré-natal conta, e não sela nada.

A gravidez costuma acalmar o agressor?
Não há base para essa expectativa, e existe dado que aponta na direção contrária, incluindo o levantamento sobre homicídio na gravidez e no pós-parto [18]. É justamente por isso que a avaliação de segurança vem antes de qualquer plano.

Devo propor terapia de casal?
Não, quando há violência. Terapia de casal pressupõe simetria entre as partes e um espaço seguro para dizer a verdade, e nenhuma das duas condições existe numa relação com agressão ou controle coercitivo. O caminho é avaliação individual e plano de segurança.

Se eu contar no pré-natal, posso perder a guarda?
Esse medo é comum e compreensível, e é um dos principais motivos de silêncio. O objetivo do rastreio recomendado é encaminhar para apoio, não punir a gestante [19]. Se essa preocupação estiver pesando na sua decisão, ela própria merece ser dita à equipe e orientada juridicamente.

Contar para a equipe do pré-natal resolve?
Ajuda, e sozinho costuma não bastar. O ensaio sobre rastreio somado a aconselhamento na atenção primária mostrou efeito modesto sobre a violência em si [20], enquanto a intervenção estruturada durante a gestação mostrou redução de episódios recorrentes [21]. O que muda o desfecho é o encaminhamento que vem depois do rastreio.

Existe algum tratamento com evidência para a minha situação?
Existe, com ressalvas. Intervenções de aconselhamento durante a gestação têm ensaio clínico favorável [21], a revisão sistemática da área é cautelosa por causa do número pequeno de estudos [22], e visitação domiciliar estruturada mostrou efeito de longo prazo sobre maus-tratos infantis [23]. Além disso, o seu quadro mental tem tratamento próprio [4][5].

Depois que o bebê nascer, o risco passa?
Não automaticamente. O período pós-parto continua sendo de risco elevado, e é nele que se somam privação de sono, isolamento e dependência financeira. O planejamento de segurança precisa cobrir também os meses seguintes ao parto.

Meu histórico de infância piora meu risco agora?
Experiências adversas na infância se associam, em gradiente, a desfechos negativos de saúde na vida adulta [24], e ter crescido em ambiente violento pode tornar mais difícil reconhecer o que hoje está acontecendo. Isso é informação para orientar o cuidado, não veredito sobre você.

Eu me sinto culpada por não conseguir sair. Isso é normal?
É extremamente comum, e não descreve fraqueza. Sair é o momento de maior risco, e a permanência costuma ter razões concretas: segurança, dinheiro, moradia, filhos, medo de perder a guarda. Reconhecer essas razões é o começo de um plano, e não uma desculpa.

Conteúdo educativo, não substitui consulta médica. Em situação de risco imediato, procure atendimento de emergência. Dr. Anderson Contaifer, CRM-SC 24.484, RQE 18.790, Clínica Médica.

Referências científicas

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  21. Kiely M, El-Mohandes AAE, El-Khorazaty MN, Gantz MG. An Integrated Intervention to Reduce Intimate Partner Violence in Pregnancy: A Randomized Controlled Trial. Obstetrics & Gynecology. 2010. DOI: 10.1097/aog.0b013e3181cbd482
  22. Jahanfar S, Howard LM, Medley N. Interventions for Preventing or Reducing Domestic Violence Against Pregnant Women. Cochrane Database of Systematic Reviews. 2014. DOI: 10.1002/14651858.cd009414.pub3
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  24. Felitti VJ, Anda RF, Nordenberg D, et al. Relationship of Childhood Abuse and Household Dysfunction to Many of the Leading Causes of Death in Adults. American Journal of Preventive Medicine. 1998. DOI: 10.1016/s0749-3797(98)00017-8

Sobre o autor

Dr. Anderson Contaifer de Carvalho é médico especialista em Clínica Médica (CRM-SC 24.484 | RQE 18.790), formado pela EMESCAM em 2012, com título de especialista em clínica médica pela SBCM em 2019. Possui pós-graduação em Saúde da Família, Nutrologia e Medicina Intensiva, além de certificações ACLS e ATLS. É o criador do Quebrando as Algemas, programa dedicado à recuperação de vítimas de abuso narcisista, médico com atuação nas repercussões clínicas e emocionais de relacionamentos abusivos. Certificado Excelência Doctoralia 2025.

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